quinta-feira, 12 de julho de 2012

Lição 03 – A Morte para o Verdadeiro Cristão - 1

O cerne fundamental do evangelho, 15.1-11

1 Irmãos, venho lembrar-vos o evangelho que vos anunciei, o qual recebestes e no qual ainda perseverais;
2 por ele também sois salvos, se retiverdes a palavra tal como vo-la preguei, a menos que tenhais crido em vão (ou: – com que palavra eu vo-la evangelizei, se a guardastes, ou será que chegastes à fé em vão?).
3 Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras,
4 e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.
5 E apareceu a Cefas e, depois, aos doze.
6 Depois, foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria sobrevive até agora; porém alguns já dormem.
7 Depois, foi visto por Tiago, mais tarde, por todos os apóstolos
8 e, afinal, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo.
9 Porque eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus.
10 Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo.
11 Portanto, seja eu ou sejam eles, assim pregamos e assim crestes.

Será que Paulo concluiu a abordagem de tudo o que era necessário aos coríntios? Respondeu a todas as suas perguntas, considerou todas as aflições da vida eclesial. Agora, porém, defronta-se com uma questão que alcança o alicerce da fé e compromete o centro da própria mensagem. Paulo soube que: ―Afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos‖ (v. 12). Isso desafia o apóstolo, ele precisa posicionar-se diante disso. Considerando que já nas questões isoladas da vida eclesial ele fazia uma abordagem ampla, a fim de ajudar a igreja a alcançar uma opinião fundamentada, nessa questão ele precisa proporcionar uma instrução ainda mais sólida e abrangente. Por isto a presente carta apresenta o magnífico capítulo 15. Também esse capítulo acerca da ressurreição dos mortos não é o capítulo de um manual de dogmática, mas é a seção de uma carta que reage a determinadas idéias, concepções e objeções dos destinatários da carta. Porém justamente esse capítulo evidencia ao mesmo tempo porque Paulo se chama de ―mestre dos gentios na fé e na verdade‖ (1Tm 2.7).

1 Justamente nesse ponto Paulo lança um fundamento bem firme. É seu objetivo mostrar aos coríntios que na questão da ressurreição não se trata de ―opiniões‖ que podem ser divergentes ou de um tópico isolado da doutrina, no qual se poderia tranqüilamente pensar de outro modo. Aqui está em jogo o evangelho propriamente dito. Por isso Paulo começa com esse mesmo evangelho: “Anuncio-vos, porém, irmãos, o evangelho que vos evangelizei” [tradução do autor]. Por mais doutrina que possa conter, o evangelho em si não é uma doutrina a ser aprendida, mas é ―poder de Deus para a salvação‖ (Rm 1.16), ―loucura de Deus‖ para a redenção dos ―que crêem‖ (1Co 1.21).

1,2 É por isso que ele traz consigo imediatamente a ligação plenamente subjetiva com os coríntios: “o qual também aceitastes e no qual ainda permaneceis, e pelo qual também sois salvos” [tradução do autor]. O evangelho não é apenas aprendido e decorado, mas “aceito” pessoalmente. É um fundamento de vida sobre o qual “permanecemos”, e não um interessante objeto de conhecimento, mas o único meio da ―redenção‖ da perdição eterna. Será que podemos, então, mudar algo desse evangelho, subtrair-lhe algo? No entanto, aqui não se trata de um ―algo‖ qualquer sendo subtraído do evangelho, e tampouco do evangelho em geral e como um todo. Paulo não pretende falar com os coríntios sobre o evangelho em si, mas dirige-se a um ponto bem definido que se tornou questionável em Corinto ou está sendo até mesmo negado. Isso se expressa pela construção da frase, que desde cedo já convidou para alterações e simplificações. Paulo coloca diante dos coríntios o evangelho, asseverando-lhes que eles o aceitaram e que nele permanecem e por meio dele são salvos. Agora, porém, ele lhes dirige pergunta: “Com que palavra em vo-la evangelizei?” Porventura “guardastes” o que eu vos testemunhei? Não percebestes que no evangelho eu vos anunciei precisamente a tal ressurreição dos mortos que agora começais a negar? Ou será que no final de contas “chegastes à fé em vão”, apesar de que há pouco assegurei a vós que estais nesse evangelho? Então teria acontecido algo de cuja real gravidade os coríntios precisam conscientizar-se. Ter chegado à fé em vão, não ter guardado o evangelho em seu inteiro teor significaria não ter sido salvo! De forma enfática, Paulo explicitará isso objetivamente nos v. 14-19.

3 Agora, porém, ele apresenta mais uma vez o próprio evangelho aos coríntios, sendo que toda a ênfase recai cada vez mais sobre a ―ressurreição‖. “Antes de tudo, vos transmiti o que também recebi.” O evangelho é uma rica mensagem, porém existe nele um ―acima de tudo‖, um centro que a tudo domina. E esse ―acima de tudo‖ não é um centrum Paulinum! Paulo, que na carta aos Gálatas é capaz de enfatizar (Gl 1.12) que ele ―não o recebeu [o evangelho], nem o aprendeu de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo‖, emprega aqui propositadamente os termos técnicos dos rabinos sobre o aprender de outros que lhe são familiares desde a juventude: “receber – transmitir”. Os coríntios não devem ter nenhuma possibilidade de esquivar-se de suas colocações com a desculpa de que se trata apenas de uma opinião particular de Paulo. Não, o apóstolo se encontra de maneira plena e integral no fluxo da tradição geral e não está reproduzindo seus próprios pensamentos. Isso não é uma contradição com Gl 1.12. A palavra do Senhor ressuscitado a Saulo de Tarso às portas de Damasco é tão sucinta quanto possível: ―Eu sou Jesus a quem persegues.‖ A revelação direta de Jesus tornou certeza para quem até então o perseguia, somente esse único fato, de que aquele Jesus pregado à cruz está verdadeiramente vivo e é o kyrios. Todo o resto, todos os detalhes, todas as correlações históricas de Jesus tiveram de ser aprendidas daqueles que estiveram desde o início com Jesus.

Em seu encontro com Paulo Jesus nem mesmo havia falado do sentido e da finalidade de seu sofrimento e morte. Com certeza foi por meio do próprio Espírito Santo que resplandeceu para o convertido Paulo a solução básica do enigma escandaloso, isto é, por que o Messias Jesus, expulso por Israel, teve de morrer como maldito (Gl 3.13) no madeiro: “que Cristo morreu pelos nossos pecados”. Porque ele de imediato anunciou a Jesus e somente três anos mais tarde visitou Pedro em Jerusalém. Ao mesmo tempo, porém, foi da maior importância para ele que ele ouvisse de Pedro e da primeira igreja a mesma coisa: “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras.”

Estamos tão acostumados com essa frase curta que podemos ouvi-la sem ficarmos singularmente abalados. Contudo, quanto ela diz! Como devem ser terríveis os nossos pecados se tornaram essa terrível morte maldita do Messias necessária para a nossa salvação. Como é certa, porém, nossa redenção, nossa posição limpa perante Deus, se Deus realizou esse ato extremo em favor de nós! Nesse ponto Paulo é completamente unânime com a tradição do primeiro cristianismo. Não obstante toda a riqueza de palavras e feitos de Jesus relatados, os evangelhos são acima de tudo ―história da paixão‖ e correm em direção da cruz. O que Jesus realizou curando enfermidades, libertando pessoas endemoninhadas, consertando vidas humanas, tudo está de antemão alicerçado em sua morte por nossos pecados e selado por essa morte. Com toda a razão e com plena convicção Paulo por isso estava decidido a ―nada saber senão a Jesus Cristo e este crucificado‖ (1Co 2.2). Também nisso tinha certeza da concordância com ―as Escrituras‖. Agora não precisava fornecer aos coríntios diversas provas da Escritura. De suas cartas depreendemos que Paulo constantemente aponta para o que está escrito ao fazer suas exposições. Seu interesse não reside num sistema teológico do Antigo Testamento, mas sempre em palavras isoladas decisivas que representam para ele a voz convincente das ―Escrituras‖.

4 Paulo acrescenta expressamente: “e que foi sepultado”. Esse ―sepultar‖ contém a realidade plena e a seriedade total da morte. As mulheres, os discípulos, os amigos têm de passar pelo terror da morte quando esse ―Vivo‖, que foi tão poderosamente atuante entre eles, agora jaz diante deles com olhar apagado e o corpo inerte. Isso, porém, para Paulo também se revestia de importância com vistas à morte igualmente real do velho ser humano com seus pecados. ―Fomos sepultados com ele na morte pelo batismo‖ (Rm 6.4). ―Fostes sepultados, juntamente com ele, no batismo‖ (Cl 2.12). Ao mesmo tempo, esse tópico da proclamação era importante para cortar de antemão todos os boatos que tentavam enfraquecer a mensagem da ressurreição com

ilações a uma eventual morte aparente. Jesus esteve realmente morto e foi deitado numa sepultura definida e conhecida. Contudo sua sepultura também ficou realmente vazia.

Acontece, porém, que a notícia sobre Jesus não acaba no ―morto, sepultado‖. Do contrário não haveria ―cristianismo‖. Na seqüência vem a mensagem de que ele “foi ressuscitado no terceiro dia, segundo as Escrituras” [tradução do autor]. Será que com isso as afirmações de 1Co 1.18 e 2.2 evidenciam-se como redução do evangelho? Será que o cristianismo não é muito mais ―palavra da ressurreição‖ do que ―palavra da cruz‖? Será que Paulo não precisava estar determinado, justamente em Corinto, a conhecer e anunciar ―unicamente Jesus Cristo, e esse como Ressuscitado‖? No trecho subseqüente Paulo ainda exporá que de fato a cruz perderia todo o seu significado para nós se Cristo não tivesse sido ressuscitado. Não obstante, a ressurreição de Jesus não acrescenta nada de novo e mais sublime à decisiva e redentora palavra da cruz “morreu pelos nossos pecados”, mas apenas torna essa palavra válida e eficaz. Também essa ressurreição do Messias foi testemunhada previamente pelas ―Escrituras‖. Igualmente nesse caso Paulo não cita referências específicas. Para ver esse testemunho prévio da ressurreição de Jesus nas Escrituras, era necessário ter o novo olhar aberto por Deus. ―Pois ainda não tinham compreendido a Escritura, que era necessário ressuscitar ele dentre os mortos‖, diz João a respeito dos discípulos (Jo 20.9). Para o israelita Paulo, porém, era decisivamente importante que ele podia saber que essa mensagem estava em consonância com as Escrituras.

5 No entanto a ressurreição do Senhor Jesus não é uma ―doutrina‖ que se possa ou precise ―demonstrar‖ a partir das Escrituras. Ela é a mensagem de uma realidade que foi “vista” e por isso pode ser testemunhada. Por isso é que repercute, agora, por todos os versículos seguintes o ―visto, visto, visto‖. Não a ressurreição em si foi vista, mas sim o Senhor ressuscitado. Sua ressurreição, assim como sua morte por nossos pecados, simplesmente são fatos. Aconteceu algo que transformou completamente a situação entre Deus e os humanos. Não foram idéias e opiniões sobre Deus que mudaram, mas o incrível peso da culpa da humanidade e da minha culpa foi anulado. Não ―na idéia‖, e sim ―de fato‖. O agir de Deus ao ressuscitar o Crucificado confirma a ação de Jesus na sua morte e nos presenteia eternamente com nosso Redentor em uma viva atualidade. No entanto, os atos e os fatos deles resultantes podem e precisam ser ―vistos‖ e testemunhados como tais por determinadas testemunhas. Por isso Paulo fornece aos coríntios essa lista exata das testemunhas que o ―viram‖.

A lista de testemunhas que Paulo faz desfilar diante de nós não é encontrada dessa forma nos relatos da Páscoa nos evangelhos. O fato de não mencionar as mulheres que viram Jesus em primeiro lugar (Mt 28.9s; Mc 16.9; Jo 20.11ss) de maneira alguma denota que Paulo não tenha conhecido essas primeiras testemunhas da ressurreição. Porém naquela época elas não servem como testemunhas ―oficiais‖. No entanto, dos relatos da Páscoa não depreenderíamos, nessa formulação, “que ele foi visto por Cefas e, depois, pelos doze”. De maneira alguma Pedro aparece claramente nos relatos dos evangelhos como a pessoa que viu o Senhor em primeiro lugar. Em Mateus (Mt 28.16s) imediatamente depois das mulheres vêm os ―onze‖, em Marcos (Mc 16.12) ainda aparecem antes os dois discípulos no caminho de Emaús. Apenas em Lucas (Lc 24.34) é dito aos discípulos que voltaram de Emaús ―que o Senhor de fato ressuscitou e apareceu a Simão‖. Também em João Pedro é destacado especialmente somente nas revelações posteriores no lago de Tiberíades. Os “doze” – os evangelhos são mais precisos ao falar de ―onze‖ após a traição de Judas – constituem em seguida também nos evangelhos o círculo que experimenta sobretudo a maravilhosa presença do Ressuscitado (atravessando portas fechadas, Jo 20.14).

6 Não há como situar o evento que Paulo cita em terceiro lugar pelos relatos dos evangelhos: “Depois, foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria sobrevive até agora; porém alguns já dormem.” Somos obrigados a imaginar esse episódio na Galiléia, visto que em Jerusalém dificilmente seria possível encontrar um recinto para uma reunião dessas. Não é possível duvidar da verdade desse evento. Paulo observa justamente aqui que desses quinhentos a maioria ainda vive e pode ser questionada sobre esse fato. É particularmente grande a força de argumento de um encontro desses com o Ressuscitado, proporcionado ao mesmo tempo a um grupo considerável.

