sábado, 7 de setembro de 2013

Lição 10: A alegria dos Salvos em Cristo. - As recomendações apostólicas a uma igreja amada - Filipenses 4.1-9

INTRODUÇÃO - A igreja de Filipos era a alegria e a coroa do ministério de Paulo. Aquela igreja nasceu num parto de dor, mas trouxe-lhe muitas alegrias. Foi a igreja que se associou com ele desde o início para socorrê-lo em suas necessidades. Foi uma igreja sempre presente e solidária.

Paulo, agora está fazendo suas últimas recomendações a essa igreja querida, a quem Paulo chama de “minha alegria e coroa”. Na língua grega há dois tipos diferentes de coroa: diadema significa “coroa real” e stefanos, “a coroa do atleta” que saía vitorioso dos jogos gregos. Esta era uma coroa de louros que o atleta recebia sob os aplausos da multidão que lotava o estádio. Ganhar esta coroa era a ambição suprema do atleta. Mas, também, stefanos era a coroa com que se coroava aos hóspedes quando participavam de um banquete nas grandes celebrações. Esta última palavra é a que Paulo usa neste texto.

É como se Paulo dissesse que os filipenses são a coroa de todas suas fadigas, esforços e empenhos. Ele era o atleta de Cristo e eles a sua coroa. É como se dissesse que no banquete final de Deus, os filipenses seriam a sua coroa festiva. Ralph Martin nessa mesma linha de pensamento diz que o ambiente escatológico de Filipenses 3.20,21 contribui para a bela metáfora de um prêmio celestial a ser concedido a Paulo por seu trabalho pastoral.

I. A FIRMEZA NO SENHOR, UMA NECESSIDADE IMPERATIVA (4.1)

O apóstolo Paulo ainda continua com o mesmo raciocínio. Porque os crentes são cidadãos do céu, eles devem ter coragem na terra para serem firmes. Na igreja de Filipos havia perigos internos e externos. A igreja estava sendo atacada por falsos mestres e por falta de comunhão. A heresia e a desarmonia atacavam a igreja. Existiam problemas internos e externos; doutrinários e relacionais. A igreja estava sendo atacada por fora e por dentro. Diante desses perigos, Paulo exorta a igreja a permanecer firme no Senhor.

A palavra grega que Paulo usa para “estar firmes” é stekete. Essa palavra era aplicada ao soldado que permanecia firme em seu ímpeto na batalha frente a um inimigo que queria superá-lo. Em vez de dar atenção aos falsos mestres ou se entregar às desavenças internas, a igreja deveria colocar a sua confiança no Senhor Jesus.

A igreja deve permanecer firme no Senhor por causa de sua herança (1.6) e vocação celestial (3.20,21). Ela deve permanecer firme a despeito da hostilidade dos legalistas (3.2) e dos libertinos (3.18,19). Deve permanecer firme diante dos sinais de desarmonia nos relacionamentos (2.3,4) e dos desacordos de pensamento (4.2).

II. A HARMONIA NO RELACIONAMENTO, UMA SÚPLICA INTENSA (4.2,3)

Paulo não somente advertiu os crentes de Filipos acerca de erros doutrinários (3.1-19), mas também acerca dos problemas de relacionamento (4.2,3). A desarmonia entre dois membros da igreja não era um problema de pequena monta para o apóstolo.

Evódia e Síntique eram duas irmãs que ocupavam posição de liderança na igreja, que havia se esforçado com Paulo no evangelho e cujos nomes estavam escrito no livro da vida, mas, agora, estavam em desacordo na igreja. Elas tinham nomes bonitos (Evódia significa “doce fragrância” e Síntique “boa sorte”), mas estavam vivendo de maneira repreensível.

