domingo, 29 de março de 2015

Lição 01: O Evangelho Segundo Lucas - O Propósito de Lucas

Agradecimentos - Agradeço ao Senhor por mais esta obra literária, a décima quinta em 13 anos de ministério pastoral —, sendo dez livros e cinco revistas de Lições Bíblicas da Escola Dominical! Esses dados servem para revelar a grande e surpreendente graça de Deus em minha vida. Tenho a plena consciência de que não foi o meu braço quem me deu estas conquistas, mas a sua misericórdia e bondade que duram para sempre. A Ele a honra e a glória.


A minha esposa Maria Regina (Mará), que sendo a primeira leitora das minhas obras, faz importantes observações e dá valiosas sugestões para a melhoria do texto. Sem ela esse trabalho estaria incompleto. Amo você!

Ao reverendo Claudionor de Andrade, Consultor Teológico da CPAD, pela gentileza em prefaciar este livro. Mesmo antes de conhecê-lo e de tê-lo como amigo, já o admirava como homem de Deus e também pelo estilo rebuscado de suas obras. Obrigado companheiro.

Ao irmão Ronaldo Rodrigues, Diretor Executivo da CPAD, amigo, companheiro e um incentivador de minhas obras. Sempre que eu o encontro a minha autoestima fica elevada. A sua forma de falar, os incentivos dados fazem com que me sinta estimulado a continuar me esmerando mais ainda na arte do ensino. Obrigado pelo espaço dado a este nordestino, piauiense e roceiro! Deus o abençoe ricamente, caro irmão e amigo.

A minha amiga Ana Trindade, Secretária Executiva da CPAD. A “Aninha”, como costumo chamar, está sempre de bem com a vida. Sua amizade só me faz bem. Deus continue estendendo sobre você a sua maravilhosa graça.

Agradeço de coração ao meu amigo Jorge Andrade, funcionário da CPAD, por sua amizade pura e sincera. Foi ele, quando ainda redator da revista O Obreiro,quem pela primeira vez solicitou que eu produzisse

um artigo para esse periódico no ano de 2004. Tinha início ali a minha jornada literária! Agradeço a Deus por você, Patrícia, sua esposa, e seu filho Efraim.

Agradeço ao pastor Elienai Cabral, amigo mais chegado que um irmão, pela amizade e confiança em mim depositada. Já perdi a conta de quantos convites recebi para ministrar por esse Brasil a fora por indicação sua. Aprendi a amar esse homem de Deus que para mim é um pai, pastor, mestre diferenciado e um profeta a serviço do reino de Deus. Obrigado por tudo meu amigo!

A todos os meus amigos não nominados neste livro pela amizade e companheirismo que desfrutamos em Cristo Jesus, o Homem Perfeito.

Prefácio -
José Gonçalves pertence à nova geração de escritores assembleianos. Seus trabalhos despontam nos periódicos da CPAD, nas Lições Bíblicas da Escola Dominical e em vários livros. E alguém que aceitou o desafio de labutar no ministério da página impressa. Nesse labor, vem sendo abençoado.

Regozijo-me ao ver a nova geração de escribas pentecostais. Corajosos, entregam-se a um ofício árduo e solitário. Trata-se de um labor que reclama disciplina, perseverança e, antes de tudo, amor à Palavra de Deus. Sem amor, nenhum trabalho cristão será bem-sucedido. Do escritor evangélico, pois, requer-se intimidade com os profetas e apóstolos; demanda-se uma grande paixão pelo Cristo de Deus.

O pastor José Gonçalves mostra ter intimidade com o Livro de Deus. Enquanto lia o seu comentário sobre o Evangelho de Lucas, deparei-me com alguém que se havia preparado. Muito aprendi com ele. Sem dúvida, estamos diante de um mestre nas Escrituras Sagradas.

Ele cultiva os idiomas originais da Bíblia. Coisa um tanto rara entre nós. Ler o hebraico e o grego reivindica tempo, paciência e aquela ternura que só os verdadeiros teólogos experimentam ao se debruçar sobre uma página de Isaías ou de um parágrafo de Lucas. Afinal, a exegese tem de preceder a sistematização da doutrina. E uma indução que nos leva a conhecer intimamente o autor da Bíblia Sagrada.

