quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A ''fé em cristo'', mas sem obediência a ele, pode salvar alguém? - Uma análise de Tiago 2.14-26

Neste trabalho, o autor realizará uma exegese do texto de Tiago 2.14-26, objetivando aplicá-lo à realidade da Igreja Evangélica de hoje. Será discorrido que o conceito de “obras”, neste texto de Tiago, se refere ao estado de obediência ao Senhor, por parte de Seu discípulo, já que esta obediência, segundo Tiago, é a comprovação da existência da verdadeira fé salvadora em Cristo. Além do mais, a inexistência da manifestação das obras que são esperadas na vida das pessoas, que alegam terem fé salvadora em Cristo, é a prova de que se trata de uma fé morta.

PALAVRAS-CHAVES
Fé; Obras; Obediência; Arrependimento; Conversão ao Evangelho.

1 INTRODUÇÃO
Na maioria das igrejas evangélicas brasileiras da atualidade, tem se tornado comum a substituição do apelo evangelístico durante a realização dos cultos (quando o evangelho é pregado, apresentado ao visitante que ele é pecador, que necessita se arrepender de seus pecados e se sujeitar ao senhorio de Jesus Cristo), por convites para a participação das programações religiosas da igreja, cuja ênfase se concentra na obtenção da vitória, da prosperidade financeira e do desfrutar de altos padrões de vida social.

A impressão que se tem, ao visitar as igrejas ou ao assistir aos programas evangélicos pela TV ou Rádio, é que não é mais necessário ao pecador que ele se arrependa de seus pecados e entregue sua vida ao Senhor Jesus, restaurando assim um relacionamento quebrado pela Queda1 , de acordo com Gênesis 3.

Por sua vez, um conhecido pregador neopentecostal anunciou pelo programa transmitido pela TV, que a igreja estaria realizando a “campanha da vitória”, pela qual, muitos milagres e maravilhas seriam efetuados pelo Senhor e que bastaria que qualquer pessoa, seja ela católica, evangélica, espírita ou de outra religião (e mesmo a sem religião nenhuma), participar da campanha, que receberia de Deus muitas bênçãos e a solução para os problemas da sua vida.

Por causa desta nova postura por parte dos pregadores, diante daqueles que estão ouvindo sua mensagem, muitos que acreditam que são convertidos ao Jesus verdadeiro, estão enganados (ou se auto-enganando) quanto à sua verdadeira salvação, já que o seu viver diário é bastante deficiente no que se refere à obediência às Escrituras.2

Neste tipo de “evangelização”, os visitantes das igrejas que adotam essas práticas, são ensinados que, para ser salvo, bastaria “ter fé em Jesus” e participar de suas campanhas (que geralmente envolvem doações de dízimos e ofertas)3 . Em outras palavras: basta simplesmente mudar da religião que façam parte, para a evangélica.

Porque essas pessoas creram num Jesus estranho ao Novo Testamento (NT), elas não passaram pela indispensável experiência da transformação de vida que o Espírito produz e, com isso, estão impossibilitadas de terem um comportamento de vida (principalmente fora da igreja) que expresse as características de ser fiel àquilo que a Palavra de Deus determina para alguém nascido dEle (não satisfazer a sua natureza humana pecaminosa e produzir os frutos do Espírito Santo).

O texto que será analisado (Tiago 2.14-26), apesar de ser mais conhecido como o que aborda o dilema da “Fé x Obras” (que alguns acreditam erroneamente que, para ser salvo, é necessário além de ter fé em Cristo, praticar boas obras), na realidade é uma poderosa advertência que Tiago dá acerca da necessidade daqueles que não estão produzindo no seu viver diário as obras de uma nova criatura em Jesus, para que se arrependam de seus pecados e se convertam verdadeiramente, por mais que creiam que já sejam convertidos ao Senhor.

São as obras praticadas pelo ser humano que revelam o tipo de natureza constituinte do seu interior: um coração regenerado pelo Espírito Santo ou não. Na verdade, este é um típico texto evangelístico, mas para os membros das igrejas!

Antes, porém, far-se-á uma análise mais cuidadosa deste texto de Tiago, observando os princípios básicos de hermenêutica4 para que se entenda o que Tiago pretendia que os leitores originais de sua carta e os de hoje, compreendessem e obedecessem.

Para isso, é preciso permitir que o autor de Tiago “fale livremente”, sem lhe impor os pré-conceitos teológicos vigentes nas igrejas, mesmo que a sua mensagem confronte os interesses, as práticas e os valores da sociedade pós-moderna.

2 QUESTÕES HERMENÊUTICAS INTRODUTÓRIAS
Segundo os especialistas em hermenêutica, para se interpretar corretamente um texto bíblico é necessário então procurar entender primeiro o que ele diz, depois, o que quer dizer e, por fim, como se aplica aos leitores atuais . Para isso, deve-se então fazer algumas perguntas introdutórias, a fim de que as respostas forneçam instrumentos para que auxiliem na interpretação do texto:
a) autoria: quem escreveu a carta?

b) por quê?

c) para quem?

d) quando foi escrita?

e) qual é a sua estrutura de assuntos e, especificamente, qual a estrutura literária do texto que está sendo analisado (Tg 2.14-26)? 6

São perguntas aparentemente sem maior necessidade de serem respondidas, para aqueles que simplesmente desejam ler a Bíblia. Todavia, elas são ferramentas básicas, simples e que muito auxiliarão, com a ajuda do Espírito Santo, para uma melhor interpretação do texto. Exige um pouco de disciplina, mas que é bastante compensador, afinal, lê-se em Provérbios 2.4 e 4.7, da necessidade de algum esforço para se extrair as riquezas espirituais da Palavra de Deus!