Em vez de buscar os interesses de Cristo e da igreja, estavam lutando por causas pessoais. Estavam colocando o eu acima do outro. Em vez de seguir o exemplo de Cristo e de seus consagrados servos (2.5,17,20,30) estavam copiando aqueles que trabalhavam por vanglória e partidarismo (2.3,4). F. F. Bruce diz que o desacordo entre essas duas irmãs, não importando sua natureza, representava uma ameaça à unidade da igreja, como um todo.

Paulo solicita ajuda de um líder da igreja, que ele não nomeia, para auxiliá-las a fim de construírem pontes em vez de cavar abismos. Precisamos exercer na igreja o ministério da reconciliação em vez de jogar uma pessoa contra a outra. Precisamos aproximar as pessoas em vez de afastá-las. A igreja é um corpo e cada membro desse corpo deve trabalhar em harmonia com os demais para a edificação de todos.

Paulo exorta essas duas irmãs a pensarem concordemente no Senhor. Não podemos estar unidos a Cristo e desunidos com os irmãos. Não há comunhão vertical sem comunhão horizontal. A lealdade mútua é fruto da lealdade a Cristo. A irmandade humana é impossível sem o senhorio de Cristo. Ninguém pode estar em paz com Deus e em desavença com seus irmãos. Por isso, a desunião dos crentes num mundo fragmentado é um escândalo.

J. A. Motyer, comentando esta passagem bíblica, enumera algumas razões pelas quais os crentes devem viver unidos:

Em primeiro lugar, a desarmonia é contrária ao sentimento do apóstolo (4.1). Paulo se dirige a toda a igreja, dizendo que os crentes eram sua alegria e coroa. Ele chama aqueles irmãos de “amados” e “mui saudosos”. A divisão na igreja ergue muros onde deveríamos construir pontes; separa aqueles que devem permanecer sempre juntos.

Em segundo lugar, a desarmonia é contrária à fraternidade cristã (4.1). Paulo dirige-se à igreja total, chamando aqueles crentes de “irmãos”. Eles pertencem a uma só família, a um só rebanho, a um só corpo. Portanto, devem viver como tal.

Em terceiro lugar, a desarmonia é contrária à natureza da igreja (4.3). A igreja deve ser marcada pelo trabalho conjunto, pelo auxílio recíproco e pela esperança futura. Há uma realidade celestial acerca da igreja. O nome dos crentes está escrito no livro da vida e lá no céu não há divisão. A igreja na terra deve ser uma réplica da igreja do céu. A igreja que seremos deve ensinar a igreja que somos. Está contra a natureza da igreja confessar a unidade no céu e praticar desunião na terra. Todos os crentes, lavados no sangue do Cordeiro têm seus nomes escritos no livro da vida e serão introduzidos na cidade santa (Lc 10.17-20; Hb 12.22,23; Ap 3.5; 20.11-15). O fato de irmos morar juntos no céu deveria nos ensinar a viver em harmonia na terra.

III. A ALEGRIA, A MARCA DISTINTIVA DO POVO DE DEUS (4.4)

O apóstolo Paulo fala sobre três características da alegria:

Em primeiro lugar, a alegria é uma ordenança e não uma opção. Ser alegre é um mandamento e não uma recomendação. Deixar de ser alegre é uma desobediência a uma expressa ordem de Deus. O evangelho trouxe alegria, o reino de Deus é alegria, o fruto do Espírito é alegria e a ordem de Deus é: “alegrai-vos”.

Em segundo lugar, a alegria é ultra-circunstancial. Paulo diz que devemos nos alegrar sempre. Como a vida é um mosaico onde não faltam as cores escuras do sofrimento, nossa alegria não pode depender das circunstâncias. Na verdade, nossa alegria não é ausência de problemas. Não é algo que depende do que está fora de nós. Neste mundo passamos por muitas aflições, cruzamos vales escuros, atravessamos desertos esbraseantes, singramos águas profundas, mas a alegria verdadeira jamais nos falta.