7 “Depois, foi visto por Tiago.” Os evangelhos não relatam nada sobre esse reencontro entre Jesus e seu irmão Tiago. Não obstante, deve ter sido uma experiência arrasadora para Tiago, considerando sua posição anterior frente a Jesus (cf. Jo 7.3-5; Mc 3.21,31). Ao mesmo tempo o encontro teve conseqüências de longo alcance para a história da primeira igreja. Por fim Tiago se tornou o líder de fato em Jerusalém (cf. At 12.17; 15.13, confirmado por Gl 2.9). Ao acrescentar ainda “mais tarde, por todos os apóstolos”, Paulo evidentemente faz distinção entre o círculo maior dos emissários de Jesus e os ―doze‖, que significava para ele, porém, ao mesmo tempo uma grandeza determinada e delimitada. Uma igreja gentio-cristã como Corinto tinha conhecimento desse “todos os apóstolos” em sentido mais amplo, de modo que Paulo – infelizmente! – não tinha motivos para mencionar seu número e caracterizar o fundamento de sua vocação. Houve quem pensasse nos ―setenta‖ (Lc 10.1). É notório que justamente Lucas, que estava ligado a Paulo, os mencione em seu evangelho. Porém, será que nesse caso Paulo não teria igualmente falado dos ―setenta‖, como um paralelo com os ―doze‖?

Para nós, pois, permanecem abertas muitas perguntas importantes. Não estamos em condições de reconstruir um quadro completo e inequívoco dos eventos da Páscoa. Uma das razões é que o primeiro cristianismo desconhecia essa necessidade tipicamente moderna de obter um quadro desses, nem aqui nem em outras situações. Isso é o indício da plena e poderosa certeza sobre a questão em si. Há abundância de testemunhos, e isso lhe basta. Contudo, no presente texto podemos ser especialmente gratos pela palavra de Paulo. Também em sentido ―histórico‖ ela é muito valiosa. Aqui uma pessoa que se tornou cristã pouco tempo depois dos acontecimentos constata com o visível empenho pela exatidão as testemunhas principais do Ressuscitado.

8,9 Por fim, Paulo cita também a si mesmo como ―testemunha da ressurreição‖ (At 1.22). “Afinal, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo. Porque eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus.” Se de fato for um verdadeiro ―apóstolo‖, Paulo também precisa constar do rol de testemunhas. Nisso, porém, ele é apenas algo como um ―nascimento falho‖ ou ―o aborto‖ de um apóstolo. Porque a tarefa de um apóstolo é a edificação fundamental da ―igreja de Deus‖. Paulo, porém, “perseguiu a igreja de Deus”, tentando aniquilá-la (Gl 1.13). Por isto ele era – de modo completamente diferente do que todos os demais ―apóstolos‖ com todas as suas falhas – em si mesmo o exato oposto de um apóstolo. Ele não é “digno de ser chamado apóstolo”, e por conseqüência é “o menor dos apóstolos”.

10 Uma vez que apesar de tudo ele é apóstolo, precisamos reconhecer nisso a graça soberana de Deus com todo o seu poder. “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou.” Que Deus convoque para ser apóstolo justamente esse ―aborto‖, esse perseguidor, essa pessoa impossível, é ―graça de Deus‖ com toda a sua soberania e glória. Talvez Paulo se lembre do que Deus falou acerca da eleição de Israel em Êx 16.4-6. A graça constantemente se revela como ―graça‖ justamente pelo fato de ter compaixão com o mais miserável e com o pior. Paulo mostrou isso à igreja de Corinto em 1Co 1.26ss com base em sua própria composição. De forma peculiar, porém, tem a ver consigo mesmo. A ―graça‖ do Deus vivo, no entanto, é ao mesmo tempo a coisa mais eficaz que existe, e também ―não se tornou vã‖ no caso de Paulo. E por que não? Em sua resposta Paulo não menciona sua felicidade interior, não as suas revelações e dons do Espírito, nem mesmo os sucessos de sua atuação. Cita apenas uma coisa: “Trabalhei muito mais do que todos eles.” A graça ativa, a graça dá poder e capacita para o engajamento, a dedicação, o trabalho e o sofrimento. Para Paulo seu ―serviço‖ não era um adendo amargo à doce graça, ambos os quais desejasse usufruir, porém representava justamente o auge da própria graça e a profundeza máxima da misericórdia experimentada (cf. 2Co 4.1; 1Tm 1.12-14). Por isso ele considera como unidade total o que nós com tanta facilidade separamos e lançamos uma contra a outra: ―graça‖ e ―trabalho‖, límpida humildade e autoconsciência objetiva. Com toda a convicção ele se considera o menor dos apóstolos, e não obstante não diminui em nada o fato de que seu empenho como apóstolo supera o trabalho de todos os demais. Porque também esse fato é pura ―graça‖. Novamente somos remetidos à circunstância de que a magnitude e a glória de Deus consistem justamente em que sua atuação não descarta a atuação do próprio ser humano, mas o cria e fortalece (cf. acima, p. 83). A humildade autêntica não se rebaixa artificialmente a si mesma, porque com isso também rebaixaria a graça de Deus. Pelo contrário, ela confessa, nessa peculiar ligação de humildade e olhar verdadeiro para a própria obra de vida: ―Pela graça de Deus sou o que sou.‖ Involuntariamente Paulo já deve estar respondendo aos que em Corinto lançam suspeitas sobre seu apostolado, colocando-o muito abaixo dos demais, os autênticos e verdadeiros apóstolos. No capítulo 11 da segunda carta aos Coríntios ele aborda essa questão exaustivamente. O trecho de 2Co 11.21-33 é a poderosa ilustração da sucinta frase do presente texto: “Trabalhei muito mais do que todos eles.” Ele concorda plenamente com seus adversários em Corinto: ele viu a Jesus ―depois de todos‖; apenas um ―aborto de apóstolo‖, o menor de todos, inútil para ser chamado de apóstolo. Têm razão os que nem sequer o querem reconhecer como apóstolo e elevam alguém como Pedro muito acima dele. Paulo fez todas as afirmações no tempo verbal do presente, não falando de sua incapacidade para ser apóstolo como de um passado superado. Agora, porém, os coríntios precisam se cuidar para não lutar contra a graça de Deus, que apesar de tudo o convocou para apóstolo. Se compararem o engajamento, o trabalho, o sofrimento de sua vida apostólica com os dos outros, não poderão negar a predominância disso em Paulo.

Será que Paulo visa gloriar-se a si mesmo? Não, ele imediatamente acrescenta: “Todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo.” Paulo sublinha mais uma vez a relação da eficácia de Deus com a atuação do ser humano, que não pode ser captada pela lógica humana usual. Logicamente poderiam ter trabalhado tanto apenas Paulo ou a graça de Deus. Paulo está reproduzindo a realidade viva e misteriosa: ele mesmo trabalhou, realizou, sofreu, e sem seu empenho total não teria acontecido toda a obra apostólica que agora se descortina perante os coríntios. Ainda assim, ao mesmo tempo tudo foi graça. Paulo não pode atribuir nada a si mesmo e não tem nenhuma participação percentual na obra da graça que pudesse reclamar para si.

11 Paulo encerra toda essa fundamentação para seu diálogo com os coríntios a respeito da ressurreição com a constatação: “Portanto, seja eu ou sejam eles, assim estamos anunciando e assim o aceitastes com fé” [tradução do autor]. Ainda que haja importantes diferenças entre ele e os apóstolos de Jerusalém no

entendimento do evangelho, ele tem certeza de estar unido com todos eles na proclamação do evangelho como tal. Não apresenta um evangelho ―paulino‖ próprio, nem deseja fazê-lo. Ele é o ―arauto‖ que proclama a mensagem do Rei com severa fidelidade. Por isso é que no fundo está dizendo a mesma coisa que Pedro, João e Tiago. Os coríntios não podem se esquivar da mensagem dele recorrendo a outros apóstolos. Também para nós é importante saber que existe o evangelho uno e inequívoco, diante do qual todas as diferenças entre os mensageiros perdem importância. A igreja de Jesus fica em grave perigo quando seus pregadores não conseguem mais dizer unânimes: “Seja eu ou sejam eles, assim estamos anunciando e assim o aceitastes com fé!”

As conseqüências de negar a ressurreição de Jesus, 15.12-19

12 Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos?
13 E, se não há ressurreição de mortos, então, Cristo não ressuscitou.
14 E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé;
15 e somos tidos por falsas testemunhas de Deus, porque temos asseverado contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, ao qual ele não ressuscitou, se é certo que os mortos não ressuscitam.
16 Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou.
17 E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados.
18 E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram.
19 Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os (demais) homens.

12 Paulo confrontou a igreja com a mensagem fundamental que todos os apóstolos anunciam concordemente e que também os próprios coríntios aceitaram e crêem. A partir daí investe contra as dúvidas que se manifestaram em Corinto com vistas à ressurreição dos mortos. A partir da posição firme e clara da proclamação e da fé ele dirige a pergunta aos coríntios: “Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos?”

Paulo não deixa transparecer em que sentido e com que justificativa a ressurreição era negada em Corinto. Não se detém para analisar e refutar razões dos adversários. No entanto, fica claro que se trata apenas de inícios de uma perigosa deturpação. Apenas “alguns dentre vós” afirmam: “Ressurreição de mortos não existe.” Os que afirmavam isso não avançaram a ponto de negar a ressurreição de Jesus, e de forma alguma assumiam as conseqüências de sua afirmação. Paulo combate o erro incipiente demonstrando as conseqüências inevitáveis e apontando para o fato da ressurreição do Senhor. Paulo evidentemente teme que o erro possa penetrar mais na igreja e causar graves danos. De tudo isso resulta que os referidos coríntios sem ―razões‖ especiais e reflexões mais profundas simplesmente acompanhavam o pensamento e sentimento ―gregos‖, para os quais a ―ressurreição de mortos‖ era um assunto constrangedor ou ridículo. Cf. At 17.32. Será que era necessário onerar o cristianismo com este fato que era um escândalo para seu contexto de vida, quando na verdade se possuía grandes experiências atuais como, p. ex., o ―falar em línguas‖ ou os profundos pensamentos da ―sabedoria‖ cristã, que podiam impressionar os próprios fiéis e ao mesmo tempo também os de fora da igreja? Em vista de uma atitude interior como a descrita em 1Co 4.8, era possível que se abrisse mão da esperança da ressurreição. Quem não sofre profundamente a dura limitação da salvação atual facilmente perderá a ansiosa ―expectativa‖ da salvação vindoura (1Co 1.7; Fp 3.20; 1Ts 1.10). Para nós é importante ouvir as exposições subseqüentes de Paulo com vistas ao que nossa própria época nega ou modifica na mensagem da ressurreição. Então notaremos que a rejeição da ressurreição, por trás das múltiplas e variáveis ―justificativas‖, em última análise possui sempre a mesma razão verdadeira. A mensagem da ressurreição dos mortos é o ataque mais acirrado contra toda a nossa autoconfiança terrena, justamente também em seu verniz religioso. Ela é também a ruptura e anulação de qualquer visão de mundo fechada, independentemente de ser uma visão ―grega‖ ou ―gnóstica‖ ou ―moderna‖.

13 Para Paulo interessa sobretudo que os coríntios vejam a contradição em que estão caindo contra sua própria fé e contra a mensagem que a sustenta. Não se pode negar a ressurreição de mortos e ao mesmo tempo sustentar que Jesus Cristo foi ressuscitado. As pessoas em Corinto que hoje rejeitam a ressurreição como tal amanhã também terão de riscar de sua mensagem a ressurreição de Jesus dentre os mortos. “E, se não há ressurreição de mortos, então, Cristo não ressuscitou.” Paulo espera que os adversários reconheçam essa conseqüência. Contudo, espera também que declarem: ainda que esse ponto isolado da mensagem tenha de ser cortado ou modificado em nome da coerência, será que isso altera algo no ser cristão em si? Nesse ponto inicia toda a discordância do apóstolo. Todo seu empenho é mostrar a toda a igreja a corrente das inevitáveis

conseqüências que resultam da negação da ressurreição. Não foi retirada uma pedra isolada do edifício, da qual se possa prescindir sem problemas, sim, que até poderia parecer um estorvo para o prédio.

14 Pelo contrário, aqui rui todo o edifício. Paulo o demonstra inicialmente nas duas circunstâncias fundamentais que ainda vigoram em Corinto (v. 11): a “proclamação” e a “fé”. Afinal, será que os coríntios – e nós com eles! – não notam que ambas as coisas podem ainda existir formalmente, mas que se tornam “vãs”, apenas invólucros vazios, formas vazias, quando eliminamos a ressurreição? “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé.” Em última análise a proclamação possui apenas um único conteúdo: Jesus, o Cristo. No entanto, se esse Jesus está ―morto‖ e hoje não vive e não age mais, então a mensagem dele é oca e todo falar sobre ele fica sem sentido. Com isso, porém, acaba também toda a fé cristã. Porque ―fé‖ não é um sistema de pensamentos sobre Deus, mas é relacionar-se pessoalmente com Jesus, é apegar-se confiante e obedientemente a ele, é contar com seu poder eficaz e sua graça. O que restará se Jesus não ressuscitou? ―Crer‖ num morto é algo inconsistente e por isso sem sentido.

15 Contudo os coríntios também precisam levar em consideração que sentença estão decretando não apenas sobre Paulo, mas sobre todos os mensageiros do evangelho. “E somos tidos por falsas testemunhas de Deus, porque temos asseverado contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, ao qual ele não ressuscitou, se é certo que os mortos não ressuscitam.” Agora Paulo emprega o mesmo ―nós‖ do v. 11, pelo qual ele se une a todos os apóstolos para o testemunho do evangelho apesar de todas as diferenças menores. Pedro, João e Tiago serão ―testemunhas de mentira‖ assim como ele. Aqui se explicita de modo especial o quanto o evangelho é proclamação de ―fatos‖ que surgiram por meio dos ―atos‖ de Deus. Não se trata de idéias a respeito de Deus sobre as quais o pensador pudesse se enganar, porque errar é humano. Trata-se do testemunho daquilo que Deus realizou. Nesse caso, testemunhar atos de Deus “contra Deus”, que Deus jamais realizou, não seria um equívoco desculpável, mas a mais alta blasfêmia. Diante dessas frases de Paulo é surpreendente a rapidez e facilidade com que repetidamente se atribuiu aos apóstolos a disseminação de invenções próprias, afirmações sem fundamento, lendas baratas.

16 Mais uma vez Paulo instrui os coríntios a captar as conseqüências que a negação da ressurreição precisa ter para toda a vida de fé. Ele sublinha a irrefutável conseqüência do v. 13: “Porque se os mortos não são ressuscitados, também Cristo não foi ressuscitado” [tradução do autor]. Simplesmente não se pode negar a ressurreição dos mortos e confessar a ressurreição de Jesus numa mesma frase.

