domingo, 6 de janeiro de 2013

Lição 2 - Elias, o Tisbita - 1

ELIAS, O TESBITA

Neste capítulo estudaremos de uma forma mais detalhada os fatos relacionados à vida e a obra de um dos maiores personagens da história bíblica: Elias, o tesbita! Elias aparece nas páginas da Bíblia como se viesse do nada. De fato, a Escritura silencia-se a respeito da identidade de seus pais e também de sua parentela, apenas diz que ele era tesbita,
dos moradores de Gileade (1 Rs 17.1-7)! Parece pouca informação para um homem que irá ocupar um grande espaço na literatura bíblica posterior. Raymond B Dillard (2011, p.21), destaca que “Elias aparece em cena de maneira surpreendentemente repentina. Ele é apresentado sem qualquer informação sobre sua vida anterior, sem referência à sua família ou tribo em Israel, e até mesmo seu lugar de nascimento (Tisbe) não é conhecido ao certo ainda hoje. Não lhe é atribuída nenhuma linhagem elaborada, por meio da qual talvez pudéssemos identificá-lo no registro social do antigo Israel, e não é mencionado nenhum grupo específico do qual ele pudesse ser considerado o porta-voz; habitava em Gileade, uma área periférica no antigo Israel, isolada do outro lado do Jordão. Ele não tinha fama nem notoriedade, nenhuma influência política específica, não tinha credenciais para comandar um interrogatório, nenhum título acadêmico acompanhando o seu nome”.1

Todavia é esse homem enigmático que protagoniza os fatos mais impactantes na história do profetismo de Israel. Isso acontece quando denuncia os desmandos do governo dos seus dias e desafia os falsos profetas que infestavam o antigo Israel. O expositor bíblico Oracio Simian Yofre (2010, pp. 516,517) observa que “do ponto de vista da história da religião de Israel, a importância do profeta Elias reside no fato de que com ele se chega a um novo nível no desenvolvimento da profecia bíblica. De modo mais claro do que acontece com Balãao ou Natã, estabeleceu-se em Elias a clara distinção entre o profeta escolhido pela vontade divina explícita e os grupos proféticos (ou escolas proféticas), movimentos carismáticos mais ou menos espontâneos, dos quais nos falam outros textos do Antigo Testamento. Com efeito, os profetas do tempo de Elias e também os anteriores mostram-se como um grupo (1 Sm 10.5,10-13; 2 Rs 10.19); estão ligados a um lugar de culto (um lugar alto ou bamah 1 Sm 9.12) ou mais propriamente a um santuário (Guibeá: 1 Sm 10,5.10; Shiló: 1 Sm 3.1921); atuam em êxtase profético (1 Sm 19,18-24); muitas vezes ocasionados pela música (2 Rs 3.15) e pela dança (1 Rs 18.26-29). A eles pertence a interrogação sobre o futuro (1 Sm 28,4-7; 1 Rs 14,1-18). Elias se encontra, porém, mais próximo dos profetas individuais dos “tempos novos” (profetas “escritores” a partir do séc. VIII) do que das escolas proféticas. Com Elias se atinge assim alguns traços do profetismo que permanecerão estáveis no desenvolvimento ulterior da profecia bíblica”.2

A identidade de Elias
Seu nome, sua terra e sua gente
Como vimos, o relato sobre a vida do profeta Elias inicia-se com uma declaração sobre a sua pessoa, sua terra e seu povo: “Então, Elias, o tesbita, dos moradores de Gileade” (1 Rs 17.1). O nome Elias, deriva do termo hebraico Helohim, traduzido como Deus. Helohim aparece muitas vezes na sua forma abreviada El. Por outro lado, a palavra Jah é uma abreviação hebraica para o Iahvé, o nome impronunciável de Deus para os judeus. Dessa forma o nome “Elias” é uma combinação das abreviaturas dos nomes El (Deus) e Jah (Senhor). Quando levamos em conta o pronome possessivo hebraico, a tradução do nome Elias é O Senhor é o meu Deus ou ainda Meu Deus é Jeová.

