sábado, 19 de janeiro de 2013

OS BONS PROSPERAM; OS MAUS TAMBÉM — A PROSPERIDADE NO ANTIGO TESTAMENTO

Capítulo - 1 OS BONS PROSPERAM; OS MAUS TAMBÉM — A PROSPERIDADE NO ANTIGO TESTAMENTO

Um problema hermenêutico 
Leonildo Campos (1997, p. 368) observa que os ensinos atuais sobre a prosperidade se baseiam quase que exclusivamente em passagens do Antigo Testamento. Ele fez a importante consta­tação que um famoso pregador da teologia da prosperidade citou: "38 trechos das escrituras judaicas contra apenas dois das escrituras cristãs, o que equivale a um índice de apenas 5% de citações de um, contra 95% do outro". 

Não podemos negar que o Antigo Testamento põe em relevo a prosperidade do povo de Deus. De fato, o hebraico possui mais de duas dúzias de vocábulos que são traduzidos respectivamente como prosperidade, riquezas ou bens. O mais frequente desses termos é tsalach, que mantém o sentido de viver em prosperidade (Gn 39.2; Js 1.8; SI 1.3). Todavia, essa verdade tem sido usada de uma forma des­virtuada pelos pregadores da prosperidade hodiernos. Esses fatos nos revelam a necessidade de fazermos uma reflexão mais aprofundada sobre esse assunto. Primeiramente devemos nos conscientizar de que um estudo sério sobre a prosperidade bíblica não pode ignorar a te­ologia veterotestamentária sobre esse assunto. Em segundo lugar, e a meu ver muito mais importante, é que isso serve para nos alertar que alguma coisa está errada quando se verifica que somente o Antigo Testamento, com poucas exceções, serve de fundamentação para esse importante ensino. 

Isso nos leva à constatação de que o problema com a doutrina da prosperidade pregada hoje em dia, e que em muito tem se afastado daquilo que o cristianismo ortodoxo tem ensinado, é de natureza hermenêutica. O velho princípio alegórico de interpretação, usa­do pela escola de Alexandria em tempos passados, foi ressuscita­do modernamente por muitos mestres da fé.[1] Essa antiga escola de interpretação tinha como princípio espiritualizar ou alegorizar as Escrituras. Convém dizer que essa forma de interpretar a Bíblia, isto é, atribuindo-lhe um sentido alegórico ou espiritualizado e não o seu real sentido literal, está muito em voga hoje em dia entre as igrejas neopentecostais. Todavia, convém destacar que esse princípio de interpretação foi rejeitado ainda nos dias dos reformadores pro­testantes do século XVI. Mas no que consiste esse princípio? Aldair Dutra de Assis (1997, p. 30,31) descreve esse método de interpreta­ção como sendo 

a atualização ou transposição das experiências religiosas de persona­gens bíblicos para os dias atuais. A Bíblia é vista como um livro de experiências religiosas, que começa com Israel, no Antigo Testamen­to, e termina com a humanidade, em Apocalipse, experiências essas que podem ser repetidas nos mesmo moldes, nos dias atuais. Assim, a repetição ou reencenaçáo de episódios e eventos bíblicos é utilizada como ferramenta hermenêutica, que lhes permite usar a Bíblia como base de sua prática. Nesta tentativa de repetir os episódios bíblicos, existe uma grande dose de alegorização dos textos bíblicos e total des­respeito pelo contexto histórico dos mesmos, bem como a falta de distinção entre o que é descritivo na Bíblia e o que é normativo para as experiências dos cristãos. 

