segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Lição 6 – Conselhos Gerais

Conselhos Gerais - No capítulo anterior, terminamos observando que Paulo se referia aos cuidados que Timóteo deveria ter com pessoas idosas, com jovens e especialmente com as viúvas, a quem ele destinou boa parte de seus conselhos pastorais. Em seguida, de modo aparentemente desconexo com o pensamento que seguia em sua carta, o apóstolo passa a doutrinar sobre os presbíteros, como líderes das igrejas locais, e o cuidado que os crentes devem ter para com eles, como também, outra vez, passa a dar conselhos importantes à igreja cristã sobre o relacionamento entre patrões e empregados, e para a igreja em geral.

Paulo era um fazedor de líderes. Ele se preocupava com a formação de uma liderança cristã consciente de sua grande missão, especialmente naqueles tempos, em que a Igreja de Cristo estava sendo formada. A missão dos presbíteros era de grande valor e necessidade nos primórdios da expansão da Igreja no mundo.

Face à importância da missão dos líderes nas igrejas, Paulo recomenda que os mesmos tenham a consideração e o respeito por parte da comunidade, visto que aqueles líderes deixaram sua vida profissional ou particular para se dedicarem, em tempo inteiro, à obra do Senhor. Não havia a menor ideia de estruturas que garantissem assistência material ou previdência social para o final de suas missões. Tudo era feito por fé, atendendo ao chamado divino. Ele exortou de forma direta e oportuna: “Digno é o obreiro do seu salário” (1 Tm 5.18). Seguia o ensino de Cristo aos 70 discípulos, enviados como verdadeiros evangelistas aos mais diversos lugares, quando fossem acolhidos em alguma casa: “E ficai na mesma casa, comendo e bebendo do que eles tiverem, pois digno é o obreiro de seu salário. Não andeis de casa em casa” (Lc 10.7).

Além de exortar sobre o tratamento que deveria ser dado aos presbíteros, naquelas circunstâncias e condições, Paulo passa para outro tipo de conselho pessoal a Timóteo, preocupado com sua atuação como líder com delegação para escolher outros líderes, necessários ao ordenamento da vida ministerial e organizacional da igreja. Ordena que Timóteo deve ter muito cuidado, na ordenação ou consagração de obreiros, sobre quem não se deve impor as mãos de modo precipitado (1 Tm

5.22). E revela outra faceta de um líder que, além de se preocupar com o trabalho, com a igreja, com a missão, dá valor à pessoa do liderado, ou do seu discípulo, orientando-o quanto aos cuidados com a saúde de Timóteo. Ao que parece, o jovem obreiro sofria de enfermidades no estômago, e Paulo dava uma receita caseira para aliviar seus problemas (1 Tm 5.23). Uma grande lição para os pastores-líderes de hoje.

No trecho seguinte de sua carta, Paulo volta-se para o relacionamento entre servos cristãos e seus patrões não crentes ou cristãos. E um verdadeiro preceito de relações humanas no trabalho, sob a ótica de um líder que não via só o lado espiritual dos crentes, mas seus relacionamentos e problemas de ordem humana e emocional. Em seguida, o apóstolo dos gentios demonstra sua visão ampla da vida cristã, quando exorta sobre a questão das ambições humanas, do amor ao dinheiro, e do desejo exacerbado na busca de riquezas materiais. Sem dúvida, nessa análise da carta de Paulo a Timóteo, temos muitas lições preciosas para a liderança cristã e para os crentes em geral.

I - AOS MINISTROS DE CRISTO

O apóstolo Paulo demonstrava seu cuidado e zelo pelo ministério e pelos obreiros cristãos. No texto em análise, revela seu interesse no bem-estar espiritual e também humano e social dos que se dedicam à obra do Senhor, de modo especial aqueles que o fazem com dedicação exclusiva e vivem do evangelho.

1. 0 Obreiro É Digno do seu Salário

A igreja em Éfeso enfrentava muitos problemas desde a sua fundação. As heresias gnósticas e outras ameaçavam solapar a unidade entre os crentes, mediante a semeadura de doutrinas estranhas. Ao que parece, Paulo sentiu a necessidade de doutrinar sobre o sustento dos obreiros que se dedicavam à obra em tempo integral, tendo deixado suas atividades seculares para trás. “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina” (1 Tm 5.17). Boa parte dos líderes era formada por anciãos, escolhidos pela liderança da Igreja para cuidarem do rebanho em formação. Assim como os apóstolos do Grupo dos Doze deixaram tudo para seguir a Cristo, ao longo da formação da Igreja, muitos que se convertiam sentiam o chamado de Deus para se dedicar aos misteres da obra do Senhor.