Elias era de Tisbe, um lugarejo situado na região de Gileade e a leste do rio Jordão.3 Esse lugar não aparece em outras passagens bíblicas, mas é citado somente no contexto do profeta Elias (1 Rs 21.17; 2 Rs 1.3,8; 9.36). Charles R. Swindoll (2010, pp. 28,29) destaca que Gileade, região onde vivia o profeta Elias, “era um lugar solitário e de vida ao ar livre, onde seus habitantes eram provavelmente rudes, queimados do sol, musculosos e fortes. Nunca foi um lugar de educação, sofisticação e diplomacia. Era uma terra árida, e muitos acham que a aparência de Elias tinha muita relação com sua terra. Seus hábitos beiravam o grosseiro e o áspero, o violento e o severo — não muito diferente de outros personagens fortes que Deus introduzira na cena em certos momentos da história de um mundo insuspeito. Estes personagens podem não ter muitos amigos, mas uma coisa é certa: eles não são ignorados. Os profetas são sempre assim”.4

Elias se tornou muito maior do que o meio no qual vivia. Na verdade não foi Tisbe que deu nome a Elias, mas foi Elias que colocou Tisbe no mapa! “Elias foi um grande campeão de Deus. Sua vitória estava no fato de que ele fazia o que Deus lhe ordenava e confiava que Deus não o decepcionaria. A vida de Elias nem sempre transcorreu tranquila. Ele viveu em uma época de grande corrupção política, moral e espiritual. A sua vitória é prova de que o crente pode ser vencedor, mesmo que tenha de viver e trabalhar entre ímpios. Quanto maiores são as trevas, maior é o brilho da luz (Mt 5.14-16)”.5

Davi, Pedro, Paulo, também construíram uma história cheia de sentido e significância. Da mesma forma Gunnar Vingren, Daniel Berg, Emílo Conde, etc. Todos nós deveríamos imitá-los e viver de tal modo que a nossa história se tornasse um testemunho para a posteridade.

Sua fé e seu Deus
Para termos uma compreensão sobre o lugar que o Deus de Israel ocupa no contexto dos profetas Elias e Eliseu, se faz necessário entendermos a teologia dos livros dos Reis. A teologia desse livro mostra claramente que há um único Deus bem como um único local de adoração, o Templo. Thomas Ro-mer (2010, p.377) destaca que “a veneração do Senhor em Betei ou em Dan constitui o “pecado de Jeroboão” (2 Rs 10.30). Seu culto em outros “lugares altos” e sua veneração em companhia de Baal, de Ashera ou outras divindades caracterizam o “pecado dos pais” (isto é, dos reis anteriores, cf. 1 Rs 15.3). A ideologia de Reis é, portanto, antipoliteísta, exclusivista e antissamaritana”.6

Elias era um homem comprometido com a adoração verdadeira. Como um israelita professava sua fé no Deus verdadeiro que através da história havia se revelado ao seu povo. Com o desenrolar dos fatos, vemos o profeta afirmando essa verdade. Quando ele desafiou aos profetas de Baal, orou: “Ó Senhor, Deus de Abraão, de Isaque e de Israel, fique, hoje, sabido que tu és Deus em Israel e que eu sou teu servo e que segundo a tua palavra fiz todas essas coisas” (1 Rs 18.36).

Essa oração do profeta revela pelo menos três fatos que são cruciais no contexto do livro de 1 Reis:

1. Uma teologia correta sobre a divindade — “Tu és Deus”. O deus Baal existia na mente do povo, mas ele não era Deus. Se a teologia do povo estava errada, então sua crença forçosamente também estava. Sem uma teologia correta a fé fica deformada. Elias procura corrigir esse aleijão da fé israelita quando chama-lhes a atenção para o fato de uma única divindade — essa divindade é o Deus dos patriarcas.