Não é possível ter uma radiografia correta da prosperidade bíblica tomando por base apenas textos do Antigo Testamento e ignorando aquilo que o Novo Testamento diz sobre esse assunto. Somente inter­pretando o Antigo Testamento à luz do Novo é possível termos um estudo equilibrado sobre a prosperidade bíblica. Quando se faz uma exegese apenas de uma via, isto é, tomando-se por base apenas o Antigo Testamento e negligenciando-se o Novo, atribui-se um sentido total­mente estranho àquilo que as Escrituras definem como sendo um viver próspero. Em outras palavras, prosperar tem mantido o sentido em nos­sa cultura apenas como sendo o acúmulo de posse, bens ou de alguém que possui saúde perfeita. Mas uma exegese de mão dupla, isto é, aquela que leva em conta o que dizem os dois Testamentos, nos revelará que a prosperidade na Antiga Aliança se baseia fundamentalmente sobre um correto relacionamento com o Senhor, e não apenas com a possessão de riquezas. 

Ricos e pobres no Antigo Testamento 
O contraste entre ricos e pobres no Antigo Testamento é de fá­cil percepção. De um lado temos, por exemplo, um Boaz, homem de Deus, "senhor de muitos bens" (Rt 2.1) e por outro temos uma Rute, a moabita, também mulher de Deus, que ia atrás de Boaz para "apanhar espigas" para seu sustento (Rt 2.2). De acordo com a Lei de Moisés, somente aos pobres, muito pobres, era dado o direito de co­lher as espigas que iam caindo atrás dos segadores (Lv 19.9,10; 23.22; Dt 24.19). Nessa época Rute era uma jovem moabita, pobre e viúva de um israelita, filho de Noemi, que havia morrido. Após a morte dos filhos de Noemi, inclusive o marido de Rute, esta resolve juntamente com a sogra regressar para a terra de Israel em busca da sobrevivência. É em Belém que Rute conhece Boaz, um parente de seu marido já falecido, e pelas leis da época ele preenchia os requisitos de casar com Rute e dessa forma ser o seu goel, isto é, o seu resgatador. Merril C. Tenney (1982, p. 17) observa que "muitas vezes o clã designava um homem, chamado goel, para oferecer ajuda aos membros necessitados. Em português, esta pessoa é mencionada como resgatador. Sua ajuda cobria muitas áreas de necessidade".[2]

Essa observação sobre a vida de Rute, a moabita, é emblemática primeiramente porque nos revela que no mundo antigo, ao contrário do ensino dos mestres da fé que nos passam a ideia de que no Antigo Testamento o povo estava pisando em ouro, já havia um contraste enor­me entre pobreza e riqueza. Em segundo lugar, ela nos ajuda a construir uma compreensão correta daquilo que o Antigo Testamento considera como vida próspera e, dessa forma, corrigir as ideias equivocadas que os pregadores da prosperidade conseguiram inserir na cultura evangélica contemporânea. 

Outros fatos narrados nas Escrituras veterotestamentárias permitem-nos construir um conceito correto sobre o significado do que seja a prosperidade material. Em outras palavras, eles nos ajudam a formar um correto juízo de valor sobre os conceitos de riqueza e pobreza e, dessa forma, corrigir as ideias mais comuns, porém equivocadas, sobre a natureza de ambas. A primeira dessas ideias associava a riqueza como uma dádiva de Deus a alguém merecedor, e a pobreza como uma marca do julgamento divino. Uma segunda associava a riqueza à maldade e a pobreza com piedade. Essa forma de pensar está presente também no mundo do Novo Testamento. Todavia, as causas para a pobreza não podem ser vistas de forma tão simples assim. De fato, o historiador William L. Coleman (1991, p. 165) mostra que um estudo criterioso sobre a pobreza no mun­do bíblico deve levar em conta alguns fatores determinantes. Com acerto, ele diz: 

Eram vários os principais fatores que contribuíam para a existência de um grande número de pobres em Israel. E claro que havia muitas variáveis. Mas para entendermos bem o quadro geral, precisamos considerar alguns dos obstáculos com que eles se defrontavam. 

