quinta-feira, 27 de junho de 2013

Lição 04 – Superando os Traumas da Violência Social - O Conforto na Hora do Luto

A questão do luto é pouco abordada hoje em dia nas igrejas, mas é de grande importância, uma vez que os crentes em Cristo, como qualquer ser humano normal, também vivem momentos de luto, porém muitas vezes lhes falta uma orientação sólida sobre como devem reagir diante dessa situação. Neste capítulo, abordaremos esse importante assunto à luz das Sagradas Escrituras.

Antes de tudo, é importante dizer que o nosso foco aqui é o luto pela perda de um ente querido. O conceito de luto pode envolver qualquer outro tipo de perda, mas esse sentido lato não é a nossa abordagem aqui.

Sobre o posicionamento de nossa alma quanto aos outros tipos de perda, notadamente a perda material, reproduzo aqui um trecho do capítulo 13 do meu livro Reflexões sobre a Alma e o Tempo. Ali, sublinho que, apesar do sentimento de tristeza que naturalmente brota em nosso coração diante da perda de um bem material, não podemos "mergulhar na mágoa [pois] é uma grande tolice. Se a vida continua, se ainda há muito chão para andar, se a nossa estada final não é aqui, se tudo isto aqui na Terra é passageiro, para que ficar agarrando-me pateticamente a estas coisas? Como disse Agostinho, 'devo suportar com paciência os males, porque também os bons os suportam; não devo dar muito apreço aos bens, porque também os maus os conseguem'".

"Em Confissões, IV, 10, Agostinho detalha os fortes e negativos sentimentos que o açoitaram após a morte de seu amigo Nebridius. Ele conclui dizendo que não devemos entregar-nos a qualquer coisa além de Deus. Todos os seres humanos morrem e tudo aqui é perecível. Não podemos fazer com que a nossa felicidade dependa de algo que pode sumir, que não é consistente, que hoje é, mas amanhã poderá deixar de ser. Caso contrário, estaremos sendo candidatos, em potencial, à frustração e à depressão. É, porém, significativo ressalvarmos que, no caso de pessoas, não devemos ser extremistas ao ponto de afirmarmos que devemos ficar totalmente indiferentes em relação a elas. O próprio Jesus se envolveu considerável e sentimentalmente com o próximo. Se eu perder um ente querido, um amigo, uma pessoa amada, sentirei muito e não existe nada de patológico nisso. Patológico é não sentir nada com a partida de quem amamos".

Portanto, não menosprezando a dor pela perda de um bem material, não há sombra de dúvida de que o sentimento de perda por uma pessoa amada é muito mais relevante e, justamente por isso, será o nosso foco aqui.

Momentos de Luto Fazem Parte da Vida

À guisa de introdução, o primeiro ponto importante para ressaltar sobre essa questão é que a Bíblia não reprova o luto nem o apresenta como uma espécie de sinal de tibieza espiritual ou uma manifestação de fé rarefeita meramente toleráveis. Muito pelo contrário, as Sagradas Escrituras mostram o luto como algo absolutamente natural na vida do crente. À luz da Bíblia, em situações assim, antinatural seria não ficarmos abatidos diante da perda de uma pessoa querida — ainda que momentânea.

As Escrituras claramente não se opõem ao luto, mas, sim, à atitude de se deixar ser consumido pelo luto. Nas palavras do apóstolo Paulo, podemos ficar "abatidos, mas não destruídos". E mais: podemos ser "atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados" (2 Co 4.8,9).

Chorar a dor é normal. Se deixar ser consumido e destruído pela dor, não. Mas como fazê-lo?

A seguir, veremos como a Bíblia nos ensina a lidar com o luto de forma saudável.

Lições sobre como Lidar  com o Luto no Antigo Testamento

Normalmente, o judeu ortodoxo observa quatro fases do luto: a "Keriá", a "Shivá", o "Cadish" e o "lartseit". Essas quatro etapas são inspiradas na abordagem que as Escrituras do Antigo Testamento dão à experiência do luto. Aliás, por terem a sua inspiração na Bíblia, ao atentarmos para essas quatro fases, perceberemos que trazem princípios totalmente imprescindíveis para todos aqueles que desejam superar de forma saudável esse momento tão difícil. E, claro, nosso olhar sobre elas não se fixará nos rituais que foram criados na cultura judaica em torno de cada uma delas, mas, sim e tão somente, nos princípios que abarcam.

Na obra Livro Judaico dos Porquês, de autoria do rabino norte-americano Alfred J. Kolatch, essas quatro fases do luto são discriminadas.