17 No entanto, se a ressurreição de Jesus cair por terra, “será debalde a nossa fé” [tradução do autor]. Paulo repete a afirmação do v. 14, somente substituindo agora a palavra ―vazia pela palavra ―debalde‖. Os coríntios podem continuar tentando ―crer‖ em Jesus, mas essa tentativa é ―debalde‖. Já não chegam mais a Jesus por sobre o abismo da morte. Somente quando Jesus nos é presenteado com nova vida por meio de sua ressurreição por Deus nossa fé de fato pode alcançar e agarrá-lo.

Paulo aponta mais uma decorrência assustadora: “E ainda permaneceis nos vossos pecados.” Ainda que Jesus não tivesse realmente ressuscitado dentre os mortos, será que não existiria ainda ―a palavra da cruz‖? Não foi ali na cruz que aconteceu nossa redenção? Será que o sangue de Jesus não nos purifica de todos os pecados? Não, não é ―a cruz‖ que nos salva como um instrumento objetivo e impessoal, nem é a substância ―sangue de Jesus‖ que nos purifica. Paul Humburg disse, de forma muito acertada: ―Não temos um remédio contra o pecado, temos um mediador da salvação. Tudo depende da comunhão com Jesus, o Reconciliador e Redentor. Tudo é bem pessoal. É somente da mão de Jesus que podemos obter a graça eterna de Deus!‖ Todo o fardo de nosso pecado ainda pesa sobre mim se a gélida mão de Jesus não puder mais me oferecer essa graça salvadora.

18 Essa situação se torna grave quando está em jogo nosso destino eterno. Através da anteposição e da ênfase do “por conseguinte” Paulo está mostrando que no v. 18 ele chega a uma última e mais importante conclusão das conseqüências acima citadas: “Por conseguinte também os que adormeceram em Cristo estão perdidos” [tradução do autor]. Como assim? Será que sem ―ressurreição‖ não existe mesmo um ―viver após a morte‖, ao qual se pode tranqüilamente entregar os irmãos que adormeceram em Cristo? Paulo não afirma que sem a ressurreição de Jesus aqueles que adormeceram não existam mais, e que sem a ressurreição de Jesus tudo teria acabado com a morte. No entanto, afirma algo infinitamente mais terrível do que qualquer apagar da vida pela morte: os que adormeceram “estão perdidos”. Estão perdidos justamente porque continuam existindo, agora como pessoas não-redimidas, ainda oneradas com seus pecados, sujeitas à ira de Deus. Na verdade adormeceram ―em Cristo‖. Isso os coríntios presenciaram no leito de morte deles. Porém isso foi apenas um terrível engano. Esse Cristo em que confiaram ao morrer na realidade não existe. Caem no vazio, na escuridão do reino dos mortos e, sem o perdão de seus pecados, estão perdidos sob a ira de Deus.

19 Paulo sintetiza: o que será de todo o cristianismo sem a ressurreição de Jesus? Como cristãos seremos “nada mais do que pessoas que esperaram em Cristo nesta vida”. Justamente as esperanças terrenas, porém, não são cumpridas por Cristo. Aquele que foi crucificado neste mundo oferece aos seus apenas a cruz. Por causa dele precisam assumir penúria e renúncias, perseguição e sofrimento, como Jesus lhes disse de antemão.

Contudo, se não existir ressurreição dos mortos e tampouco a ressurreição de Cristo, eles o farão realmente em troca de nada. Então são “mais dignos de pena do que todas as (demais) pessoas”. Muito melhor será a sorte daqueles milhões de pessoas que nem sequer conhecem esse Cristo, que não sofrem nem renunciam por ele, mas aproveitam sem ele, da melhor maneira que podem, sua vida terrena e não se iludem com esperanças vãs.

Esse bloco de 1Co 15.1-19 é percorrido por uma linha homogênea. É a linha de um realismo claro e sóbrio. Os coríntios corriam o risco de sucumbir ao que também nós conhecemos bem demais. Também entre nós, para muitos membros da igreja, o ―cristianismo‖ parece ser formado de ―idéias‖ e ―opiniões‖, que podemos ouvir de maneiras muito distintas do púlpito e da cátedra, e sobre as quais depois traçamos os nossos próprios pensamentos. Se algumas dessas opiniões são plausíveis, adotamo-las; se outras, como p. ex., a idéia da ―ressurreição‖, permanecem estranhas para nós, riscamo-las. Apesar disso não deixamos de ser ―cristãos‖, porque decididamente aceitamos outros pensamentos cristãos. Paulo viu o perigo mortal que se projeta justamente dessa maneira sobre a realidade de toda a nossa existência. Na vida cristã não se trata de opiniões, mas de fatos pelos quais nossa vida é determinada agora e na eternidade. Se riscarmos a ressurreição, não será riscada com isso uma idéia que pudesse ser substituída por pensamentos diferentes, mas terá sido tirada a base de toda a nossa salvação. Proclamação vazia, fé vazia, apóstolos carimbados como profetas de mentiras, fardo permanente do pecado, adormecidos perdidos, miséria sem esperança da existência cristã – esses são os escombros que a pessoa inteligente causou com o que ela imagina ser uma operação mental inofensiva – num ponto da doutrina que lhe é incômodo.

A importância universal da ressurreição de Jesus, 15.20-28

20 Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem.
21 Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos.
22 Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo.
23 Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda.
24 E, então, virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder.
25 Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés.
26 O último inimigo a ser destruído é a morte.
27 Porque todas as coisas sujeitou debaixo dos pés. E, quando diz que todas as coisas (lhe) estão sujeitas, certamente, exclui aquele que tudo lhe subordinou.
28 Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então, o próprio Filho também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos (ou: em tudo).

20 Paulo mostrou o campo de destroços que se forma quando se nega a ressurreição. E agora, justamente diante desses destroços, ele constata frente a todas as perguntas, dúvidas e negações de modo triunfante o fato de que: “Agora, porém, Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, como as primícias dos que adormeceram” [tradução do autor]. Não se trata de soluções de problemas ou de controvérsias intelectuais, mas exclusivamente da realidade: ―Cristo foi ressuscitado.‖ Porque a realidade não é determinada por nossos pensamentos, mas nossos pensamentos precisam se guiar pela realidade. Conduzido pelo Espírito Santo, Paulo formula desde já a constatação dessa realidade de tal forma que ela não continua sendo um fato isolado e desconexo, não uma mera parte da história de Jesus como tal. Com sua ressurreição Jesus é as “primícias dos que adormeceram”. A palavra ―primícias‖ não apenas designa a anterioridade cronológica em relação a outros, mas aponta para uma correlação e fundamentação interiores. Às ―primícias‖ seguem-se necessariamente outras coisas. Por exemplo, as “primícias” são as primeiras espigas do grande campo a ser colhido, que assinalam o começo da própria colheita e por isso precisam ter por conseqüência a abundância das espigas restantes. Com isso Paulo se volta de maneira especial contra a idéia dos coríntios, que não negavam a ressurreição de Jesus em si, mas a consideravam uma exceção singular, sem relação com nosso próprio futuro na morte. Que Jesus, o Filho de Deus, tenha emergido do reino dos mortos com nova vitalidade e com novo corpo! Isso, no entanto, ainda não significava nada para os cristãos comuns, em cuja ressurreição não queriam crer! Paulo, porém, mostra que as ―primícias‖ são apenas o começo de uma série que forçosamente lhes segue e que, por isso, a ressurreição de Jesus começa um movimento que se expande cada vez mais. Em conseqüência, esse acontecimento da manhã da Páscoa tem a ver diretamente com os coríntios (e nós!), incluindo a ressurreição deles mesmos (e a nossa!). Com a fé na ressurreição de Jesus eles ao mesmo tempo estão afirmando seu próprio futuro, sim, o futuro de toda a criação. É o que Paulo há de desdobrar diante de nós com sucinta densidade, mas também com ímpeto poderoso.

Para tanto precisamos, mais do que os coríntios, de uma mudança interior de nosso pensamento. Buscamos pelo ―sistema‖, pela exposição cabal, pelas respostas a todas as nossas perguntas e problemas. Paulo, porém, sabe que está limitado pelo que ele havia pessoalmente descrito em 1Co 13.9 como parcialidade característica de toda a profecia. Por isso Paulo não nos fornece detalhes na descrição subseqüente, extremamente resumida, e não nos diz muitas das coisas que gostaríamos de saber. Exibe tão somente as grandes linhas da imagem do futuro, porém obviamente com toda a clareza e certeza. Evidentemente tudo aquilo que nós agora ainda não podemos saber não causa dificuldades a Paulo, não refutando nem depreciando o que se pode e se precisa afirmar acerca do futuro. É esse modo bíblico de pensar que nós precisamos reaprender completamente.

Acima de tudo, porém, cabe-nos livrar-nos de nosso individualismo, a quem importa apenas a ―bem-aventurança‖ de cada um. Paulo decididamente não fala disso no presente trecho. Paulo vê diante de si a humanidade em suas grandes correlações, que determinam a sorte de cada indivíduo. A primeira coisa que ele afirma acerca dessas correlações determinantes é que elas não se formam por intervenções externas artificiais da parte de Deus, mas que são criadas na própria humanidade “por um homem”. Isso vale também em relação à pergunta com que Paulo unicamente se ocupa na presente passagem, à fatalidade de que a humanidade é mortal, e ao rompimento dela por ocasião da ressurreição dos mortos. “Visto que a morte (veio) por um homem, também por um homem (vem) a ressurreição dos mortos.” “Por um homem” acontecem as grandes decisões. Em decorrência, essas pessoas são ―primícias‖ que como seres humanos pertencem integralmente à humanidade, mas que ao mesmo tempo determinam o destino de incontáveis pessoas, para a morte ou para a vida, com poder contínuo. Por isso é tão importante que também Jesus seja ―um homem‖ e como tal pertença totalmente à humanidade, porque unicamente assim consegue tornar-se ―as primícias‖ dentro dela.

22 Na seqüência Paulo mostra quem são os dois ―homens‖ dos quais emanam efeitos tão poderosos. “Porque, assim como no Adão todos morrem, assim também todos serão vivificados no Cristo” [tradução do autor]. Um dos homens é ―o Adão‖, ou seja, aquele que se chama expressamente de ―Adão‖ (―ser humano‖). O artigo definido evidencia que aqui não se menciona uma pessoa em particular, que tem esse nome apenas por acaso, mas a cabeça efetiva da humanidade, pela qual toda ela foi onerada com a inevitável morte. Por isso Paulo formula que “no Adão todos morrem”. E a ele se opõe “o Cristo”. Também ele é membro da humanidade. Contudo, como mostra seu título de Cristo, ele é integralmente a cabeça determinante e criadora que leva a vida para dentro da humanidade moribunda. “No Cristo todos serão vivificados.” Paulo não aborda aqui (como em Rm 5.12-21) a questão da culpa de Adão e a correspondente anulação da culpa por intermédio de Cristo como pressuposto da concessão da vida. Atém-se rigorosamente ao tema que agora lhe está colocado pela negação da ressurreição em Corinto. Tampouco seu olhar se volta agora ao fato de que a dependência da humanidade ―do Adão‖ e ―do Cristo‖ é essencialmente diferente e que, por conseqüência, a palavra ―todos‖ nas duas metades da frase, apesar de sua igualdade formal, possui um conteúdo diferente. “No Adão” de fato morrem “todas” as pessoas sem exceção, porque todas, por natureza e sem exceção, estão “no Adão”, são filhos de Adão, ―carne‖. “No Cristo” obviamente também foi concedida a “todos” sem exceção a possibilidade de chegar à vida. Na realidade, porém, de forma alguma “todas” as pessoas estão “no Cristo”. Nele estão apenas todos aqueles que aceitaram a fé em Cristo e se tornaram propriedade de Jesus. Contudo “serão vivifivados no Cristo” no verdadeiro sentido. A palavra ―ser vivificado‖ contém aquela expressão para ―vida‖ (zoe) que por si só pode designar no NT, até mesmo sem a adição de ―eterna‖, a vida verdadeira, genuína, que não é refém da morte. Também os ―perdidos‖ precisam ―continuar vivendo‖ após sua morte física, porém essa vida ―lá fora‖ (Ap 22.15) nas ―trevas‖ (Mt 8.12; 22.13; 25.30), ―banidos da face do Senhor e da glória de seu poder‖ (2Ts 1.9) não é verdadeira ―vida‖, e sim morte eterna.

23 Entretanto uma verdade que precisa ser bem observada tanto por nós quanto pelos coríntios é: nem na ―obra‖ do Cristo nem na do Adão estão em jogo almas individuais, que como tais recebem a vida por meio de Jesus de forma desconexa. Pelo contrário, trata-se da revelação do grande plano de Deus até o último alvo que abarca o universo. Está em jogo o ―vivificar‖ de grandes dimensões, que liberta a própria criação dos poderes da morte, trazendo-a à gloriosa liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8.21). Esse plano de Deus, porém, é concretizado em etapas. Dessa forma surgem ―divisões‖ [batalhões], dentro das quais os indivíduos obtêm participação na nova vida trazida por Cristo: “Cada um, porém, em sua própria divisão: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua parusia” [tradução do autor].

A primeira ―divisão‖ dessa vivificação e nova criação já entrou em campo. Ela é o próprio Cristo que, como ―primícias‖, é o iniciador e garantidor de tudo o que vem depois. Ele é seguido pelos “que são do Cristo (literalmente: ―os do Cristo‖, a ―gente do Cristo‖) na sua parusia”. Paulo pode se limitar a essa breve constatação, porque já apresentou tudo isso detalhadamente aos coríntios, assim como aos tessalonicenses (cf. 2Ts 2.5; 1Ts 4.13-18; 5.1-11), por ocasião de sua proclamação oral. Para nós, porém, se confirma por meio dessa breve frase também nessa carta ―clássica‖ de Paulo que a ―parusia‖ de Jesus a princípio vale apenas para a sua igreja e leva seus mortos a ressuscitar, arrebatando e aperfeiçoando a igreja como um todo.