Em terceiro lugar, a alegria é Cristocêntrica. Nossa alegria é uma pessoa e não ausência de problemas. Nossa alegria está centrada em Cristo. Quem tem Jesus experimenta essa verdadeira alegria. Quem não tem Jesus pode ter momentos de alegria, mas não a alegria verdadeira. Quem tem Jesus tem a alegria; quem não o tem, jamais a experimentou.

IV. A MODERAÇÃO, A DOCE RAZOABILIDADE A SER DEMONSTRADA (4.5)

O apóstolo Paulo fala à igreja sobre a necessidade de cuidarmos das nossas atitudes internas e das nossas reações externas. A moderação tem a ver com o controle do temperamento. Um crente não pode ser uma pessoa explosiva, destemperada e sem domínio próprio. Suas palavras precisam ser temperadas com sal, suas atitudes precisam edificar as pessoas e sua moderação precisa refletir o caráter de Cristo.

A palavra grega para moderação é epieikeia. William Hendriksen diz que não há em nossa língua uma única palavra que expresse toda a riqueza contida neste vocábulo grego. Essa palavra foi usada por Aristóteles para descrever aquilo que não apenas é justo, porém, melhor ainda do que a justiça. William Barclay diz que o homem que tem “moderação” é aquele que sabe quando não deve aplicar a letra estrita da lei, quando deve deixar a justiça e introduzir a misericórdia.

Epieikeia é a qualidade do homem que sabe que as leis e prescrições não são a última palavra. Jesus não aplicou a letra da lei em relação à mulher apanhada em flagrante adultério. Ele foi além da justiça. Ele exerceu a misericórdia. Ralph Martin nessa mesma trilha de pensamento escreve: “Moderação é uma disposição amável e honesta para com outras pessoas, a despeito de suas faltas, disposição essa inspirada na confiança que os crentes têm em que após o sofrimento terreno virá a glória celeste”.

Ser uma pessoa moderada é ter o espírito pronto para abrir mão da retaliação quando você é ameaçado ou provado por causa da sua fé. William Hendriksen corretamente afirma: “A verdadeira bem-aventurança não pode ser alcançada pela pessoa que rigorosamente insiste em seus direitos pessoais. Cristão é aquele que crê ser preferível sofrer a injustiça a cometer a injustiça (1Co 6.7)”.

Paulo diz que devemos ser moderados porque o Senhor está perto. O advérbio grego engys pode significar “perto” quanto a lugar ou quanto a tempo. O Senhor está ao nosso lado nas lutas e também o Senhor em breve virá para defender a nossa causa e nos recompensar. A razão desse espírito pacífico, não-abrasivo, portanto, não é fraqueza, ou o desinteresse em defender a posição legítima de alguém. Esta atitude covarde é condenada (1.27,28). Ao contrário, devemos ser moderados porque o Senhor virá para defender a nossa causa. Paulo diz: “Perto está o Senhor” (4.3).

V. A ANSIEDADE, UMA DOENÇA PERIGOSA (4.6)

A ansiedade é a maior doença do século. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, mais de cinqüenta por cento das pessoas que passam pelos hospitais são vítimas da ansiedade. A ansiedade atinge adultos e crianças, doutores e analfabetos, religiosos e ateus. Warren Wiersbe diz que a ansiedade é um pensamento errado e um sentimento errado a respeito das circunstâncias, das pessoas e das coisas. Ralph Martin diz que ansiedade é falta de confiança na proteção e cuidado de Deus. 
Várias são as causas da ansiedade:

Em primeiro lugar, a ansiedade é resultado de olharmos para os problemas em vez de olharmos para Deus. Os crentes de Filipos não estavam vivendo num paraíso existencial, mas num mundo cercado de perseguições (1.28). O próprio Paulo estava preso, na ante-sala do martírio, com os pés na sepultura. Nuvens pardacentas se formavam sobre sua cabeça. Quando olhamos as circunstâncias e os perigos à nossa volta em vez de olharmos para o Deus que governa as circunstâncias, ficamos ansiosos.