Explica Kolatch que a "Keriá" consiste no ato de rasgar as vestes para prantear o(s) ente(s) querido(s) que se foi (foram). Muitos são os textos veterotestamentários que registram essa prática (Gn 37.29,34; Js 7.6; 2 Sm 1.11; 2 Rs 2.12; Jó 1.20). Os judeus de hoje, para pouparem suas roupas, adotaram o costume de rasgar lenços em suas manifestações de luto. Seja como for, o que nos importa mesmo é o princípio implícito na prática da "Keriá": É preciso viver o luto.

Não se pode superar o luto se ele é internalizado, reprimido, guardado. O luto só poderá ser superado se, em primeiro lugar, for vivenciado.

Já a "Shivá" é o período, geralmente de sete dias, que a pessoa tem para vivenciar o luto antes de voltar totalmente à vida normal. Em alguns casos, pode durar até 28 dias. Somente no caso do luto dos filhos pela morte dos pais é que ele poderia chegar até um ano. É um caso excepcional. Lembra Kolatch que, no texto bíblico, as lamentações por ocasião do luto geralmente duravam sete dias (Gn 50.10; Jó 2.13; Am 9.10), daí o uso, sendo que os três primeiros dias são reservados para que o enlutado tenha um tempo sozinho. Só a partir do quarto dia ele começa a receber visitas, que são consideradas importantes para o processo de restauração do luto.

Como já havia dito, em determinados casos, além da "Shivá", são respeitadas também mais três semanas de luto, quando completa-se o "Sheloshim" — o período da "Shivá" acrescido de mais três semanas. Após essas eventuais quatro semanas, o enlutado voltará totalmente à sua vida social. No caso de 12 meses de luto, os 11 meses até se completar esse período são de vida normal, só pontuada por um ou outro ato em memória da pessoa amada.

Portanto, na "Shivá" ou no "Sheloshim", está claro o princípio de que o luto não pode durar toda a vida. Ele precisa ser vivenciado profundamente, mas não deve se estender por tempo indefinido, porque a vida segue e é preciso voltar às atividades normais, inclusive para que as cicatrizes deixadas pelo passamento do ente querido sejam plenamente curadas. Pessoas que se prendem eternamente à lembrança do ente querido não conseguem mais viver. Elas nunca poderão ser curadas se cultivam constantemente suas feridas, que, dessa forma, nunca poderão ser cicatrizadas.

É preciso entender que luto tem começo, meio e fim, que ele não é a vida, mas apenas parte da vida. Você pode chorar por um tempo, mas não por todo tempo. É preciso ter um momento para recomeçar.

O "Cadish" é a oração do enlutado, que deve ser repetida nas sinagogas e ressalta a fé do enlutado em Deus, assim como Jó, que após a morte de seus filhos e a perda de seus bens, prostrou-se em terra e adorou ao Senhor (Jó 1.20). É um momento de busca a Deus em meio ao luto. Conta Kolatch que, por influência do rabino Jacob Israel Emden (1697-1776), criou-se o hábito de todos os presentes na sinagoga recitarem o "Cadish" juntamente com as pessoas enlutadas, em um gesto de solidariedade.

O princípio que está evidenciado aqui é de que a superação do luto passa indispensavelmente pela busca a Deus. Se queremos real e perfeito consolo para a dor da perda, devemos buscá-lo no Consolador, no Senhor da vida, naquEle que tem poder de preencher todo o vazio da nossa alma — o nosso Senhor e Deus.

Finalmente, os judeus que perderam entes queridos ainda praticam o "Iartseit", que é uma homenagem feita todos os anos no dia do aniversário da morte do ente querido, e que se resume a acender uma vela no túmulo da pessoa amada para simbolizar a fé de que a "luz" dela — a sua vida — ainda está "acesa" na eternidade. Não tem absolutamente nenhuma conexão com o ritual de Finados do catolicismo romano. Outro detalhe é que os mortos dos judeus são enterrados sob lápides, seguindo uma tradição veterotestamentária (Gn 35.20) e que é reproduzida pelos cristãos há séculos no Ocidente. E essas lápides não podem ser ostensivas e caras, por causa das palavras de Provérbios 22.2, que diz que: "O rico e o pobre se encontram; a todos o Senhor os fez". O que está implícito em todas essas homenagens é o princípio de respeito à memória dos entes queridos que partiram.

O Luto no Novo Testamento

E no Novo Testamento? Como a questão do luto é tratada? Os princípios mudam? Não, eles permanecem basicamente os mesmos e podem ser resumidos em dois pontos. Ei-los:

1) Viva o seu luto — A Bíblia tanto no Antigo quanto no Novo Testamento não estimula ninguém a reprimir o seu luto, mas, sim, a vivenciá-lo. O próprio Jesus não segurou o choro por duas vezes, em manifestações de luto e pesar em meio a contextos de morte: uma vez, diante do túmulo de Lázaro (Jo 11.35) e em outra oportunidade, diante de Jerusalém, em seu histórico lamento sobre a cidade (Lc 19.41).