Gonçalves cumpre o seu ministério nas bem-aventuradas e lindas terras do Piauí. Certa vez, estive em Teresina. E, ali, na capital piauiense, pude constatar o quanto aquele recanto é propício às letras e à poesia. Deparei-me com uma juventude consagrada à Palavra de Deus. A beleza da cidade surpreendeu-me. Em meio à modernidade, o povo fazia questão de preservar a sua história e tradições. Coisas que os sudestinos, às vezes, não emprestamos muita cuidado. Agora, posso entender por que algumas regiões são mais afeitas às letras.

Neste livro, o leitor encontrará um escritor não apenas envolvido, mas amorosamente comprometido com o ministério da página impressa. Alguém que vem cultivando as ciências bíblicas e teológicas com amor e santa perseverança. Minha oração é que Deus levante, por todo o país, homens e mulheres que se dediquem às belas letras evangélicas. E que o nosso texto áureo seja este: “De boas palavras transborda o meu coração. Ao Rei consagro o que compus; a minha língua é como a pena de habilidoso escritor” (SI 45.1). Claudionor de Andrade

Introdução

Lucas, o médico amado, não foi um apóstolo nem tampouco foi uma testemunha ocular da vida de Jesus, todavia deixou uma das mais belas obras literárias já escritas sobre os feitos do Salvador e os primeiros anos da comunidade cristã. A narrativa de Lucas descreve, com riqueza de detalhes, o ministério terreno de Jesus, como ele nasceu, cresceu, libertou os oprimidos, formou os seus discípulos, morreu pendurado em uma cruz e ressuscitou dos mortos.

O terceiro Evangelho possui uma forte ênfase carismática. Mais do que qualquer outro evangelista ou escrito do Novo Testamento, Lucas dá amplo destaque à pessoa do Espírito Santo durante o ministério público de Jesus até sua efusão sobre os cristãos primitivos. Nesse aspecto, a obra de Lucas deve ser entendida como um compêndio de dois volumes, onde o segundo volume, Atos dos Apóstolos, é entendido a partir do primeiro, o terceiro Evangelho, e vice-versa.

Um erro bastante comum cometido por vários teólogos, principalmente aqueles que não creem na atualidade dos dons espirituais, é tentar “paulinizar” os escritos de Lucas. Por não entenderem o pensamento lucano, não o vendo como teólogo como de fato ele era, mas apenas como um historiador, tentam interpretá-lo à luz dos escritos de Paulo. Evidentemente que toda Escritura é inspirada por Deus e que o princípio da analogia é uma das ferramentas básicas da boa exegese, todavia isso não nos dá o direito de transformar Lucas em mero coadjuvante da teologia paulina. Em outras palavras, Paulo deve ser usado para se compreender corretamente Lucas, mas também Lucas deve ser consultado para se quer entender, de fato, o que Paulo escreveu.

Esse entendimento se torna mais ainda relevante quando aplicamos essa metodologia em relação aos carismas do Espírito narrado no terceiro Evangelho, em Atos dos Apóstolos e nas epístolas paulinas. Se Paulo foi um teólogo, possuindo independência para falar dos dons do Espírito, Lucas da mesma forma também o foi e seu pensamento é tão relevante quanto o de Paulo. Nesse aspecto Lucas não deve ser entendido apenas como um narrador de fatos históricos, mas como um teólogo que escreveu a história.

Este livro mostra facetas dessa abordagem metodológica na interpretação de Lucas, mas não segue o modelo adotado nos comentários de natureza puramente expositiva como são, por exemplo, as obras de Leon Morris, William Hendriksen, Fritz Rienecker, J.C. Ryle e outros. Isso tem uma razão de ser — o presente texto não é um comentário versículo por versículo do evangelho de Lucas, nem mesmo capítulo por capítulo. Antes, é uma abordagem temática dos principais fatos ocorridos durante o ministério público de Jesus, como por exemplo, seu nascimento, crescimento, morte e ressurreição. Tendo sido escrito como texto de apoio às Lições Bíblicas de Jovens e Adultos da Escola Dominical esse tipo de abordagem permite trazer um comentário mais exaustivo sobre cada tema, mas, sem dúvida, limita um estudo mais expositivo do texto bíblico. Isso explica, por exemplo, o porquê de determinados textos, mesmo sendo importantes dentro do contexto da teologia lucana, não terem sido abordados aqui.