1. Impostos. O sistema de impostos constituía um grande peso para muitas famílias, para os pequenos agricultores e negociantes. Durante toda a história da nação, os governos impuseram pesadas taxas ao povo em geral, com o objetivo de realizar seus projetos de construção ou co­brir os custos de suas operações militares. E foi justamente o excesso de impostos baixados pelo rei Salomão que ocasionou a divisão do reino. 

2. Desemprego. Nas áreas rurais, a presença de escravos não afetava muito a economia, mas nas cidades sim, pois gerava forte desequilíbrio no mercado de empregos. Como o preço dos escravos era muito baixo, os ricos chegavam a ter um servo simplesmente para conduzir o seu cavalo. Por isso, o homem livre tinha que aprender um ofício, se quisesse conse­guir um bom salário. 

3. A morte do chefe da família. A perda do chefe da casa, que podia ser causada por enfermidade, acidente ou guerra, quase sempre deixava a família na pobreza, principalmente se os filhos fossem pequenos. 

4. Seca e fome. Às vezes a própria natureza destruía rapidamente toda a colheita de uma temporada. A seca, o excesso de pragas, ou chuva em demasia fora de época, bem como outras calamidades natu­rais, acabavam com todo o sustendo de uma família de uma hora para outra (SI 32.4). 

5. Agiotagem. Pela lei, era proibido cobrar juros de empréstimos feitos a pobres (Ex 22.25). Mas apesar dessa recomendação divina, muitos credores tinham atitudes impiedosas, cobrando juros exor­bitantes e empregando métodos cruéis para receber o pagamento da dívida. Isso sempre foi um problema grave para os israelitas, durante toda a sua história, e vários escritores bíblicos denunciaram esses excessos. 

Fica, portanto, bastante evidente que a pobreza não era um sinal de maldição ou pecado pessoal assim como a riqueza não o era de bênção. No Antigo Testamento, ninguém era amaldiçoado por ser pobre ou es­tar em pecado nem tampouco abençoado somente por ser rico. O que fica claro nas Escrituras da Antiga Aliança é que tanto o pobre como o rico dependem do favor do Senhor. Na verdade a Escritura afirma que o Senhor tanto enriquece como faz empobrecer (1 Sm 2.7). A Escritura que diz: "para que entre ti não haja pobre" (Dt 15.4) é a mesma que afirma: "Pois nunca cessará o pobre do meio da terra" (Dt 15.11). Essas Escrituras e dezenas de outras, com seus aparentes paradoxos, mostram primeiramente que os mais abastados dentre o povo de Deus devem se importar com os menos favorecidos dentre seus irmãos. A prosperidade é legitimada através da solidariedade. Steven K. Scott (2008, p. 88, 89) destaca que 

os psicólogos dizem que as duas maiores motivações da vida são o desejo de ganhar e o medo de perder. Salomão (Pv 11.24,25) nos garante que a generosidade age diretamente sobre os dois. Se você pudesse ter uma varinha de condão que garantisse suas necessidades materiais para toda a vida e uma prosperidade cada vez maior, quanto ela valeria? Salomão coloca essa varinha nas suas mãos: tudo o que você precisa fazer é se tornar uma pessoa generosa. O que Salomao quer dizer quando fala de generosidade? Ele diz que generoso é aquele que dá uma parte do que tem para suprir as necessidades do próximo, e que o faz sem esperar receber nada em troca. Embora ele fale do aspecto financeiro e material, a generosidade não se limita a isso. Ser generoso significa estar voltado para as necessidades dos outros, sejam elas quais forem.[3]