Porém, para que os líderes da igreja em seus primórdios pudessem dedicar-se à árdua tarefa de cuidar do rebanho, que crescia a cada ano, era necessário apoio financeiro para seu sustento e de sua família. Não dá para imaginar o que os primeiros obreiros do Senhor passaram na árdua tarefa de dedicar-se à obra do Senhor em tempo integral. As condições de vida para todos os que não pertenciam à “classe nobre” da sociedade eram muito difíceis. A sobrevivência dependia das contribuições, ofertas e dízimos nas igrejas. Os cristãos em geral faziam parte das classes mais humildes, pois era muito difícil um rico ou abastado interessar-se pelo cristianismo. Jesus mesmo enfatizou essa dificuldade (Mt 19.24). Mas a solidariedade cristã sempre foi demonstrada, quando as pessoas eram tocadas pelo Espírito Santo para contribuir com a igreja, incluindo a manutenção dos obreiros e de suas famílias.

É possível que Paulo tenha observado alguma dificuldade de compreensão nesse aspecto, e incluiu em sua carta a recomendação a Timóteo para que fizesse saber aos crentes que era uma obrigação cristã contribuir para as necessidades da igreja e de seus obreiros, especialmente dos que se dedicavam em “tempo integral”. E usou a figura de um “boi que debulha” (1 Tm 5.18). Esse cuidado de caráter social fazia parte das recomendações de Paulo. Aos coríntios, ele fez observações idênticas, revelando seu zelo pela manutenção dos obreiros (Ver 1 Co 9.6- 10). Ele seguia a visão de Cristo, quando enviou os setenta discípulos em missão evangelizadora. (Cf. Lc 10.7)

Esse cuidado de Paulo é legítimo. Nos dias presentes, sem a menor dúvida, é assunto que deve ser levado em consideração. Os obreiros que têm dedicação exclusiva na obra do Senhor são dignos de “seu salário”, ou de sua “renda eclesiástica”, “prebenda”, seja qual for a denominação da remuneração devida aos que se dedicam à administração da “Casa do Senhor”, na igreja local.

Paulo conclui suas admoestações à igreja de Corinto, demonstrando que os obreiros que se ocupam integralmente da obra precisam ser bem cuidados, reconhecidos e assistidos. E termina, dizendo: Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho” (1 Co 9.14 - grifo nosso). Viver do evangelho significa ter seu sustento como resultado do seu trabalho, dedicado à pregação da Palavra, ao cuidado com a igreja local, ao ensino e ao discipulado, ao aconselhamento cristão, à assistência dos enfermos e carentes, ã visitação e muito mais.

2. 0 Trato com o Presbitério

Os presbíteros, ou “anciãos”, eram os líderes das igrejas cristãs em seus primórdios. Como tais, sua missão era muito grande, e a eles deveria ser dado um tratamento diferenciado, não por serem mais importantes que os demais obreiros, mas por terem mais responsabilidades (Lc 12.48).

1) Acusação contra os presbíteros

Os presbíteros, bispos ou pastores não são isentos de falhas. Podem, de uma forma ou de outra, cometer deslizes ou pecados em suas vidas, se não vigiarem e orarem (Mt 26.41). Nenhum obreiro pode arrogar-se o direito de ser infalível. Quem pensa assim é mais vulnerável do que os que se consideram fracos e sujeitos a erros, pois estes procuram precaver-se. Porém, o apóstolo adverte para o cuidado que a igreja deve ter com relação à possível acusação contra os líderes da igreja local. E dá duas orientações importantes. Primeiro, acerca das acusações, e diz: “Não aceites acusação contra presbítero, senão com duas ou três testemunhas” (1 Tm 5.19).

Como bom conhecedor do Antigo Testamento, Paulo sabia que, na Lei de Moisés, uma acusação contra qualquer pessoa só poderia ser aceita se fosse por mais de uma testemunha (Dt 19.15).

Com base nesse preceito legal, Paulo exortou a Timóteo, para a igreja em Éfeso, que fosse observado esse critério. O Direito Romano também absorveu essa diretriz, no estabelecimento de um processo disciplinar contra alguém. Paz-se necessária a existência de pelo menos duas testemunhas (ou provas documentais ou materiais) para que uma acusação seja aceita. Do contrário, ainda que o acusado tenha praticado alguma transgressão, ao mesmo não poderá ser imputada a culpa.