Procurando fugir do tecnicismo das obras de natureza puramente exegética, até mesmo por seguir a estrutura das Lições Bíblicas a quem serve de apoio, o presente livro primou por ser mais de natureza devo- cional-teológica. Isso não significa que a exegese e os princípios bíblicos de interpretação foram relegados ao segundo plano. Não! Todavia procurou o presente texto dialogar com o leitor por saber que muitos deles, alunos da ED, não tiveram acesso ao intrincado mundo das enfadonhas regras gramaticais. Que o Senhor abençoe a cada leitor deste livro.

O Propósito de Lucas

Metodologia

Ao estudarmos uma obra literária, precisamos, dentre outras coisas, levar em conta a sua autoria e data, o tipo de gênero literário, o seu destinatário e o propósito para o qual ela foi escrita. Essa metodologia é importante não apenas para o estudo de textos bíblicos, mas também para qualquer obra da literária universal. A sua observância garantirá que o intérprete não chegue a conclusões equivocadas e diferentes da- quelas que tencionou o autor.

O estudante da Bíblia deve, portanto, ter isso em mente quando estuda o terceiro Evangelho. Roger Stronstad, teólogo de tradição pentecostal canadense, demonstrou, por exemplo, que uma metodologia errada na análise do Evangelho de Lucas tem levado vários estudiosos a chegarem a conclusões teológicas igualmente erradas.1 Esses equívocos têm como subprodutos uma fé e prática cristã diferente daquela desenhada nas obras de Lucas.

Ao analisar, por exemplo, os contrastes existentes no desenvolvimento histórico da doutrina do Espírito Santo nas diferentes tradições cristãs, Stronstad observa que “essa divisão não é simplesmente teológica. No fundo, o assunto tem diferenças hermenêuticas ou metodológicas fundamentais. Essas diferenças metodológicas surgem dos diversos gêneros literários e são da mesma extensão que estes. Por exemplo, há que deduzir a teologia do Espírito Santo de Lucas de uma “história” de dois volumes sobre a fundação e o crescimento do cristianismo, dos quais se classifica o volume um como um Evangelho e o volume dois como Atos. Por contraste, temos que derivar a teologia do Espírito Santo de Paulo de suas cartas, as quais dirigiu às igrejas geograficamente separadas em diferentes ocasiões de suas jornadas missionárias. Estas cartas são circunstanciais, quer dizer, tratam de alguma circunstância particular: por exemplo notícias de controvérsias (Gálatas), respostas às perguntas específicas (1 Coríntios) ou planos para uma visita vindoura (Romanos). Assim que, à medida que Lucas narra o papel do Espírito Santo na história da igreja primitiva, Paulo ensina a seus leitores acerca da pessoa e ministério do Espírito”.2

Autoria

Como veremos mais adiante, a tradição que atribui autoria lucana para o terceiro Evangelho é muito antiga. No texto bíblico, as referências ao “médico amado” são Colossenses 4.14; 2 Timóteo 4.11 e Filemon 24. Todavia assim como outros escritos do Novo Testamento, o terceiro Evangelho também não traz grafado o nome de seu autor.

Evidências internas da autoria lucana

Diferentemente de outros livros neotestamentários que são anônimos, o terceiro Evangelho deixou pistas que permitiram à igreja atribuir a Lucas, o médico amado, a sua autoria. Alguns desses indícios internos listados pelos biblistas são:

1. Tanto o livro de Lucas como o livro de Atos são endereçados a uma pessoa identificada como Teófilo. “Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os

^ presenciaram desde o princípio e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelentíssimo Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio” (Lc 1.3), “Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo, acerca de tudo que Jesus começou, não só a fazer, mas a ensinar, até ao dia em que foi recebido em cima, depois de ter dado mandamentos, pelo Espírito Santo, aos apóstolos que escolhera; aos quais também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias e falando do que respeita ao Reino de Deus” (At 1.1-3).

