domingo, 20 de abril de 2014

Lição 5 – Dons de Elocução

Dons de Elocução - “Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus; se alguém administrar, administre segundo o poder que Deus dá, para que em tudo Deus seja glorificado por Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o poder para todo o sempre” (1 Pe 4.11).

Deus sempre quis comunicar-se com o homem. O relato bíblico sobre a criação do ser humano demonstra, de modo bem evidente, que Deus comunicava-se diretamente com o ser criado. Sem dúvida, ao por o homem no jardim, para deste ser o responsável e guardador, Deus lhe deu as instruções necessárias, fazendo-lhe ouvir sua voz. E o fez, falando diretamente com o ser criado.

Com a Queda, rompeu-se a comunhão com Deus. Antes, sentiam satisfação em ouvir a voz de Deus, que lhes parecia música suave, pois foram os primeiros sons que penetraram em seus ouvidos, naquele momento inicial da criação. A história se repete. Se o homem, e, muito mais, o crente, não zelar pela comunhão com Deus, o pecado destrói a comunicação com o Senhor. Mas, no seio da igreja cristã, Deus co- munica-se com seus servos, através da leitura da Bíblia; através de seus mensageiros, pregadores, ensinadores e líderes, visando sua edificação. De modo sobrenatural, o Senhor usa pessoas, com os dons especiais de expressão verbal, ou de elocução, para transmitir sua vontade, orientações, exortações e direção divina.

Pelo dom de profecia, Deus supre aquilo que a mensagem costumeira não consegue alcançar. Quantas vezes, no meio da congregação, um servo ou uma serva de Deus, que tem esse dom, levanta-se e entrega uma mensagem de exortação, de alerta, ou de edificação para toda a comunidade presente. Via de regra, a profecia autêntica provoca alegria e glorificação a Deus. Em outras ocasiões, o dom de variedade de línguas é usado por Deus, com interpretação, para confortar a igreja ou, equivalendo a uma profecia (com interpretação), consolar ou edificar o seu povo.

Infelizmente, nos tempos presentes, percebe-se que muitas igrejas, ditas pentecostais, substituíram a adoração viva e cheia da presença do Espírito Santo, por um tipo de liturgia social, em que palmas e danças tomam o lugar da glorificação a Deus. Os dons espirituais são esquecidos, ou nunca procurados. Não se pode dizer que palmas sejam gestos ilícitos, de modo algum. Há ocasiões, em que elas cabem bem, na expressão de louvor. Quanto às danças, a nosso ver, era um costume oriental, bem aceito e praticado entre o povo de Israel. Mas, no culto neotestamentário, não conseguimos constatar, biblicamente, que haja espaço para essa expressão corporal. Vemos que a adoração a Deus, em glórias, aleluias e em línguas estranhas, é muito mais eloquente para a adoração individual e coletiva. E, quando o dom de variedade de línguas é praticado, com interpretação, é de grande valor para a igreja.

I - DOM DE PROFECIA (1 CO 12.10)

No Antigo Testamento, havia um “ministério profético”, reconhecido e considerado por toda a nação. Hoje, não existe esse ministério nas igrejas cristãs. Existem pessoas ou mensageiros de Deus, que possuem o “dom de profecia”, usado em determinadas ocasiões, como propósitos definidos, como veremos mais adiante. Entre os dons ministeriais, objeto de outro comentário, há dom de “profeta”. No AT, as palavras entregues pelos profetas não admitiam julgamento, exceto quanto a seu cumprimento. Quando o profeta era de fato “homem de Deus”, nenhuma palavra deixava de se cumprir (1 Sm 3.19). Se não se cumprisse, era um falso profeta e era punido com pena de morte (Dt 13.5; 18.20,22). Em o Novo Testamento, os profetas podem ser julgados ou avaliados (1 Co 14.29). Fico a imaginar se houvesse punição para os falsos profetas de hoje...

O dom de profecia, no Novo Testamento, possui algumas diferenças, em relação ao ministério profético do Antigo Testamento. Na Antiga Aliança, os profetas, ou mensageiros de Deus, tinham mensagens dirigidas a todo o povo, à nação de Israel e, em determinadas ocasiões, a pessoas individualmente, a reis, a profetas e a quem Deus quisesse enviar sua palavra. Em o Novo Testamento, a mensagem profética é proclamada, no seio de uma igreja local. Dificilmente, há uma mensagem para toda a nação. Embora essa hipótese não seja descartada, Deus age e fala como quer.

