sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Lição 8 - O Legado de Elias - 1


ELIAS PREPARA O SEU SUCESSOR
O escritor norte-americano A.W. Tozer disse certa vez que nada morre de Deus quando um homem de Deus morre! Essa máxima é verdadeira em relação ao profeta Elias e ao seu sucessor, Eliseu. Elias exerceu um ministério excepcional no Reino do Norte e sem dúvida foi o responsável por ajudar o povo de Deus a manter a sua identidade. Todavia, assim como todos os homens, chegou o dia em que precisou parar. Elias teve o cuidado de seguir a orientação divina na escolha do seu sucessor bem como em prepará-lo da forma correta. Neste capítulo veremos como se deu esse processo e como podemos aprender com ele (1 Rs 19.15-21).

A história da sucessão do profeta Elias e o chamamento do profeta Eliseu nos ensina uma verdade muitas vezes esquecida: não somos insubstituíveis, embora não sejamos descartáveis. Talvez a atual crise na liderança evangélica reside no fato da ausência de líderes substitutos. No livro de minha autoria, intitulado: Rastros de Fogo, escrevi sobre a realidade dessa crise, tomando por base o período dos juízes.

Ali observei que a crise ministerial contemporânea assemelha-se àquela vivida pela escassez sacerdotal naquele período. Como um período de transição entre um governo tribal e a monarquia, os juízes tiveram de conviver com as ameaças constantes de uma anarquia generalizada. O texto bíblico em Juízes 17.1-13 relata o ápice dessa crise. Nele podemos extrair lições que servem para mostrar que uma crise institucional pode ter sérios reflexos no ministério vocacional.
Em primeiro lugar havia uma crise de modelos — “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada qual fazia o que achava mais reto” (v.6).
Por natureza somos dependentes de modelos. Na nossa infância eram nossos pais, professores ou até mesmo um amigo. Os modelos são necessários e não há nada de errado em tê-los (1 Co 11.1)! O termo “modelo” traduz a palavra grega paradigma, e mantém o sentido em nossa língua de um referencial. Sem referenciais ficamos à deriva assim como os israelitas beiravam o caos por falta dos mesmos. Quando um povo não possui um modelo ou paradigma para seguir então ele corre perigo. Foi assim com os israelitas no período dos juízes e parece ser assim na igreja atual!
Em segundo lugar havia uma crise no ministério sacerdotal — “Havia um homem da região montanhosa de Efraim cujo nome era Mica (...) consagrou a um dos seus filhos, para que lhe fosse por sacerdote” (v.l, 5).
Aqui não havia nenhum respeito pelo ministério vocacional e o que determinava o exercício do sacerdócio não era a vocação, mas a ocasião. Mica adorava a Deus e aos deuses (v.5) e ele mesmo consagrou um de seus filhos para lhe oficiar como sacerdote! Possuía um sacerdote particular.
R. N. Champlim observa que essa passagem mostra que:
“Ocorreram desvios idólatras que violavam o segundo mandamento da lei de Moisés (cf Jz 8.27; Mq 1.7; 1 Rs 12—13). Yahweh estava sendo cultuado, mas com o acompanhamento de ídolos e através de um sacerdócio não autorizado. Era uma situação própria do sincretismo, que de modo algum se harmonizava com a legislação mosaica”.1
Quando o assunto é vocação pastoral, devemos observar o binômio: vocação-qualificação. Há o perigo de termos um ministro vocacionado, mas não qualificado; como podemos tê-lo qualificado, mas não vocacionado. Somente um ministro vocacionado e qualificado pode exercer a contento e com êxito o ministério pastoral. No caso do filho de Mica ele poderia até mesmo ser qualificado, mas não era vocacionado pela simples razão de não pertencer à tribo de Levi — Mica era de Efraim! (v.l). Mica pareceu ficar incomodado com esse fato, pois posteriormente consagrou uma outra pessoa, agora da tribo de Levi, para lhe oficiar como sacerdote (Jz 17.12). Mas o problema não se resolveu, pois se primeiramente temos alguém que poderia ser qualificado, mas não era vocacionado, agora temos alguém que é vocacionado, pois pertence à tribo de Levi, mas demonstra ser desqualificado — era um andarilho e que ficava onde melhor lhe parecesse (v.8). Essa não era uma atribuição de um sacerdote levita (,Ex 28 — 29).