24 Somente depois disso acontecem os impactantes eventos do “fim”, nos quais a igreja unificada para sempre com seu cabeça tem plena e direta participação. Portanto, segundo a clara proclamação do apóstolo existe uma ressurreição e vivificação dos que crêem antes dos acontecimentos finais, ou seja, também antes do juízo final. “Então o fim” [tradução do autor]. A fim de manter rigorosamente a metáfora das divisões, houve quem tentasse traduzir a palavra ―to telos‖ com ―o resto‖. Essa tradução, porém, não é possível de acordo com nosso conhecimento do idioma grego daquele tempo. Também em termos de conteúdo levaria a conseqüências impossíveis. Será que depois da ressurreição do ―pequeno rebanho‖ Paulo designaria toda a humanidade remanescente de ―resto‖? Acima de tudo, será que ele, que falou com tamanha seriedade da perdição e da necessária salvação através de Cristo, repentinamente também atribuiria com uma única frase, sem mais nem menos, ―o ser vivificado no Cristo‖ a esse ―resto‖, i. é, a toda a humanidade remanescente? Isso é impossível. O próprio Paulo não usa a metáfora das ―divisões‖ com tanto rigor, mas visa apenas caracterizar a execução do plano de salvação por etapas. Porque já as ―primícias‖, o próprio Cristo, não são propriamente um ―batalhão‖.

O ―fim‖ novamente se refere ao ―alvo final‖, ao último desfecho que coroa toda a obra de Jesus, como a frase imediatamente subseqüente, que já antecipa o versículo final (v. 28): “Quando ele entregar o reino ao Deus e Pai.” A concretização desse alvo, porém, é necessariamente antecedida por feitos soberanos de Jesus ou também do próprio Deus, somente agora arrolados por Paulo: “Quando tiver aniquilado todo principado, bem como toda potestade e poder” [tradução do autor]. Para qualquer um dos mais simples cristãos, que ora o Pai Nosso com sinceridade, é muito evidente que agora no mundo não se santifica o nome de Deus, não se faz a boa e santa vontade de Deus e por isso o reino de Deus não vem. Qual é a razão disso? Em sua explicação do Pai Nosso Lutero fala de ―todo mau desígnio e vontade que não santificam o nome de Deus nem querem permitir que venha seu reino, como, por exemplo, a vontade do diabo, do mundo e de nossa carne‖. Na oração do Pai Nosso rogamos que Deus ―quebre e impeça‖ todo esse mau desígnio e vontade. Desde já temos o privilégio de experimentar diversas respostas a essa prece. Porém nosso insistente anseio é para que tudo o que se opõe ao senhorio pleno de Deus seja completamente “aniquilado”. É exatamente isso que nos está sendo assegurado aqui. Para quem sofre com o curso deste mundo e vê toda a enxurrada de múltiplos temores, aflições e sofrimentos que onera e destrói a vida de incontáveis pessoas, a mensagem imprescindível e bem-aventurada será que em Cristo Deus há de “aniquilar todo principado bem como toda potestade e poder” de natureza hostil a Deus. Somente seu aniquilamento abre caminho para a nova plenitude de vida da criação na soberania de Deus. Por mais estranho que seja para nós a idéia de que atualmente nem mesmo Deus governa esse seu mundo, mas alguém completamente diferente é o ―príncipe deste mundo‖ (Jo 12.31), sim ―o deus deste mundo‖ (2Co 4.4), ela corresponde tanto à realidade que experimentamos quanto à característica básica do próprio evangelho. ―O reino de Deus está próximo‖, essa é a proclamação fundamental de João Batista e também do próprio Cristo. ―Venha teu reino‖ constitui por isso a prece central na oração dos discípulos. Se Deus já fosse desde sempre e agora aquele que governa soberanamente no mundo, por que seria necessário anunciar e rogar isso?

25 Na seqüência Paulo se revela como ―quiliasta‖. Obviamente não está mencionando o período de mil anos de senhorio do Cristo. Tanto agora como em todos os pormenores Paulo é extremamente reservado, mas atesta um domínio real de Jesus ―depois‖ de sua parusia e depois da ressurreição e do aperfeiçoamento da igreja crente. Esse é o senhorio de Jesus que o primeiro cristianismo considerou como profetizado no Sl 110.1. “Porque convém que ele reine „até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés‟.” Nessa frase, quem é o sujeito da segunda afirmação? É o próprio Cristo que submete todos os seus inimigos durante esse seu domínio real? O retrospecto ao v. 24 inicialmente sugere essa idéia. Contudo, também o v. 24 já poderia estar indicando tacitamente uma troca de sujeito. Aquele que ―aniquilou todo o principado, bem como toda potestade e poder‖ bem poderia ser o Deus e Pai, ao qual Cristo entrega a soberania. Por exemplo, em Ef 1.20s o próprio Deus é aquele que age, que fez Cristo ―sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio‖. É o que, por coerência, igualmente corresponde ao que diz o próprio Sl 110.1. Contudo a ação de Deus não torna o Filho necessariamente inativo. Também a reconciliação é obra do próprio Deus (2Co 5.19) e, apesar disso, acontece apenas pelo empenho extremo do próprio Jesus. Por isso justifica-se pelo próprio assunto que a pergunta pelo sujeito das afirmações do v. 25b não pode ser inequivocamente respondida. O hino da igreja atesta que ―Deus põe tudo debaixo de seus pés‖. Ao mesmo tempo, porém, o próprio Jesus é aquele que ―soberanamente governa‖, que calca seus inimigos debaixo dos pés e somente então entrega o reino ao Pai.

26 “Como último inimigo é aniquilada a morte” [tradução do autor]. Isso não precisa ter o sentido de que a morte em si é ―o último inimigo‖, o maior e pior de todos eles. No entanto é muito necessário que nós reconheçamos o caráter hostil da morte. Assim como entre nós, cristãos, estamos acostumados a sem maiores problemas ver o mundo atual como reino e mundo de Deus, assim também aceitamos a morte como uma parte da ordem natural, sim, até a transformamos em ―amiga‖, numa contradição expressa com a Escritura. Na verdade ela é e continua sendo o ―inimigo‖, até mesmo para o cristão redimido, cujo corpo está ―morto por causa do pecado‖ (Rm 8.10) e que por isso precisa passar por aquele ―despir‖, o desmonte do ―tabernáculo‖,

diante do qual também uma pessoa como Paulo sentia medo (2Co 5.4). De acordo com Hb 2.14 o diabo está por trás da morte como o verdadeiro poderoso. Sua queda no charco de fogo (Ap 20.10) é o episódio mais decisivo porque com isso foram aniquiladas a cabeça e a origem de toda a rebelião contra Deus. No entanto, também de acordo com a exposição do Apocalipse, segue-se então, em Ap 20.14: ―A morte e seu reino foram lançados ao charco de fogo.‖ A própria morte precisa sofrer agora a morte, a morte eterna. Assim ela é o “último” de todos os poderes hostis que são expulsos do mundo de Deus. Por meio da expressão ―como último inimigo‖ Paulo visa dizer que a morte somente pode ser aniquilada depois que forem destruídos todos os demais inimigos, em cujo séqüito a morte realizou sua entrada na criação de Deus.

27 Por essa razão Paulo enfatiza justamente no presente local, com palavras do Sl 8.6: “Porque todas as coisas sujeitou debaixo dos pés.” Todo o território inimigo tornou-se irrestritamente a propriedade do Rei Jesus. Agora o espaço está livre para um novo mundo, um mundo sem Satanás e pecado e por isso também sem morte e sofrimento, um mundo em que o tabernáculo de Deus pode permanecer entre seus seres humanos (Ap 21.3s). Porém Paulo não traz nada de uma descrição dessas. Ele fixa o seu e o nosso olhar unicamente no próprio Deus. Para isso Paulo recorre ao termo ―sujeitar‖, que designa fundamentalmente o alvo que Deus havia visado de antemão. Tudo deve ficar subordinado ao Filho amado. “Porque todas as coisas sujeitou debaixo dos pés.” Esse alvo será atingido um dia porque o Deus onipotente quer que seja alcançado. Tudo está subordinado a Jesus. Cada joelho se dobra diante dele, e toda língua confessa que Jesus Cristo é o Senhor, para a honra de Deus, o Pai (Fp 2.11). Como será, portanto? Será que o Filho se deleita nesse triunfo de seu senhorio? Será que agora apesar de tudo considera uma usurpação ser igual a Deus? Acaso está preservando com boas razões o domínio que o próprio Pai lhe deu? Não! ―Tudo‖ que Deus colocou sob os pés de Jesus não inclui o próprio Deus vivo. “E, quando diz que todas as coisas (lhe) estão sujeitas, certamente, exclui aquele que tudo lhe subordinou.”

28 Em seguida Jesus se mostra integralmente como o ―Filho‖, cujo coração está cheio de apenas uma coisa: ―Pai, teu nome… teu reino… tua vontade.‖ Agora esse ardente amor do Filho pelo Pai realiza seu mais elevado e extremo ato de amor: “Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então, o próprio Filho também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos (ou: em tudo).”

Agora fica definitivamente claro que a sujeição a Deus não é perda, limitação ou mesmo ―vergonha‖. Esse pensamento somente podia ser obra da peçonha satânica em nosso sangue. Não, para o Filho é prazer e honra, vida e felicidade eterna estar sujeito ao Pai com tudo o que Deus lhe havia concedido. No entanto, também a criação e humanidade renovadas e purificadas têm seu prazer e sua vida verdadeira no fato de que “Deus é tudo em tudo”. Toda a sua ―vaidade‖, toda a sua aflição e toda a sua perdição se originaram quando se afastou de Deus. Agora, porém, a criação reflete em tudo com límpida clareza a glória de Deus. Agora chegou ao alvo a prece pela santificação do nome de Deus. Em tudo o que existe e vive o nome de Deus pode ser lido com clareza. Toda a criação passa a exaltar exclusivamente o nome dele. Não existe mais uma busca por Deus. Cumpriu-se a prece pela vinda do reino. Deus governa em todos os lugares, concretizando assim a terceira prece, que sua vontade aconteça na terra como acontece no céu. A vontade de Deus acontece sistematicamente em todo o universo, e por isso agora tudo está bem.

Onde, porém, ficou a ―minha bem-aventurança‖? Ela está encerrada nesse ―Deus tudo em tudo‖. A salvação estará garantida para mim quando o Espírito do Filho habitar em meu coração e eu me tornar por meio dele uma pessoa verdadeiramente redimida, cujos anseios, como os do Filho, têm por alvo a soberania do Pai, e que como Filho considera a sujeição a Deus como o sentido e o deleite de sua vida.

Não obstante, será que, apesar de tudo, esse final aponta para uma ―reconciliação universal‖? “Deus tudo em tudo” – haverá ainda espaço para qualquer coisa além de Deus? Mas Paulo não falou de uma conquista finita de ―todo o principado, potestade e poder‖ para Deus, mas de seu aniquilamento. E até mesmo ao ser aniquilada ele ainda cita a morte expressamente como o ―último inimigo‖. Paulo não nos informa nada sobre onde esses inimigos se encontram agora, que aspecto tem sua existência. E não nos cabe querer saber mais do que nos é dado na palavra. Muito menos Paulo nos descreve nessas frases extremamente sucintas algo sobre o destino das pessoas que não chegaram à fé em Jesus. No entanto, com isso ele não revoga que os santos julgarão o mundo (1Co 6.2) e que o último juízo da ira de Deus é terrivelmente sério (Rm 2.5; 5.9; 1Ts 1.10). Todas as doutrinas singulares e heresias surgem sempre daquele abuso da Escritura que retira dela referências isoladas e as ajusta a um sistema, sem levar em conta a plenitude de afirmações diferentes. Nosso objetivo é ouvir e absorver todo o presente trecho em sua magnitude plena e com toda a sua riqueza, assim como ele nos foi dado no Espírito Santo por intermédio de Paulo. Haveremos de levar uma vida cristã vigorosa, clara e determinada, se permanecermos em suas poderosas linhas. Ele nos mostra o que significa sermos ―renascidos para uma viva esperança pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos‖ e por isso estar desde já no meio da morte e do sofrimento com fé na ―indizível e gloriosa alegria‖ (1Pe 1.3,8). Seremos agradecidos na medida em que outros textos da Escritura forem capazes de responder as perguntas que Paulo deixa em aberto. No

entanto, todas as questões específicas hão de perder o interesse falso para nós na medida em que nós mesmos aprendermos a orar as três primeiras preces do Pai Nosso no espírito filial de Jesus.

A importância da ressurreição para a atitude pessoal na vida, 15.29-34

29 Doutra maneira, que farão os que se batizam por causa dos mortos? Se, absolutamente, os mortos não ressuscitam, por que se batizam por causa deles?
30 E por que também nós nos expomos a perigos a toda hora?
31 Dia após dia, morro! Eu o protesto, irmãos, pela glória que tenho em vós outros, em Cristo Jesus, nosso Senhor.
32 Se, como homem, lutei em Éfeso com feras, que me aproveita isso? Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos.
33 Não vos enganeis: as más conversações (ou: convívios) corrompem os bons costumes.
34 Tornai-vos à sobriedade, como é justo, e não pequeis; porque alguns ainda não têm conhecimento de Deus; isto digo para vergonha vossa.

29 Paulo não falou da ―bem-aventurança‖ do indivíduo. Mas passa a falar agora do que significa a certeza da ressurreição ou sua negação para a vida e o engajamento de cada um. Escreve a esse respeito como um realista muito sóbrio, que se distancia de todas as falas idealistas.