Deve-se considerar que a profecia, bem como outras manifestações do Espírito Santo, é absolutamente necessária nos dias presentes. Concluir que os dons, os carismas, os milagres, sinais e prodígios, foram apenas para os dias dos apóstolos, é querer reduzir o poder e a ação do Espírito Santo a uma matriz teológica, acadêmica e intelectualizada, que não se coaduna com as afirmações da Palavra de Deus.

1. O QUE É DOM DE PROFECIA

Para entendermos melhor esse dom, precisamos saber um pouco sobre o significado da palavra profeta e profecia. No Antigo Testamento, a palavra profeta é navi, (hb. Nãbi') que se refere ao homem que era inspirado pelo Espírito Santo para entregar as mensagens de Deus para as pessoas (cf. 2 Pe 1.21). A palavra profetizar, no Antigo Testamento, é nãbã isto é, “a função do verdadeiro profeta quando ele fala a mensagem de Deus para o povo sob a influência do Espírito Divino (1 Rs 22.8; Jr 29.27; Ez 37.10).'

No Novo Testamento, a palavra grega para profecia é propheteia, formada de dois termos, depro, que significa “adiante”, “antecipado” e phemi, “falar”. Assim, nesses termos, profecia significa “a declaração do que não pode ser conhecido por meios naturais (Mt 26.68), é a descrição antecipada da vontade de Deus, quer com referência ao passado, presente e futuro (veja Gn 20.7; Dt 18.18; Ap 10.11; 11.3”.2 Profetizar, no grego, se resume numa palavra, propheteiiein, que significa “falar em nome de alguém, em favor de alguém”.

O dom de profecia é um dom especial, em que seu portador transmite uma mensagem para a igreja ou para alguém, na inspiração do Espírito Santo. Não pode ser uma mensagem humana, pessoal da parte do que a transmite, mas é falada numa linguagem humana. É necessário ter cuidado com as distorções que podem ocorrer na transmissão da mensagem profética, na igreja de hoje.

Diz a Bíblia: “O profeta que teve um sonho, que conte o sonho; e aquele em quem está a minha palavra, que fale a minha palavra, com verdade. Que tem a palha com o trigo? diz o Senhor” (Jr 23.28 — grifo nosso). Não deve haver mistura da “palha” das “profetadas”, que ocorrem aqui e ali, em certas igrejas, com o genuíno “trigo” da verdadeira profecia, transmitida por um servo ou serva de Deus, pela inspiração do Espírito Santo.

Segundo Raymond Carlson, “A profecia, no Novo Testamento, que difere de uma pregação comum, é uma manifestação sobrenatural, dada para edificação, exortação e consolação. Através de 1 Coríntios 14.30, entendemos que o dom nos é dado por revelação através do Espírito”.3 Uma pregação pode ter caráter profético, mas nem toda pregação é profecia. Raymond Carlson diz que a profecia, “como seu homônimo dom de línguas, tem de conter elementos de revelação, conhecimento e doutrina”. Aqui, cabe um esclarecimento. Sem dúvida, a profecia resulta de revelação espiritual e de conhecimento, concedido por Deus. Mas não pode trazer nova doutrina, pois tudo o que consta na Bíblia é a Palavra de Deus, suficiente e necessária para nossa edificação. Quando o autor citado diz que a profecia deve conter doutrina, certamente quer dizer que ela tem que ter fundamento doutrinário ou bíblico. A profecia não pode acrescentar nada à Bíblia.

2. FINALIDADE DA PROFECIA

Como todos os demais dons espirituais, o de profecia tem propósitos especiais da parte de Deus para a Igreja de Jesus Cristo. Só deve ser usado de forma correta, com base na Palavra de Deus. “Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil” (1 Co 12.7) ou proveitoso para a igreja. De maneira bem clara e até didática, o dom de profecia tem três finalidades básicas, em proveito da igreja: “Mas o que profetiza fala aos homens para edificação, exortação e consolação” (1 Co 14.3).

1) Edificação

Assim como um edifício de pedras é edificado pouco a pouco, com a união dos elementos materiais, com a argamassa própria, da mesma forma, os crentes em Jesus são “edifício de Deus” (1 Co 3.9). A formação espiritual de um discípulo de Jesus começa com a conversão, mas não para no discipulado inicial. Deve continuar por toda a vida. Pouco a pouco, o ensino da Palavra e da doutrina do Senhor vai construindo o caráter cristão no crente.