Se o presbítero for culpado de algum pecado e não o confessar, por não existirem duas testemunhas, e se aproveitar disso para encobrir o seu erro, comete grande atentado contra sua vida espiritual. Primeiro, porque pecou. Depois, porque encobriu, prevalecendo-se do desconhecimento público de seu pecado. Para Deus, nada há encoberto. A Bíblia diz: “O que encobre as suas transgressões nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” (Pv 28.13). Assim, se o obreiro peca, a melhor atitude e decisão é confessar o seu pecado e abandonar a prática ilícita, ainda que venha sofrer a disciplina e a perda de suas funções. Encobrir não é a solução própria para um cristão. “Deus não tem o culpado por inocente” (Nm 14.18; Na 1.3).

2) A repreensão aos presbíteros

“Aos que pecarem, repreende-os na presença de todos, para que também os outros tenham temor” (1 Tm 5.20). Essa é uma questão sensível, principalmente nos dias presentes, quando há uma tendência para o acobertamento de faltas de líderes ou dos crentes em geral, e também a possibilidade de alguém que resolva levar os casos de disciplina à justiça comum. No comentário anterior, Paulo diz que não se deve aceitar acusação não comprovada por testemunhas. Aqui, vemos seu ensino quanto à disciplina dos que “pecaram”, ou seja, contra quem há fatos comprovados que desabonam sua conduta. Os comentaristas bíblicos, baseados literalmente no que Paulo ensinou, entendem, em sua maioria, que, uma vez comprovada a falta de um presbítero, o mesmo deve ser repreendido “na presença de todos”.

Entendemos que, se um presbítero peca, ainda que uma única vez, principalmente, sendo um líder de uma congregação ou igreja, deve ser afastado das funções, e punido com a suspensão de comunhão ou até excluído da igreja. Ao disciplinar alguém, o pastor assume o papel de juiz, de magistrado, diante de Deus. E precisa ter muito cuidado, para agir conforme “a reta justiça” e não “segundo a aparência” Jo 7.24). Esse julgamento deve ser feito criteriosamente, “diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, e dos anjos eleitos, [...] nada fazendo por parcialidade” (1 Tm 5.21).

3) A restauração de presbíteros

“A ninguém imponhas precipitadamente as mãos, nem participes dos pecados alheios; conserva-te a ti mesmo puro” (1 Tm 5.22). De um lado, há quem entenda que a “imposição de mãos” refere-se à consagração dos presbíteros. No entanto, o texto em análise não se refere a consagrações, e, sim, à disciplina dos presbíteros. O versículo 22 indica que a exortação de Paulo diz respeito à restauração dos presbíteros pecantes, diante dos quais não deve haver precipitação em restaurá-los no ministério. A expressão “nem participes dos pecados alheios” parece indicar isso. A restauração de obreiros deve ser vista como medida de alto significado cristão. O amor e a misericórdia são características fundamentais da igreja cristã. Muitas vezes, pelo cometimento de uma única falta, um obreiro é defenestrado para sempre do ministério, sem qualquer chance de ser recuperado. Dependendo de seu erro, a restauração pode ser considerada, mesmo que não seja para a direção de uma igreja, mas para o exercício de outras funções ministeriais.

De qualquer maneira, o ministério deve ter cuidado. Primeiro, para não consagrar pessoas despreparadas para o presbitério. Em segundo lugar, a igreja local precisa ter muito cuidado na disciplina ou na restauração de obreiros pecantes. Eles precisam, antes de tudo, dar provas de seu arrependimento sincero, com frutos que indiquem mudança de atitudes em sua vida. Ambas as aplicações ao texto são plausíveis.

4) Parêntese sobre a saúde

“Não bebas mais água só, mas usa de um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas freqüentes enfermidades” (1 Tm 5.23). Um pastor amoroso preocupa-se com o bem-estar de seus liderados. Paulo sabia que Timóteo era um jovem obreiro que sofria de algumas enfermidades gástricas. E fez recomendação informal sobre uma terapia alternativa para aliviar seus problemas estomacais. O apóstolo aconselha Timóteo a tomar “um pouco de vinho”, por causa de suas enfermidades gástricas. Esse texto não deve ser usado para justificar a ingestão de bebidas alcoólicas. De acordo com a Bíblia de Estudo Pentecostal, “se Timóteo tivesse o costume de beber vinho, não teria sido necessário Paulo aconselhá-lo a tomar um pouco de vinho com propósitos medicinais (ver 3.3 nota)”.1 De acordo com essa explicação, provavelmente, Timóteo teria distúrbios gástricos, devido ao álcalis na água. A alcalini- dade da água poderia ser amenizada com o uso de um pouco de vinho. No Nordeste do Brasil, essa mistura é chamada de “sangria”, feita com vinho, misturado com água, o que anula seu teor alcoólico.