Em segundo lugar, a ansiedade é resultado de relacionamentos quebrados. As pessoas nos fazem sofrer mais do que as circunstâncias. Nós desapontamos as pessoas e elas nos desapontam. As pessoas têm a capacidade de roubar a nossa alegria. Há pessoas que carregam uma alma ferida e são prisioneiras da amargura porque os relacionamentos estão estremecidos (2.1-4; 4.2).

Em terceiro lugar, a ansiedade é resultado de uma exagerada preocupação com as coisas materiais (3.19). Aqueles que só se preocupam com as coisas materiais vivem inquietos e desassossegados. Aqueles que põem sua confiança no dinheiro em vez de colocá-la em Deus descobrem que a ansiedade e não a segurança é sua parceira.

Três são os resultados da ansiedade:

Em primeiro lugar, a ansiedade produz uma estrangulação íntima. A palavra “ansiedade” traz idéia de estrangulamento. Ficar ansioso é como ser sufocado. É como cortar o oxigênio de uma pessoa e tirar dela a possibilidade de respirar. A ansiedade produz uma fragmentação existencial. A pessoa é rasgada ao meio. Ela produz uma esquizofrenia emocional. A pessoa ansiosa perde o equilíbrio. Warren Wiersbe diz que a palavra “ansiedade” significa ser “puxado em diferentes direções”. As nossas esperanças puxam-nos numa direção; os nossos temores puxam-nos na direção oposta; assim, ficamos rasgados!

Em segundo lugar, a ansiedade rouba as nossas forças. Uma pessoa ansiosa normalmente antecipa os problemas. Ela sofre antecipadamente. O problema ainda não aconteceu e ela já está sofrendo. A ansiedade rouba a energia antes de o problema chegar. E quando o problema chega; se chegar, a pessoa já está fragilizada.

Em terceiro lugar, a ansiedade é uma eloqüente voz da incredulidade. A ansiedade é a incapacidade de crer que Deus está no controle. A ansiedade ocupa o nosso coração quando tiramos os olhos da majestade de Deus para colocá-los na grandeza dos nossos problemas.

VI. A ORAÇÃO, O REMÉDIO DIVINO PARA A CURA DA ANSIEDADE (4.6)

Deus não apenas dá uma ordem: “Não andeis ansiosos”, mas oferece a solução. Não apenas diagnostica a doença, mas também oferece o remédio. Se a ansiedade é uma doença, a oração é o remédio. William Hendriksen diz que o antídoto adequado para a ansiedade é abrir efusivamente o coração a Deus.

Lidamos com a ansiedade não com livros de auto-ajuda, mas com a ajuda do alto. Triunfamos sobre ela não batendo no peito arrotando uma arrogância ufanista, mas caindo de joelhos e lançando sobre Cristo nossa ansiedade. Onde a oração prevalece, a ansiedade desaparece. William Barclay corretamente afirma: “Não existe nada demasiadamente grande para o poder de Deus nem demasiadamente pequeno para seu cuidado paternal”.

O remédio de Deus deve ser usado de acordo com a prescrição divina. Paulo fala sobre três palavras para descrever a oração: oração, súplica e ações de graça. A oração envolve esses três elementos.

Em primeiro lugar, Paulo diz que precisamos adorar a Deus quando oramos. A palavra grega proseuche é o termo genérico para oração. Essa palavra é um termo geral usado para se referir às petições que fazemos ao Senhor. Tem a conotação de reverência, devoção e adoração. Sempre que nos vemos ansiosos, a primeira coisa a fazer é ficar sozinhos com Deus e adorá-lo. Precisamos saber que Deus é grande o suficiente para resolver os nossos problemas. A oração começa quando focamos nossa atenção em Deus e não em nós. O ponto culminante da oração é relacionamento com Deus mais do que pedir coisas a Deus. Orar é estar em comunhão com o Rei do Universo. Adoramos a Deus por quem ele é. Em vez de ficarmos ansiosos, devemos meditar na majestade de Deus e descansar nos seus braços. Se Deus é quem ele é, e se ele é o nosso Pai, não precisamos ficar ansiosos.