2.1 Autoria: quem escreveu a carta?
Apesar de logo no início da carta (Tg 1.1) já existir o nome do seu remetente, por incrível que pareça, não há unanimidade entre os eruditos do NT sobre quem é esse Tiago. Existem argumentos a favor e contra de que se trata de um Tiago desconhecido7 , de um autor desconhecido8 , de um primo de Jesus9 ou do irmão do Senhor 10. De todos os argumentos apresentados, os mais convincentes são os que fundamentam a teoria de que foi Tiago, irmão do Senhor que, pela inspiração do Espírito, escreveu esta carta.

Sendo de fato este Tiago (irmão de Jesus), isso explica, em parte, porque a sua carta possui algumas características incomuns em comparação com outras epístolas do NT:

a) Ela é a que possui a maior proporção de imperativos por versículos em todo o NT grego (mais de 51,0%).

b) Ela não foi redigida como normalmente eram as cartas da época. Ela parece mais uma coletânea de exortações agrupadas sem muita dependência lógica. Foi Martinho Dibelius quem primeiro classificou a carta como sendo parenética . Para Songer , uma das características da organização parenética11 era de “colocar em frouxa organização uma série de exortações sem qualquer preocupação para desenvolver um tema ou linha de pensamento no decorrer de toda a obra.”

c) O seu autor fala, repreende, ordena, exorta com autoridade reconhecida, dando a entender que os seus leitores iriam obedecê-lo. Parece muito com a maneira como o Senhor Jesus se dirigia aos discípulos! De fato, existe muita similaridade de pensamento entre ele e o Senhor , a ponto de certo autor afirmar: “Se João reclinou-se no colo do Salvador, Tiago sentou-se aos Seus pés.”

d) Esta carta é extremamente prática, objetiva e direta em suas colocações (“Sede praticantes da palavra”; ”Adúlteros, vocês não sabem que...”; “Não falem mal uns dos outros...”).

e) Ela é universal, ou seja, não foi escrita para uma igreja específica (como Efésios, por exemplo) ou para uma determinada pessoa (como Filemom).

f) Pela sua forte crítica a exploração econômica dos pobres, por parte dos ricos (na realidade ele e Jesus, em todo o NT, são os únicos que se pronunciam contra os ricos!)16 , alguns inclusive, comparam Tiago com o profeta Amós do Antigo Testamento (AT)! 17

Portanto, o texto de Tiago 2.14-26 necessita ser interpretado sendo observadas essas características de seu autor: era irmão do Senhor Jesus, tinha autoridade respeitada pela Igreja da época e proclamava a sua mensagem de modo muito parecido com o Senhor: direto, preciso e exortando ao arrependimento e mudança de vida, para a glória do Senhor.

2.2 Por quê?
Segundo Davids (1997, p. 28), o motivo pelo qual esta carta foi escrita era que:

a igreja de Tiago vivia no meio desse mundo [conturbado] que entrava em colapso (...) os crentes sentiam-se oprimidos. Em seu sofrimento, tinham a tendência de imitar o mundo e tentavam obter poder dentro da igreja (...) Tiago detecta um mundanismo generalizado, a despeito da boa freqüência aos cultos (...) e que ele procura corrigir com uma carta severa.
Já que a cultura da dissimulação, ou seja, o aparentar ser algo, apenas para se usufruir dos benefícios que a imagem virtuosa proporciona, era uma prática bastante comum na sociedade da época da igreja primitiva (ver as duras repreensões que Jesus fez contra essa prática, por parte dos escribas e fariseus, em Mateus 23.1-36), e Tiago, percebendo essa influência pecaminosa se infiltrando na igreja, adverte seus membros para não se enganem (Tg 1.22) e analisem se a fé que professam ter no Senhor Jesus, a mesma é comprovada através de uma vida em obediência as Escrituras. Se não, trata-se de uma “fé morta”!

2.3 Para quem?
“Às doze tribos dispersas entre as nações” é o que diz também no primeiro versículo de Tiago 1. Mas, o que isso significa realmente? Novamente, apesar de parecer óbvia esta identificação, não há um consenso total entre os eruditos do assunto sobre quem eram essas tribos.

Na época de Tiago não existiam mais as doze tribos de Israel, conforme a sua divisão física encontrada no AT18 . Diante dos argumentos apresentados pelos comentaristas, a conclusão mais convincente é que se tratava inicialmente de judeus cristãos espalhados pelo mundo na época do autor, mas cuja aplicação deveria ser ampliada para as igrejas cristãs, em qualquer época e local, mesmo para as igrejas brasileiras no contexto da pós-modernidade19 .


2. 4 Quando foi escrita?
As evidências indicam que esta carta é o mais antigo documento do NT que se dispõe20 . Compilado mesmo antes dos evangelhos. Ela dá uma ideia de como era o mundo antigo e a igreja primitiva, que possuía muitas fraquezas 21. Possivelmente foi escrita em meados do 1o século da era cristã (entre os anos 50 e 60 d.C.).

Talvez seja por isso que Tiago não faça nenhuma alusão a qualquer outro livro do NT , embora tenha bastante porções do AT .

Sendo assim, a teologia de Tiago acerca das características do que é ser uma nova criatura em Cristo, tema tão bem delineado na teologia de Paulo (2 Co 5.17; Gl 6.15; Ef 4.24; Cl 3.10), é bastante elementar (mas não inferior ou deficiente), devido, entre outros fatores, às circunstâncias de sua escrita.

Para Tiago, ser uma nova criatura em Cristo, é ter sido gerado pela palavra de Deus (1.18), por causa disso, o discípulo torna-se obediente a essa palavra (1.22); conseqüentemente, ele demonstra em seus relacionamentos interpessoais (3.13), as obras da sabedoria do alto (3.17-18)24 .

Por fim, quando todas essas características descritas acima por Tiago, estão presentes na vida daquele que diz que tem fé salvadora no Senhor, isso significa que é uma fé verdadeira (2.18) e que ela está sendo confirmada por meios dessas obras.