A prosperidade no contexto do Antigo Testamento 
No Antigo Testamento, portanto, a ideia de prosperidade vai muito além daquela que é a do simples acúmulo de bens materiais e bem-estar físico. Na verdade a compreensão que se tem no An­tigo Pacto é que a prosperidade é, em primeiro lugar, espiritual e em segundo lugar, material. Nabal, por exemplo, era um "homem muito poderoso", possuidor de muitos bens (1 Sm 25.2), e foi até mesmo reconhecido por Davi como um "próspero" (1 Sm 25.6), porém era um "homem duro e maligno". Um filho de Belial (1 Sm 25.3; 25.25). Possuía muitos bens materiais, mas nenhum valor mo­ral e espiritual. O salmista também verificou que os ímpios também "prosperam" (SI 73). Isso nos faz constatar que há outros valores que o Antigo Testamento revela que, embora não sendo materiais, são tidos como grandes riquezas, verdadeiros tesouros. Salomão sabia que é "a bênção do Senhor é que enriquece" (Pv 10.22). Dentre as várias coisas que a Antiga Aliança mostra como sendo de maior valor do que bens materiais estão, por exemplo, o conhecimento (Pv 3.13; 20.15), a integridade (SI 7.8; 78.72), a justiça (SI 15.2; Pv 8.18; 14.34), o entendimento (Pv 15.32; 19.8), a humildade e a paz (Pv 15.33; 18.12; 12.20). Por outro lado, uma compreensão correta sobre a prosperidade no Antigo Testamento além de levar em contra primeiramente os valo­res espirituais, também fornece uma compreensão correta dos valores materiais e bem-estar físico. Na verdade, o Antigo Testamento destaca uma variedade de doenças que afligiam o povo. São doenças que vão desde uma inflamação na pele até mesmo tumores com diagnósticos fatais (Jó 2.7; Is 38.21). A medicina nos tempos antigos possuía limi­tações enormes e os médicos dos tempos bíblicos quase que se restrin­giam a tratar dos ferimentos exteriores. Hans Walter Wolff (2008, p. 226) escreve: 

Que possibilidades humanas de cura para as doenças o Antigo Tes­tamento apresenta? Até onde podemos ver, elas se restringem, essen­cialmente, a ferimentos. O rofé é exclusivamente o entendido em curar como médicos de feridos. A raiz gramatical empregada agora na maioria das vezes no sentido de "curar", significa originalmente remendar, cos­turar uma coisa a outra, unir. As feridas são "espremidas", põe-se azeite ou bálsamo nelas, depois são pensadas (Is 1.6; Jr 8.22). Um braço fratu­rado também é encanado (Ez 30.21; 34.4). Logo, o hobesh, do mesmo modo que o rofé, é o médico de ferimentos (Is 3.7; Os 6.1). Em geral, o entendimento em curar visa restituir as forças ao enfraquecido pela doença. 

Nesse contexto de limitações da medicina, a Escritura apresenta Deus como o médico de Israel (Ex 15.26). E interessante observarmos que nessa mesma passagem do livro de Êxodo onde Deus é apresenta­do como aquEle que sara, Ele também aparece como aquEle que fere: "... nenhuma das enfermidades porei sobre ti, que pus sobre o Egito; porque eu sou o Senhor que te sara" (Ex 15.26). O Deus da Bíblia é po­deroso para curar, mas também é soberano para permitir a doença! (Dt 7.15; Jó 5.18). Essa visão teológica do Antigo Testamento revela que sobre todas as coisas está a soberania de Deus. Até mesmo o sofrimento pode atender aos seus propósitos! (SI 119.67). 

O suor do rosto 
Guarda-te para que te não esqueças do Senhor, teu Deus, não guar­dando os seus mandamentos, e os seus juízos, e os seus estatutos, que hoje te ordeno; para que, porventura, havendo tu comido, e estando farto, e havendo edificado boas casas, e habitando-as, e se tiverem au­mentado as tuas vacas e as tuas ovelhas, e se acrescentar a prata e o ouro, e se multiplicar tudo quanto tens, se não eleve o teu coração, e te esqueças do Senhor, teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão; que te guiou por aquele grande e terrível deserto de serpentes ardentes, e de escorpiões, e de secura, em que não havia água; e tirou água para ti da rocha do seixal; que no deserto te sustentou com maná, que teus pais não conheceram; para te humilhar, e para te provar, e para, no teu fim, te fazer bem; e não digas no teu coração: A minha força e a fortaleza de meu braço me adquiriram este poder. Antes, te lembrarás do Senhor, teu Deus, que ele é o que te dá força para adquirires poder; para confirmar o seu concerto, que jurou a teus pais, como se vê neste dia. (Dt 8.11-18). 