Jesus disse: "Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados" (Mt 5.4). Não há consolo para quem reprime o seu choro, nem para o duro de coração nem para a alma arrogante. Só há consolo para quem, antes de tudo, assume a sua dor.

Estamos falando aqui dessa verdade no Novo Testamento, mas urge lembrarmos o rico exemplo dos salmistas. Muitos são os salmos que se dedicam em grande parte a lançar os seus lamentos e anseios aos pés de Deus, confiando em sua graça e poder (2 Sm 1.17ss; Sl 6.6; 38.9; 55.2; 88.1; 142.2), e não poucas vezes os salmistas são recompensados com o consolo do Senhor (Sl 30.11; 62.1,2,5,8; 121.1,2).

2) Supere o luto — Não viva para o seu luto. Supere-o! Mas como superá-lo? A luz da Bíblia, há três fatores que devem ser encarnados para que possamos superar definitivamente o luto em nossas vidas.

Em primeiro lugar, lembre-se das verdades do evangelho acerca da sua vida e da existência humana como um todo. Lembre-se de que você não é como aqueles que não têm esperança. Absolutamente. Você tem esperança!

A morte, para o crente, não é o final da vida e, no caso de o seu parente falecido ser um crente em Cristo, também não é o final da sua relação com ele.

O apóstolo Paulo, escrevendo aos crentes em Tessalônica, afirma: "Não quero, porém, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança. Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com ele. Dizemo-vos, pois, isto, pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem. Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a Irombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro; depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados íun lamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras" (1 Ts 4.13-18).

Quem crê em Cristo sabe que todos os cristãos estarão "para sempre com o Senhor" (1 Ts 4.17). Nós veremos outra vez, e desta feita para estarmos juntos para sempre, aqueles amados irmãos em Cristo que partiram para a eternidade antes de nós.

Mas em segundo lugar, superamos o luto quando buscamos a presença de Deus. A Bíblia diz que o Espírito Santo, o Consolador, nos ajuda em meio às nossas fragilidades: "E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que segundo Deus intercede pelos santos" (Rm 8.26,27). Se buscarmos forças no Senhor, Ele, certamente, nos fortalecerá para superarmos a dor.

Mesmo que não entendamos hoje as razões por que Deus permite que um ente querido nosso parta para a eternidade mais cedo, e às vezes de forma tão trágica, devemos confiar na sua sabedoria, na perfeição dos seus propósitos. Ele sabe o que faz. Como afirma o apóstolo Paulo, devemos ter a convicção em nossos corações de que "todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Rm 8.28).

E finalmente, em terceiro e último lugar, busque ajuda. Procure o conforto da presença de seus irmãos em Cristo, de seus amigos verdadeiros, de familiares. O apóstolo Tiago, em sua epístola universal, afirma que devemos ajudar as pessoas nas tribulações, e cita como exemplos as viúvas e os órfãos, isto é, aqueles que perderam entes queridos (Tg 1.27). Inspirado pelo Espírito Santo, Tiago dá essa orientação porque sabe que é importantíssimo para aqueles que perdem familiares contar com a ajuda amorosa das pessoas nesses momentos difíceis. Ou seja, é impossível vencer o luto sozinho. É preciso estarmos juntos, em comunhão — primeiramente, com Deus e em seguida, com meus irmãos, amigos e familiares. "Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram" (Rm 12.15).

Conforto Perfeito em Deus

Não há dúvida de que o luto é um dos momentos mais amargos da existência, mas graças a Deus que não nos abandona em nosso luto, mas promete estar presente em meio à dor mais lancinante que possamos experimentar, a fim de nos consolar e nos fazer avançar em Cristo.

Como afirma o apóstolo Paulo, que sabia disso inclusive por experiência própria, "Deus consola os abatidos" (2 Co 7.6). Mesmo que todos nos abandonem, Ele não abandonará os seus filhos, ainda que em meio à adversidade mais intensa (2 Tm 4.16,17).

Que as verdades expressas nas palavras de Deus por meio do ministério de Isaías possam reboar no coração enlutado para curá-lo: "Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra fiel. (...) Porque eu, o Senhor teu Deus, te tomo pela tua mão direita; e te digo: Não temas, que eu te ajudo" (Is 41.10,13).

Não estamos sós. Temos um Pai que nos ama com amor eterno (Jr 31.3).


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