2.5 A Estrutura Literária
Tiago não possui uma estrutura, onde os assuntos tenham uma conexão e sequência lógicas para a cosmovisão moderna ocidental. Existem vários modelos criados pelos estudiosos. Logo, não existe um modelo de estrutura literária “única e verdadeira”. Entretanto, o esboço de John Stott (1996, p. 124-125) é relativamente coerente e que parece transmitir a essência da mensagem desta carta.

Segundo Stott, na concepção de Tiago, os três pilares da vida cristã são (baseados em 1.26-27):

1) “Refrear a língua” – tratado no capítulo 3;

2) “Visitar os pobres e as viúvas nas suas dificuldades” – abordado no capítulo 2;

3) “Guardar-se incontaminado do mundo”- explanado nos capítulos 4 e 5.

2.5.1 A estrutura literária do capítulo 2
Uma outra característica interessante em Tiago é o choque que a sua mensagem produz entre aquilo que é com aquilo que deve ou não ser. Em várias partes da carta, o autor descreve o que estava sendo (ou acontecendo) na igreja e ordena aquilo que deve ou não ser (ou acontecer). Alguns exemplos:
a) Os leitores devem se alegrar nas tribulações, porque de fato não estavam se alegrando (1.2-4);

b) Quando forem tentados a pecar, não devem atribuir a causa da tentação a Deus, porque assim é que estavam fazendo (1.13-15);

c) Não devem fazer acepção de pessoas, porque assim estavam fazendo (2.6,9);

d) Devem ter uma fé verdadeira em Cristo25, que produziria neles um andar em novidade de vida (que incluía também o amor ao próximo), porque, na realidade, alguns estavam se enganando, achando que uma fé teórica (ou morta, sem obras, incluindo falta de amor para com o próximo) era suficiente para a salvação. Esse é um dos temas de “choque” de que trata o segundo capítulo de Tiago.

3 O QUE DIZ E O QUE QUER DIZER O TEXTO DE TIAGO 2.14-26?
No versículo 2.14, Tiago faz uma pergunta que revela a sua teologia acerca da verdadeira fé: “De que adianta...?" (grego ofelos, “qual o lucro”, “qual a vantagem”, “qual o benefício”, “qual o proveito”) 26, dando a entender que esse tipo de fé (sem obras) é teórica, abstrata, imaginária ou inexistente . Para Tiago é um absurdo alguém dizer que tem fé e ao mesmo tempo não tem as obras derivadas desta fé27 .

É interessante o paralelo de ideias entre Tiago e o Senhor Jesus em Mateus 7.21-23, onde Ele também alerta àqueles que o ouviam, que não tem proveito algum (para o seu presumido discípulo) chamá-Lo de “Senhor”, se não tiver existindo uma obediência correspondente a Ele29 . Tiago não está exortando os seus leitores para acrescentarem à fé (que alegam possuir) boas obras, para então serem salvos. Neste versículo, ele está chamando a atenção para eles se auto-analisarem, se a vida cristã do dia-a-dia estava revelando as características de serem uma nova vida em Cristo. Sendo afirmativa a resposta, então eles possuíam a fé verdadeira. Se não, então que se arrependessem e se convertessem verdadeiramente ao Senhor Jesus! 30

Dos versículos 2.15 a 17, a dedução é obvia: da mesma forma como meras palavras aparentemente piedosas, contudo, desacompanhadas de atitudes piedosas, não têm nenhum proveito para uma pessoa necessitada, assim também, uma fé em Deus que não está sendo traduzida em atitudes de obediência a Ele, significa que é uma fé morta e que não trás nenhum benefício para aquele que a possui!31 A tensão aqui é entre aquilo que se declara ser e aquilo que de fato está sendo. Comentando acerca deste tipo de fé, Songer diz: “Fé, aqui, é usada para dar a entender o tipo de crença em Deus que uma profissão sem obras acarreta.” (1990, p. 141). A diferença aqui não é entre fé e obras, mas entre fé “com obras” e fé “sem obras.” 32

Nos versículos 2.18 a 19, ele continua reforçando o que já disse sobre a verdadeira fé.33 O autor desafia para que se tente mostrar34 a ele uma fé sem (no grego, chôris, “à parte de”, “separadamente”,) as obras, querendo dá a entender de se trata de uma possibilidade concreta impossível.

Tiago também chega a “pegar pesado” quando utiliza a ilustração dos demônios. Eles crêem em Deus, mas não Lhe obedecem voluntariamente (não têm obras). Ou seja: Tiago diz que mostra que a sua fé em Deus é verdadeira, pelas obras de obediência a Ele.35

No trecho de 2.20-25, ele cita dois conhecidos exemplos bíblicos entre os judeus para ilustrar o seu ensino. A tônica é a mesma: a fé que Abraão e Raabe possuíam no Senhor foi comprovada (a sua existência) pela obediência a Ele em seus respectivos contextos.36 Comentando o versículo 22, Fritz Rienecker & Cleon Roger (1997, p. 542) cita o texto em que Bengel diz “A fé mesma é ‘aperfeiçoada’, isto é, é demonstrada verdadeira, pelas obras.” Ou seja, a fé que eles possuíam no Senhor foi aperfeiçoada (demonstrada como realmente existindo) pela obediência a Ele naquilo em que a mesma foi exigida.