A prosperidade no Antigo Testamento está intimamente re­lacionada com o trabalho.[4] A ideia de prosperar e enriquecer por outros meios que não seja o trabalho é completamente estranha à Escritura. Ainda no paraíso, coube como tarefa ao primeiro ho­mem cuidar do jardim, vigiando-o e lavrando-o (Gn 2.15). A teo­logia do Antigo Testamento refuta a prática que transforma Deus em uma espécie de gênio da lâmpada. O Deus do Antigo Concerto faz prosperar, mas Ele o faz através do trabalho. O livro de Deuteronômio diz que o Senhor "é o que te dá força para adquirires poder" (Dt 8.18). A palavra hebraica koach traduzida como "força" nessa passagem significa vigor e força humana. A referência é cla­ramente ao esforço humano como resultado do seu trabalho. Por outro lado, a palavra "poder", traduzida do hebraico chayil, nessa mesma passagem mantém a ideia de eficiência, fartura e riqueza. A ideia aqui é que prosperidade e trabalho são como as duas faces de uma mesma moeda. Onde um está presente o outro também deve estar. 

Wolff (2008, p. 203) observa que 
a riqueza não é considerada como algo dado, mas como algo que pode se originar das mãos do ser humano responsável. Quanto às diferenças sociais de riqueza e pobreza, em todo caso, também devem ser observadas a laboriosidade e a desídia, a fim de não ignorar a verdadeira realidade do ser humano [...] até a liberdade e a servidão, a superioridade e a opressão também dependem da dedicação ao trabalho (Pv 13.4; 12.24). 

Esse fato é ampliado na literatura hebraica sapiencial que condena veementemente a indolência e a preguiça. Salomão, o homem mais sábio e um dos mais ricos do antigo Oriente, observa que "o desejo do pregui­çoso o mata, porque as suas mãos recusam-se a trabalhar" (Pv 21.25). Além de dignificar o homem, o trabalho o faz prosperar. Diante do Se­nhor ninguém será considerado "mais crente" por se ocupar somente de coisas espirituais e negligenciar as práticas materiais. Em muitos casos, aqueles que alegam "trabalhar somente para Jesus" na verdade estão dan­do trabalho para a igreja. Dizem que vivem da fé, mas na verdade vivem da boa fé dos outros. A esses, mais uma vez, Salomão aconselha: "Vai ter com a formiga, ó preguiçoso; olha para os seus caminhos e sê sábio" (Pv 6.6). Os homens mais espirituais da Bíblia viviam nos labores dos seus trabalhos. Steven K. Scott (2008, p. 20,21) destaca: 

Aqueles que trabalham com diligência dentro da sua especialidade al­cançarão o sucesso material necessário para satisfazer seus desejos. No livro dos Provérbios 28:19, Salomão escreve: "O homem que lavra a terra sacia-se de pão, mas o que segue os levianos sacia-se de pobreza". Aqui ele também adverte que, se você abandonar os esforços nas sua área para seguir os conselhos dos levianos, ou colocar-se sob sua influência, estará abandonando o caminho da sabedoria. Não se deixe enganar por pes­soas que parecem bem-sucedidas à primeira vista e oferecem "esquemas par enriquecer da noite para o dia", bons demais para serem verdadeiros [...] Salomão nos garante que aqueles que trabalham com diligência terão cada vez mais sucesso e riquezas, porem o dinheiro que vem fácil demais, sem verdadeiro esforço, quase sempre é perdido. "Fortuna apressada di­minui, quem ajunta pouco a pouco enriquece" (Pv 13.11). Por incrível que pareça, a maioria das pessoas que ganha na loteria perde tudo o que ganhou em relativamente pouco tempo. E até mesmo jogadores que têm a sorte de faturar alto acabam perdendo seus ganhos e se endividando. 

