segunda-feira, 19 de abril de 2010

O TIÇÃO TIRADO DA FOGUEIRA

"... e vós fostes como um tição arrebatado da fogueira; contudo, não vos convertestes a mim, diz o Senhor" (Amós 4:11).
Nestes dias de balanço de minha vida, andei me lembrando do meu sermão de prova para licenciatura, pregado perante o antigo Presbitério de Leste, numa de suas reuniões na Terceira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo. Foi em janeiro de 1965, quando eu estava prestes a completar meus quarenta e três anos. Canhestramente, preguei sobre a experiência de Isaías no templo, quando foi comissionado para profetizar (Is 6:1-8). Aquele "envia-me a mim" não foi por mim cumprido, a não ser por doze anos do meu ministério. Desviei-me para o ensino e a ele me dediquei até hoje. Contudo, é Deus quem julga.

Hoje, lembranças do passado juntam-se comparativamente aos acontecimentos do presente, em que uma espécie de terror cósmico funciona como pano de fundo de fatos políticos e sociais ameaçadores para o futuro do planeta. Falamos em paz e temos guerra, falamos em prosperidade e somos amedrontados por possível catástrofe que comprometerá a sobrevivência da humanidade. Debates intensos sobre questões éticas e morais como aborto voluntário, eutanásia, células-tronco, clonagem e maioridade penal são insistentes nos meios de comunicação. Coisas estas que envolvem todos os segmentos da sociedade, desde indivíduos até corporações representativas, como partidos políticos, associações diversas e, principalmente, religiosas.

Desde o passado mais remoto, a religião é considerada como fundamental para as instituições de qualquer sociedade, nação, ou qualquer comunidade humana. Assim já afirmara, num passado distante, o conhecido historiador francês Fustel de Coulanges em sua célebre obra A Cidade Antiga (1864). Mas, onde está a religião diante do que está acontecendo no mundo e no Brasil?

Os jornais e a televisão noticiam todos os dias atos da sociedade e do Governo que bem merecem, ou mesmo exigem, pronunciamentos serenos e, em alguns casos, enérgicos, dos segmentos sociais responsáveis pela moral e pela ética e, neste caso, principalmente as igrejas cristãs. Mas, onde estão elas? A igreja ainda hegemônica, tanto numérica quanto culturalmente, a Igreja Católica, se limita a tímidos pronunciamentos enquanto usa o aparelho do Estado para subvencionar inconstitucionalmente a visita do papa com montante de recursos não revelado. Leia-se, com a contribuição dos muitos que não são católicos. Por isso, para ela não interessa entrar em choque direto com o Estado. Para completar cria, com a canonização de um mais um santo, mais uma respeitável fonte de riqueza com o futuro turismo religioso em Guaratinguetá- SP. A Igreja venderá velas e uma profusão de pílulas e medalhinhas milagrosas através do intenso comércio que se estabelecerá, ao mesmo tempo em que multidões encherão hotéis e restaurantes da cidade. Por outro lado, para vergonha dos evangélicos, apóstolos e bispas são presos por crime de malversação de dinheiro. Este é um exemplo do que ocorre em outras igrejas do mesmo gênero. Por outra porta, o Estado subvenciona de maneira absurda competições esportivas, como o próximo Pan-Americano no Rio de Janeiro, assim como já anuncia imensos gastos com a Copa do Mundo em 2014.

Há cristãos sinceros e honestos em todas as igrejas, inclusive católicos, que lançam protestos contra a repressão de teólogos, como o caso recente do jesuíta salvadorenho Jon Sobrino, disciplinado pelo Vaticano, cerceado portanto em sua liberdade de pensamento. Muitos evangélicos tradicionais também devem estar incomodados com a inércia de suas igrejas diante do caos moral do País.

Mas, e as igrejas onde estão? Estão tirando tições da fogueira, isto é, envidando esforços para atrair pessoas dos perigos do mundo para o seu abrigo seguro, longe da desordem que o assola. As igrejas inverteram o vetor de sua missão: em lugar de ir para o mundo como fermento e sal da terra (Gl 5, 9; Mt 5, 13), encolhem-se como fins em si mesmas. Escondem o fermento e o sal do Reino de Deus como um tesouro particular.

Não estaria na hora de as igrejas evangélicas históricas se unirem para assumir posição diante dos desafios do nosso tempo e, particularmente, do nosso País? Estariam acomodadas na irrelevância??

Autor (A): Antonio Gouvêa Mendonça
Antonio Gouvêa Mendonça é Professor Emérito do Programa de Mestrado e Doutorado em Ciências da Religião - UMESP. E Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Univ. Presb. Mackenzie - São Paulo. E-mail: agmendonca@mmol.com.br

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