Infelizmente os problemas com as igrejas evangélicas hoje também estão no campo teológico. Uma teologia deformada, onde Deus é entendido como um grande garçom a serviço dos mais variados desejos, sem dúvida alguma é a grande responsável pelo processo de fragmentação que ora passamos. Estamos crescendo, mas é um crescimento com espumas.

2. Uma correta antropologia — “Eu sou teu servo". As culturas pagãs possuíam não só uma teologia errada, mas também uma antropologia errada. Sem uma compreensão adequada do papel do homem na religião, se torna muito fácil o culto se perverter. O estudo das religiões comparadas revela que os homens são divinizados e os deuses humanizados.

Nos dias de Elias, Baal era o deus não apenas da natureza, mas também da fertilidade. Nesses rituais era natural a prostituição como parte do culto. Onde a teologia está errada, a antropologia também está. Merrill F. Unger (2008, p. 174) comenta que “os textos ugaríticos de Ras Shamra (Ugarite), datados do século XIV a.C., mostram Baal como filho de El, o rei do panteão cananeu, deus da chuva e da tempestade. Em Ugarite, a consorte de Baal era sua irmã, Anat, mas na Samaria do século 9o a.C., Aserá assume esse posto (18.19). Como Anat, ela era a padroeira do sexo e da guerra. Culto à serpente, prostituição masculina e feminina, assassinato e sacrifícios de crianças e todo vício concebível estavam associados à religião Cananeia. Os sacerdotes e profetas de Baal eram assassinos oficiais de criancinhas, por isso mereceram a morte (18.40).7

3. Uma correta bibliologia — “Conforme a tua Palavra fiz essas coisas”. O desprezo à Palavra de Deus esposada nos livros da Lei de Moisés sem dúvida fora a causa dessa apostasia. Os erros na teologia, antropologia ou em qualquer outra área da fé, tem sua origem numa compreensão inadequada da Palavra de Deus. Antonio Vieira, escritor do século XVI, costumava dizer que a Palavra de Deus quando dita no sentido daquilo que Deus disse, é a Palavra de Deus.Todavia quando dita no sentido daquilo que Deus não disse, são antes palavras do demônio. De fato existem milhares de cultos e crenças usando a Bíblia nos seus rituais. Todavia a Bíblia pregada por eles não são a Palavra de Deus, porque são ditas no sentido daquilo que Deus não disse. São interpretações para apoiar uma doutrina ou crença equivocada. São palavras do demônio.8

O ministério profético de Elias

Sua vocação e chamada
Em suas notas homiléticas sobre a Missão do profeta Elias, a obra The Pulpit Commentary destaca:

1. De onde foi derivada.
Ele não foi ensinado por homem. Ele era inculto e iletrado. O Deus que o separou desde o ventre de sua mãe o chamou pela sua graça. Ele era um mensageiro extraordinário para uma grande emergência. Mas observe: quando Deus usa tal mensageiro, homens cuja missão é derivada diretamente do alto, os “sinais de um apóstolo” são realizadas por eles. Nós não somos obrigados a ouvir um anjo do céu, a menos que ele nos mostre as suas credenciais.

2. Quando foi conferida.
(1) Foi quando a iniquidade abundava. Quando Hiel tinha construído Jericó; quando Acabe levantou um templo para Baal; quando Jezabel reuniu seu exército de falsos profetas; quando a fé dos eleitos de Deus estava em perigo. A hora mais escura é sempre antes do amanhecer.

(2) Quando os meios ordinários eram insuficientes. Havia verdadeiros sacerdotes em Jerusalém; havia “filhos dos profetas”, provavelmente em Betei e Samaria; havia sete mil fiéis em Israel, mas o que eram estes contra uma rainha como Jezabel, contra toda essa propaganda e um sistema como o dela? A própria existência do povo de Deus estava em jogo. Elias foi convocado para fazer um julgamento, ele estava armado com “poder de fechar o céu que não choveu nos dias de sua profecia”. Somente a luz da verdade, a luz que iluminou a escuridão do mundo, preservou a nação da extinção total.9

A vocação e chamada de Elias foram, portanto, divinas da mesma forma como foram as vocações e chamadas dos demais profetas canônicos. Esse fato é logo percebido quando vemos o profeta Elias colocar Deus como a fonte por trás de suas enunciações proféticas: “Tão certo como vive o Senhor, Deus de Israel, perante cuja face estou” (1 Rs 17.1). Em outra passagem bíblica Elias diz que suas ações obedeciam diretamente a uma determinação divina (1 Rs 18.36). Somente um profeta chamado diretamente pelo Senhor poderia falar dessa forma.