Na verdade a primeira frase representa grande dificuldade para nosso entendimento. “Doutra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos? Se, absolutamente, os mortos não são ressuscitados, por que se batizam por eles?” [tradução do autor]. Será que havia em Corinto o costume de que membros da igreja se deixavam batizar vicariamente por familiares já falecidos, no intuito de propiciar também a eles, desse modo, a salvação? Foi o que os exegetas deste versículo repetidamente supuseram. Contudo é justamente contra isso que se levantam dúvidas. Será que Paulo teria tolerado uma deformação dessas de sua mensagem em Corinto? Afirma-se que, na realidade, referindo-se aqui a ele, Paulo ainda não concordava com um costume desses. Não estaria se posicionando nem positiva nem negativamente diante dele, mas utilizando-o apenas como recurso na demonstração. No entanto Paulo se afligiu tanto com o véu que as mulheres em Corinto haviam retirado da cabeça que fala detidamente sobre ele, e agora teria permanecido impassível diante do fato de que na igreja a ele confiada se expandisse um entendimento tão grotesco do evangelho? Tentou-se diminuir as dificuldades recorrendo à explicação de que, no caso, se tratava de falecidos que já haviam chegado à fé, mas que pela morte haviam sido impedidos de obter o batismo. Um caso desses, porém, podia ter sucedido na igreja numericamente pequena (cf. acima, p. 224) apenas em casos muito excepcionais. Nessa hipótese Paulo não teria podido falar dos ―que se deixam batizar pelos mortos‖ como de um grande grupo.

No entanto, tais perguntas e dúvidas quanto à substância não podem ter a última palavra para o entendimento de uma passagem. Afinal, poderia ter sido possível o que pelo conteúdo parece completamente impossível. A certeza somente pode ser obtida pelo próprio teor da passagem. Por isso cumpre-nos olhá-la com atenção. Se a frase de Paulo se referisse a um costume desses, como é aceito pela exegese corrente, então Paulo deveria ter escrito: ―Do contrário, que farão os que se deixam batizar por mortos?‖ No entanto, ele formula “pelos mortos”, e não pode estar se referindo com ―os‖ mortos a familiares específicos falecidos de membros da igreja. Igualmente seria impossível explicar a forma da pergunta que ele dirige a esse grupo: ―Que farão?‖, em lugar de uma indagação como: ―Que fizeram?‖ ou: ―Que fazem?‖ Completamente incompreensível seria o nexo estabelecido por Paulo com a frase seguinte por meio de um ―também‖: “Por que também nós nos expomos a perigos a toda hora?” O que teria o risco de vida de Paulo a ver com o costume de batismos vicários por falecidos? A primeira frase ficaria estranha e desconexa diante do conjunto das exposições seguintes.

O presente trecho fala da atitude de vida dos cristãos. Trata-se de sua disposição para o engajamento, para sofrer e morrer. Então também a primeira frase desse trecho precisa ter desde já um sentido correspondente. Acontece que de fato o próprio Jesus já havia designado sua paixão e morte como um ―batismo‖: Mt 20.22; Lc 12.50. Como é plausível que, por isso, também se entenda e designe agora a morte por martírio em sua igreja como um ―batismo‖. Por isto a igreja antiga falou por longo tempo do ―batismo de sangue‖ dos mártires. Por sua vez Paulo destacou no batismo justamente o ser morto e sepultado como um processo essencial (Rm 6.3-5; Cl 2.12). Por isso também podia agora inversamente chamar a morte como um ―ser batizado pelos mortos‖. Nesse caso, o presente texto começa diretamente com a pergunta decisiva: o que será do martírio se não houver ressurreição? “Do contrário, que farão os que se deixam batizar pelos mortos?” Na verdade a igreja de Corinto ainda vive em segurança e grande estilo. Contudo esse ―batismo pelos mortos‖, para o qual os discípulos de Jesus precisam estar preparados, pode sobrevir-lhes com bastante rapidez também em Corinto. O que “farão então?” Será que renunciarão em vão ao bem-estar e à vida? Acaso aprenderão com

profunda decepção que se tornam reféns da morte sem salvação? Nesse caso, qualquer martírio não se torna absurdo? “Se, absolutamente, os mortos não são ressuscitados, por que se deixam batizar por eles?”

Será que podemos dar mais um passo, como também faz A. Schlatter, e tomar ao pé da letra a formulação ―pelos mortos‖ (―em favor dos mortos‖)? Entre os ―doze‖ o apóstolo Tiago já havia sofrido o batismo de sangue (At 12.2). Será que um apóstolo podia e devia morrer? Será que ele não era urgentemente necessário para a atuação de que o próprio Jesus havia incumbido os Doze? Contudo para o próprio Senhor a morte, a trajetória para o mundo dos mortos, havia trazido uma poderosa nova atuação (1Pe 3.19s). Porventura não poderia acontecer também com o discípulo que sua morte prematura violenta viesse em benefício dos mortos e das inúmeras multidões no mundo dos mortos que nunca haviam ouvido o evangelho, trazendo-lhes agora a mensagem da vida? Então a morte de uma pessoa como Tiago, a morte dos mensageiros de Jesus em geral, era verdadeiramente um ―ser batizado pelos mortos‖.

30 Na seqüência o raciocínio prossegue logicamente: “E por que também nós nos expomos a perigos a toda hora?” Paulo pessoalmente ainda não sofreu a morte pelo martírio. Contudo a cada hora sua vida está ameaçada, em cada hora pode ser proporcionado também a ele o ―ser batizado pelos mortos‖. Já em 1Co 4.9 ele se havia designado junto com os demais apóstolos como um lutador destinado à morte na arena do mundo. De nossa parte vemos em geral apenas o ―grande apóstolo‖, o missionário de sucesso, o fundador da igreja européia, o autor de poderosas cartas. Com demasiada facilidade isso nos leva a esquecer que vida de sofrimento e constante perigo de morte ele viveu.

31 Por isso também é benéfico para nós que ele agora assegure aos coríntios: “Dia após dia, morro!” Isso não tem o sentido ―espiritual‖ e ―edificante‖ que entendemos e distorcemos com predileção pela falta de verdadeiro perigo de vida num cristianismo que goza da proteção estatal. Paulo levava de forma muito real e prática ―sempre no corpo o morrer de Jesus‖ (2Co 4.10) e tampouco desejava uma situação diferente (Fp 3.10). Entretanto, como isso se tornaria absurdo se não existisse a ressurreição.

Os coríntios não gostam de ouvir essas frases. Constantemente se irritaram com os sofrimentos do apóstolo. Poderiam ver agora nessa frase do morrer diário um exagero constrangedor. Por isso Paulo acrescenta uma asserção: “Tão certo como sois minha glória, irmãos, que possuo em Cristo Jesus, nosso Senhor!” [tradução do autor]. A frase diz literalmente: ―Pelo vosso (nosso) gloriar, irmãos, que eu tenho em Cristo Jesus, nosso Senhor.‖ De acordo com essa formulação Paulo também poderia ter dito que apesar de tudo os coríntios se gloriam dele e que por isso ele pode recorrer à fama de que goza em Corinto. Será que essa fama se teria formado se ele não tivesse vivido essa vida do engajamento constante? Contudo a formulação de que Paulo ―possui‖ esse gloriar dos coríntios não deixa de ser um linguajar pesado. E no idioma grego ―vosso gloriar‖ pode significar sem problemas um ―gloriar de vós‖. Em todos os casos, porém, independentemente de Paulo se gloriar dos coríntios ou os coríntios se gloriarem de seu apóstolo, Paulo “possui” esse gloriar apenas “em Cristo Jesus, nosso Senhor”. Nunca é uma fama pessoal, baseada sobre si mesma e conquistada por ele mesmo. Retorna agora concretamente o ―Todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo‖, do v. 10 do presente capítulo. Vemos de que modo abrangente e cabal toda a vida de Paulo acontecia ―em‖ Cristo Jesus, como tudo em sua vida era determinado a partir de Cristo.

32 Nesse contexto Paulo se recorda de um episódio de perigo singularmente grave em Éfeso. “Se, à maneira humana, superei em Éfeso uma luta com feras, que me aproveita isso?” [tradução do autor]. É vão identificar essa experiência com certos acontecimentos que nos são conhecidos, p. ex., com a rebelião dos ourives (At 19.23ss). Esse empreendimento também terá um valor apenas insignificante, uma vez que seu êxito apenas completaria nosso conhecimento, porém não acrescentaria nada ao entendimento substancial do presente trecho. No entanto é certo que a palavra sobre ―superar uma luta com feras‖ tem sentido figurado e não literal. Se em Éfeso Paulo de fato tivesse sido condenado à luta com feras na arena, ele não teria deixado de mencionar um sofrimento tão singular em 2Co 11.33ss. E será que ele não teria tentado evitar uma condenação dessas, à semelhança da situação em Jerusalém, mencionando sua cidadania romana? Ademais, por meio da locução ―lutar à maneira humana com bestas‖ ele não evoca condenados, mas gladiadores profissionais que se arriscavam na luta contra feras por dinheiro e fama. Sob essa ótica essa frase se insere de maneira peculiar na presente passagem. Ó sim, seguramente existem pessoas que arriscam a vida também sem certeza da ressurreição, como fazem os gladiadores. Contudo, ao fazê-lo, visam “à maneira humana” seu ganho real e terreno. Mas dessa maneira Paulo não consegue trilhar seu caminho de sofrimentos. Não adquiria nele nem riqueza nem honras mundanas. Tampouco anseia por isso. De que lhe ―aproveitariam‖? Todo o seu incessante empenho da vida somente pode “aproveitar-lhe” se existir a ressurreição dos mortos.

O fato de que Paulo menciona um perigo de vida especial de Éfeso tem como razão primeira o fato de que sua carta foi escrita em Éfeso. No entanto, tanto a menção de Paulo em 2Co 1.8 como a narrativa de At 21.27-29 mostram que o ódio judaico contra Paulo na ―Ásia‖, cuja capital é Éfeso, era singularmente ferrenho e perigoso. Uma vez que Trófimo era um efésio, é flagrante que também se localizavam em Éfeso os ―judeus da Ásia‖ que com feroz paixão perseguiam Paulo nessa cidade.

Na seqüência, com uma palavra de Is 22.13, Paulo chega à sóbria inferência: “Se os mortos não ressuscitam, „comamos e bebamos, que amanhã morreremos‟.” É isso que está em jogo para Paulo em todo o capítulo, a saber, que os ―pensadores‖ em Corinto compreendessem as graves conseqüências que suas operações mentais tão facilmente elaboradas possuem na realidade. Em termos ―intelectuais‖ é possível riscar a ressurreição facilmente, acreditando que com isso se eliminaram escândalos desnecessários para a pessoa moderna em Corinto. No entanto, que conseqüência essa eliminação acarreta justamente para a configuração prática da vida! Se realmente estaremos mortos amanhã e nada mais existirá, então resta para cada pessoa de raciocínio sóbrio e realista preencher esse breve tempo de vida terrena. E por fim consistirá em ―comer e beber‖, até mesmo quando as refeições podem estar temperadas com toda sorte de ―prazeres intelectuais‖. Também na igreja de Jesus esse sentido precisa se impor de maneira conseqüente quando a certeza da ressurreição regride ou desaparece completamente.

33 Por isso Paulo adverte contra a sedução aqui existente: “Não vos deixeis seduzir!” Ele expressa o perigo que vê para Corinto por meio de um verso do poeta grego Menandro. Esse verso deve ter sido conhecido em Corinto como ―palavra corrente‖, assim como também nós conhecemos muitas palavras de poetas como frases proverbiais, sem que precisemos ter lido o próprio poeta em questão. “O mau convívio corrompe (ou: más conversações corrompem) os bons costumes.”

A ―sedução‖ em Corinto não era oriunda da própria igreja. Vinha de um ―mau convívio‖, provavelmente de um contato mantido de maneira errada com os concidadãos gentios. Evidentemente a busca por esse contato com pessoas incrédulas e moralmente deturpadas havia sido uma preocupação da igreja. Enquanto Paulo precisa corrigir por carta, em 1Co 5.9ss, um mal-entendido de afirmações suas anteriores, agora sente-se que havia na igreja um ponto melindroso: os membros não queriam permitir que antigos relacionamentos amigáveis na cidade lhes fossem proibidos. Queriam permanecer ―livres‖ e ―abertos ao mundo‖, porque se sentiam suficientemente ricos e superiores (1Co 4.8). Agora, porém, vinha de amigos e conhecidos gregos para a igreja toda a incompreensão sobre essa absurda fé na ressurreição. Os coríntios poderiam desculpar-se dizendo: estamos mantendo apenas ―diálogos‖. Afinal, é possível abordar essas idéias ocasionalmente. Não, replica Paulo, tais ―diálogos‖ e abordagens não ficam sem conseqüências perigosas. ―Idéias‖ se fixam em nós e depois determinam cada vez mais nossa posição interior e nossa conduta real de vida. “O mau convívio corrompe (ou: más conversações corrompem) os bons costumes.” Também nessa questão nossa ―liberdade‖ fundamental como cristãos sofre uma restrição necessária.

34 Paulo conclui com a surpreendente solicitação: “Tornai-vos integramente sóbrios.” A nós a esperança da ressurreição nos parece – como para tantos cristãos do helenismo autêntico em Corinto – algo ―não-sóbrio‖, e uma vida de permanente perigo de morte e de morrer diário parece ―exagerada‖ e tola. Paulo vê a questão de forma exatamente inversa. Parte dos fatos de que fala o evangelho. Fato é a ressurreição de Jesus dentre os mortos. Fato é o poderoso plano de Deus, que Jesus executará até o alvo derradeiro. Fato é, por conseqüência, também nossa ressurreição dentre os mortos. Não contar com esses portentosos fatos, viver longe deles, perdendo assim a verdadeira vida – isso é falta de ―sobriedade‖, isso é sonho irresponsável. Por isso os coríntios precisam despertar de toda a brincadeira intelectual na questão da ressurreição e pisar sobriamente no solo dos fatos que eles, afinal, ouviram e aceitaram (v. 1), pois do contrário ―pecam‖. Toda a vida fora dos grandes fatos divinos leva à desobediência, à conduta arbitrária e determinada pelo eu e, por conseguinte, ao pecado. Por meio de uma frase severa que encerra o presente trecho Paulo expressa como são profundas as decorrências do mau convívio e de brincar com ―idéias‖ contrárias aos fatos divinos: “Porque alguns são cativos do desconhecimento de Deus; isto digo para vergonha vossa” [tradução do autor]. Esse veredicto atinge duramente esses ―alguns‖ e toda a igreja. Porque os coríntios se orgulhavam justamente de seu ―conhecimento‖ (1Co 8.1), e o próprio Paulo havia dado graças no começo da carta pelo fato de serem ricos em todo o conhecimento. Muito além da sabedoria de Paulo, precária demais para eles, eles acreditavam ter atingido em Corinto alturas muito maiores do conhecimento de Deus. Agora Paulo lhes diz essa palavra sobre seu “desconhecimento de Deus”. É exatamente a mesma acusação que o próprio Jesus levanta em Mt 22.29 contra os saduceus, e é também exatamente a mesma questão que está em jogo no caso de Jesus e aqui no de Paulo. Porventura não se evidencia também aqui novamente a influência da palavra de Jesus sobre Paulo? Quem, no entanto, nega a ressurreição por motivos racionais não conhece a Deus e tenta enquadrar a ação do Deus vivo nos estreitos limites de sua pequena razão. Deus não é conhecido a partir de nossas opiniões, e sim dos fatos que ele mesmo gerou na história da salvação. É sobre isso que os coríntios devem refletir, é a isso que a repreensão vexatória de seu apóstolo deve conduzi-los.