2. Como vimos, o livro de Atos se refere a um outro livro que fora escrito anteriormente (At 1.1), que sem dúvida alguma trata-se do terceiro Evangelho. Quem escreveu Atos dos Apóstolos, portanto, escreveu também o terceiro evangelho.3

3. O estilo literário e as características estruturais de Lucas e Atos apontam na direção de um só autor;

4. Muitos temas comuns ao terceiro Evangelho e Atos não são encontrados em nenhum outro lugar do Novo Testamento. Por exemplo, a ênfase na ação carismática do Espírito Santo sobre Jesus e seus seguidores (Lc 24.49; At 1.4-8).4

Devemos observar ainda, como destaca Walter Liefeld, dentro dessa perspectiva, que o autor de Lucas-Atos não foi uma testemunha ocular dos feitos de Jesus, mas um cristão da segunda geração que se propôs a documentar a tradição existente sobre Jesus e o andar dos primeiros cristãos. Na passagem de Atos 16.10-17, a referência à primeira pessoa do plural (nós) além de revelar que Lucas era um dos companheiros de Paulo na segunda viagem missionária mostra também que era ele quem documentava esses registros:

“E, logo depois desta visão, procuramos partir para a Macedônia, concluindo que o Senhor nos chamava para lhes anunciarmos o evangelho. E, navegando de Trôade, fomos correndo em caminho direito para a Samotrácia e, no dia seguinte, para Neápolis; e dali, para Filipos, que é a primeira cidade desta parte da Macedônia e é uma colônia; e estivemos alguns dias nesta cidade. No dia de sábado, saímos fora das portas, para a beira do rio, onde julgávamos haver um lugar para oração; e, assentando-nos, falamos às mulheres que ali se ajuntaram. E uma certa mulher, chamada Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira, e que servia a Deus, nos ouvia, e o Senhor lhe abriu o coração para que estivesse atenta ao que Paulo dizia. Depois que foi batizada, ela e a sua casa, nos rogou, dizendo: Se haveis julgado que eu seja fiel ao Senhor, entrai em minha casa e ficai ali. E nos constrangeu a isso. E aconteceu que, indo nós à oração, nos saiu ao encontro uma jovem que tinha espírito de adivinhação, a qual, adivinhando, dava grande lucro aos seus senhores. Esta, seguindo a Paulo e a nós, clamava, dizendo: Estes homens, que nos anunciam o caminho da salvação, são servos do Deus Altíssimo” (At 16.10-17).

Essas evidências internas, sem sombra de dúvidas, apontam a autoria lucana do terceiro Evangelho. A propósito, em 1882 o escritor W.K. Hobart em seu livro: A Linguagem Médica de Lucas demonstrou a existência de vários termos médicos usados no terceiro Evangelho, o que confirmaria a autoria lucana. Posteriormente a obra O Estilo Literário de Lucas, escrita por H. J. Cadbury tentou mostrar que não somente Lucas usou termos médicos em sua obra, mas que outros escritores, mesmo não sendo médicos, fizeram o mesmo. Mas como bem observou William Hendriksen, quando se faz um paralelo entre Lucas e os demais Evangelhos Sinóticos observa-se a peculiaridade do vocabulário médico empregado por Lucas. Hendriksen comparou, por exemplo, Lucas 4.38 com Mateus 8.14 e Marcos 1.30 (a natureza ou grau da febre da sogra de Pedro); Lucas 5.12 com Mateus 8.2 e Marcos 1.40 (a lepra); e Lucas 8.43 com Marcos 5.26 (a mulher e os médicos). Ainda de acordo com Hendriksen, pode-se acrescentar facilmente outros pequenos toques. Por exemplo, somente Lucas declara que era a mão direita que estava seca (6.6, cf. Mt 12.10; Mc 3.1); e entre os escritores sinóticos, somente Lucas menciona que foi a orelha direita do servo do sumo sacerdote a ser cortada (22.50; cf. Mt 26.51 e Mc 14.47). Compare também Lucas 5.18 com Mateus 9.2, 6 e Marcos 2.3, 5, 9; e çf. Lucas 18.25 com Mateus 19.24 e Marcos 10.25. Além do mais, conclui Hendrinksen, embora seja verdade que os quatro Evangelhos apresentam Cristo como o Médico compassivo da alma e do corpo, e ao fazê-lo revelam que seus escritores também eram homens de terna compaixão, em nenhuma parte é este traço mais abundantemente notório que no Terceiro Evangelho.5