Na realidade, no versículo 2.20 Tiago dá o seu “puxão de orelha” mais forte no leitor, que alegava que tinha fé em Deus e achava que era salvo, embora não estivesse produzindo as obras de um verdadeiro filho de Deus. Ele o chama de “insensato” (grego kenos, “vazio”, “sem base”, “tolo”, “vão”).37 Não se trata de erro intelectual, mas moral.38

Comentando sobre esse leitor insensato, Moo (1996, p. 106) diz: “É provável que indique uma compreensão deficiente e perversidade moral”. Parece que para Tiago não adianta alguém ter conhecimento teórico sobre Deus (fazer confissões de fé ou crer em determinada declaração doutrinária, por exemplo) 39 e possuir uma conduta de vida moral e eticamente contrária aos ensinos das Escrituras. Se isso está ocorrendo, alerta Tiago, como já foi dito, deixe a insensatez, arrependa-se e creia verdadeiramente no evangelho de Jesus Cristo, para que seja regenerado pelo Espírito Santo (Tt 3.5) e produza os Seus frutos na vida cristã (Gl 5.22-23)!

No versículo 2.26, ele então finaliza40 o seu argumento, reforçando o que vem dizendo desde o versículo 2.14, ao utilizar uma analogia interessante:

• Corpo sem Espírito = Corpo Morto
• Fé (em Jesus Cristo) sem Obras (sem obediência a Deus) = Fé Morta
A conclusão para Tiago é categórica: assim como é impossível existir um corpo vivo sem o seu espírito, assim também é impossível existir uma fé viva sem as suas obras decorrentes, ou seja: submissão ao Senhorio de Cristo, demonstrada através da obediência aos mandamentos das Escrituras.

4 COMO ESTE TEXTO SE APLICA À IGREJA HOJE?

No versículo 1.22, Tiago exorta para que seus leitores sejam regularmente41 praticantes das Escrituras e não apenas ouvintes. E isso se refere ao trecho que foi analisado.

Para que seja praticada corretamente (ou aplicada) a Palavra de Deus, é necessário que antes de sua prática, ela seja interpretada corretamente. Quanto à interpretação do texto, isso foi realizado no capítulo anterior. Agora será elaborada a aplicação desse texto.

a) Tiago alerta para evitar o auto-engano: por toda a história do ser humano registrada na Bíblia, o Senhor tem freqüentemente chamado à atenção, seja do povo de Israel (Jz 2.1-5; 6.8-10; 10.11-16; 1 Sm 7.2-4; Is 58; Jr 3.11-18; Jl 2.12-17), das nações vizinhas (Jr 43.8-13; 47; 48; 49; 50), de Sua igreja (Tg 4.7-10; Ro 12.1-2; Ap 2.5, 16, 21, 22; 3.3, 19) ou mesmo dos não convertidos ao evangelho (Mt 4.17; Mc 1.15; At 2.38; 3.19; 17.30; 26.20), da suprema necessidade do arrependimento de pecados e da obediência a Ele, conforme os mandamentos das Escrituras.

Tiago faz eco desta prática divina (chamar ao arrependimento) ao sacolejar e despertar seus leitores para que estes não se enganem, pensando que estão salvos da condenação eterna, por crerem em Deus teoricamente ou mesmo em várias verdades bíblicas acerca Dele, embora continuem a viver a vida do dia-a-dia como a sua natureza humana pecaminosa se dispõe. 42 Ele chama este tipo de fé de “morta”, “sem proveito” ou “inútil” para o seu possuidor.

Segundo Tiago, a “fé em Deus” não pode ser utilizada para que a pessoa se esconda de Deus atrás dela e a use como instrumento camuflador de sua vida de pecado.

Como bem comentou Ulrich Parzany: 43

O novo modelo de religião disfarçado de cristianismo [o cristianismo nominal] é uma imunização contra a fé verdadeira. Religião é o caminho mais forte para proteger o homem de Deus [...]. Muitos simplesmente adotam uma religião para se sentirem bem e tirar Deus de suas costas. Esse tipo de cristianismo é uma ameaça muito mais forte para a igreja do que o ateísmo.
Para o ser humano, não existem atalhos nem caminhos alternativos para o arrependimento e sujeição a Cristo como Senhor. Está mais que explícito, em toda a Escritura, que o homem é pecador (Gn 6.5; Sl 51.5; Ro 3.10-18), desobediente a Lei do Senhor, rebelde para com Ele (Ro 1.28-31) e sujeito ao maligno (Ef 2.2; 1 Jo 5.19). O seu destino final será o inferno (Ap 20.15), caso não se arrependa de seus pecados e se converta a Jesus Cristo.

Todas as pessoas, mesmo as que vivem hoje na pós-modernidade, herdaram de Adão e Eva a natureza pecaminosa e que, por causa disso, são separadas do Deus Santo. O problema da inimizade permanente do ser humano para com Deus, por causa do seu pecado, não será resolvido da forma que seja agradável a pessoa, mas do modo como o Senhor estabelece em Sua Palavra.

Por isso, quando alguém que foi eleito por Deus, se arrepende de seus pecados, crê verdadeiramente em Jesus Cristo como Senhor e Salvador, se sujeitando integralmente a Ele, acontece o seguinte (não necessariamente nessa ordem):
a) os seus pecados são perdoados (Cl 2.15; 1 Jo 1.9; 2.12);

b) tem paz com Deus e é justificada pelo Senhor (Ro 5.1);

c) o Espírito Santo passa a morar nela e a transforma numa nova criatura, à imagem moral de Jesus; o coração de pedra do ser humano é transformado para um de carne, obediente ao Senhor (Ez 36.26-27; Ro 8.29; 2 Co 3.17-18; 5.17; Tt 3.4-6);

d) é liberto do poder do império das trevas (Cl 1.13-14) e do poder do seu pecado (Ro 6.14, 22; Ap 1.5);

e) o seu nome é escrito no livro da vida (Ap 20.15; 21.27);

f) passa a amar o seu próximo (Gl 5. 22-23; 1 Jo 3.14; 4.7-8);

g) porque o seu caráter está sendo transformado gradativamente pelo Espírito Santo (2 Co 3.17-18), ele passa ter uma prática de vida social diferente para melhor (Ef 4.17-24; Cl 3.5-10; 1 Pe 1.13-16).

h) tem como maior aspiração da vida o negar-se a si mesmo e seguir fielmente a Jesus (Mt 16.24-25), fazendo a vontade do Senhor em cada momento de sua vida (Jo 4.34; 6.38) e isso inclui, inexoravelmente, se reunir regularmente com outros discípulos, em um mesmo local (igreja), para adorá-lo e obedecer a sua vontade (At 2.42-47);

i) procura conduzir a sua vida em santidade (1 Ts 4.3-8), evita amoldar a sua mentalidade àquela que é padrão no mundo alheio aos valores do Reino de Deus (Ro 12.1-2) e é zeloso em praticar boas obras (Ef 2.10; Tt 2.14).