O corpo espiritual, 15.35-49

35 Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? E em que corpo vêm?
36 Insensato! O que semeias não nasce, se primeiro não morrer;
37 e, quando semeias, não semeias o corpo que há de ser, mas o simples grão, como de trigo ou de qualquer outra (semente).
38 Mas Deus lhe dá corpo como lhe aprouve dar e a cada uma das sementes, o seu corpo apropriado.
39 Nem toda carne é a mesma; porém uma é a carne dos homens, outra, a dos animais, outra, a das aves, e outra, a dos peixes.
40 Também (há) corpos celestiais e corpos terrestres; e, sem dúvida, uma é a glória dos celestiais, e outra, a dos terrestres.
41 Uma é a glória do sol, outra, a glória da lua, e outra, a das estrelas; porque até entre estrela e estrela há diferenças de esplendor.
42 Pois assim também é a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita na incorrupção.
43 Semeia-se em desonra, ressuscita em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder.
44 Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual.
45 Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante.
46 Mas não é primeiro o espiritual, e sim o natural (ou: o psíquico); depois, o espiritual (ou: Mas não é primeiro o [corpo] espiritual, e sim o psíquico, depois o espiritual).
47 O primeiro homem, formado da terra, é terreno; o segundo homem é do céu.
48 Como foi o primeiro homem, o terreno, tais são também os demais homens terrenos; e, como é o homem celestial, tais também os celestiais.
49 E, assim como trouxemos a imagem do que é terreno, devemos trazer também a imagem do celestial.

35 Paulo é um mestre meticuloso e amoroso. Não se contenta em ter estabelecido o fato da ressurreição e ter mostrado sua importância tanto para o futuro de toda a criação quanto para o engajamento da vida de cada cristão. Cede agora espaço para as perguntas que eclodiram na igreja e das quais a negação da ressurreição obtém seu vigor. “Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? E em que corpo vêm?” É característico para todo o pensamento de Paulo e uma importante orientação para nosso pensamento que ele somente agora admita e aborde essas perguntas. Quando começamos com nossas perguntas e problemas, não conseguimos mais encontrar outra vez a saída do labirinto da incerteza e obstruímos nosso próprio olhar para as realidades. Fatos e realidades são o fator primeiro e decisivo. Uma vez que os reconhecemos com clareza podemos também lhes dirigir nossas indagações. O ―teólogo‖ não pode trabalhar de forma diferente dos pesquisadores da natureza. Todo físico observa inicialmente com toda a exatidão os acontecimentos reais, tentando depois descobrir como eles surgem e como eles são ―possíveis‖. Em consonância, também Paulo expôs aos coríntios primeiro a verdade da ressurreição. Somente agora, depois dessa instrução fundamental ele acolhe suas perguntas.

Seria uma indagação autêntica que realmente visa saber? Ou será que a crítica ou rejeição apenas se revestem da forma de uma pergunta? A interpelação “insensato!” mostra que Paulo no mínimo percebia que motivos falsos se imiscuíam nas perguntas dos coríntios: ―Não conseguimos imaginar como deve acontecer a ressurreição dos mortos, logo não pode haver ressurreição. Não somos capazes de ter uma concepção do novo corpo que os ressuscitados deverão ter, logo tampouco conseguimos crer na ressurreição.‖ Quanto esse tipo de ―lógica‖ também domina o nosso pensamento! Essa ―lógica‖, porém, é ―insensata‖. Não leva em conta que toda a realidade em torno de nós está repleta de processos muito espantosos que na verdade não nos explicam o milagre da ressurreição dos mortos, porém seguramente poderão torná-lo compreensível. Ocorre que no caso de Paulo não se trata de meras ―comparações‖ que visam explicitar coisas de difícil compreensão por meio de figuras. Paulo visa mais do que isso. Nesses processos espantosos em torno de nós atua o Deus vivo, demonstrado neles sua infinita energia criadora. É para esse Deus e essa infinita energia criadora que o ―tolo‖ deve dirigir seu olhar, a fim de depois considerar absolutamente concebível que esse Deus também seja capaz de ressuscitar mortos e presenteá-los com um corpo novo e completamente diferente.

36 “Insensato! O que tu mesmo semeias não é vivificado se não morrer” [tradução do autor]. Pelo ―tu‖ especialmente enfatizado no grego, o ―tu mesmo‖, o apóstolo conduz os que perguntam em Corinto até suas próprias experiências e descobertas. É ―insensato‖ aquele que, apesar de sua inteligência crítica, não aproveita tais experiências e descobertas. Cada vez que semeamos, vemos que a semente não permanece o que ela é, mas o grão precisa acabar e ―morrer‖ para que se transforme em algo novo, uma planta de aspecto completamente diferente. Não semeamos a própria planta que há de ser.

37,38 “E o que semeias – não semeias o corpo que há de ser, mas um grão nu, por exemplo, o trigo ou de um dos outros (vegetais)‖ [tradução do autor]. Agora acontece o milagre: ―Mas Deus lhe dá um corpo como lhe aprouve, e a cada uma das sementes seu próprio corpo‖ [tradução do autor]. Essa é a repercussão constante das instruções fundamentais da criação em Gn 1.11s.

39 É precisamente a partir desse ponto de vista que Paulo olha para a grande abundância e multiformidade da criação. Pessoas, gado, pássaros, peixes, todos eles são ―carne‖. Porém, como é distinta sua ―carne‖. “Uma é a carne dos homens, outra, a do gado, outra, a das aves, outra, a dos peixes.” A palavra ―carne‖ justamente não está se referindo ao que hoje entendemos pelo termo, a substância de seu corpo, mas toda sua maneira de existir na terra e a natureza de seu ser. A criação terrena em torno de nós com plantas, animais e seres humanos não é pobre e monótona, mas mostra uma riqueza inconcebível, uma imensa multiformidade de configurações.

40 Ademais a criação de Deus não acaba no limite do visível. Há também o ―céu‖, i. é, todo o mundo invisível do além. Isso ainda multiplica a maravilhosa diversidade daquilo que Deus chamou à existência. “E (há) corpos celestiais e corpos terrestres, mas uma é a glória dos celestiais, outra a dos terrestres.” O mundo celestial não é um espaço vazio. Ali vivem os exércitos de anjos, mas também as multidões de justos aperfeiçoados na cidade do Deus vivo (Hb 12.22s). Não vivem ―na carne‖, mas também eles possuem um ―corpo‖, assim como também o ser humano possui na terra um ―corpo‖ que não pertence simplesmente à transitoriedade, mas ao Senhor (1Co 6.13-15). No entanto, como é diversa a ―glória‖ dos corpos celestiais e terrenos.

41 Quanta abundância e diversidade de brilho e glória nos são reveladas toda vez que olhamos para o firmamento: “Uma é a glória do sol, outra, a glória da lua, e outra, a das estrelas; porque até entre estrela e estrela há diferenças de esplendor.”

42 De tudo isso Paulo extrai a conclusão: “Assim é também com a ressurreição dos mortos.” Mais uma vez notamos que o objetivo de Paulo não são meras ilustrações ou símbolos. A realidade da ressurreição dos mortos tem características reais que já podemos assimilar a partir da ação de Deus no mundo em torno de nós e que por isso também fazem com que consideremos a ressurreição não apenas como algo inexplicável e inacreditável. A ação criadora de Deus em volta de nós também já abrange a mais diversificada riqueza e magníficos contrastes. Em lugar algum Deus é pobre e monótono, em lugar algum está limitado em seu criar e agir infinitos. Maravilha após maravilha se descortinam para nós na natureza. E será que não confiaríamos que esse Deus também é capaz de contrapor à velha existência terrena dos humanos uma nova existência e vitalidade sobrenaturais? Não, ―assim‖, ou seja, em plena correspondência com a ação do Deus vivo em sua imensa criação, “é também com a ressurreição dos mortos”. Nela se processa um acontecimento semelhante ao semear do ―grão nu‖ e ao brotar da planta viva.

42,43 “Semeia-se em transitoriedade, é ressuscitado em não-transitoriedade; semeia-se em desonra, é ressuscitado em glória; semeia-se em fraqueza, é ressuscitado em poder” [tradução do autor]. Com ―semear‖ Paulo não se referiu ao sepultar. Em seu contexto o ―enterrar‖, que nós podemos entender como um ―semear‖, não era muito usado. Pelo contrário, ―semear‖ abrange toda a dádiva de nossa existência terrena. Não apenas ao morrer, mas em toda a nossa vida nossa existência por isso também é marcada por “transitoriedade, desonra, fraqueza”. Carecemos da glória de Deus (Rm 3.23), que era destinada ao ser humano como imagem de Deus. Também agora Paulo novamente não está refletindo sobre a queda do pecado e o próprio pecado, por meio do qual nossa vida obteve a ―desonra‖, bem como a ―transitoriedade‖ e ―fraqueza‖. Simplesmente cita esses fatos de nossa existência que cada pessoa conhece e precisa admitir. Em consonância, o ser humano agora se compara com a ―semente nua‖. Por essa razão, porém, também não somos obrigados a permanecer nessa condição. Assim como a semente ―morre‖ e, atravessando essa morte, torna-se uma planta viva, à qual Deus concede o novo corpo, assim também acontece conosco. Atravessando a morte, recebemos de Deus a nova maneira de existir, caracterizada por “não-transitoriedade, glória, poder”. O ―morrer‖ não refuta a possibilidade do ressuscitar, mas é justamente a condição prévia para sua concretização. Não deveríamos nos alegrar, ao invés de questionar com atitude de crítica e rejeição? Será que não deveríamos tomar sobre nós com disposição os ―sofrimentos do éon atual‖, que na verdade ―não valem a glória a ser revelada em nós‖ (Rm 8.18), e deixando-nos confiantemente ―batizar pelos mortos‖, se Deus preparou algo tão grande para nós?

44 Paulo sintetiza: “Semeia-se corpo psíquico, é ressuscitado corpo espiritual.” Trata-se do “corpo”. Para o realista Paulo era inconcebível uma existência sem corpo. Tudo o que vive precisa do corpo como expressão e órgão de sua vitalidade, motivo pelo qual também possui um corpo. Esse nosso corpo, porém, agora é ―psíquico‖, porque o próprio ser humano é por natureza uma ―pessoa psíquica‖ (1Co 2.14). Nosso corpo atual é ―psíquico‖ porque é dominado por nossa ―psique‖ e serve para cumprir as necessidades dela. Agora, porém, ao crermos, fomos presenteados por Jesus com o Espírito. ―Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus‖ (1Co 2.12). Desse modo penetra em nossa vida o profundo conflito

descrito tanto em Rm 8.10 como, sobretudo, em Gl 5.17. Por isso percebemos nosso corpo ―psíquico‖ como ―corpo de humilhação‖ (Fp 3.21), e justamente como pessoas que obtiveram a dádiva das primícias do Espírito ansiamos pela ―redenção de nosso corpo‖ (Rm 8.23). Como ―pessoas do Espírito‖ carecemos de um corpo completamente diferente. Paulo o chama de ―corpo espiritual‖, não porque ele consiste de ―Espírito‖ como de uma substância fina (apesar de todo seu realismo o apóstolo não imaginou o Espírito Santo como ―substância‖), mas porque ele é configurado e governado pelo Espírito Santo. Esse corpo já não é um empecilho para a vida plena do Espírito, mas está à disposição do agir dele com ―não-transitoriedade, glória e poder‖.

O ser humano em que habita o Espírito de Deus precisa necessariamente de um ―corpo espiritual‖, por intermédio do qual nossa atual existência dividida encontra o fim pelo que anseia. Contudo, será que também o obteremos com toda a certeza? “Se há corpo psíquico, há também espiritual” [tradução do autor]. Por meio dessa inferência final Paulo exercita uma ―lógica‖ autêntica. A ―psique‖ da pessoa recebeu de Deus o corpo que combina com ela e corresponde às suas necessidades. Agora Deus concedeu seu Espírito ao coração das pessoas. Por isso ele também criará e concederá um corpo que corresponde ao Espírito e serve a seus impulsos como instrumento dócil e equivalente. Como Deus seria ―ilógico‖ se criasse para a ―psique‖ o órgão necessário, porém negasse a seu próprio Espírito um órgão assim! É ―insensatez‖ não admitir a lógica de Deus apenas porque nossas atuais possibilidades de imaginação são insuficientes.

45 Ao mesmo tempo Paulo remete à Escritura. Ele próprio está consciente de que não consegue demonstrar sua argumentação simplesmente de forma textual pela Escritura. Por isso formula: ―Dessa maneira‖ ou “nesse sentido” está escrito: “O primeiro homem, Adão, foi feito psique vivente. O último Adão, porém, Espírito vivificante” [tradução do autor]. Paulo acolhe Gn 2.7, ampliando um pouco o texto original. Igualmente, independentemente da queda do pecado, o “primeiro homem” foi apenas uma “psique vivente”, uma ―pessoa psíquica‖, porém não mais do que isso, por mais grandioso que seja ser ―humano‖ e ―psique vivente‖. A esse Adão é oposto aqui, como no v. 22, o Cristo, que no entanto não é designado pelo seu título de Messias, e sim é chamado de imagem oposta à ―primeira pessoa‖, como o “último Adão”. Também ele é um ―Adão‖, um ser humano, e o iniciador de uma linhagem humana. Contudo em sua essência é algo completamente diferente do que aquele Adão, não uma ―psique vivente‖, mas ―Espírito vivificante‖. Para afirmar isso Paulo não se apóia numa passagem específica da Escritura como, p. ex., Is 11.2. Toda a realidade desse ―último Adão‖ está nitidamente diante da igreja, que por meio do Espírito Santo reconhece em Jesus o kyrios (1Co 12.3b) e recebeu do próprio o Espírito com a plenitude de seus dons. A própria igreja, como cada cristão individualmente, é a prova viva do ―último Adão‖ como ―Espírito vivificante‖.