Evidências externas da autoria lucana

Além dessas evidências internas, há também diversas evidências externas, que fazem parte da tradição cristã, atestando a autoria lucana para o terceiro Evangelho. Uma delas, o cânon muratoriano, escrita em cerca de 180 d.C., confirma a autoria de Lucas: “o terceiro livro do Evangelho, segundo Lucas, que era médico, que após a ascensão de Cristo, quando Paulo o tinha levado com ele como companheiro de sua jornada, compôs em seu próprio nome, com base em relatório”. Em cerca de 135 d.C., antes portanto do Cânon muratoriano, Marcião,

o herege, também atesta a autoria de Lucas para o terceiro Evangelho. Testemunho confirmado posteriormente por Irineu (Contra as Heresias, 3.14-1) e outros escritores posteriores.

Data de Composição da Obra

A data da composição do terceiro evangelho é melhor definida pelos biblistas quando se leva em conta alguns fatores. Por exemplo, se Lucas valeu-se do Evangelho de Marcos como uma de suas fontes, nesse caso é preciso situá-lo em data posterior ao escrito de Marcos que foi redigido alguns anos antes do ano 70 d.C. Segundo, se Lucas é o primeiro volume de uma obra em dois volumes (Lucas-Atos), como se acredita que é, fica bastante evidente que o terceiro Evangelho foi compilado antes dos Atos dos Apóstolos. Nesse caso será preciso primeiramente datar o livro de Atos. Os eruditos acreditam que, levando-se em conta uma análise detalhada do livro de Atos dos Apóstolos, a data para sua redação está entre 61 a 65 d.C. Em Terceiro lugar, a data para a redação de Lucas dependerá também de como se interpreta o sermão feito por Cristo sobre a destruição de Jerusalém (Lc 21.8-36). Nesse caso, argumentam os críticos, Lucas escreveu depois da destruição de Jerusalém no ano 70 visto ter feito referência aos fatos ocorridos nessa data. Esse argumento é fraco, visto que Cristo proferiu uma profecia sobre os eventos do fim e que tiveram início na destruição de Jerusalém. E o que os teólogos denominam de vaticinium ex eventu, isto é, uma profecia que é feita antes que o evento ocorra. Em quarto lugar, muitos críticos argumentam em favor de uma data mais tardia para Lucas, porque segundo eles, algumas situações mostradas nas obras de Lucas demonstrariam situações que ainda não existiam nos anos 60 e 70 d.C. Mas esse é um argumento que não se sustenta pelas mesmas razões já expostas anteriormente.6 Em resumo, Lucas redigiu sua obra entre os anos 60 e 70, sendo que alguns estudiosos opinam para a primeira parte dessa década enquanto outros pela segunda. Seja como for, isso em nada altera aquilo que Lucas escreveu.

Gênero Literário

Compreender a que tipo de gênero literário pertence o terceiro Evangelho é crucial para uma correta compreensão do seu texto. Isso se torna mais relevante ainda quando se estuda o papel que o Espírito Santo ocupa na teologia lucana. Já há algum tempo, a perspectiva teológica que via as obras de Lucas apenas como biografia e história vem sendo abandonadas pelos biblistas. Em 1970 o conceituado teólogo I. Howard Marshall chamou a atenção para o fato de que Lucas não poderia ser visto mais como um simples historiador, mas como um teólogo que escreveu a história.7 Em outras palavras, Lucas não apenas documentou os fatos, mas escreveu suas obras tendo em mente um propósito teológico definido. Nesse aspecto, observa o escritor Luís Fernando Garcia-Viana, “Lucas é o teólogo da história da salvação: a história de Israel ou tempo da preparação; Jesus como centro do tempo (Lc 16.16); e o tempo da missão ou da igreja, que se inicia com a Ascensão e o Pentecostes”.8