Ainda de acordo com a Bíblia de Estudo Pentecostal: “O vinho usado para o estômago, de acordo com antigos escritos gregos sobre medicina, costumava ser do tipo não embriagante”. Se alguém tinha enfermidade estomacal, o escritor Ateneu declarava: “Que tome vinho doce, ou misturado com água, ou aquecido, especialmente do tipo chamado protropos (o suco de uvas antes de espremê-las), por ser bom para o estômago, porque o vinho doce (oinos) não deixa a cabeça pesada”.2 Uma fonte interessante sobre esse “medicamento” caseiro é o Comentário Judaico do Novo Testamento, que diz: “A água era muitas vezes impura, transmitindo doenças; já com o vinho, a possibilidade de acontecer isso era menor. O próprio vinho era em geral diluído em três a seis partes de água”.3

O estado de saúde de Timóteo contraria algumas heresias modernas, segundo as quais um crente fiel não pode ter doenças, pois Cristo já as levou sobre a cruz. “Eles ensinam que “todo cristão deve esperar viver uma vida plena, isenta de doenças” e viver de 70 a 80 anos, sem dor ou sofrimento. Quem ficar doente é porque não reivindica seus direitos ou não tem fé. E não há exceções. Pregam que Isaías 53.4,5 é algo absoluto. Fomos sarados e não existe mais doença para o crente. E, se o crente não for curado pela oração da fé, é por dois motivos: está em pecado, ou não tem fé!” Esse ensino tem levado muitos crentes incautos ao desespero, quando veem pessoas da família falecerem depois de orações em que é determinada a cura e o doente não resiste a enfermidade e morre.

Quanto à expiação e a cura, devemos ressaltar o seguinte:

No entanto, a salvação envolve, imediatamente, o espírito e a alma. Quanto ao corpo, não há um efeito imediato, pleno, quanto à libertação dos males decorrentes do pecado. Isso porque, enquanto o espírito e a alma (o homem interior - cf. 2 Co 4.16) são salvos no momento da confissãoa Cristo, o corpo ainda aguarda a redenção plena, conforme diz a Bíblia, sobre o gemido da criação: “E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo” (Rm 8.23 - grifo do autor).

A Bíblia diz: “No mundo, tereis aflições” (Jo 16.33). O apóstolo Paulo viveu doente (ver 1 Co 4.11; G14.13), passou fome, sede, nudez, agressões, etc. Seus companheiros adoeceram (Fp 2.30). Timóteo tinha uma doença crônica (1 Tm 5.23). Trófimo ficou doente (2 Tm 4.20). Essas pessoas não tinham fé? Estavam em pecado?4

De forma alguma. O que acontece ao ímpio, em termos físicos, humanos ou terrenos, pode acontecer ao justo. Mas graças a Deus que, ao final, na eternidade, diante de Deus, há diferença entre o salvo e o perdido (Ml 3.17,18).

II - AOS EMPREGADOS E PATRÕES

1. Os Deveres dos Servos

No Império Romano, havia poucas classes sociais. A maioria dos que se tornavam cristãos pertencia às classes mais humildes, geralmente dos plebeus, dos servos, dos escravos ou dos gentios. Mas alguns convertidos eram oriundos de classes nobres, e tinham servos a seu serviço. Como também havia servos cristãos, sob as ordens de senhores crentes ou não. Como era bem informado da situação social das comunidades cristãs, nas igrejas sob seu pastoreio, Paulo não deixou de lado a questão do relacionamento entre servos e patrões. Para os que tinham senhores não crentes, ele ensinou que “Todos os servos que estão debaixo do jugo estimem a seus senhores por dignos de toda a honra, para que o nome de Deus e a doutrina não sejam blasfemados” (1 Tm 6.1).