Mas, às vezes, é necessária uma mensagem especial ou específica para alguém ou para toda a congregação. E aí que Deus usa um profeta para transmitir uma mensagem da parte de Deus, visando corrigir ou colocar “no prumo”, ou “no nível”, alguma área da edificação espiritual. Pastores são “serventes” ou “servidores” do supremo Arquiteto ou Construtor, que é Cristo. Não são perfeitos na edificação. Sua mensagem, mesmo com base na Bíblia, carece de reparos, aqui e ali. Em grande parte das igrejas, pelo país afora, há grande falta de preparo para o ensino da Palavra de Deus. Há obreiros despreparados até para os mais elementares ensinos bíblicos. Por misericórdia, o Senhor dá sabedoria até mesmo a pessoas sem cultura para transmitir sua mensagem, mas, há ocasiões em que só uma mensagem específica, para determinadas ocasiões, pode suprir o que é indispensável para a edificação do Corpo de Cristo, no que respeita à igreja local.

2) Exortação

Exortar tem o sentido de “chamar para fora”, para orientar, ajudar e ensinar. Deriva da palavra grega parakalao, que tem o sentido de confortar, inspirar, defender e guiar. Exortar não tem o sentido distorcido, entendido por alguns, de que significa ameaçar, intimidar, ou causar pavor, na igreja. O verbo grego parakalao tem origem em outra palavra de muito significado, Paracleto, que significa Consolador, o título que é dado ao Espírito Santo (cf. Jo 14.16; 15.26). Por isso, Paulo ensina que quem exorta deve fazê-lo “com toda a longanimidade e doutrina” (2 Tm 4.2).

Uma mensagem profética ajuda a entender como aplicar a Profecia Maior, que é a Bíblia Sagrada, para os dias presentes, quando surgem problemas, situações e circunstâncias, que não existiam, quando a mensagem bíblica foi escrita. Sem o ensino da Palavra de Deus e da mensagem profética, há uma tendência para a ocorrência de desvios de conduta e distorções perigosas no meio das igrejas locais. Diz Provérbios: “Não havendo profecia, o povo se corrompe...” (Pv 29.18a).

As inovações e modismos têm tomado conta de muitos redutos pen- tecostais. A chamada “teologia da prosperidade” tem causado grandes estragos, com sua filosofia utilitarista dos dons e da Palavra de Deus. O evangelho antropocêntrico tem dado ao homem a primazia nas decisões e ensinamentos de muitos líderes. Aberrações teológicas ou práticas estranhas têm ocorrido, em certas igrejas. A “unção do riso”, “a unção do leão”, “a urina ungida”, inventada por determinada igreja (os crentes saíram urinando, nas esquinas e ruas de uma cidade, para “marcar território”), para o pecado diminuir. Em lugar disso, a pecaminosidade tem aumentado; certo pregador, “celebridade” pregou que seu suor era ungido, pois seu DNA era ungido. Com isso, levou muito dinheiro dos irmãos, além do “cachê polpudo”. Nada disso tem fundamento bíblico. São ensinos heréticos, que têm grande aceitação no meio de igrejas e atraem muitos crentes que não conhecem a Palavra de Deus.

Deus disse, no Antigo Testamento: “O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento...” (Os 4.6). Essa palavra aplica-se de modo bem atual, ao que está ocorrendo no meio dos evangélicos.

3) Consolação

O Espírito Santo é chamado de “O outro Consolador” (cf. Jo 14.16). Ele é o parakleto prometido por Cristo. Por isso, também usa o dom de profecia, para transmitir mensagem de consolação aos servos de Deus. Já vimos que o verbo parakaleo (gr.) significa consolar, confortar. E o que podemos ver em Barnabé, amigo de Paulo (At 4.36; ver Rm 15-4,5; 1 Co 14.3; 2 Co 1.3,4-7)). Consolação vem deparaklesis (gr.) e tem o sentido de “consolar”, “dar alegria”, dar “paz”. Paulo diz que todos os crentes podem profetizar (se Deus conceder tal dom), visando a consolação da igreja: “Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros, para que todos aprendam e todos sejam consolados” (1 Co 14.31 — grifo nosso).

Muitas vezes, infelizmente, o zelo exagerado de alguns ministros, com a palavra e as normas da igreja local faz com ele se torne agressivo, intolerante e radical. E esquecem que, no meio da congregação, há dezenas de pessoas que estão experimentando momentos difíceis e dolorosos em suas vidas. E estão precisando mais do que nunca de ouvir uma palavra de consolação. A exortação pesada, às vezes, é necessária. Mas fazer uso do púlpito para chicotear as ovelhas, indiscriminadamente, é falta do espírito de consolação.