Um povo abençoado! 
Uma ideia fundamental para se compreender a prosperidade no An­tigo Testamento é a de que ela acontece como um resultado de um favor divino. A prosperidade é uma bênção de Deus ao homem (Pv 10.22). Até mesmo os incrédulos enriquecem em decorrência desse favor. Na teologia bíblica isso é definido como graça comum, um favor divino dado a todos os homens. É essa graça que faz a chuva vir sobre os bons e os maus. "Para que sejais filhos do Pai que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos" (Mt 5.45). Quando se negligencia esse importante princípio, é fácil transformar o trabalho em mero ativismo em vez de algo prazero­so. Reconhecer o Senhor como a fonte de toda prosperidade é a melhor forma de se proteger da ganância que tenazmente assedia quem possui riquezas (SI 127.1,2). Wolf (2007, p. 206), que prestou uma grande contribuição à antropologia bíblica, observa oportunamente que 

quem quer ver a realidade humana precisa aprender a contar com a in­tervenção de Javé. Sem isso, a pessoa não percebe que nem a aplicação humana ao trabalho já leva ao resultado e que a riqueza não é um valor evidente. Deve-se atentar ao sentido ambíguo dos fenômenos e das vicis­situdes. 

Wolff ainda comenta: 
A seguinte tese opõe-se categoricamente ao pensamento seguro de si, o qual julga por inferir do trabalho necessariamente o resultado (Pv 10.22): "Somente a bênção de Javé torna rico, o esforço próprio não acrescenta nada". A expectativa geral de que o trabalho traz ganho nunca se realiza concretamente sem a decisão da bênção de Javé. Também é Javé que está atuante na diferença entre a vontade do ser humano e a execução do tra­balho (Pv 16.11). 

O Sábado ou shabat, por exemplo, dentro desse contexto, signi­fica descansar ou parar de trabalhar. A ideia era lembrar aos israelitas que o Senhor, e não o mero trabalho humano, era a fonte de toda bênção. 

Os bons prosperam; os maus também — retribuição versus soberania divina 

O princípio bíblico para a retribuição divina pelos atos humanos é bem documentado nas páginas do Antigo Testamento. Os bons são premiados com o bem, e os maus são punidos por consequência de suas ações. Há uma lei de causa e efeito que permeia as ações do povo de Deus na Antiga Aliança. As Escrituras veterotestamentárias põem lado a lado o pecado e suas consequências. Se alguém faz o que é bom diante de Deus, então ele deve esperar o bem como reconhecimento ou recompensa por esse ato. Todavia, deve ficar claro que esse princípio se fundamenta na teologia de um correto relacionamento com Deus, e não numa mera relação de troca como se Deus pudesse ser comparado a uma máquina que está sempre pronta a distribuir recompensas para quem conseguiu dominar as técnicas de seu manuseio. Se perdermos de vista esse princípio, incorremos no erro do qual G. K. Chesterton nos advertiu: 

Uma vez que o povo tenha começado a crer que prosperidade é vista como recompensa para a retidão, o abismo seguinte é obvio. Se a prospe­ridade é vista como recompensa para a retidão, pode ser então considera­da como um indicador de integridade. Os homens não mais terão a árdua tarefa de transformar homens bons em prósperos. Em vez disso, adotarão uma tarefa mais simples: considerar homens prósperos com bons.[5]

Com Abraão vemos o princípio da retribuição acontecer, funda­mentado em um relacionamento correto com Deus. A Bíblia diz que o velho patriarca foi abençoado porque obedeceu à voz do Senhor (Gn 12.18). O mesmo acontece com os outros patriarcas, Isaque e Jacó (Gn 25.11; 30.43). No Pentateuco, essa lei da retribuição é bem conhecida do povo de Deus. Os capítulos 27 e 28 de Deuteronômio detalham inúmeras consequências para um eventual pecado da nação israelita. Na verdade, a retribuição é nominada como sendo bênçãos e maldições. A obediência seria a causa das bênçãos de prosperidade, enquanto as maldições seriam o efeito da desobediência. M. J. Evans (2009, p. 606) destaca que: 