2. Servos de Senhores Não Crentes

Paulo era bastante cuidadoso quanto ao tratamento humano na igreja local. Escrevendo aos colossenses, ele disse: “Vós, servos, obedecei em tudo a vosso senhor segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus” (Cl 3.22). Nesse texto, ele exorta de modo geral aos servos cristãos para que obedeçam a seu “senhor segundo a carne”, sem fazer distinção da sua condição espiritual (crentes ou não). Notemos que a orientação do apóstolo é a de que os servos (ou escravos, à época) crentes se comportem, no trabalho, de forma consciente, “não servindo só na aparência, como para agradar a homens”, mas pelo fato de serem tementes a Deus. Orientação que é corroborada por Paulo, definindo um verdadeiro “princípio de ética cristã”, para a igreja de Colossos: “E, tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens” (Cl 3.23).

3. Servos de Senhores Crentes

Da mesma forma, Paulo indica o comportamento dos servos cristãos, em relação aos seus patrões crentes: “E os que têm senhores crentes não os desprezem, por serem irmãos; antes, os sirvam melhor, porque eles, que participam do benefício, são crentes e amados. Isto ensina e exorta” (1 Tm 6.2). Se em relação aos senhores não crentes os servos cristãos deveriam ter um comportamento adequado à sua fé, em relação aos que tinham senhores crentes, deveriam servir com muito mais dedicação e zelo, pelo fato de serem “crentes e amados”. Esse ensino deve ser observado por todos os cristãos, em todas as igrejas. Devem respeitar e honrar todas as pessoas, mesmo as descrentes. Porém, têm o dever de dar prioridade e consideração aos que são irmãos em Cristo, sejam senhores, sejam servos ou empregados.

O texto em apreço trata do comportamento dos servos ou empregados cristãos perante seus patrões. Mas cremos ser oportuno lembrar que os senhores ou patrões crentes em Jesus devem ter comportamento ético compatível com a ética cristã.

III - CONSELHOS GERAIS

1. Aos que Não Respeitam a Sã Doutrina

A sã doutrina é o conjunto de ensinos proferidos por Nosso Senhor Jesus Cristo em sua fonte primária, que são os Evangelhos. Ainda que haja as chamadas “variantes textuais”, em que um escritor inseriu alguma expressão que não consta dos originais, os Evangelhos merecem credibilidade por se tratarem de relatos e escritos, considerados com consistência e autenticidade como inspirados pelo Espírito Santo. Em primeira mão, é deles que podemos extrair a “sã doutrina”. Ao lado dos Evangelhos, há também os ensinos dos apóstolos de Jesus, em suas epístolas, as quais também merecem crédito, “porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pe 1.21).

Porém, como acontecia na igreja em Efeso, sempre houve algum ensinador, “mestre” ou “doutor”, que resolveu ministrar ensinos “diferentes”, “inovações doutrinárias”, muitas vezes “espetaculares”, que, em vez de edificar, causam confusão no meio dos crentes.

Paulo considera tais ensinadores de falsas doutrinas como soberbos, presunçosos, que acham que são mais entendidos que os demais obreiros, promotores de contendas. Invejosos, que difundem blasfêmias, corruptos, que acham que “a piedade seja causa de ganho”.

2. Aos que Desejam Riquezas Materiais

Após mostrar que os que não obedecem à Palavra de Deus são soberbos, invejosos, causadores de dissensões e oportunistas, que querem que “a piedade seja causa de ganho”, Paulo acrescenta ensinamento importante sobre a vida cristã ou “a piedade”. “Mas é grande ganho a piedade com contentamento. Porque nada trouxemos para este mundo e manifesto é que nada podemos levar dele. Tendo, porém, sustento e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes” (1 Tm 6.6-8). De fato, a vida cristã só tem sentido se o crente viver com contentamento, alegre e feliz, na presença do Senhor. Paulo lembra que “nada trouxemos para este mundo” e “nada podemos levar dele”. E a mesma visão que Jó teve séculos antes, quando, em meio à sua tribulação terrível, exclamou: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1.21).

A carta de Paulo a Timóteo dedica espaço bem significativo aos que buscam riquezas, com advertências que devem ser consideradas por todos os que querem viver segundo os princípios cristãos:“Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína. Porque o amor do dinheiro é a raiz de toda espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé e se traspassaram a si mesmos com muitas dores” (1 Tm 6.9,10).

Quando a riqueza do crente é fruto de trabalho honesto, digno, que glorifica a Deus, certamente é uma riqueza que é fruto da bênção do Senhor. Mas Paulo se refere aos “que querem ser ricos”, ou que vivem buscando bens materiais, acima dos bens espirituais, que não dão valor às coisas de Deus. São como o rico da parábola, de quem Jesus disse: “Assim é aquele que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus” (Lc 12.21).