Em terceiro lugar havia uma crise de propósitos — “Sou levita de Belém de Judá e vou ficar onde melhor me parecer” (Jz 17.9).
Era um sacerdote sem propósitos. O ministério sacerdotal para ele era um meio e não um fim! Não possuía propósito algum em ser um sacerdote! Apareceu a oportunidade e ele oportunamente abraçou. Há sites que oferecem, e em várias parcelas sem juros, o título de pastor. Basta pagar e pronto: é pastor! Isso se parece muito com essas reportagens que a TV faz sobre a venda da CNH (Carteira Nacional de Habilitação). Vemos pessoas que jamais fizeram prova de legislação e muito menos de percurso receber a habilitação para dirigir. São verdadeiras armas que se movem no trânsito! Qual a diferença disso para o ministério pastoral? Apenas esta: enquanto um usa o carro como arma para matar, o outro usa a Bíblia! Cometerão crimes da mesma forma!
Em quarto lugar havia uma crise ético-moral (ver 10—12; 18.4,18,19,20)
Essa crise se manifestava de três maneiras:
a) Em um ministério legal, mas não moral — Nem tudo o que é legal é moral! Uma coisa pode ser amparada por um costume ou lei, isto é, ter respaldo legal ou jurídico, mas mesmo assim não se enquadrar no padrão estabelecido pelas Escrituras Sagradas! O divórcio, por exemplo, é amplamente amparado pela legislação e é aceito pela sociedade como uma prática normal. Todavia encontramos um sério conflito entre aquilo que preceitua a Bíblia e o que diz a legislação (Mt 5.31,32; Mt 19.1-12). Há pastores de renome que afirmam que qualidade de liderança nada tem a ver com divórcio, enquanto outros simplesmente ignoram o que diz a Escritura para se ajustar ao modelo adotado pela sociedade secular. É evidente que devemos levar em conta as exceções preceituadas na Palavra de Deus, todavia jamais fazendo da exceção uma regra (1 Co 7.15).
b) Em um ministério sacerdotal controlado pelas leis de mercado —A razão do levita oficiar como sacerdote é dada por ele mesmo: “Assim e assim me fez Mica; pois me assalariou, e eu lhe sirvo de sacerdote” (Jz 18.4). O pastor que quer ser um ministro de Deus jamais deve condicionar o seu ministério à lei da oferta e da procura. As vezes, determinadas ofertas são financeiramente tentadoras, mas não são acompanhadas pela aprovação divina.
c) Em um ministério determinado pela posição e não pela unção —“Entrando eles, pois, na casa de Mica e tomando a imagem de escultura, a estola sacerdotal, os ídolos do lar e a imagem de fundição, disse-lhes o sacerdote: Que estais fazendo? Eles lhe disseram: Cala-te, e põe a mão na boca, e vem conosco, e sê-nos por pai e sacerdote. Ser-te-á melhor seres sacerdote da casa de um só homem do que seres sacerdote de uma tribo e de uma família em Israel? Então, se alegrou o coração do sacerdote, tomou a estola sacerdotal, os ídolos do lar e a imagem de escultura e entrou no meio do povo” (Jz 18.19,20).
O texto diz que o Levita se alegrou porque seria sacerdote de uma tribo inteira e não de uma casa apenas! Visivelmente possuía um ministério condicionado pela posição em vez de fundamentá-lo na unção. Nosso sistema de governo episcopal possui suas vantagens, porém tem suas desvantagens. Uma delas está no perigo de se viver em função do título! Esses títulos dão grandes honrarias para quem os possui e por isso essas posições, que são biblicamente apenas funções, são, às vezes, disputadas a tapas! Quando um obreiro dirige seu ministério com essa atitude, assemelha-se àquele homem que fez um esforço enorme para colocar sua escada em uma parede muito alta. Quando chegou em seu topo descobriu com enorme tristeza que havia posto a escada na parede errada!2