A vocação de Elias se manifesta em um contexto onde:
1. Não havia referenciais — no antigo Israel os reis não agiam apenas como governantes do povo, mas também como referencial espiritual. Quando um rei fazia o que era mau aos olhos do Senhor, as consequências de suas ações eram logo sentidas pelo povo. Se havia uma apostasia generalizada, como de fato havia, isso se devia a falta de um modelo ou referencial para seguir. Acabe com sua esposa, Jezabel, infelizmente eram modelos, mas modelos de um culto idólatra. E nesse contexto que Deus levanta o profeta de Tisbe para trazer o povo novamente para o verdadeiro modelo de adoração. Elias se torna uma referência.

2. Havia uma privatização do ministério profético — Logo que chegou à posição de rainha em Israel, Jezabel empreendeu uma campanha para exterminar os profetas do Senhor (1 Rs 18.4). O holocausto só não foi total porque o Senhor preservou os sete mil que não se dobraram diante de Baal (1 Rs 19.18). No lugar dos verdadeiros profetas, Jezabel pôs seus profetas particulares: “Vendo-o, disse-lhe: És tu, ó perturbador de Israel? Respondeu Elias: Eu não tenho perturbado a Israel, mas tu e a casa de teu pai, porque deixastes os mandamentos do Senhor e seguistes os baalins. Agora, pois, manda ajuntar a mim todo o Israel no monte Carmelo, como também os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal e os quatrocentos profetas do poste-ídolo que comem da mesa de Jezabel”(l Rs 18.17-19).

Os profetas que “comiam da mesa de Jezabel” eram aqueles aos quais ela havia alugado. Eram profetas comprados, profetizavam somente o que ela e seu marido gostavam de ouvir. O verdadeiro profeta não se vende porque nenhuma profecia parte da vontade humana (2 Pe 1.20). Nenhum sistema é profético e nenhum profeta se rende ao sistema. Os profetas do Senhor geralmente dizem coisas que não queremos ouvir, mas que precisamos ouvir. Eles não satisfazem vontades, mas necessidades. É um perigo quando nos cercamos de “profetas particulares” que estão sempre amaciando o nosso ego.

Ninguém gosta de ser confrontado, mas a crítica também faz parte do nosso crescimento. Quando o cristão cai na tentação de se autoviti-mar, ficando sempre na defensiva achando que todos estão contra ele, então corre um sério perigo. Ele corre o risco de rejeitar um conselho divino apenas porque ele veio na forma de confronto ou crítica. Evidentemente não podemos viver em função das críticas, mas não devemos nos fechar ao ponto de não vermos em algumas delas um instrumento divino para nos corrigir.

Aprecio o que escreveu John Maxwell (2002, pp.151-156) sobre como tratar corretamente com as críticas:

“Não veja somente o crítico; veja se há uma multidão”. A história a seguir ilustra esse ponto: A Sra. Jones convidou um grande e famoso violonista para entreter o seu chá de tarde. Quando ele acabou a sua apresentação, todos se aglomeraram ao redor. “Eu tenho que ser honesto com você”, disse um dos convidados: “Eu acho que o seu desempenho foi absolutamente terrível. Ouvindo aquela crítica, a anfitriã interpôs: não preste atenção nele. Ele não sabe o que está dizendo. Ele só repete o que ouve de todo mundo. Eu estou sugerindo que você amplie sua visão; vá além do crítico e veja se ele possui um pouco de humor. Considere a possibilidade de que você está ouvindo a mesma crítica de várias pessoas. Se este é o caso, e os críticos estiverem certos, então você precisa perceber que tem um desafio a encarar.”10