Quando se reduz as obras de Lucas apenas à sua dimensão histórica, forçosamente se é tentado a vê-las apenas como material de natureza narrativa ou descritiva e sem nenhum valor didático. Esse é um erro que precisamos evitar a todo custo. Por muitos anos esse era o entendimento que dominava os círculos teológicos graças às obras dos teólogos John Stott e Gordon D. Fee.9 Partindo de uma metodologia que atribui apenas valor narrativo e não didático à obra de Lucas, tanto Sott como Fee acabaram por mutilar o caráter claramente carismático do texto lucano. A esse respeito, Stott escreveu:

“Se deve buscar a revelação do propósito de Deus nas Escrituras nas partes didáticas, e jamais em sua porção histórica. Mais precisamente devemos buscá-la nos ensinos de Jesus e nos sermões e escritos dos apóstolos e não nas porções puramente narrativas de Atos”.10

Esse é um exemplo clássico de falácia exegética, pois anula uma máxima bíblica na qual se afirma que toda Escritura é inspirada por Deus e é útil para o nosso ensino (2 Tm 3.16; Rm 15.4). Por outro lado, não leva em conta o caráter didático das narrativas veterotestamentá- rias usadas por Paulo quando instrui os primeiros cristãos (Rm 4.1-25;

1 Co 10.1-12; G1 3.6-14). A propósito, após ver sua argumentação ser contraditada por Roger Stronstad, o anglicano John Stott voltou atrás e fez emendas em sua tese:

“Não estou negando que narrativas históricas têm uma finalidade didática, pois é claro que Lucas era tanto um historiador e um teólogo; Estou afirmando que a finalidade didática de uma narrativa nem sempre é evidente em si mesma e por isso muitas vezes precisa de ajuda interpretativa de outro lugar nas Escrituras”.11

Lucas, portanto, foi um teólogo que escreveu a história e ao assim proceder o fez com um fim didático. Primeiramente ele mostra no seu Evangelho a história da Salvação se revelando de uma forma especial e chegando ao seu clímax com Jesus, o Messias prometido. O Espírito do Senhor, que agiu sobre os antigos profetas e que seria um sinal distintivo do Messias (Is 61.1; Lc 4.18), estava sobre Jesus capacitando-o a realizar as obras de Deus. No segundo volume da sua obra, Atos dos Apóstolos, ele demonstra que essa história da Salvação não sofreu solução de continuidade, pois o mesmo Jesus, na pessoa do Espírito Santo, continuou presente em seus seguidores. O Messias cumpriu as profecias e derramou o Espírito Santo sobre toda a carne (Jl 2.28; At 2.33; 5.32). Não há dúvidas, portanto, que a teologia lucana mostra de forma inequívoca que as mesmas experiências dos cristãos primitivos serviriam de parâmetro para todos os crentes na história da igreja.12

Propósito

A fé cristã no seu contexto histórico

E inegável que Lucas, como um teólogo, demonstrou um grande interesse pelos fatos históricos quando redigiu sua obra. O prólogo, escrito a Teófilo, que se acredita ser um gentio de alta posição social, atesta isso. “Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelentíssimo Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio, para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado” (Lc 1.1-4).13

O que pretendia, portanto, o autor do terceiro Evangelho ao documentar sua obra? Lucas procura narrar a história; mas não a história como se entende hoje em seu sentido secular ou positivo, que se prende apenas à narrativa das ações humanas.14 Ele narra a história da Salvação. A história de Lucas é a história da ação de Deus entre os homens e como ele demonstra a sua soberania entre eles! Dentro desse contexto o seu interesse era mostrar os fatos sobre os quais o evangelho estava fundamentado; estabelecer o vínculo entre o cristianismo e o judaísmo, revelando dessa forma que a fé cristã possuía raízes judaicas; deixar claro que o cristianismo não veio para competir com o império romano, mostrando assim que ele não era uma ameaça política à auto- ridade do império.15