O que está descrito nas alíneas de “a” a “i” acima é o se tornar uma nova criatura, conforme Paulo ensina em 2 Coríntios 5.17 e, de acordo com Tiago 2.14-26, é a comprovação concreta e objetiva, que a pessoa teve a verdadeira fé salvadora em Cristo.

No NT, ser uma nova criatura, regenerada pelo Espírito Santo, nunca é sinônimo de uma simples mudança de religião (sair do “judaísmo” para a religião “cristã”), nem muito menos do descrente no evangelho, passar a participar das atividades religiosas das igrejas (cultos, campanhas, celebrações, shows ou espetáculos), mas sim, trata-se de um encontro com Deus, onde o pecador reconhece o seu pecado, se arrepende do mesmo e se submete ao senhorio de Jesus Cristo por toda a sua vida.

O se tornar uma nova criatura em Jesus Cristo, é uma transformação radical produzida pelo Espírito Santo e que o homem não convertido ao Evangelho nem deseja, nem pode realizar por força própria. Biblicamente, as atitudes, comportamentos, crenças, valores, cosmovisões e práticas de vida, de natureza regenerada, só podem ser oriundas de uma natureza humana regenerada pelo Senhor (Dt 30.6; 1 Sm 10.6; Is 59.21; Jr 24.7; Ez 11. 19-20; 36.26-27; Mt 7.15-20; 12.33-35).

CONCLUSÃO
Se o versículo 2.14 fosse parafraseado e estendido às várias aplicações na realidade das igrejas evangélicas da atualidade, poder-se-ia perguntar:

a) Que adianta alguém dizer que “entregou a sua vida a Jesus”, mas continua na prática costumeira de pecados tais como: mentira, desonestidade, impontualidade nos compromissos (principalmente nos cultos), consumismo, exploração econômica do próximo, “colar” nas provas escolares, falar mal e julgar os outros; tem mais prazer e interesse nas coisas do mundo (consumismo, programas de TV, videogames, filmes, festas, jogos de futebol, etc.) do que no Reino de Deus?44

b) Que adianta alguém dizer que crê que a Bíblia é inspirada plenária e verbalmente por Deus, se ele pouco a lê, estuda ou a obedece?

c) Que adianta alguém dizer que crê que Jesus é o Filho de Deus, se continua existindo no seu coração ódio racial ou étnico contra negros, judeus, nordestinos, imigrantes, pobres ou contra quem quer que seja?

d) Que adianta alguém dizer no louvor, que ama a Deus e ao próximo, mas possui grandes latifúndios de terras, cercados de famílias vivendo em precárias condições de vida, sem lhes prestar nenhum tipo de ajuda humanitária? 45

e) Que adianta alguém dizer que crê que Deus é o Senhor do impossível, mas não intercede regularmente a Ele e procura desenvolver ações concretas (dentro de suas possibilidades) pelos enfermos nos hospitais, pelos desabrigados vítimas dos fenômenos da natureza (enchentes, terremotos, secas, etc.), pelos que estão carentes em suas necessidades básicas de sobrevivência (comida, roupa, habitação, etc.) e pelos principais problemas sócio-político-econômicos do país?

f) Que adianta o político que afirma que creu em Jesus como seu Senhor, porém, na sua prática política diária, demonstra atos de desonestidade, corrupção e falta de ética?

g) Que adianta o funcionário público que diz ser “crente em Jesus”, mas que, no seu desempenho profissional, continua com os muitos vícios da conhecida cultura de empresa pública brasileira (impontualidade, absenteísmo, abuso de licença médica, morosidade e baixa produtividade, baixa qualidade no atendimento ao público, apadrinhamento com políticos, etc.), prejudicando aos interesses da população de um modo geral?

h) Que adianta o presidente de uma das maiores denominações evangélicas do país dizer que é homem de Deus, por ter crido no Senhor, entretanto, pratica uma série de irregularidades éticas, administrativas e financeiras (declaração de imposto de renda que não corresponde à realidade, registro das entradas de dízimos e ofertas diferentes do que realmente ocorre, transporte de valores sem a autorização das autoridades legais, envolvimento escuso com partidos políticos, não paga salários justos aos empregados da igreja, etc.)?

i) Que adianta, na realização dos mega-shows evangélicos, aonde se apresentam cantores, grupos musicais e pregadores famosos, com o uso de toda sorte de recursos tecnológicos para promoção do entretenimento, se na vida de todos eles (cantores, integrantes dos grupos musicais, pregadores, promotores dos shows, componentes das equipes que dão sustentação aos eventos e os que vão assistir aos shows), não estiverem existindo as obras ocasionadas pela fé no Senhor, que Tiago adverte em 2.14-26? Esses shows têm algum proveito?46

j) Que adianta alguém dizer que crer que Deus é justo e santo, todavia, na sua vida não estão presentes as obras que são caracterizadas por esses atributos divinos, ou seja, por exemplo, compra regularmente DVDs, CDs e softwares piratas?

k) Que adianta a pessoa dizer que crer que Deus sempre cumpre as Suas promessas, no entanto, essa pessoa não honra seus compromissos financeiros assumidos?