A natureza do seu ministério
A natureza divina e, portanto, sobrenatural do ministério do profeta Elias é atestada pela inspiração e autoridade que o acompanhavam. A história do profeta de Tisbe é uma história de milagres. De fato, o primeiro livro dos livros de Reis atribui ao profeta Elias sete grandes milagres: Elias faz cessar as chuvas; multiplica a comida da viúva; restaura à vida o filho da viúva; faz descer fogo do céu no monte Carmelo; restaura as chuvas; invoca fogo sobre soldados e divide as águas do Jordão.11 E, portanto, uma história de intervenções divinas no Reino do Norte. Encontramos por toda parte nos livros de Reis as marcas da inspiração profética no ministério de Elias. Isso é facilmente confirmado pelo cronista bíblico quando se refere à morte de Jezabel (2 Rs 9.35,36). Assim como Elias predisse, aconteceu! Elias possuía inspiração e autoridade espiritual.

Mas não são somente os milagres e a inspiração divina os elementos autenticadores do ministério profético de Elias, mas o seu caráter também. As palavras de Elias eram autenticadas por suas ações. Os falsos profetas também possuem uma certa margem de acertos em suas predições, todavia as suas práticas distanciadas da Palavra de Deus são quem os desqualificam. Elias, portanto, possuía carisma e caráter. Podemos então dizer que o caráter pode não ter dado fama a Elias, mas com certeza lhe deu nome (1 Rs 17.1); pode não lhe ter dado notoriedade, mas certamente lhe conferiu autoridade (1 Rs 17.1); não o transformou em herói, mas o fez reconhecido como profeta (1 Rs 17.2,3); e fez com que ele enxergasse Deus até mesmo onde aparentemente Ele não estava (1 Rs 17. 8-9 — foi sustentado por uma mulher, gentia, viúva e pobre). Com acerto, o pastor Claudionor de Andrade (2007, pp.16,17) destaca com muita precisão alguns dos aspectos do caráter de Elias como sendo: “fidelidade; coragem; determinação; obediência; coragem efragilidade. "12

Elias e a monarquia

Buscando a justiça social
Na história do profetismo bíblico observamos a ação dos profetas exortando, denunciando e repreendendo aos reis (1 Rs 18.18). O livro de 1 Reis mostra que o profeta Elias foi o pioneiro a atuar dessa forma. Na verdade, as ações dos profetas revelam uma luta incansável não somente em busca do bem-estar espiritual, mas também social do povo de Deus. Quando um monarca como o rei Acabe se afastava de Deus, as consequências poderiam logo ser percebidas na opressão do povo. A morte de Nabote, por exemplo, revela esse fato de uma forma muita clara (1 Rs 21.1-16). Acabe foi confrontado e denunciado pelo profeta Elias pela forma injusta como agiu!

Os expositores bíblicos Bill T. Arnold e Bryan E. Beyer (2001, pp. 232-234) comentam que:

“O famoso episódio da vinha de Nabote (capítulo 21) ilustra a extensão do pecado de Acabe e sela o seu destino. Nabote era um cidadão cuja propriedade era vizinha ao palácio em Samaria. O rei queria anexar a vinha de Nabote às propriedades reais, mas a antiga lei israelita proibia a venda de uma herança. A ideia pareceu absurda para Nabote (v.3) e Acabe tinha respeito suficiente pela lei para saber que ele não conseguiria fazer Nabote voltar atrás em sua decisão (v.4).