Uma Teologia Carismática

Como um escritor inspirado e um teólogo cristão, Lucas mostra que o tempo do cumprimento das promessas de Deus, preditas nos antigos profetas, havia chegado. Fica claro para ele que o advento do cristianismo foi precedido pela renovação do Espírito profético. O último profeta, Malaquias, havia silenciado cerca de quatrocentos anos antes. Esse hiato entre os dois testamentos é conhecido como período inter-bíblico. Agora esse silêncio é rompido, primeiramente pelo anúncio feito a Zacarias, pai de João Batista (Lc 1.13) e posteriormente a Maria, a mãe de Jesus (Lc 1.28). É, contudo, no ministério de João Batista, que Lucas mostra a restauração da antiga profecia bíblica: “E, no ano quinze do império de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judeia, e Herodes, tetrarca da Galileia, e seu irmão Filipe, tetrarca da Itureia e da província de Traconites, e Lisânias, tetrarca de Abilene, sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes, veio no deserto a palavra de Deus a João, filho de Zacarias” (Lc 3.1-2).

Essa restauração da antiga profecia bíblica, como veremos em capítulos posteriores, é importante no contexto da teologia carismática de Lucas. Já foi dito que Lucas escreveu uma obra em dois volumes e esse é um fato importante porque essa homogeneidade nos ajuda compreender a ação do Espírito Santo na teologia Lucas-Atos. No Evangelho, Lucas mostra o Espírito atuando sobre o Messias e capacitando-o para realizar as obras de Deus como havia sido prometido nas profecias (Lc 4.18; Is 61.1). Por outro lado, no livro de Atos está o cumprimento da promessa do Messias de derramar esse mesmo Espírito sobre os seus seguidores (Lc 11.13; 24.49; At 1.8). Em outras palavras, o mesmo revestimento de poder que estava sobre Jesus Cristo e que o capacitou a curar os enfermos, ressuscitar os mortos e expulsar os demônios seria também dado a seus seguidores quando ele fosse glorificado. “De sorte que, exaltado pela destra de Deus e tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vós agora vedes e ouvis” (At 2.33); “nós somos testemunhas acerca destas palavras, nós e também o Espírito Santo, que Deus deu àqueles que lhe obedecem” (At 5.32).16 A História da Salvação

A história da Salvação no terceiro Evangelho é revelada em seu aspecto particular e universal. Sem dúvida a ênfase maior está na universalidade da Salvação. Jesus veio para os judeus, mas não somente para estes, ele veio também para os gentios. A Salvação é para todos! Esse princípio teológico de Lucas fica em evidência quando se observa o lugar que os excluídos ocupam nos seus registros. No anúncio do nascimento de Jesus feito pelos anjos aos camponeses foi dito: “Vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo” (Lc 2.10).

Todo o povo, e não apenas os judeus, era objeto da graça de Deus. E inegável a atenção que se dá aos pobres, excluídos e marginalizados no Evangelho de Lucas. O Espírito Santo estava sobre Jesus para “evan- gelizar os pobres” (Lc 4.18). É interessante observarmos que a palavra grega ptochoi, traduzida como pobres, significa alguém que possui alguma carência. E exatamente esses carentes que Jesus irá priorizar em seu ministério. Ele dará grande atenção aos publicanos, pecadores, mulheres e aos samaritanos que eram discriminados naquela cultura (Lc 5.32; 7.34-39;9.51-56; 10.3; 15.1; 17.16; 18.13; 19.10).

Essa Salvação predita pelos profetas, anunciada pelos anjos e declamada em forma poética pelo sacerdote Zacarias e Maria, mãe de Jesus, é também de natureza escatológica. A teologia lucana mostra João anunciado a chegada do Reino e Jesus estabelecendo-o durante o seu ministério. Todavia esse Reino inaugurado pela manifestação messiânica (Lc 4.43; 8.1; 9.2; 17.21) ainda não está revelado em toda a sua extensão. Já podemos, sim, viver a sua realidade no presente, mas a sua plenitude somente na sua parousial (At 1.6-11).

