quarta-feira, 26 de junho de 2013

Lição 03 – A Morte para o Verdadeiro Cristão

No fim do jogo, o rei e o peão vão para a mesma caixa. (Provérbio italiano)
O ditado acima apresenta uma realidade comum a todos os seres humanos: a morte atinge a todos, independente de posição social. A morte nos relembra nossa própria finitude, mostrando-nos o quanto somos limitados no sentido de manter nossas próprias vidas. Não podemos escapar dela, e, portanto, da mesma forma que a Bíblia fala da morte como um assunto necessário ao nosso conhecimento, podemos discutir também esse assunto que atemoriza as pessoas.
O objetivo é mais do que elucidar e definir a morte em termos teóricos, mas principalmente, mostrar ao crente que apesar de ele ainda ter de conviver com a morte (pelo menos até que o Senhor Jesus volte), ele não deve enxergá-la como o final de toda a existência, como enxergam aqueles que não possuem Jesus como seu Salvador e não tem a esperança da ressurreição. Como a Bíblia declara que os homens morrem uma vez, e após esse vento, segue-se o juízo (Hb 9.27), é preciso entender o que acontece conosco por ocasião de nossa morte, e o que nos aguarda no porvir.

A Morte e suas Definições

Dentro do campo de estudos teológicos, as obras de teologia sistemática tratam do assunto "morte" para depois tratarem da "ressurreição". Esta ordem está atrelada à ordem com que os dois fenômenos ocorrem. Portanto, fala-se primeiro da morte, para que depois se trate da ressurreição. Geralmente o assunto morte é estudado no campo da escatologia, que trata das últimas coisas, e para o ser humano, pelo menos neste mundo, a morte é realmente, como regra (excetuando as ressurreições como descritas na Bíblia), a última coisa que lhe acontece.

O Dicionário Wycliffe define a expressão morte como sendo "o término da vida natural ou animal; o estado de ter cessado de viver, aquela separação, violenta ou não, entre a alma e o corpo, através do qual termina a vida de um organismo". Todas as relações da pessoa com este mundo são tidas por encerradas. É uma mostra de que nosso corpo físico não tem a resistência necessária para fazer frente à ruína produzida pela passagem dos anos. O tempo sempre cobra seus tributos. E "o cessar da vida em nosso corpo físico", como definiu Millard J. Erickson. (Introdução à Teologia Sistemática, p. 484)

A morte pode ser tratada em termos que traduzam suas consequências físicas e espirituais. Na esfera física, ela pode ser definida como a separação entre o espírito e o corpo. Norman Geisler, em sua Teologia Sistemática, expressa:

A Bíblia descreve a morte como o momento em que a alma deixa o corpo. Por exemplo, em Gênesis, 35.18 fala, a respeito da morte de Raquel, 'que saiu-lhe a alma (porque morreu)'. Da mesma maneira, Tiago ensina: 'o corpo sem o espírito está morto' (2.26). Uma vez que a alma é o princípio da vida que anima o corpo, resulta que, quando a alma deixa o corpo, o corpo morre, (vol 2, p. 683)

Geisler comenta também sobre a diferença entre a morte real e a morte legal (ou clínica). Na primeira, a morte realmente acontece de imediato, quando por ocasião da separação entre a parte material e a imaterial do ser humano. A segunda é determinada pelos índices de funcionamento orgânico. Uma pessoa pode não estar realmente morta quando os índices forem considerados nulos ou ausentes.

No tocante a relatos que são chamados de "experiências quase-morte", cabe uma observação. Há pessoas que apresentam relatos em que aparentemente morreram (elas relatam que literalmente saíram de seus corpos e tiveram o que seria um encontro em outro lugar, retornando posteriormente ao seu próprio corpo). Geisler entende não serem verdadeiras experiências de morte, visto que nessa situação tais pessoas tiveram contatos com ensinamentos contrários às Escrituras. Como Deus não realizaria um milagre, como uma ressurreição, para apoiar uma coisa contraria à Palavra, não há respaldo que a Igreja considere essas experiências como dignas de aceitação

As Escrituras e a Morte

As Escrituras também falam da morte diversas vezes. Em Jó 28.22 vemos a morte sendo personificada: "A perdição e a morte dizem: Ouvimos com os nossos ouvidos a sua fama", como também em 1 Coríntios 15.55: "Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?" e Apocalipse 20.14: "E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte".

A morte é também comparada, nos livros poéticos, a um caçador, que arruma armadilhas para com elas apanhar os homens: "Cordas do inferno me cingiram, laços de morte me surpreenderam" (SI 18.5), "Cordéis da morte me cercaram, e angústias do inferno se apoderaram de mim; encontrei aperto e tristeza" (116.3), "A doutrina do sábio é uma fonte de vida para desviar dos laços da morte" (Pv 13.14), "O temor do Senhor é uma fonte de vida para preservar dos laços da morte" (Pv 14.27). E Eclesiastes narra a morte como a separação entre a parte material e a imaterial do homem: "e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu" (Ec 12.7).