Elias no Monte Sinai — a revelação da sucessão
Uma volta às origens
Voltando à história de Elias, observamos que ele fez um longo percurso até chegar ao monte Horebe, também conhecido na literatura bíblica como monte Sinai (Ex 3.1; Êx 19.1). O percurso era de aproximadamente seiscentos quilômetros. Foi nesse monte que o Senhor havia se revelado a Moisés muito tempo antes como o grande EU SOU (Ex 3.1). Posteriormente foi nesse mesmo monte que o Senhor revelou a Lei a Moisés (Êx 19.1-25; 20.1-26). A distância era grande, mas Elias necessitava voltar às origens da sua fé! Sem dúvidas esses fatos estavam na mente de Elias quando ele para ali se dirigiu. Para reorientar a caminhada, nada melhor do que uma volta às origens!
O expositor bíblico Musa Gotom (2010, pp.440,441) destaca o fato que “o Senhor não havia dito para Elias voltar ao monte Sinai, de modo que lhe perguntou: Que fazes aqui, Elias? (19,9). Deus fez essa pergunta ao profeta para lembrá-lo de que ele poderia ter buscado ao Senhor em qualquer parte de Israel. Se o Senhor ouviu às suas orações e respondeu a elas no monte Carmelo, podia ouvi-las em qualquer lugar. Elias desejava buscar ao Senhor da aliança no lugar onde ele se encontrara com Moisés e Israel. O Senhor de Israel, porém, não é um Deus local, mais acessível no Sinai do que em qualquer outro lugar.”3

Uma revelação impactante!
Vendo que Elias havia se enclausurado em uma caverna, o próprio Senhor trata de provocar um diálogo com o profeta. É nesse diálogo que percebemos que Elias estava vendo as coisas de forma distorcida. Charles Swindoll destaca que “Elias tinha uma visão tão deturpada da situação que não considerou a origem de sua ameaça. Pense nisso. A ameaça não viera de Deus: fora feita por um ser humano carnal e ímpio que vivia uma vida sem Deus e distante de suas coisas. Se Elias estivesse pensando de maneira realista e clara teria percebido isso. Sua boa avaliação do momento, assim como sua fé, teriam produzido o seguinte tipo de conversa consigo mesmo: “Ei, é Deus quem está no controle dessa situação, não Jezabel. Não dê a mínima para suas ameaças. Confie em Deus, do jeito que você tem feito todos esses anos!" 4
Duas coisas ficam patentes: Deus continuava sendo Senhor da história e Elias não havia trabalhado em vão (1 Rs 19.9-14). O Senhor revela ao profeta a existência de sete mil remanescentes da adoração verdadeira (1 Rs 19.18). Quem eram? Ninguém sabe, mas com certeza pessoas do povo que nem mesmo eram vistas, mas que amavam ao Senhor. Foi o próprio Deus quem os havia conservado. Mas a revelação continuou: Deus revelou a Elias a necessidade de um sucessor (1 Rs 19.16). A propósito, Charles Swindoll destaca que “graças ao modo gentil e bondoso de Deus, Elias arrastou-se para fora da caverna. “Partiu, pois, Elias dali”. De maneira graciosa Deus o alimentara e dera descanso, refrigério e sábios conselhos, fazendo que Elias se sentisse novamente parte significativa de seu plano. Isso é que é compaixão!
Então Deus permitiu que Elias passasse seu manto para Eliseu, seu sucessor. Mas fez mais do que isso, muito mais, pois Eliseu “se dispôs, e seguiu a Elias, e o servia”. Deus não deu a Elias apenas um sucessor: deu também um amigo próximo, pessoal, alguém que amava Elias e o compreendia suficientemente bem para servi-lo e encorajá-lo.5