Em segundo lugar, Paulo diz que podemos apresentar a ele nossas necessidades quando oramos. A palavra grega deesis, enfatiza o elemento de petição, a súplica em oração. Devemos apresentar todas as nossas necessidades a Deus em oração em vez de acumular o peso da ansiedade em nosso coração. O próprio Senhor Jesus nos ensinou: “Pedi e dar-se-vos-á…” e “Tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei”. Tiago escreveu: “Nada tendes, porque nada pedis”.

Em terceiro lugar, Paulo diz que devemos agradecer a Deus quando oramos. Devemos olhar para o que Deus já fez por nós para não ficarmos ansiosos (Sl 116.7). Mas, devemos agradecer também pelo que Deus vai fazer. Deus desbarata os nossos inimigos quando nos voltamos para ele com ações de graça (2Cr 20.21). O próprio Paulo quando plantou a igreja em Filipos foi açoitado e preso. Não obstante a dolorosa circunstância agradeceu a Deus, cantando louvores na prisão (At 16.25). Quando o profeta Daniel foi vítima de uma orquestração na Babilônia, longe de ficar ansioso, orou a Deus com súplicas e ações de graça (Dn 6.10,11). Daniel foi capaz de passar a noite com os leões em perfeita paz, enquanto o rei no seu palácio não conseguiu dormir (Dn 6.18).

VII. A PAZ DE DEUS, UMA BÊNÇÃO A SER RECEBIDA (4.7)

Pela oração, a paz de Deus ocupa o lugar que antes a ansiedade tomava conta. A oração aquieta o nosso interior e muda o mundo ao nosso redor. Por meio dela nos elevamos a Deus e trazemos o céu à terra. A ansiedade é um pensamento errado e um sentimento errado, por isso, a paz de Deus guarda mente e coração. O mesmo coração que estava cheio de ansiedade, pela oração, agora está cheio de paz. F. F. Bruce diz que a paz de Deus pode significar não apenas a paz que ele mesmo concede, mas a serenidade em que o próprio Deus vive: Deus não está sujeito à ansiedade.

O apóstolo destaca três verdades importantes sobre a paz:

1. A paz que recebemos é uma paz divina e não humanas (4.7)
É a paz de Deus. A paz de Deus não é paz de cemitério. Não é ausência de problemas. Esta paz não é produzida por circunstâncias. O mundo não conhece essa paz nem pode dá-la (Jo 14.27). Governos humanos não podem gerar essa paz. Esta paz vem de Deus. Bruce Barton afirma: “A verdadeira paz não é encontrada no pensamento positivo, na ausência de conflito, ou em bons sentimentos; ela procede do fato de saber que Deus está no controle”. 

2. A paz de Deus transcende a compreensão humana (4.7)
Esta paz é transcendente. Ela vai além da compreensão humana. A despeito da tempestade do lado de fora, podemos desfrutar bonança do lado dentro. Ela co-existe com a dor, com as lágrimas, com o luto e com a própria morte. Esta é a paz que os mártires sentiram diante do suplício e da morte. Esta é a paz que Paulo sentiu ao caminhar para a guilhotina, dizendo: “A hora da minha partida é chegada. Combati o bom combate, completei a carreira e guardei a fé. Agora, a coroa da justiça me está guardada…” (2Tm 4.6-8).