Sendo a filha do rei de Sidom, Jezabel supôs que o rei de Israel deveria estar acima da lei, como era o caso em outros países. Ela tomou para si a responsabilidade de resolver a questão. Mediante traição, engano e o assassinato de Nabote, ela adquiriu a vinha para Acabe. Mais uma vez, o profeta Elias estava lá para anunciar o julgamento (w. 17-24). Acabe “se vendeu para fazer o que era mau perante o Senhor” (v.25; ver também o v. 20). Como resultado disso, Elias declarou que a dinastia de Acabe seria completamente destruída.”13

Restauração do culto
Como vimos, os monarcas bíblicos serviam tanto de guias políticos como espirituais do povo. Quando um rei não fazia o que era reto diante do Senhor, logo suas ações refletiam nos seus súditos (1 Rs 16.30). A religião, portanto, era uma grande caixa de ressonância das ações dos reis hebreus. Nos dias do profeta Elias, as ações de Acabe e sua mulher Jezabel sofreram oposição ferrenha do profeta porque elas estavam pulverizando o verdadeiro culto (1 Rs 19.10). Em um diálogo que teve com Deus, Elias afirma que a casa real havia derrubado o altar de adoração ao Deus verdadeiro e em seu lugar levantado outros altares para adoração aos deuses pagãos. Como profeta de Deus, coube a Elias a missão de restaurar o altar do Senhor que estava em ruínas (1 Rs 18.30).

Matthew Polle (2010, pp. 701,702) comenta que a prioridade do profeta Elias foi reparar o altar. Isso foi feito rapidamente visto que ele pode ter contado com a ajuda do próprio povo. Esse altar foi reparado especificamente para aquele momento. Poole ainda observa que esse altar fora construído pelos antepassados objetivando a oferta do sacrifício, mas por haver sido negligenciado necessitava de reparos. Os danos causados a esse altar, que estava quebrado, pode ter sido feito pelos próprios sacerdotes de Baal ou por seguidores do baalismo que rivalizavam com o culto ao Deus verdadeiro.14

Elias e a literatura bíblica

Nos livros da literatura bíblica de 1 e 2 Reis, a história do profeta Elias deve ser vista em um contexto onde “os profetas são enviados por Javé para exortar a que não se renegue o verdadeiro culto a Javé. Ele dispõe de poderes milagrosos, e sua palavra se realiza. Esse elemento vale também e sobretudo para os seus prenúncios da ruína do reinado e dos estados de Israel e Judá. O arrependimento do rei pode provocar um adiamento da chegada da desgraça (1 Rs 21.17-29; 2 Rs 22.15-20; 2 Rs 20.1-11).”15

No Antigo Testamento

Até aqui vimos que os dois livros de Reis e uma porção do livro das Crônicas trazem uma ampla cobertura do ministério profético de Elias. O Antigo Testamento mostra que com Elias tem início a tradição profética dentro do contexto da monarquia. Foi Elias que abriu caminho para outros profetas que vieram depois dele. Mas Elias não possuía apenas um ministério de cunho profético e social. Seu ministério também é usado na literatura bíblica em um sentido escatológico. O profeta Malaquias predisse o aparecimento de Elias antes “do grande e terrível dia do Senhor” (Ml 4.5).

No Novo Testamento

Em o Novo Testamento encontramos vários textos associados à pessoa e ministério do profeta Elias. Jesus identifica João, o batista, como aquele que viria no espírito e poder de Elias (Lc 1.17; Mt 1.14; 17.10-13). No monte da transfiguração, o evangelista afirma que Elias e Moisés falavam com o Salvador acerca da sua “partida” (Mt 17.3). Quando o Senhor censurou a falta de fé em Israel, ele trouxe como exemplo a visita que Elias fizera à viúva de Sarepta (Lc 4.5-26). No judaísmo dos tempos de Jesus, Elias era uma figura bem popular devido aos feitos miraculosos, o que levou alguns judeus a acharem que Jesus seria o Elias redivivo (Mt 16.14; Mc 6.15; 8.28).16

Os comentaristas bíblicos observam que os capítulos 17 à 22 do livro de 1 Reis, que cobre o período do reinado de Acabe, mostra que o declínio religioso termina com arrependimento ou julgamento divino. De fato observamos que a mensagem profética de Elias visava primeiramente a produção de arrependimento e não a manifestação da ira divina. Isso é visto claramente quando Acabe se arrepende e o Senhor adia o julgamento que havia sido profetizado para os seus dias (1 Rs 21.27-29). Fica, pois, a lição para nós revelada na história do profeta Elias, que a graça de Deus é maior do que o pecado e suas consequências.