46,47 O enigma do ser humano, sua origem, sua natureza, seu alvo, moveu necessariamente o pensamento das pessoas desde a Antigüidade. Pensou-se que seria possível encontrar e formular a solução do enigma em mitos, religiões e filosofias. No Oriente era amplamente difundida a idéia de um ser humano de origem celestial, que um dia desceria do céu, cuidaria do ser humano desfigurado no mundo e faria dele novamente a verdadeira pessoa. Filósofos judaicos combinavam com essa idéia os dois relatos da Bíblia sobre a criação do ser humano. Em Gn 1.27 eles viam o ser humano originário apresentado com sua glória divina e em Gn 2.7 o ser humano atual com sua maneira de ser terrena e sua limitação. É bem provável que Paulo tenha conhecido essas especulações, referindo-se aqui expressamente a elas e voltando-se contra elas, ao estabelecer agora: “Mas não é primeiro o espiritual, e sim o psíquico, depois o espiritual (Ou: Mas não o [corpo] espiritual é o primeiro, e sim o psíquico, depois o espiritual). O primeiro homem é da terra, é terreno; o segundo é do céu.” A verdade é exatamente contrária ao que os pensadores judaicos ensinam.

Para Paulo o ser humano de Gn 2.7 não é outro do que aquele de Gn 1.27. Ambas as passagens tratam da mesma pessoa real, que é destinada a ser imagem de Deus e que também alcançará essa imagem por meio de Cristo (Rm 8.29), que Deus, porém, fez ―da terra‖, de sorte que ele traz em si a maneira ―terrena‖ ou ―terrosa‖, terrestre. Justamente o “primeiro homem”, o ser humano semelhante à terra, é que vive nessa sua condição durante os séculos da história, até que o “segundo homem”, Jesus, viesse apenas na plenitude do tempo. Ele é “do céu”. Por meio dessa afirmação acerca da passagem Paulo não deve estar pensando muito na preexistência de Jesus no céu. Visa caracterizar aqui a diferença de natureza entre os dois homens, seu caráter terreno e seu caráter celestial. Por isso Paulo afirma literalmente que o segundo homem é ―de céu‖ (não ―do céu‖), assim como o primeiro é “de terra”. Do mesmo modo o próprio Jesus em Jo 8.23 também visou enfatizar com as expressões ―de cima‖ e ―de baixo‖ não tanto o lugar de sua origem, mas a característica de sua essência.

48,49 Os dois ―Adãos‖ não continuam sendo personagens solitários que apenas se contrapõem em sua diferença de naturezas. Justamente como ―Adãos‖ eles existem para gerar uma humanidade que os tem como fonte para sua existência e para formar sua essência. Por isso Paulo prossegue: “Como o terreno, assim também os terrenos, e como o celestial, assim também os celestiais” [tradução do autor]. Por essa razão existem desde a vinda desse ―último Adão‖ duas linhagens profundamente diferentes de humanidades. Por natureza todos nós fazemos parte da primeira humanidade terrena e “trazemos” de nascença “a imagem da (pessoa)

terrena”. Contudo, quando nos tornamos crentes, acontece uma mudança de existência em nós. O NT acumula as metáforas para expressá-la. Para ficar apenas com o próprio Paulo: em Cristo já somos ―uma nova criação‖ (2Co 5.17); ―revestimo-nos da nova pessoa criada segundo Deus‖ (Ef 4.24; Cl 3.10); ―ressuscitamos com Cristo‖ (Cl 3.1); ―somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem‖ (2Co 3.18); ―fomos assentados com Cristo no mundo celestial‖ (Ef 2.6). Por isso vale para nós desde já: “Como o celestial, assim também os celestiais.” Em Cristo já somos ―pessoas do céu‖. Obviamente persistem ao mesmo tempo o aspecto inacabado e o conflito que acabamos de constatar em Rm 8.10 e Gl 5.17. Essa estranha condição intermediária é expressa por Paulo com sua afirmação acerca de nossa participação na humanidade terrena e de nosso condicionamento pelo Adão terreno, na forma verbal do pretérito, não na forma do presente: “Assim como trouxemos a imagem do terreno”. No entanto, ele não é capaz de declarar que já trazemos agora a imagem do celestial. Portanto é obrigado a dizer: “Assim traremos também a imagem do celestial.” No presente capítulo ele não está pensando, da mesma forma como naquelas passagens citadas, naquilo que o Espírito já cria interiormente em nós, mas em nosso corpo, que ainda ―está morto por causa do pecado‖ e por isso é um ―corpo de humilhação‖ e somente na ressurreição será ―igual ao corpo de sua glória‖ (Fp 3.21). Somente quando isso tiver acontecido, ―nós trazemos‖ plena e integralmente e sem restrições ―a imagem do celestial‖. Contudo está claro: para Paulo isso não é mera asserção infundada. Afinal, os dois Adãos estão aí! O ―último Adão‖ é diferente e precisa de uma humanidade que corresponda à sua natureza. Ele realizou sua obra redentora, começou sua obra de transformação pelo Espírito Santo. Precisa e há de concluir essa obra. Diante dessa obrigatoriedade e lógica conseqüência as perguntas pela ―viabilidade‖ da ressurreição e pela modalidade da nova forma corporal perdem sua força impeditiva. Agora realmente é ―insensato‖ quem, estando na igreja de Jesus, não quer reconhecer isso e acolhê-lo em seu coração.

O evento da ressurreição dos mortos, 15.50-58

50 Isto afirmo, irmãos, que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção.
51 Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos,
52 num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.
53 Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade.
54 E, quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade, então, se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória.
55 Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?
56 O aguilhão da morte (é) o pecado, e a força do pecado (é) a lei.
57 Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo.
58 Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho (de fato) não é vão.

50 Paulo respondeu às perguntas e objeções dos coríntios. Precisava fazê-lo como mestre e pai da igreja. Mas ele também sente o perigo sempre presente quando se atende a perguntas e dúvidas. Quando tentamos tornar compreensíveis as coisas divinas e as tornamos palpáveis para os outros, elas podem perder sua característica estranha, seu impacto e sua magnitude, tornando-se fáceis e compreensíveis demais. Por isso a preocupação de Paulo é verbalizar mais uma vez, no final deste capítulo, a forma pela qual a mensagem da ressurreição dos mortos irrompe em nossa vida, abalando tudo e destroçando toda a mentalidade terrena. “Isto afirmo, irmãos, que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus.” A vida na ressurreição não é continuação da existência terrena para todo o sempre. Não existe a preservação de hábitos de vida terrenos e confortáveis a que nos apegamos. A essa forma de existência bem egocêntrica e terrena Paulo chama, segundo o uso terminológico da Bíblia, de ―carne e sangue‖. A locução não se refere apenas ao nosso corpo em si, embora também faça parte dela, mas a todo o nosso ser atual, incluindo nosso pensar e nossa ―espiritualidade‖. Essa nossa natureza egocêntrica por demais conhecida não tem lugar onde Deus governa e é ―tudo em tudo‖. Por sua característica ela “não pode” herdar o reino de Deus. Isso é expresso no texto grego pelo fato de que não apenas ―carne e sangue‖, mas também ―reino de Deus‖ aparece sem artigo. Algo como ―reino de Deus‖ não pode de forma alguma ser herdado por algo como ―carne e sangue‖. ―Carne e sangue‖ e ―reino de Deus‖ são diametralmente opostos. Por essa razão ninguém em Corinto pode esperar que seja capaz de levar consigo sua maneira de ser natural para dentro do reino de Deus. Se apesar dos elevados dons espirituais os coríntios ainda continuam tão ―humanos‖ e ―carnais‖, como Paulo precisou mostrar-lhes em 1Co 3.1-4, então não cabem no reino vindouro, no novo mundo de Deus. A ―ressurreição‖ não é a restauração da vida infelizmente destruída e

interrompida pela morte! Paulo acrescenta que “nem a transitoriedade herda a não-transitoriedade”. Isso é importante para nossa própria clareza nessa questão. A transitoriedade não “herda” a perenidade, pois do contrário resultaria uma distorcida ―transitoriedade intransitória‖. Isso não seria apenas uma contradição lógica, mas também algo insuportável ao nível da experiência. Como crianças certamente desejamos que ―sempre fosse Natal‖. Mas esse foi um desejo infantil, cujo cumprimento rapidamente teria prejudicado nossa vida. Obviamente ansiamos por sair de toda essa constante mudança e de toda inconstância de nossa vida, para chegar ao ―não-transitório‖, ao ―reino inabalável‖ (Hb 12.28). Contudo até mesmo as coisas mais belas e preciosas de nossa vida não seriam capazes de suportar essa ―imobilidade‖, essa duração eterna. É preciso que aconteça uma completa ―transformação‖ conosco e nossa vida para que possamos suportar a não-transitoriedade. No entanto, podemos lembrar que conforme 1Co 13.8 Paulo conhecia algo em nossa vida que permanece assim como é, mesmo na eternidade: o amor, que faz parte da essência de Deus e vive em nós por intermédio do Espírito de Deus.

Simultaneamente essas frase de Paulo respondem aos que negam a ressurreição justamente porque rejeitam com razão uma continuidade eterna da existência terrena e por isso também um mero reavivamento dos corpos terrenos. A esperança judaica pela ressurreição podia assumir essa forma questionável no farisaísmo. A mensagem de Paulo poderia ter sido mal-entendida de forma análoga por diversos membros da igreja em Corinto. Já o próprio Jesus viu esse equívoco farisaico da ressurreição dar certa razão à crítica zombeteira dos saduceus. Se realmente ―carne e sangue‖ pudessem herdar o reino de Deus, de fato caberia levantar a pergunta, a quem então pertenceria a mulher que havia sido consecutivamente desposada pelos irmãos no levirato. Jesus rejeitou essa pergunta, mas com ela igualmente todo o mundo imaginário que a acompanhava. ―Na ressurreição nem casam, nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu‖ (Mt 22.30). A questão é vista por Paulo de forma idêntica. Justamente os cristãos sinceros não devem pensar que ele espera que creiam em cadáveres redivivos e na continuação da vida terrena para toda a eternidade.

51 Na seqüência ele apresenta à igreja a contrapartida positiva para a rejeição de concepções errôneas. Ela é um ―mistério‖ que, apesar de todas as explicitações nos v. 35-49, não se deixa dissolver de modo simples. Paulo conhece muitos desses ―mistérios‖ e sabe que a fé vive de mistérios. O agir do Deus vivo precisa ser e permanecer sempre misterioso aos humanos. Por isto Paulo também precisa comunicar um mistério à igreja com vistas à ressurreição dos mortos: “Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos.” O “eis” ocorre na Bíblia sempre quando a intervenção de Deus está próxima e demanda nossa atenção total. Até agora Paulo havia falado da ressurreição dos mortos e, por conseqüência, também pressupôs a morte dos membros da igreja. Contudo, será que ―todos‖ morrerão? Paulo nega isso. No entanto, mesmo que uma (grande) parcela da igreja não experimente a parusia de Jesus ainda aqui na terra, esses cristãos não ingressarão simplesmente, assim como estão, no reino de Deus. Não, “todos serão transformados”. Portanto, é imprescindível que cada pessoa que realmente tem esperança da eternidade saiba com muita clareza: não se trata de ―continuar vivendo‖ após a morte ou após a parusia, trata-se daquela transformação radical de que Paulo já falara com vistas aos falecidos nos v. 42s. Somente através de nossa concordância com essa misteriosa transformação nossa esperança se torna genuína e viva.

Por um lado essa ―transformação‖ é um mistério, por outro não é um enfeitiçar enigmático em algo completamente desconhecido. A palavra do ―corpo espiritual‖ já nos declarou algo indubitavelmente compreensível. Por meio dessa ―transformação‖ teremos um corpo que é configurado e governado completamente pelo Espírito de Deus e que não contrapõe resistência e limites ao Espírito de Deus como o atual corpo ―morto‖ (Rm 8.10). E se o ―amor‖ permanece (1Co 13.8), a nova existência será inteiramente repleta do amor. A última ―transformação‖ final aperfeiçoa tão somente aquele ―ser transformado na imagem de Jesus‖, que agora já acontece em nós de forma inicial (2Co 3.18). De forma nítida e unânime todo o testemunho do Novo Testamento nos apresenta como alvo final ―a transformação‖ para a igualdade com Jesus: Rm 8.29; 1Jo 3.2; Fp 3.21. Na verdade isso é inusitadamente misterioso e transcende tudo o que podemos imaginar, e apesar disso não é simplesmente inconcebível para o cristão que crê e vive em santificação.

Por essa razão também podemos agarrá-lo de todo o coração como alvo e nos alegrar com essa perspectiva. Como essas breves afirmações do apóstolo são significativas para todo o nosso pensar e viver como cristãos. Elas são assustadoras e arrasadoras para todos que ainda estão apegados a ―carne e sangue‖ e por isso temem a interrupção da existência terrena e desejam que a eternidade apenas lhes traga a garantia e o prolongamento daquela. Quem, no entanto, debaixo da palavra da cruz reconheceu sua pecaminosidade e perdição e agarrou sua salvação na cruz, quem a partir disso aprendeu a ―odiar‖ sua vida neste mundo (Jo 12.25), há de sentir com alegria, apesar de todo o susto, “que carne e sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a transitoriedade herdar a não-transitoriedade”. E quem ama a Jesus acima de todas as coisas, quem recebeu o Espírito Santo e, através do Espírito, o amor e a incipiente transformação na imagem de Jesus, esse anseia pela transformação completa que o iguala com o Senhor até em seu corpo. Para ele isso se torna – não obstante o estremecimento de carne e sangue, que também ainda vivem nele – o auge do doce evangelho: “Todos seremos transformados”.