Elias na casa de Eliseu — a seleção da sucessão
A exclusividade da chamada
O texto de 1 Reis 19.19-21, tratando sobre a vocação de Eliseu é rico em detalhes sobre a sua chamada. Alguns deles se sobressaem nesse relato. Primeiramente observamos que Deus chama pessoas fiéis. Sem dúvida, Eliseu fazia parte da estatística divina dos sete mil. Em segundo lugar, Deus chama para o seu serviço pessoas que são ocupadas. Ele estava trabalhando com doze juntas de bois! A obra de Deus não é profissão nem tampouco emprego. E vocação. Em terceiro lugar, Eliseu percebeu que o ministério tem custo! Ele sacrificou os bois e deu como comida ao povo. Quem põe a sua mão no arado não pode olhar para trás. Em quarto lugar, Eliseu entendeu que o ministério profético é um “servir”. Eliseu passou a servir a Elias. Rayond B. Dillard destaca que “o chamado de Deus para todos nós é a sinceridade ao comprometimento. Para alguns, isso significa deixar um negócio ou emprego para seguir uma vocação profissional no ministério. Para outros, significa servir dedicadamente em muitos diferentes empreendimentos. Seja qual for o nosso trabalho, quer no ministério ou num emprego, o chamado de Deus para o serviço e compromisso deve eclipsar todos os outros.”6

A autoridade da chamada
Quando Elias encontrou Eliseu, o texto sagrado registra: “E lançou o seu manto sobre ele” (1 Rs 19.9). Na cultura bíblica o manto mantém um símbolo da autoridade profética (2 Rs 1.8; Zc 13.4; Mt 3.4). Lançá-lo, portanto, sobre outrem demonstrava poder e autoridade. Com esse gesto Eliseu estava sendo credenciado para o ofício profético. Raymond Dillard destaca que “uma maneira na qual os escritores do Antigo Testamento descrevem a possessão pelo Espírito de Deus é dizer que o Espírito “revestia” um profeta. [Obs: Isso no original em hebraico; nas diversas versões, às vezes foram usadas outras palavras, como vemos a seguir — N.R.] (1 Cr 12.18-19 [“entrou”]; 2 Cr 24.20 [“se apoderou”]; Jz 6.34). Esse é o pano de fundo para o simbolismo envolvido quando Elias lançou o seu manto sobre Eliseu (1 Rs 19.19). Eliseu, como Elias, seria revestido com o Espírito de Deus, e introduzido na ordem dos profetas. Mais tarde, quando Elias foi levado para o céu, Eliseu apanhou o manto de Elias e dividiu as águas do rio Jordão e, então, o grupo de profetas que testemunhou essa ação, soube que “o espírito de Elias repousa sobre Eliseu” (2 Rs 2.13-15).”7 De nada adianta, portanto, o ofício se a unção não o acompanha! Não é, portanto, o ofício que determina a unção, mas a unção que valida o ofício! Eliseu de fato recebeu autoridade divina, pois possuiu um ministério marcado por milagres. Hoje há muita titulação, mas pouca unção!

Elias e o discipulado de Eliseu — a lapidação do sucessor
As virtudes de Eliseu
O relato de 2 Reis 2.1-8 mostra algumas fases do discipulado de Eliseu. Elias vai a vários lugares diferentes e em cada um deles se observa que o profeta põe o discípulo à prova. Primeiramente Eliseu demonstrou estar familiarizado com aquilo que o Senhor estava prestes a fazer (2 Rs 2.1). Ele estava consciente de que algo extraordinário envolvendo o profeta Elias aconteceria a qualquer momento (2 Rs 2.3) e que ele também fazia parte dessa história. Em segundo lugar, Eliseu demonstrou perseverança quando se recusou a largar Elias. Ele o acompanhou em Gilgal, Betei, Jerico e Jordão (2 Rs 2.1-6). Tivesse ele ficado pelo caminho não teria sido o homem de Deus que foi! Somente os perseverantes conseguem chegar ao fim. Em terceiro lugar, Eliseu provou ser um homem vigilante quando “viu” Elias sendo assunto aos céus! (2 Rs 2.12).
A história da chamada de Eliseu e como se deu o seu discipulado deveria servir de padrão para os ministros hodiernos! Infelizmente a qualidade dos ministros evangélicos da atualidade tem caído muito e a fragmentação das Convenções e Concílios tem uma boa parcela de contribuição nesse processo. Geralmente o processo acontece pela disputa de domínio de determinado espaço ou território entre as lideranças, que não chegando a um consenso sobre as suas esferas de atuação, resolvem dividir de forma litigiosa determinado campo pastoral. Feito isso, a parte menor passa a consagrar ministros para que uma nova Convenção ou Concílio seja formado. E exatamente aí que as qualificações exigidas para a apresentação de um Ministro da Palavra costumam ser esquecidas. O alvo agora não é mais a qualidade, mas a quantidade, visto que se procura quorum para a nova Convenção formada! Já vi e ouvi por esse Brasil afora de Convenções consagrando ao ministério: sodomitas, pedófilos, estelionatários, etc, etc., para oficiarem como ministros do Senhor! A consequência de tudo isso é refletida nas igrejas, que passam a atuar simplesmente como meros clubes sociais e não como o verdadeiro Corpo de Cristo.