Fomos alcançados por essa graça!

Extraído do livro:

Este livro servirá como auxílio suplementar da nova Lição CPAD
Em Porção Dobrada obra escrita com os rigores de uma exegese e uma hermenêutica bíblica sadia, o leitor poderá ter uma clara visão do paralelo entre os dias de Elias e Eliseu e os nossos, o que inclui as crises religiosas, sociais, morais, políticas e econômicas vivenciadas pelos profetas.É nesse contexto de crise que o Senhor levanta homens e mulheres como porta-vozes, dando aos líderes e ao seu povo a oportunidade de se arrependerem de seus pecados e de se voltarem para Ele.
A sucessão ministerial, um dos grandes problemas da liderança, também é abordado nesta obra. pastores, lideres em qeral, e crentes que amam e temem ao Senhor, com certeza encontrarão e extrairão destas páginas grandes lições a serem aplicadas no ser e fazer cristão.

NOTAS
1 DILLARD, Raymond B. Fé em Face da Apostasia: o evangelho segundo Elias e Eliseu. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2011.
2 YOFRE, Oracio Simian. In: Dicionário de Homilética. São Paulo: Ed. Paulus/Loyola, 2010.
3 Keil 8c Delitzsch argumentam que o complemento “dos moradores de Gileade” nos informa que Elias não vivia em seu lugar natal senão que foi estrangeiro em Gileade. Toshav em si não se refere aos não-israelitas ,mas da mesma forma como ger refere-se àquele que vivia fora de sua pátria e de sua tribo sem ser parte desta, como em Lv 25.41 e Jz 17.7 onde vivia um levita originário de Betei, chamado de gar da tribo de Efraim” (KEIL &c DELITZSCH in Comentário Al Texto Hebreo Del Antiguo Testamento - Pentateuco e históricos, tomo 1. Editorial CLIE, Barcelona, Espana.
4 SWINDOLL, Charles R. Elias: um homem de heroísmo e humildade. São Paulo: Editora Vida, 2010.
5 GILBERTO, Antonio. Elias, o campeão de Deus. In: Lições Bíblicas para a Escola Dominical, CPAD, Io trimestre de 1984.
6 ROMER, Thomas. Antigo Testamento: história, escritura e teologia. São Paulo: Ed. Loyola, 2010.
7 UNGER, Merril Frederick. Manual Bíblico. São Paulo: Vida Nova, 2008.
8 VIEIRA, Antonio. Sermões. Ed. Lello &c Irmãos, Porto, Portugal.
9 HAMMOND, J. In: The Pulpit Commentary, vol. V, 1 Kings. Hendrickson Publishers Marketing. USA, 2011.
10 MAXWELL, John C. Seja o Líder Que Todos Querem Ter — usando o seu carisma para motivar pessoas. Ed. SEPAL, 2002.
11 Para um comentário detalhado sobre os milagres de Elias, veja o livro de Larry Richards: Todos os Milagres da Bíblia. Editora United Press, 2003.
12 ANDRADE, Claudionor. In Lições Bíblicas para A Escola Dominical: A Busca do Caráter Cristão - aprendendo com homens e mulheres da Bíblia, CPAD,3o trimestre de 2007.
13 ARNOLD, Bill ôc BEYER, Bryan E. Descobrindo o Antigo Testamento — uma perspectiva cristã. São Paulo: Ed. Cultura Cristã, 2001. 
14 POOLE, Matthew. Matthew Poole’s Commentary on the Holy Bible, volume 1 — Genesis to Job. Hendrickson, USA, 2010.
15 ZENGER, Erich &. BRAULIK, Georg. Introdução ao Antigo Testamento. Edições Loyola, 2003.
16 Enciclopédia de Cultura Bíblica. Editora Mundo Cristão.
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