E a lista certamente continuaria por mais alguns tópicos. Se a exortação de Tiago foi severa para os seus leitores da época, ela deve ser também para os atuais.

Como Tiago mesmo disse em 1.16 e 22, os membros das igrejas devem se auto-avaliar e verificar se a sua prática de vida está de acordo com a fé em Cristo que professam. Se não, cabe então a eles, que reajam com humildade, arrependimento, fé e obediência diante do Senhor, já que:

3 Sabemos que o conhecemos, se obedecemos aos seus mandamentos. 4 Aquele que diz: “Eu o conheço”, mas não obedece aos seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele. 5 Mas, se alguém obedece à sua palavra, nele verdadeiramente o amor de Deus está aperfeiçoado. Desta forma sabemos que estamos nele: 6 aquele que afirma que permanece nele, deve andar como ele andou. (1 João 2.3-6-NVI).
 
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Notas:

1 A Queda é um conceito bíblico, no qual descreve que o primeiro casal (Adão e Eva) pecou contra o Senhor e, por causa disso, eles e os seus descendentes tiveram toda a sua natureza humana corrompida irremediavelmente pelo pecado, ocasionando a separação espiritual, entre eles e o Senhor.
 
2 Segundo o NT, não é a obediência que salva a pessoa da condenação eterna, mas a verdadeira fé em Cristo, que, por sua vez, através da regeneração do Espírito Santo, transformará e capacitará o pecador para que obedeça ao Senhor. É essa obediência às Escrituras, que os profetas Ezequiel (Ez 36.26-27) e Jeremias (Jr 31.33, 32.38-40) anunciaram que iria ocorrer com a vinda do Messias (Jesus). Como salientou GRUDEM, Wayne. Teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2000, p. 662-663: “Jesus alerta aqui [Jo 8.31-32] que uma prova da fé genuína é a perseverança na sua palavra, ou seja, continuar a crer naquilo que ele diz e levar uma vida de obediência aos seus mandamentos.”
 
3 “Na maior parte das igrejas (principalmente nas neopentecostais), de um modo geral, quando um membro regularmente assiste aos cultos e participa das campanhas ali desenvolvidas, ele se vê no direito de trocar o seu compromisso de obedecer às Escrituras pela participação destas programações religiosas, enganando-se porque ‘o obedecer é melhor do que o sacrificar’ (1 Sm 15.22). Ele é condicionado pelos líderes a crê que participar ativamente das campanhas da igreja é sinônimo de fidelidade às Escrituras.” Cf.: OLIVEIRA, Wanderson F. M. de. O uso dos dons espirituais e a sua influência no crescimento da igreja. João Pessoa: Seminário Teológico Evangélico do Betel Brasileiro, 2009 (Dissertação de Mestrado), p. 141.
 
4 Silva conceitua hermenêutica como “a disciplina que lida com os princípios de interpretação.” KAISER Jr, Walter C. & SILVA, Moises. Introdução à hermenêutica bíblica: como ouvir a palavra de Deus apesar dos ruídos de nossa época. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 13.
 
5 FEE, Gordon D. & STUART, Douglas. Entendes o que lê? São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 11; ZUCK, Roy B. A Interpretação bíblica: meios de descobrir a verdade da Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 10-11.
 
6 É importante e necessário discernir o tipo de estrutura literária do texto bíblico, para que a sua interpretação se processe de maneira adequada. É consensual entre os especialistas em hermenêutica, que a maneira de se interpretar as epístolas é diferente dos Salmos, do livro de Atos, do Apocalipse, etc. Para cada tipo literário, há a necessidade de princípios específicos de interpretação. Ver DYCK, Elmer. Ouvindo a Deus: uma abordagem multidisciplinar da leitura bíblica. São Paulo: Shedd Publicações, 2001, p. 16-17.
 
7 Assim pensa KÜMMEL, Werner G. Introdução ao Novo Testamento. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1982, p. 541-542. Ver a nota de rodapé no 5 de CARSON, D. A.; MOO, Douglas J. & MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 455, onde ele cita vários estudiosos que 8 LOHSE, Eduard. Introduccion al Nuevo Testamento. Madri: Ediciones Cristiandad, 1986, p. 216-217; Ver a nota de rodapé no 6 de Carson, Moo e Morris, Op. cit., p. 455, que contém uma relação de eruditos que igualmente acreditam nesta teoria.
 
9 É como afirma categoricamente BAXTER, J. Sidlow. Examinai as escrituras: Atos a Apocalipse. São Paulo: Vida Nova, 1989, vol. 6, p. 315.
 
10 Ver: BROWN, Raymond E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 946; Carson, Moo e Morris, Op. cit., p. 458; GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. 3. ed. rev. ampl. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 570-572; MOO, Douglas J. Tiago: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1996, p. 28-29; TENNEY, Merrill C. O Novo Testamento: sua origem e análise. Revisado por Walter M. Dunnett. São Paulo: Shedd, 2008, p. 275-276.
 
11 Comentado por Moo, Op. cit., p. 37.
 
12 SONGER, Harold S. “Tiago”. In: ALLEN, Clifton J. (Ed.). Comentário bíblico Broadman. 3. ed. Rio de Janeiro: Juerp, 1990. v. 12, p. 123.
 
13 “Tiago disse menos a respeito do Mestre do que qualquer outro escritor do Novo Testamento, porém o seu modo de falar é mais parecido com o do Mestre do que qualquer outro escritor.” Citado por HARRISON, Everett. Introduccion al Nuevo Testamento. Grand Rapids, Michigan: W. B. Eerdman, 1987, p. 383 (tradução nossa).
 
14 Ver o quadro contendo uma lista comparativa de textos dos evangelhos e de Tiago em: STOTT, John. Homens com uma mensagem: uma introdução ao Novo Testamento e seus escritores. Revisado por Stephen Motyer. Campinas: Editora Cristã Unida, 1996, p. 125.
 