A nobreza de um pedido
O pedido que Eliseu fez ao profeta Elias antes deste ser assunto aos céus é algo que merece uma reflexão à parte. Na verdade esse pedido de Eliseu revela a nobreza da sua chamada. Diante de uma oportunidade única, Eliseu não teve dúvidas: pediu a porção dobrada do espírito de Elias (2 Rs 2.9). Eli-seu tomou conhecimento daquilo que seu mestre fazia, e em outras ocasiões ele mesmo fora testemunha desses milagres. Ele não tinha dúvidas, queria aquilo para ele, só que em uma proporção bem maior. Deus se agradou do pedido de Eliseu como se agradara do pedido de Salomão (1 Rs 3.10).
Em o Novo Testamento encontramos o apóstolo Paulo dizendo: “Fiel é a palavra: se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja” (1 Tm
3.1). Desejar ser um ministro da Palavra é um dos desejos mais nobres! Todavia contrastando aquilo que diz a Escritura com a prática ministerial hodierna, constatamos algumas anomalias. Como essa divulgada por Bill McCartney, diretor de um grande ministério para homens. Em uma pesquisa feita entre pastores americanos ele descobriu dados assustadores:
80% creem que o exercício do ministério tem empobrecido sua vida familiar; 33% creem que a igreja é responsável pelos desastres familiares em suas famílias; 50% sentem-se incapazes para o exercício ministerial; 90% rejeitam o treinamento que receberam, acham que os seminários são inadequados para a tarefa de treinar pastores; 70% têm uma autoestima mais baixa hoje do que quando começaram o ministério; 37% estiveram ou estão envolvidos em uma aventura sexual ilícita com membros de sua igreja; 70% disseram que não tem um só amigo; 40% pensam seriamente em desistir do ministério.8
Esses dados revelam que muitos obreiros não possuem a cosmo-visão bíblica do ministério pastoral, mas o veem como uma camisa de força que os oprime. Evidentemente que não é isso que a Bíblia mostra sobre a prática do episcopado. Necessitamos urgentemente voltar para o ensino bíblico sobre a verdadeira função ministerial e como ela enriquece a nossa vida e não o contrário.