Essa é a nossa esperança!

NOTAS

1 STRONSTAD, Roger. The Charismatic Theokgy ofSt Luke. Hendrickson Publishers, tenth printing, U.S.A, march 2009.

2 STRONSTAD, Roger. Idem, pg.6. Stronstad amplia seu argumento na sua obra Spírit, Scripture & Tehology - a Pentecostal Perspective. Asia Pacific Theological Seminary Press, Baguio City, Philippines, 1995. 3 Vejam uma exposição detalhada sobre esse ponto na obra de William Hendrinksen: Comentário do Novo Testamento - Lucas. Editora Cultura Cristã.

4 LIEFELD, Walter. The Expositor Bible Commentary. Zondervan, U.S.A.

5 HENDRINKSEN, William. Comentário Novo Testamento - Lucas. Editora Cultura Cristã, São Paulo, SP.

6 LIEFELD, Walter. The Expositor’s Bible Commentary - Mathews, Marfc, Luke, Vol. 8. Zondervan.

7 MARSHALL, I. Howard. Luke - Historian & Theologian. IVP Aca- demic, Illinois, U.S.A, 1970.

8 GARCIAVIANA, Luis Fernando in Comentário ao Novo Testamento, vol. III. Editora Ave Maria, São Paulo, 2006.

9 Conforme se encontram nos livros: Batismo e Plenitude do Espírito (Stott) e Entendes o que Lês (Fee).

10 STOTT, John. Batismo e Plenitude. Edições Vida Nova, São Paulo,

SP.

11 STOTT, John. The Spirit, the Church, and the World, p. 8, Downers Grove, IL: Inter Varsity Press, 1990.

12 Os escritores americanos Stanley M. Burgess (The Holy Spirit: Eas- tern Christian Traditions) e Ronal A. Kydd (Charismatic Gifts in the Early Church) demonstraram de forma definitiva que os dons do Espírito Santo estiveram presentes por toda a história da igreja.

13 A palavra grega Teófilo significa “Amigo de Deus”, e o termo era- tistos, traduzido como “excelentíssimo” é um pronome de tratamento usado para pessoas que desfrutavam de um elevado conceito social.

14 Os séculos 19 e 20 testemunharam a corrida de muitos teólogos na busca, do que denominavam de “Jesus Histórico”. Esses autores, in- fluenciados pelo secularismo, queriam dar uma roupagem mais científica ao cristianismo, eliminando do seu seio o que eles acreditavam ser mitos, lendas e dogmas. O resultado disso tudo foi a produção de um “Jesus Histórico” caricaturado, totalmente diferente daquele mostrado nos Evangelhos. Duas obras representativas nesse sentido são The Life

of Jesus, 1863 de Ernest Renan, escritor francês e Demitologização, do protestante Rudolf Bultmann. James D.G. Dunn em sua obra: Jesus em Nova Perspectiva - o que os estudos sobre o Jesus Histórico deixaram para trás (Paulus, 2013), ao fazer uma crítica a esses estudos, destaca: “o que começou como protesto contra a artificialidade do Cristo do credo, o que iniciou como tentativa de eliminar camadas seculares de estratagemas dogmáticos e eclesiásticos acabou rejeitando os próprios evangelhos e sua imagem de Jesus suspeitando seriamente da tradição de Jesus como um todo. Do início ao fim, toda a tradição de Jesus é produto da fé, motivo pelo qual deve ser ignorada” (p.27).

15TOLBERT, Malcolm. Comentário Bíblico Broadman, volume 9, Lucas- -João. Editora Juerp, Rio de Janeiro, 1983.

16 Roger Stronstad observa em La Teologia Carismática de Lucas e em The Prophethood of Ali Believers, que assim como a unção de Jesus (Lc 3.22; 4.18) é um paradigma para o subsequente batismo do Espírito, a unção dos discípulos é um paradigma para o povo de Deus por todos os “dias posteriores” como uma comunidade carismática do Espírito, a unção profética de todos os crentes (At 2.16-21).
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