Nesse texto, o apóstolo enfatiza que “o amor do dinheiro”, ou melhor, “o amor ao dinheiro” é “a raiz de toda espécie de males”. À primeira vista, parece um exagero. Mas o amor ao dinheiro, ou a avareza, tem contribuído para muitas misérias morais e sociais. E pelo amor ao dinheiro que os inescrupulosos agem de má fé, prejudicando a tantas pessoas.

Os pastores, que usam o púlpito, ou a mídia, para praticarem “propaganda enganosa”, “vendendo” milagres e curas, são corruptos, e o fazem por amor ao dinheiro.

Mas vale salientar que Deus jamais divinizou a pobreza, nem jamais demonizou a riqueza. Mas a Palavra de Deus encara a busca pelas riquezas como fator de empecilho ao melhor relacionamento com Ele. Jesus foi realista quando disse: “E outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus” (Mt 19.24).

O Mestre não disse que é impossível um rico ser salvo. De forma alguma. Mas acentuou que é difícil. Não por causa da riqueza em si, mas pela atitude mental que a maioria dos ricos tem em relação à vida espiritual. A riqueza faz muitos se sentirem autossuficientes, orgulhosos, arrogantes e confiantes no poder econômico e financeiro. Os bens materiais propiciam mais oportunidades para uma vida desregrada. Haja vista o desperdício de dinheiro na prostituição, no adultério, nos jogos, nos vícios e em tantos prazeres humanos e passageiros da vida.

3. Conselhos aos que São Ricos

1. A esperança vã nas riquezas

O ensino de Paulo é prescritivo em relação aos que já são ricos, alertando que as riquezas são incertas. “Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos” (1 Tm 6.17).

2. A prática do bem

No mesmo trecho de sua carta, Paulo acrescenta outros conselhos sábios em relação ao comportamento do crente que possui riquezas, mesmo concedidas por Deus. Ele diz que tais pessoas “façam o bem, enriqueçam em boas obras, repartam de boa mente e sejam comunicáveis” (1 Tm 6.18). Fazer o bem é resultado do fruto do Espírito chamado de “benignidade”, a qualidade de quem faz o bem. As boas obras não salvam ninguém (Ef 2.8,9), mas são necessárias ao bom testemunho cristão; fazem parte da vida cristã; um salvo deve enriquecer “em boas obras”. E serem generosos para com os menos favorecidos. Isso fala de altruísmo, ou seja, a preocupação com os outros, em oposição ao egoísmo, que leva o homem a pensar primeiro em si próprio. A igreja que só prega o evangelho com palavras pode perder influência no meio em que se encontrar. O evangelho integral é aquele que proclama a palavra (Kerigma), mas pratica a diaconia, ou o serviço cristão em favor do próximo. A diaconia foi criada em função do atendimento aos problemas sociais na Igreja Primitiva (At 6).

3. 0 bom tesouro do crente

“[...] que entesourem para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam alcançar a vida eterna” (1 Tm 6.19). Entesourar “bom fundamento” significa a prática de bom testemunho e ações de caráter cristão, que são base para um futuro sólido, fundamentado nos princípios cristãos. O crente sábio não entesoura para esta vida, mas para a futura (Mt 6.19-21). Se alguém põe o seu coração nos recursos materiais, seu tesouro está nisso. Em coisas vulneráveis, sujeitas às instabilidades dos bens materiais. Mas, se poe seu coraçao nas coisas que são de cima” (Cl 3.1,2), tem uma riqueza espiritual, eterna.

CONCLUSÃO

Neste capítulo, vimos como Paulo era cuidadoso em sua missão pastoral. Ele se preocupava com diversos assuntos, de interesse da igreja, de sua liderança e de seus membros. Deu especial importância à manutenção dos obreiros, discorreu sobre a questão da disciplina dos líderes, especialmente dos presbíteros que vierem a falhar. De forma bem clara, doutrinou sobre o relacionamento humano, na igreja local, entre servos e senhores. É uma das marcas relevantes da teologia pau- lina o cuidado com as relações humanas entre cristãos e não cristãos. E conclui o texto, dando orientações sobre o trato com os bens ou recursos materiais. São conselhos tão sábios que devem ser observados mesmo nos dias presentes, quando esperamos a volta de Jesus.

1 CPAD. Bíblia de estudo pentecostal. Nota de rodapé 1 Tm 5.23. p. 1872.
2 Ibidem, p. 1872.
3 David H. STERN. Comentário judaico do Novo Testamento, p. 700.
4 Elinaldo Renovato DE LIMA. Perigos da pós-modernidade, p. 106, 107.
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