A Palavra de Deus reconhece a morte como resultado do pecado. Quando Deus criou o homem, não o criou para morrer. É o que se entende da leitura de Gênesis 2.17,18: "E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás". A morte entrou no mundo, portanto, por ocasião da desobediência de Adão no Éden. Romanos 6.23 fala que "O salário [a recompensa] do pecado é a morte", um prêmio pela desobediência humana.

O Cristão e a Morte

Diversos textos nos são apresentados para descrever que após a morte e antes da ressurreição, a parte espiritual do homem sobrevive de forma consciente, separada do seu corpo. Esse Estado, de acordo com Geisler, é um "estado de felicidade para os salvos e angústia consciente para os perdidos". Mas o foco é que as partes material e imaterial do ser humano separam-se, não podendo ser mais unidas.

Como foi dito, a morte assusta com justo motivo as pessoas. Mas o cristão não precisa temer a morte, apesar de sentir seus principais efeitos: luto, ausência do ente querido e a sensação de limitação.

Em sua obra teológica, Millard J. Erickson não apenas traz a definição de morte, mas trata também de distinguir a chamada morte espiritual da morte eterna, também considerada como segunda morte. A primeira é "a separação entre a pessoa e Deus, e a segunda é a concretização desse estado de separação — a pessoa fica perdida por toda a eternidade, em seu estado de pecaminoso". A própria Palavra de Deus apresenta a morte espiritual como um distanciamento de Deus: "E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que, noutro tempo, andastes, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que, agora, opera nos filhos da desobediência" (Ef 2.1,2). Jesus distinguiu esses dois tipos de morte quando disse: "E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo" (Mt 10.28).

Wayne Grudem, teólogo norte-americano, observa que a morte para os cristãos tem dois aspectos que precisam ser observados:

1- A morte não é uma punição para os servos de Deus. Embora a morte atinja todos os homens, inclusive cristãos, ela não é uma punição de Deus aos nossos pecados, pois "Portanto, agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o espírito" (Rm 8.1).

2- A morte é o resultado final da vida no mundo decaído. Vivemos neste mundo de acordo com as leis deste mundo, e entre elas, o fim da vida. Deus não removeu todo o mal do mundo com a obra redentora de Cristo, e entre esses males, está a morte, que será ainda derrotada (la Co 15.24-26; 54,55). Enquanto o tempo de a morte ser derrotada não chegar, teremos de conviver com ela. Portanto, os efeitos do ambiente, das doenças, e outros fatores ainda influenciarão no "corpo de humilhação", até que, em um momento futuro, seja transformado em um corpo glorificado.

Consequências da Morte

A morte não assusta apenas por dar fim à vida, mas também pela capacidade de trazer sofrimentos adicionais de perda e separação. Acerca do sofrimento que acompanha a morte, Gary R. Collins comentou:

Tentamos suavizar o trauma vestindo o cadáver, cercando-o de flores ou luzes baixas e usando palavras como "foi embora" em vez de "morreu", mas mesmo assim não podemos transformar a morte em algo belo. Como cristãos, nos consolamos com a certeza da ressurreição, mas isso não abranda o vazio e a dor de sermos forçados a nos separarmos de alguém que amamos. (Aconselhamento Cristão, p. 343).

O mesmo autor comenta que certas circunstâncias podem agravar o sentimento de luto, como quando a morte é tida por fora de tempo (quando morre uma criança, um adolescente ou um adulto no vigor da vida), quando a morte é trágica ou incompreensível (um acidente ou um suicídio), quando há um sentimento de participação no efeito morte (como dirigir o carro que atropelou uma pessoa), estado de dependência do morto para com a pessoa que ficou viva, ou ainda promessas que o morto tenha exigido para depois de sua morte, como no caso de uma pessoa viúva não se casar de novo. Essas situações costumam realmente agravar o momento do luto.

Cabe aqui uma pergunta: a morte possui algum aspecto positivo? Se a observarmos como sendo o elemento causador de tristeza, separação e de extinção de vida, realmente nada terá para ser visto positivamente. Mas se atentarmos para a perspectiva bíblica, veremos que, para o crente, a morte será o caminho pelo qual ele será levado à presença do Senhor. Paulo enxergou na morte um inimigo que foi vencido por Jesus. Jesus viu sua morte como o caminho para a nossa salvação. E ainda que a morte seja o símbolo de uma condenação, nós, que somos servos de Deus, não seremos atingidos pela separação eternal que condenará aqueles que rejeitaram a Jesus. Até que todas as consequências do pecado sejam extirpadas - entre elas a morte - teremos de conviver com ela, mas não como as pessoas que não têm Jesus convivem.