15 Stott, Op. cit., p. 123
 
16 É o que afirma DAVIDS, Peter H. Novo comentário bíblico contemporâneo: Tiago. São Paulo: Vida, 1997, p. 37.
 
17 Compare, por exemplo: Amós 2.6-9; 4.1-3; 5.11-12; 6.1-7; 8.4-7 com Tiago 1.10; 2.1-7; 4.13-17; 5.1-6. Pensa assim também: Stott , Op. cit., p. 122 e Harrison, Op. cit., p. 383.
 
18 Moo, Op. cit., p. 31-33 e 57-58.
 
19 Assim crêem todos os autores mencionados na nota de rodapé nº 10 acima.
 
20 Ver Baxter, Op. cit., p. 309.
 
21 A imagem que hoje muitos têm da igreja cristã de Atos 2.42-47, é a de como se ela tivesse permanecido com as características ali descritas por toda a sua história inicial. Contudo, isso não corresponde aos registros canônicos neotestamentários. A Igreja descrita em Atos 2, possuía aquelas características, mas naquele momento histórico. As epístolas foram escritas anos depois, em sua grande parte, para corrigir os muitos erros que viriam ocorrer.
 
22 Não obstante, Tiago 4.6-7 seja quase igual a 1 Pedro 5.5b-6, 8-9. Na realidade, estes textos de 1 Pedro provavelmente é que deverão ser um reflexo daquele de Tiago, tendo em vista que a data de composição de 1 Pedro ser, possivelmente, posterior. Cf. MUELLER, Ênio. I Pedro: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1991, p. 258 e 262.
 
23 Isaías 40.6-7; Levítico 19.18; Êxodo 20.13-14; Deuteronômio 5.17-18; Gênesis 21.1-14; 15.6; 2 Crônicas 20.7; Isaías 41.8 e Josué 2.1-21 são alguns exemplos de citações do AT presentes em Tiago.
 
24 Para Moo, Op. Cit., p. 134, aquilo que Tiago diz ser produzido pela sabedoria do alto, Paulo afirma ser fruto do Espírito em Gálatas 5.22-23. Portanto, são marcas impossíveis de serem produzidas pela natureza humana.
 
25 Nessa época já existiam os falsos mestres, com os falsos evangelhos e que, consequentemente, criavam uma falsa fé nos seus adeptos, mas, cujo destino final, verdadeiramente será o inferno (Ap 20.11-15). Ver por exemplo: Mateus 24.24; Atos 20.29-30; 2 Coríntios 11.12-15 e 1 João 2.18-19; 4.1-6.
 
26 CF. GINGRICH, F. Wilbur & DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento grego / português. São Paulo: Vida Nova, 1991, p. 152; RIENECKER, Fritz & ROGERS, Cleon. Chave lingüística do Novo Testamento grego. São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 541.
 
27 No texto grego de 2.14, há uma curiosa combinação de tempos verbais. O tempo presente foi usado tanto para o verbo “dizer” (“... Alguém dizer que...”), como para ambos os casos do verbo “ter” (“...Tem fé, se não tem obras?”), só que neste primeiro “tem”, o modo é um “infinitivo contemporâneo ou concomitante”, Cf. Rega & Bergamann (2004, p. 296). Este trecho poderia ser assim expresso: “Ao mesmo tempo em que diz que tem fé, mas que não está tendo as suas respectivas obras?” Dando a entender que é uma impossibilidade real alguém ter uma fé verdadeira em Deus e não ter, ao mesmo tempo, as obras decorrentes desta fé. É interessante destacar que pela construção desta oração no grego, espera-se uma resposta negativa: “De que adianta alguém dizer... se não tem obras?” Resposta: “Não adianta nada!”
 
28 Quando ele diz “...Acaso a fé pode salvá-lo?”, no grego, esta “fé” se refere ao tipo de fé (morta, sem obras) citada neste versículo 2.14 e não a fé verdadeira de Efésios 2.8 ou de Romanos 5.1-2, por exemplo. Como bem destacou Moo (1996, p. 99-100), “[...] a palavra grega correspondente à fé (pistis) tem o artigo nesta oração e mostra que se refere à fé antes mencionada; fé que uma pessoa afirma possuir. Tiago não está dizendo que a fé não pode salvar; ele está afirmando que a fé que esta pessoa afirma ter, uma fé sem obras, não pode salvar.” É importante também observar que, pela construção deste versículo no grego, o autor espera uma dupla resposta negativa para ambas as perguntas (ver o comentário na nota de rodapé anterior).
29 Em Mateus 7.21-23, também ocorre uma construção gramatical no grego parecido com a de Tiago. Tanto o verbo “dizer” (Mt 7.21, “...Nem todo aquele que me diz...”), como o “fazer” (Mt 7.21, “Aquele que faz a vontade...”), é um particípio presente. Ou seja: quando alguém declara que Jesus é o Senhor da sua vida, se essa declaração for verdadeira, a prova disso é que ele ao mesmo tempo também estará obedecendo ao Senhor em cada área de sua vida. É necessário também ressaltar que o contexto de Mateus 7.21-23, se inicia no versículo 7.15 (que pelos frutos maus, os falsos mestres serão conhecidos) e conclui no 7.27, quando Ele aborda sobre o praticar a Sua Palavra. A grande questão não é simplesmente produzir fruto, mas o tipo de fruto produzido, porque sempre serão produzidos. Mas apenas os bons (a obediência à Palavra) é que revelam se a árvore é boa (um coração que foi transformado pelo evangelho).
 