O legado de Elias
Espiritual
Elias saiu de cena, mas deixou para seu discípulo um grande legado. Elias não era um homem rico, portanto, não deixou bens materiais. Mas Elias foi um gigante espiritual e como tal deixou para Eliseu essa herança. Elias foi um homem zeloso e foi esse zelo que o fez ir até as últimas consequências na sua defesa da adoração verdadeira (1 Rs 18.1-36). Elias também foi um homem extremamente ousado. Isso é facilmente percebido quando ele enfrenta o rei Acabe e prediz a grande seca sobre Israel (1 Rs 17.1). Por outro lado, Elias foi um homem de grande fé. Somente um homem com a confiança e fé que Elias demonstrou ter, poderia ser capaz de protagonizar os fatos narrados nos livros de Reis (1 Rs 17.8-23; 18.41-46).
Eliseu viveu nesse contexto, foi influenciado por ele e teve esse legado como herança.
Moral
Elias não foi um homem apenas de grandes virtudes espirituais, mas também portador de virtudes morais. E perceptível no relato bíblico que Elias possuía fortes valores morais. Elias denuncia os profetas que comiam da mesa de Jezabel (1 Rs 18.19). Como pode alguém comprado possuir autoridade para profetizar? A percepção do que era certo ou errado, do que era justo ou injusto também eram bem patentes na vida do profeta de Tisbe. Esses valores morais se tomam evidentes quando ele demonstra grande indignação diante da ação do rei Acabe. Acabe assassina Nabote para ficar com a vinha deste (1 Rs 21.17-20). Para Elias, Acabe havia se vendido para fazer o mal.
Acerca dos valores fundamentais, o filósofo Battista Mondin destaca que eles são:
“Os guias que o ajudam (o homem) a realizar o próprio projeto de humanidade. Eis, portanto, o critério para estabelecer a hierarquia de valores: ele é constituído pela contribuição que uma coisa, uma pessoa, uma ação pode dar para a realização do projeto-homem e do valor-homem. Uma realidade ocupa um degrau tanto mais elevado na hierarquia dos valores quanto maior é a sua contribuição nesse sentido e tanto mais baixo é menor sua contribuição. De fato, as hierarquias de valores foram estabelecidas por quase todos os estudiosos com esse critério. E, se as hierarquias aparecem tão contrastantes e disparatadas, deve-se somente ao desacordo que reina entre os filósofos em relação ao projeto-homem. Se aceitarmos o projeto nietzscheano, obtemos uma hierarquia que tem no ápice a vontade de poder. Se acolhermos o projeto marxista, o primeiro lugar na hierarquia de valores cabe ao trabalho. Se assumirmos um projeto freudiano, elaboramos uma hierarquia fundada sobre o primado do prazer [...] Um projeto-homem, para ser fiel a todos os dados de nossa experiência, leva em consideração também a experiência da transcendência e, portanto, no ápice da escala dos valores outro que não o próprio Deus. Ele, já digno da máxima estima, respeito e louvor por si mesmo, é também digno da máxima consideração em relação ao projeto-homem, porque só Ele é capaz de assegurar ao homem a atuação plena do próprio projeto de humanidade.”9
Eliseu aprendera que ninguém conseguirá ser um homem de Deus como Elias o foi, se não possuir valores morais e espirituais bem definidos.
A história de Elias e de seu sucessor Eliseu é instrutiva para a liderança espiritual. Nestes dias onde há uma crise de liderança, as vidas de Elias e Eliseu se erguem como um memorial para o qual devemos olhar. Aprendemos com Elias que os líderes são humanos e, portanto, suscetíveis a falhas. Aprendemos que existe a hora de ir, mas também a de voltar (1 Rs 19.15). Líderes também recuam! Aprendemos que além dos Elias, Deus também vê Eliseu. Aprendemos, pois, a história do reino é construída por homens que se dispõem em obedecê-lo.


 

1 CHAMPLIM, Norman Russel. O Antigo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Rio de Janeiro: CPAD.
2 GONÇALVES, José. Rastros dc Fogo - o que diferencia o pentecostes bíblico do neopentecostalismo atual. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.
3 GOTOM, Musa. In Comentário Bíblico Africano. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2010.
4 SWINDOLL, Charles. Elias — um homem de heroísmo e humildade. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2010.
5 SWINDOLL, Charles. Elias - um homem de heroísmo e humildade. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2010.
6 DILLARD, Raymond B. Fé em Face da Apostasia — o evangelho segundo Elias e Eliseu. Editora Cultura Cristã.
7 DILLARD, Raymond B. Fé em Face da Apostasia — o evangelho segundo Elias e Eliseu. Editora Cultura Cristã.
8 Veja uma exposição mais detalhada em meu livro: As Ovelhas Também Gemem. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
9 MONDIN, Battista. Os Valores Fundamentais. São Paulo: Edusc, 2005.
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