52 A transformação, porém, não será mais uma mudança cotidiana ou um processo de crescimento, mas ela acontece “num instante, num abrir e fechar de olhos”. Quando ela sucede? “Ao ressoar a última trombeta.” É inevitável que diante dessa palavra olhemos para as sete trombetas do Apocalipse. Também ali existe uma ―última trombeta‖, em cujo toque o céu rejubila pelo fato de que agora ―o reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos‖ (Ap 11.15). Notamos o que também precisamos levar em conta muitas outras vezes, que a proclamação de Paulo era muito mais rica e multiforme do que seu registro nas cartas é capaz de nos mostrar. Por isso é insensato deduzir do silêncio das cartas que Paulo não conhecia determinadas doutrinas e concepções. Sua escatologia deve ter sido muito mais semelhante à do Apocalipse do que a teologia freqüentemente supôs. Na palavra sobre a trombeta também precisamos lembrar de 1Ts 4.16. A trombeta ali mencionada, durante cujo ressoar Jesus desce do mundo celestial, igualmente será a ―última‖, ainda que Paulo não a chame expressamente assim naquele texto.

“Porque soarão trombetas, e os mortos serão ressuscitados como não-transitórios, e de nossa parte seremos transformados” [tradução do autor]. Esse é evento poderoso e conclusivo na história da igreja, do qual também falam 1Ts 4.13-18 e Fp 3.20s e que já havia sido mencionado brevemente nos v. 22s do presente capítulo. Nesse caso se trata tão-somente da igreja, daqueles ―que pertencem a Cristo‖. A repercussão desse acontecimento diante do mundo sucede apenas no aniquilamento de todas as forças de perdição hostis a Deus (v. 24-28); agora Paulo não torna a falar disso.

53 Em contrapartida ele incute mais uma vez na igreja, para que seja claramente captado por ela e não restem esperanças falsas e abreviadas: “Porque é necessário que este transitório se revista do não-transitório, e que este mortal se revista da imortalidade” [tradução do autor]. Como isso é grandioso! No presente conhecemos apenas a existência cuja característica são a transitoriedade e a mortalidade. Karl Heim explicitou de modo singular como isso está baseado na forma da existência de todo o mundo atual. É necessária uma transformação básica, inimaginável agora, de toda essa forma de existir, para que de fato possa haver não-transitoriedade e imortalidade. Precisamos esperar por algo inteiramente novo, que ao mesmo tempo nos assusta e nos deixa felizes. Paulo está enfatizando a necessidade incondicional desse acontecimento. Ao fazê-lo, emprega aquela palavra ―é necessário‖ que já nos lábios de Jesus designava a inevitabilidade de um acontecimento necessário a partir de Deus e que também foi empregado nessa acepção por Paulo (Mt 16.21; 24.6; 26.54; Jo 3.14; 20.9; 1Co 11.19; 15.25; 2Co 5.10).

54 O grande evento já foi prenunciado na palavra profética. Inicialmente Paulo coloca diante de nós Is 25.8: “Tragada foi a morte em vitória.” Em nossas traduções e também no texto hebraico lemos essa passagem de maneira diferente: ―Ele tragará a morte para sempre.‖ Não conseguimos mais precisar onde Paulo encontrou a forma textual utilizada por ele. Isso tampouco é decisivo. De um ou outro modo a palavra contém as poderosas afirmações sobre o fim da morte, que já consideramos no v. 26. Que glória por haver esse fim da morte e por podermos aguardá-lo com alegria!

Quando esse prenúncio profético se tornar realidade, quando “este transitório se revestir de não-transitoriedade e este mortal se revestir de imortalidade, então se concretizará a palavra que está escrita: Tragada foi a morte em vitória” [tradução do autor]. É sinal de nossa leviandade ao lidar com a palavra e de nossa arbitrariedade na proclamação da mensagem, quando nosso discurso edificante com freqüência faz de conta que essa palavra já se cumpriu, p. ex., por meio do acontecimento da Páscoa. Não, Paulo afirma expressamente ―então‖ ela se concretizará, remetendo-nos nitidamente para o futuro. Cumpre-nos levar isso em consideração, do contrário nosso discurso edificante adquire um caráter irreal, que retirará a seriedade para o ouvinte mesmo quando atestar uma verdade genuína. Na verdade a morte agora ainda não foi “tragada em vitória”. Ela festejou triunfos inéditos nas guerras mundiais. E já existem meios de extermínio com que ela poderia acabar com a vida em toda a terra. A vitória de Jesus, porém, em sua parusia, há de engolir a morte triunfante na vitória e cumprir Is 25.8.

55 Paulo combina com a passagem de Isaías uma palavra de Os 13.14. Também essa palavra aparece em Oséias (nas traduções que temos, mas também na tradução textual [de Elberfeld]) de uma forma diferente do que Paulo usa aqui. Ele está escrevendo: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?”. Novamente não podemos verificar de onde Paulo tirou a sua formulação da palavra citada, e novamente isso deixa de ser importante diante da própria afirmação.

56 Entretanto o interesse de Paulo não se concentra apenas no triunfo que reside nessas perguntas de desafio à morte. Pelo contrário, ele aponta para o fundo grave que se torna visível nessas perguntas. A morte de fato possui um “ferrão”. Aqui, em At 5.5 e também de maneira idêntica em Is 9.3 o autor deve estar pensando na vara pontuda com que o animal de tração era ―aguilhoado‖ e que também era usado contra prisioneiros e escravos. Esse “aguilhão da morte (é) o pecado”. Agora Paulo diz bem sinteticamente algo que não mencionou em todo o capítulo, no intuito de apenas se ater rigorosamente ao tema. A morte tem poder sobre nós porque somos pecadores! Ela manuseia nossa culpa como uma vara com que nos força a entrar em seu caminho rumo ao reino dos mortos, por mais intensamente que estejamos nos opondo a isso. Por que o pecado, por sua vez, possui esse poder? “E a força do pecado (é) a lei.” Nessas poucas palavras Paulo

resume todo seu ensinamento acerca da lei, conforme exposto em detalhes na carta aos Romanos. Paulo pode se limitar a essa breve observação. Os coríntios a compreendem imediatamente, porque também em Corinto Paulo ensinou aquilo que desenvolve na carta aos Romanos, sobretudo em Rm 7. Por isso essas pequenas frases contém o que Paulo considera dado pela lei. É o ―serviço da condenação‖ e por isso o ―serviço da morte‖ (2Co 3). Ela profere a sentença de morte sobre o pecado e o pecador. Unicamente por isso a morte consegue usar nosso pecado como seu aguilhão em direção da morte. Contudo a formulação aponta igualmente para o segundo e terrível fato de que o pecado usa justamente o mandamento como ponto de ataque em nós, tornando vivo o pecado anteriormente ―morto‖ e potenciando o pecado até sua força plena (Rm 5.20; 7.13). É assim que justamente a lei serve à morte, colocando em suas mãos esse terrível ferrão e fazendo da morte uma necessidade inevitável e aterradora para nós. Em contrapartida, como, a partir dessa condição, é grande o júbilo da gratidão!

57 “Graças (seja) a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo.” Não é por meio de uma simples palavra ou demonstração de poder de Deus que a salvação pode nos ser proporcionada. Interpõe-se a isso a própria lei de Deus. Deus concedeu o aguilhão pessoalmente à morte e agora não pode tirá-lo novamente de maneira arbitrária. Não, Jesus Cristo precisou tornou-se ser humano, nascido de mulher e posto sob a lei. Teve de tornar-se obediente até a morte, sim, até a morte na cruz. Ainda mais: teve de tornar-se uma maldição por nós, comprando desse modo nossa liberdade da maldição da lei com santa justiça. Unicamente assim, unicamente “por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo”, e por isso também unicamente àqueles que têm Cristo Jesus como seu “Senhor” Deus pôde dar a vitória sobre a morte. Que gratidão indelével paira por isso sobre a vida de cada cristão! Uma gratidão que ainda há de preencher a eternidade com adoração, louvor e exaltação.

58 Na seqüência Paulo encerra esse magnífico capítulo. Esse final é surpreendente e, não obstante, ―paulino‖ e genuinamente bíblico. Não é na mera gratidão em si que Paulo prende a igreja. Instrui-a não para ilustrar repetidamente o grandioso futuro. Sua conseqüência, seu “por isso”, é completamente diferente. Ele a remete à atualidade justamente a partir do incrível futuro, enviando-a no presente para a luta, o sofrimento e o trabalho. “Por isso, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis, sempre transbordantes na obra do Senhor, sabendo que nosso trabalho (de fato) não é vão no Senhor” [tradução do autor].

Paulo tem grandes preocupações, infelizmente justificadas, em relação aos coríntios. Agora, porém, com vistas ao futuro que com sua glória há de aperfeiçoar a tudo, sua palavra a eles se torna calorosa. Chama-os “meus amados irmãos”. Vê-os no alvo, junto consigo, como a grande irmandade em torno do primogênito irmão Cristo. Tudo o que ameaça e deforma será passado. Assim ele abraça a todos eles em Corinto com renovado amor.

Entretanto o amor não é cego. Paulo vê que justamente esses ativos coríntios são ―volúveis‖ demais. Aquilo que Paulo mais tarde escreve aos efésios vale também para os coríntios. Não mais devem ser ―meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro‖ (Ef 4.14). Será que não se tornarão finalmente ―firmes, inabaláveis‖? Paulo pede-lhes isso. Essa posição firme e inabalável está enraizada justamente também na grande esperança. De forma análoga Paulo diz aos colossenses ameaçados por uma heresia: ―Se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes, não vos deixando afastar da esperança do evangelho‖ (Cl 1.23). Igualmente a carta aos Hebreus exorta uma igreja ameaçada e vacilante: ―Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel‖ (Hb 10.23). A partir do grande alvo determina-se e configura-se tudo. Se não se deixarem ―demover‖ da mensagem neste ponto, todo o resto também ficará bem. Cumpre à igreja ficar ―firme, inabalável‖ não apenas diante das concepções falsas em seu próprio meio. Ela precisa ficar igualmente ―firme, inabalável‖ em todas as lutas e sofrimentos que mais cedo ou mais tarde hão de sobrevir-lhe tanto quanto às demais igrejas. Ainda que os coríntios estejam expostos a perigos a toda hora e ainda que tenham de morrer dia após dia (v. 30s), eles serão capazes disso somente se ―guardarem firmes, até ao fim, a ousadia e a exultação da esperança‖ (Hb 3.6).

Essa constância e imutabilidade, no entanto, não tem nada a ver com enrijecimento. Paulo ao mesmo tempo deseja à igreja que seja “sempre transbordante na obra do Senhor”. Nossa palavra ―transbordar‖ representa uma reprodução apropriada do termo grego perisseuein, pelo fato de que traz as duas conotações do conceito grego: a abundância da riqueza e o crescimento nela. Quando uma vasilha se enche de modo constantemente crescente, ela por fim transborda. É assim que Paulo deseja ver a igreja: “transbordante na obra do Senhor”. A respeito de Timóteo ele dirá em 1Co 16.10 que está atuando na obra do Senhor como também ele, o próprio Paulo. Contudo para Paulo está completamente afastada a idéia de que somente eles, recursos humanos ―de tempo integral‖ com títulos eclesiásticos, estejam nessa obra, enquanto a igreja seria apenas o objeto passivo de seu serviço. É verdade que ele não ignora a tarefa insubstituível dos que foram chamados por Deus para fundar igrejas: ―Porque de Deus somos cooperadores; lavoura de Deus, edifício de Deus sois vós‖ (1Co 3.9). Mas se, portanto, a igreja como ―lavoura de Deus e edifício de Deus‖ também pode ser objeto do serviço apostólico, ela ao mesmo tempo não deixa de ser integralmente sujeito do trabalho para Deus e

participante vivo da ―obra do Senhor‖. Não deve prestar apenas auxílio ocasional às pessoas dirigentes, mas participar de forma abundante e sempre crescente na obra do Senhor. Novamente é preciso que entendamos o genitivo como de objeto e de sujeito. A ―obra do Senhor‖ é aquilo que nós fazemos para o Senhor e lhe oferecemos como engajamento e trabalho. No fundo, porém, ela é a atuação do próprio Senhor, no qual ele envolve a nós e sua igreja. É o trabalho contínuo do amor salvador de Jesus, que nos toma como instrumentos e que chega aos outros por meio de nós. Por isso Paulo também não precisa dizer em detalhe aos coríntios o que agora lhes cabe fazer ―na obra do Senhor‖ como ―colaboradores de Deus‖. Como membros vivos do corpo de Cristo eles reconhecerão isso pessoalmente em várias outras ocasiões. E as pessoas com o dom profético em seu meio os ajudarão nisso. Diante do magnífico futuro a igreja não tentará apenas realizar penosamente uma ou outra coisa, mas ―transbordará‖ no incansável engajamento de corações ardentes pela grande causa de Deus em Corinto, na Grécia, em todo o mundo.

Obviamente isso não é mero prazer. Para o próprio Jesus a ―obra do Senhor‖ significou suportar os mais pesados fardos, significou suor de sangue e intenso trabalho de cruz. Em consonância, também a nossa participação em sua obra demanda empenho total e trabalho duro. Não é uma bela atividade secundária para enriquecimento de nossa própria vida. É preciso kopos, ou seja, esforço, desgaste, laboriosidade. A isso se agrega também a tribulação que o profeta já conhecia (Is 49.4) e que tampouco era desconhecida do próprio Paulo (Fp 2.16): será que todo o nosso empenho é em vão? Não experimentamos decepção após decepção? Não, os coríntios podem “saber”, precisamente a partir da ressurreição, que seu trabalho (de fato) não é vão no Senhor”. Está chegando a grande colheita que recompensa todo o trabalho. Porque seu engajamento não visa sucessos temporais, transitórios, como acontece em todos os trabalhos na terra. Pelo fato de que a ressurreição é real, o esforço deles pode obter resultados não-transitórios, eternos. Nesse mais profundo sentido ele ―não é vão no Senhor”.
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