Deuteronômio como um todo é uma espécie de constituição nacional para explicar a Israel o que significa, tanto como nação quanto como indivíduos, viver como povo de Deus. A ênfase principal dessa vida como povo de Deus é o relacionamento; eles pertencem a Deus e são escolhidos e abençoados por ele. Eles devem demonstrar um estilo de vida santifi­cado, observando a Lei, não por causa da própria Lei, mas porque Deus é santo, a Lei reflete algo de sua natureza, a qual eles devem demonstrar. Em outras palavras, a Lei é uma indicação de como a vida do povo em relacionamento com Deus pode e deve ser vivida. Viver em relaciona­mento com Deus expresso nesse estilo de vida santificada significa ser abençoado. Essa bênção não é retratada como recompensa por observar a Lei; reside na promessa de Deus e é uma consequência de ter um relacio­namento com Ele. 

Mas é, sobretudo, no período tribal que vemos esse princípio em toda a sua força (Jz 3.12; 4.1; 6.1; 10.6; 13.1). Para o autor de Juízes, livro que está inserido nesse contexto, o resultado para a punição dos israelitas era em razão de uma vida desobediente diante de Deus (Jz 21.25). Durante a monarquia, período que vemos a atuação enérgica dos profetas, os reis eram avaliados pelo bem ou pelo mal que haviam praticado diante do Senhor (1 Rs 15.11; 2 Rs 12.2; 2 Rs 16.2; 2 Cr 28.1). 

Por outro lado, as Escrituras do Antigo Testamento mostram que nem tudo aquilo que se relaciona à prosperidade pode ser explicado simplesmente através da lei de causa e efeito; do pecado e suas consequências. E evidente, como já vimos que a lei da retribuição é vista como um princípio básico, mas a teologia da Antiga Aliança deixa claro que a soberania de Deus deve ser levada em conta quando avaliamos as ações dos homens. Victor P. Hamilton (2007, p. 520), destaca com muita propriedade que 

o testemunho do Novo Testamento é fascinante. Jesus decerto ensinou a possibilidade de haver uma relação entre o caráter do individuo e seu desti­no. O que ele rejeitava era uma relação obrigatória entre caráter e circuns­tância. Temos, por exemplo, o caso do rapaz cego de nascença, cuja doença nada tinha a ver com pecado (Jo 9.3). Os dezoito esmagados pela torre de Siloé não eram notórios pecadores (Lc 13.1-5). Jesus ensinou que Deus envia chuva e sol tanto sobre crentes como sobre incrédulos (Mt 5.45).[6]

Há algumas Escrituras no Antigo Testamento que revelam que os justos sofrem e os maus prosperam (SI 73.1-28). Parece ilógico o profeta Eliseu, que curou a tantos, morrer doente dos pés (2 Rs 13.14). E paradoxal, mas é bíblico. O livro de Jó, por exemplo, de­talha a luta de um homem que à primeira vista reconhecia apenas o princípio da retribuição. Jó não entendia por que um homem obediente como ele (Jó 1.1) podia sofrer. E evidente que por trás do sofrimento de Jó está a soberania do Altíssimo que permite ser ele provado, mesmo a Escritura deixando claro que ele era um homem irrepreensível (Jó 1.1,2). Os amigos de Jó compartilham da visão tra­dicional de que se alguém sofre ou passa reveses na vida é porque algum pecado está por trás disso. O livro detalha uma série de acusa­ções por parte dos amigos de Jó, que estão mais do que convencidos que para todo efeito existe uma causa (Jó 4.8). Todavia, observando o livro no seu todo, constatamos que o seu real propósito não é fo­calizar o sofrimento humano, mas como Deus se relaciona com seus filhos. Nesse relacionamento até mesmo o sofrimento ou reveses po­dem fazer parte do seu plano soberano para nos abençoar ou fazer prosperar, e Jó reconhece isso (Jó 42.3). 