Mesmo a Palavra de Deus jamais condenou o sofrimento pelo qual passam aqueles que perderam um ente querido. Elias deparou-se com a mulher siro-fenícia, viúva, que perdeu seu filho. Apesar de a mulher ter sido sustentada por mais de três anos pela presença de Elias em sua casa, quando o filho da mulher morreu, ela acusou Elias de ter vindo à sua casa para cobrar os pecados dela. Eliseu também foi procurado pela mulher sunamita quando o filho desta morreu. O próprio Jesus perdeu uma pessoa a quem amava, Lázaro, um grande amigo. Nesses três casos, Deus tornou a dar a vida, mesmo que de forma temporária. A viúva siro-fenícia e a sunamita tiveram de volta seus filhos, por intermédio de Elias e Eliseu, e Lázaro foi trazido de volta pelo próprio Jesus. São cenas que se tornaram exemplos de possibilidades de ressurreição. Não são tomadas como regras pela igreja cristã, pois a regra é a morte. Doutrinária e biblicamente, essas exceções hão de se tornar regra por ocasião do retorno do Senhor para buscar seus santos. Fora isso, não há solução para os que morreram.

A Ressurreição

Enquanto tratamos da morte, é necessário tratar também da ressurreição. Quando Cristo voltar, a ressurreição será uma realidade para os servos de Deus. Houve exemplos de ressurreições no Antigo e no Novo Testamento, mas foram temporárias. Isso não lhes retira o valor só porque posteriormente as pessoas ressuscitadas tornaram a falecer, mas nos dá uma mostra do poder de Deus em trazer de volta a vida a um corpo morto.

Jesus mesmo deu seu aval de que o Antigo Testamento falou da ressurreição quando questionado pelos saduceus. Esse grupo religioso e político não cria na possibilidade de a vida retornar ao corpo depois da morte. Jesus trouxe-lhes uma séria repreensão, acusando-os de não conhecerem as Escrituras nem o poder de Deus (Mc 12.24). Ele defendeu a ressurreição com base no Antigo Testamento, lembrando aos saduceus que, na ocasião em que Deus se apresenta a Moisés, Ele o faz como o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, ou seja, pessoas que passaram pela morte, mas que estavam existindo.

A perspectiva romana e grega sobra a morte é apresentada na máxima de Paulo, quando tratou da ressurreição de Jesus Cristo em 1 Coríntios 15.32: "Comamos e bebamos que amanhã morreremos". Para eles, a morte era o fim da vida e de suas atividades. Os gregos entendiam que o corpo seria destruído, mas a parte imaterial encontraria lugar no reino dos mortos, conforme a descrição de Homero. Para os antigos, a concepção de ressurreição era irreal, pois não havia casos de pessoas conhecidas que tornaram a viver, tendo passado pela morte.

O apóstolo Paulo, ao escrever para os crentes tessalonicenses, informando apesar de a morte ter levado os seus queridos, havia esperança de que um dia eles se encontrariam: "Não quero, porém, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança. Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem Deus os tornará a trazer com ele. Dizemo-vos, pois, isto pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem. Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor" (1 Ts 4.13-17). Paulo destaca que a tristeza e as dúvidas que a igreja tinha em relação aos seus entes queridos que morreram deveriam ser substituídas pela esperança de um momento posterior glorioso.

A morte de Cristo foi, sem dúvida, a forma com que Deus proporcionou ao homem a possibilidade de ter acesso novamente a Ele. Mais que isso, foi também a certeza de que com Ele, teremos a vida eterna. Vale aqui ressaltar a ideia de morte eterna e de vida eterna, já tratadas acima: a vida eterna é uma consequência da salvação e da comunhão com Deus

O cristão não pode encarar a morte da mesma forma que uma pessoa que não tem Jesus. Para as pessoas que não conhecem a Jesus como seu Salvador e Senhor, a morte tende a ser uma separação definitiva.

O Destino Final da Morte

Tratando com os coríntios acerca da ressurreição, Paulo comenta que "Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte" (1 Co 15.26). Paulo personifica a morte e trata dela como um inimigo que já tem seus dias contados. João, em Patmos, descrevendo a Nova Jerusalém, diz que "Deus limpará de seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor, porque já as primeiras coisas são passadas" (Ap 21.4). portanto, mesmo a morte, que já foi derrotada por Cristo quando este ressuscitou, será destruída, e não mais se falará dela, pois será lançada, com o Diabo, no lago de fogo.

Essa deve ser a perspectiva do cristão. Não estamos livres, hoje, de morrer, mas temos a esperança de que um dia o mundo não sofrerá mais com a morte. Um dia ressuscitaremos. Um dia veremos nossos queridos que partiram no Senhor. Um dia o sofrimento causado pela morte será com ela destruído.

"Consolai-vos uns aos outros com estas palavras" (1 Ts 4.18).


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