3. A paz de Deus é uma sentinela celestial ao nosso redor (4.7)
A palavra grega frourein é um termo militar para estar em guarda. Assim, “guardar” traz a idéia de uma sentinela, um soldado na torre de vigia, protegendo a cidade. A paz de Deus é como um exército protegendo-nos dos problemas externos e dos temores internos. Paulo diz que esta paz guarda os nossos corações (sentimentos errados) e nossas mentes (pensamentos errados), as nossas emoções e a nossa razão. William Hendriksen comentando este texto, escreve:

Os filipenses estavam acostumados a ver as sentinelas romanas a montarem guarda. Assim também, se bem que num sentido muitíssimo mais profundo, a paz de Deus montará guarda à porta do coração e da mente. Ela impedirá que a torturante angústia corroa o coração, que é o manancial da vida (Pv 4.23), a fonte do pensamento (Rm 1.21), da vontade (1Co 7.37) e do sentimento (1.7). O homem de fé e oração tem-se refugiado naquela inexpugnável cidadela da qual ninguém jamais poderá arrancá-lo; e o nome dessa fortaleza é Jesus Cristo.

Ralph Martin comenta que o uso que Paulo faz de um verbo militar demonstra que ele está pensando na segurança da igreja, e seus membros, num ambiente hostil, cercados de inimigos.

VIII. O PENSAMENTO, UMA ÁREA ESTRATÉGICA A SER GUARDADA (4.8)

Pensamentos errados levam a comportamento errado e comportamento errado leva a sentimento errado. Por isso, devemos levar todo pensamento cativo à obediência de Cristo (2Co 10.5). As nossas maiores batalhas são travadas no campo da mente. Nessa trincheira a guerra é ganha ou perdida. O homem é aquilo que ele pensa. Precisamos fechar os portais da nossa mente para o que é vil e abrir suas janelas para o que é verdadeiro, justo, amável e de boa fama. Precisamos jogar para o sacrário da nossa mente o que é elevado e esvaziar todos os porões da nossa mente de tudo aquilo que é impróprio.

Somos aquilo que registramos em nossa mente. Se nós arquivarmos em nossa mente coisas boas, de lá tiraremos tesouros preciosos, mas se tudo o que depositamos lá são coisas malsãs, não poderemos tirar de lá o que é proveitoso. Paulo faz uma lista daquilo que deve ocupar os nossos pensamentos:

Em primeiro lugar, tudo o que é verdadeiro. A palavra grega alethe pode significar “verdade” em oposição àquilo que é irreal, insubstancial, ou “verdade” em oposição à falsidade. Noventa e dois por cento de tudo aquilo que ocupa a mente das pessoas, levando-as à ansiedade são coisas imaginárias que nunca aconteceram ou envolvem questões fora do controle das pessoas. F. F. Bruce diz que a ordem de Paulo poderia tratar-se de uma advertência contra indulgência mental em fantasias ou difamações infundadas. Tudo o que é verdadeiro, aqui, possui as qualidades morais de retidão e confiança, de realidade em contraposição à mera aparência.

Em segundo lugar, tudo o que é respeitável. A palavra grega é semnos, e traz a idéia de alguém que vive neste mundo com uma profunda consciência de que o universo inteiro é um santuário e tudo o que ele faz deve ser um culto a Deus. A mente que se concentra em assuntos desonestos corre o perigo de tornar-se desonesta. Honestidade é o contrário da duplicidade de caráter que avilta a moral, sendo incompatível com a mente de Cristo. Os crentes devem ser dignos e sinceros tanto em suas palavras quanto em seu comportamento. O decoro nas conversações, nos costumes e na moral é muito importante, diz William Hendriksen.

Em terceiro lugar, tudo o que é justo. A palavra grega dikaios enfatiza aqui uma correta relação com Deus e com os homens. Tendo recebido de Deus tanto a justiça imputada quanto a comunicada, os crentes devem pensar com retidão, diz Hendriksen. William Barclay diz que essa é a palavra do dever assumido e do dever cumprido. O reverso disso nós o encontramos no homem iníquo que “maquina o mal na sua cama”, a fim de executá-lo depois, à luz do dia (Am 8.4-6).