O comentarista bíblico A. Viberg (2009, p. 293), observa: "O propó­sito do livro de Jó não é tratar o problema do sofrimento, mas definir o cor­reto relacionamento entre seres humanos e Deus baseado em misericórdia divina e fé humana, que às vezes tem dúvidas, mas sempre confia".[7]

Fica, pois, estabelecido que a prosperidade no Antigo Testamento vem como resultado da bênção do Senhor sobre os empreendimentos do seu povo. Essa prosperidade não se fundamenta em méritos pessoais, mas é uma resposta à obediência que se constrói como resultado de um relacionamento correto com Deus. A prosperidade, portanto, não é me­ramente circunstancial, nem tampouco pode ser entendida apenas como uma lei de causa e efeito, mas deve levar em conta a soberania de Deus. 

[1] Paulo Anglada observa que "Clemente de Alexandria (150-215 d.C.) e Orígenes (185-254 d.C.) são dois representantes máximos desta escola de Alexandria no Egito. Eles foram influenciados tanto pelo platonismo como pelo alegorismo judaico para explicarem textos das Escrituras. O alegorismo judaico é uma herança de Filo de Alexandria (20 a.C.-50 d.C.). Filo tencionava tornar o judaísmo compreensível para os gregos, argumentava que a Escritura possuía dois níveis de significados: um literal e outro subjacente, discernido somente por meio da interpretação alegórica. Ele interpretava a figura de Adão como sendo o símbolo da inteligência, aos animais, das paixões, a Eva, como símbolo da sensibilidade. A união de Abraão e Sara como o símbolo da união da inteligência com a virtude [...] Para clemente de Alexandria a Escritura deveria ser tomada em seu sentido literal apenas em seu ponto de partida, daí partir para seu sentido mais profundo ao qual o Espírito o guia através de parábolas e metáforas. Para Clemente o templo judaico era um símbolo do universo e os dez mandamentos simbolizavam os dez elementos da natureza: sol, a lua, as estrelas, as nuvens, luz, vento, água, ar, trevas e fogo. Abrão era o símbolo da fé, Sara o da virtude e Hagar o símbolo da cultura pagã" (ANGLADA, Paulo. Introdução à Hermenêutica Reforma­da. Belém: Editora Knox, 2006). 

[2] TENNEY, Merril C. Vida Cotidiana nos Tempos Bíblicos. São Paulo: Editora Vida, 1982. 

[3] SCOTT, Steven K. Salomão, o Homem mais Rico que já Existiu — Sabedoria da Bíblia para uma Vida Plena e Bem-Sucedida. São Paulo: Editora Sextante, 2008. 

[4] O apóstolo Tiago condena o trabalho como instrumento de exploração dos ricos sobre os mais pobres (Tg 5.4). "Quando o trabalho degrada, desumaniza, ele é um trabalho alienado e alienante, ou seja, leva o indivíduo à perda de sua identidade, de sua própria essência. Nessa situação, o indivíduo é reduzido à simples condição de animal ou de máquina, perdendo toda a sua especificidade humana" (SEVERINO, Joaquim. Filosofia da Educação — Construindo Cidadania. São Paulo: Editora FTD, 1994). 

[5] Conforme citado por Victor P. Hamilton In: Manual do Pentateuco. Rio de Janeiro: CPAD, 2007 

[6] HAMILTON, Victor P. Manual do Pentateuco. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. 

[7] VIBERG, A. "Jó". In: ALEXANDER, T. Desmond e ROSNER, Brian S. Novo Dicionário de Teologia Bíblica. São Paulo: Editora Vida, 2009.
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