30 Pode-se objetar aqui que Tiago não iria exortar para se converter, alguém que ele chamou de irmão (versículo 2.14). Porém, o fato de alguém ser chamado de irmão no NT, não significa, necessariamente, que ele seja de fato um crente em Jesus. O termo pode ter um sentido mais amplo. Por exemplo, em Atos 2.37, após ouvir o sermão de Pedro, os judeus perguntaram a ele: “Irmãos, que faremos?” Pedro, então, no versículo 2.38, prega para que se arrependam e sejam batizados.
 
31 No versículo 2.17, no original grego (como na tradução em português da NVI), a palavra fé vem acompanhada com o artigo definido, especificando assim que se refere à fé já mencionada anteriormente no versículo 2.14. Ver a nota de rodapé nº 28 acima.
 
32 Moo, Op. cit., p. 103.
 
33 Quando Tiago diz no versículo 2.18 “...A minha fé pelas obras” , a preposição “pelas” (no grego ek), rege o substantivo no caso genitivo. A idéia da oração é essa: “A minha fé [de dentro das] obras.” Teologicamente, o que ele está afirmando é o seguinte: de dentro de sua vida cristã transformada, ele extrai a fé real que a produziu. Para a análise desta preposição, ver: GREENLEE, J. Harold. Gramática exegética abreviada do grego neotestamentário. Rio de Janeiro: Juerp, 1973, p. 59-79.
 
34 O verbo que Tiago usou que foi traduzido por “mostrar” (grego, deiknymi) foi utilizado 32 vezes no NT, sempre com o significado de “apresentar (ou visualizar) algo concreto para os olhos humanos”.
 
35 Produzir “obras” em Tiago equivale, teologicamente, a produzir um novo modo de viver, por ser uma “nova criatura” em Cristo (2 Co 5.17), segundo Paulo, já que obras = obediência em Romanos 1.5 (NVI). Obras em Tiago não se limita a “obras de caridade”. A palavra grega (ergon) traduzida por “obra” foi utilizada 169 vezes e está presente em todos os livros do NT. Paulo a emprega diversas vezes se referindo a “prática de vida cristã”, “procedimento”, “comportamento”, “obediência” e “ser uma nova criatura”, por exemplo. Os textos de Romanos 2.6, 1 Coríntios 3. 13-15, Gálatas 5.19, Colossenses 1.10; 3.17, 2 Timóteo 2.21; 3.17, Tito 2.7, 14; 3.1 e 8 são alguns exemplos de como Paulo utilizou a palavra ergon. Ver o conceito do vocábulo “obra” em VINE, W. E..; UNGER, Merril F. e WHITE. JR, Willian. Dicionário Vine: o significado exegético e expositivo das palavras do Antigo e do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2002, p.827-828.
 
36 Há um enorme debate teológico acerca do significado de Abraão e Raabe terem sido justificados pelas obras, conforme os versículos 2.21 e 25 parecem indicar, bem como o porquê de Tiago ter usado esses dois exemplos contrastantes (um homem considerado herói para o povo judeu e uma prostituta, e ambos sendo gentios). Ver as explicações esclarecedoras em Moo, Op. cit., p. 107-116; Songer, Op. cit., p. 142-143.
 
37 GINGRICH, F. & DANKER, Frederick W, Op. cit., p. 115.
 
38 DAVIDS, Peter H. Novo comentário bíblico contemporâneo: Tiago. São Paulo: Vida, 1997, p. 91.
 
39 Quando ele diz no versículo 2.19: “Você crê que existe um só Deus?”, ele não está perguntando: “Você crê em Deus?”. Há uma diferença sutil, mas importante. No primeiro caso, trata-se, possivelmente, de uma crença numa confissão de fé do judaísmo e do cristianismo primitivo, que para a época de hoje, equivaleria à declaração doutrinária de uma igreja. Já no segundo caso, trata-se realmente de uma profissão de fé em Deus. Ver Davids, Op. cit., p. 102.
 
40 No original grego, este versículo inicia com duas conjunções hôsper gar (“assim, pois”), finalizando um assunto tratado no contexto imediatamente anterior.
 
41 O tempo presente dos verbos gregos ginesthe e poiêtês, que a NVI traduziu como “sejam praticantes”, transmite a idéia de uma prática regular. Para RIENECKER, Fritz & ROGERS, Cleon, p. 538: ”O tempo presente indicado ação contínua e pede um hábito de vida”.
 
42 Aquilo que Paulo chama de “vivendo na carne” em Romanos 8.5-8 e Gálatas 5.17, 19-21.
 
43 Revista Ultimato, nov./1989, p. 19.
 
44 Observe que está dito “mais prazer”. Não existe problema em assistir um bom filme, porém, quando alguém que afirma que é discípulo de Jesus, tem mais interesse e fervor nisto do que, por exemplo, ir a uma reunião de oração, ele demonstra que está com as prioridades alteradas no seu coração.
 
45 Geralmente, no Brasil, os donos das empresas alegam que não pagam um salário melhor aos seus empregados em virtude da insuficiência de recursos financeiros por parte da organização. Porém, estes mesmos proprietários, junto com a sua família, desfrutam de um padrão sócio-econômico alto, aonde possuem carros importados, roupas de grife, imóveis luxuosos, viajam para o exterior, etc.. Ou seja: eles não têm recursos para pagar um bom salário para os seus empregados, mas têm para gastar consigo mesmo (de maneira luxuosa) e com os seus familiares. É o mesmo procedimento dos donos dos antigos engenhos de cana de açúcar e das fazendas de café. Estes donos de empresas, por ser uma nova criatura em Cristo, deveriam inserir nas relações Capital x Trabalho uma nova maneira de gerenciar essa relação, sob a ótica da justiça do Reino de Deus, que inclui, certamente, uma justa distribuição da riqueza gerada pelos componentes de quem a produziu (os empregados).
 
46 Evidentemente que tem proveito sim, mas de natureza financeira e para os promotores desses eventos.
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