Em quarto lugar, tudo o que é puro. A palavra grega hagnos descreve o que é moralmente puro e livre de manchas. Ritualmente descreve algo purificado de tal maneira que se faz apto para ser oferecido a Deus e usado em seu serviço. Pureza de pensamento e de propósito é condição preliminar indispensável para a pureza na palavra e na ação, diz F. F. Bruce.

Em quinto lugar, tudo o que é amável. A palavra grega prosphiles traz o significado de agradável, aquilo que suscita amor. Trata-se de algo que se auto-recomenda pela atração e encanto intrínsecos. São aquelas coisas que proporcionam prazer a todos, não causando dissabor a ninguém, à semelhança de uma fragrância preciosa, diz F. F. Bruce.

Em sexto lugar, tudo o que é de boa fama. A palavra grega euphemos significa literalmente “falar favoravelmente”. No mundo há demasiadas palavras baixas, falsas e impuras. Nos lábios do cristão e em sua mente devem existir somente palavras que são adequadas para ser ouvidas por Deus.

Em sétimo lugar, se alguma virtude há e se algum louvor existe seja isso que ocupe o vosso pensamento. Ao invés de continuar sua seleção, Paulo resume, agora: “se alguma virtude há”, do grego arete, cujo significado é: “virtude moral” e “se algum louvor existe”, do grego epainos, “aquilo que merece louvor ou que inspira a aprovação divina”. Ambos os termos descrevem as qualidades que devem marcar as atitudes e ações dos crentes.

IX. A PRÁTICA, A EVIDÊNCIA DE UMA VIDA AUTÊNTICA (4.9)

Warren Wiersbe diz que não é possível separar atos exteriores de atitudes interiores. Há uma íntima conexão entre: “Seja isso que ocupe o vosso pensamento” (4.8) e “praticai” (4.9). A dinâmica do cristianismo deriva-se da união destes dois imperativos. Tais imperativos estão corporificados na coleção de qualidades éticas (4.8), nas tradições apostólicas (4.9a), e nos ensinos exemplificados na própria vida de Paulo (4.9b).

Paulo considera quatro atividades: aprender e receber, ouvir e ver. Uma coisa é aprender a verdade e outra bem diferente é recebê-la e assimila-la. Não basta ter fatos na cabeça, é preciso ter verdade no coração. Ao longo do seu ministério, Paulo não apenas ensinou a Palavra, mas também a viveu na prática para que seus ouvintes pudessem vê-la em sua vida. Há uma íntima relação entre a palavra e a pessoa que a pronuncia.

O apóstolo Paulo conclui esse parágrafo falando da necessidade de se praticar o que se aprendeu. Acumular conhecimento sem o exercício da vida cristã não nos torna crentes maduros. Precisamos ter olhos abertos para ver, ouvidos atentos para aprender e disposição para praticar aquilo que aprendemos.

Paulo, igualmente, mostra que devemos ser criteriosos acerca dos nossos modelos. Não devemos imitar os falsos mestres. Não devemos seguir as pegadas daqueles vivem desregradamente nem seguir o exemplo daqueles que vivem buscando seus próprios interesses. Ao contrário, Paulo se coloca como exemplo para os crentes de Filipos (3.17; 4.9). Paulo entende que o exemplo pessoal é parte essencial do ensino. O mestre deve praticar a doutrina que professa e demonstrar em ação a verdade que expressa em palavras.

CONCLUSÃO

A conclusão do apóstolo Paulo é majestosa. Além de termos a paz de Deus para nos guardar, agora temos o Deus da paz para nos guiar. Não apenas temos uma harmonia bendita em lugar da ansiedade, mas temos também a companhia divina na caminhada.

Corretamente Bruce Barton diz que muitas pessoas hoje procuram ter paz com Deus sem ter um relacionamento com Deus, que é o autor da verdadeira paz. Isso, porém, é impossível. Para experimentar a paz, precisamos primeiro conhecer o Deus da paz.


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