O Espírito Santo é o mesmo. Ele consolava no Antigo Testamento (SI 23.4; Is 51-12) e continua consolando na Dispensação da Graça (2 Co 1.4; 7.6). Faltaria espaço literário, sem dúvida, se pudessem ser registradas todas as mensagens de consolação que Deus tem dado à sua Igreja, no Brasil e em todos os lugares do mundo. Em cultos de oração, nos círculos de oração, em tantos lugares; em reuniões informais de oração, Jesus tem confortado seus servos, principalmente os que sofrem por causa do seu Nome e do evangelho. “O Dom de Profecia, portanto, serve para falarmos sobrenaturalmente aos homens, assim como o Dom de Línguas serve para falarmos sobrenaturalmente a Deus”.'1

3. ERROS A SEREM EVITADOS NO USO DO DOM DE PROFECIA

1) Usar a profecia para guiar a igreja

A mensagem através do dom de profecia tem como finalidade: “exortação, edificação e consolação” (1 Co 14.3). Não tem por objetivo guiar ou direcionar a administração da igreja local. A Bíblia Sagrada, a Profecia por excelência, é o manual da Igreja e tem todas as orientações sobre a administração espiritual, humana e material da igreja cristã. Vemos, em Atos 13.1-3, que, quando Deus quis enviar missionário, O Espírito Santo se dirigiu aos líderes, como Barnabé, Simeão (Níger), Lúcio de Cirene, Manaén e Saulo. Não se dirigiu a “um profeta” em particular.

2) Usar o dom de profecia como um “oráculo”

Tendo em vista a finalidade da profecia, não é correto o crente só fazer as coisas se consultar um profeta. Essa prática tem endeusado irmãos ou irmãs, a quem Deus deu o dom, para se tomarem verdadeiros “gurus” de determinadas pessoas. Há exemplos de profetas, nas igrejas, cujo lar se transformou em lugar de verdadeira romaria. Há, até, os que praticam a simonia (At 8.18), profetizando para receber ofertas dos que lhe procuram. Deus pode usar, e tem usado, homens e mulheres de caráter cristão ilibado, para consolar e orientar casos específicos de pessoas que precisam de uma palavra específica para eles. Mas é preciso cuidado. A profecia é para o proveito da igreja e não de domínio particular.

3) Usar o dom de profecia como fonte de doutrina

É completamente errado e contraria a Palavra de Deus. A fonte por excelência de doutrina é a Palavra de Deus. Nenhuma profecia pode acrescentar ou retirar o que já foi revelado nas Sagradas Escrituras. Quem o fizer, incorre no perigo de ser punido por Deus. “Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; e, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida e da Cidade Santa, que estão escritas neste livro” (Ap 22.18,19).

4) Usar o dom de profecia deforma descontrolada

O dom de profecia deve ser usado, na igreja, com decência e ordem. Diz Paulo: “Portanto, irmãos, procurai, com zelo, profetizar e não proibais falar línguas. Mas faça-se tudo decentemente e com ordem” (1 Co 14.39, 40). A igreja em Corinto, como já vimos, possuía todos os dons, operando em seu meio. Talvez por isso, houve que se achasse mais importante ou santo do que os outros que não possuíam dons, e achavam-se no direito de usar os dons como bem entendessem. Por isso, o apóstolo exortou quanto à necessidade de ordem e decência no culto.

Quando este autor liderava a juventude, há quase 30 anos, aconteceu um fato constrangedor, mediante o uso do dom de profecia. Um grupo de jovens e adolescentes passou a reunir-se em casa dos colegas, e passarem noites inteiras em oração e vigílias. Em princípio, com o consentimento dos pais, não haveria nada a se reprovar. No entanto, aquele grupo passou a considerar-se porta-voz de Deus, e a considerar os que não faziam parte dele como carnais, inclusive este que escreve este texto. Em pouco tempo, aqueles jovens estavam-se sentindo autossuficientes, e não davam mais satisfação à igreja e muito menos à direção da mocidade.

Um dizia que Deus estava mandando ir à casa de um irmão para levar uma mensagem. Outro dizia que Deus lhe falara para irem a outro estado, para dar uma mensagem para um pastor. Em certa ocasião, na casa de um do grupo, os jovens se deitaram no chão, rapazes com as moças, e passaram a noite em vigília. Em dado momento, uma jovem começou a “ser usada em profecia”. E falou para um jovem: “O teu noivado não é do meu agrado. A que tenho preparado para ti é o vaso que estou usando”. Se o jovem que ouvira a mensagem não tivesse convicção do seu noivado teria acabado o relacionamento com sua noiva, com quem se casou e vive muito bem.

II - VARIEDADES DE LÍNGUAS (1 CO 12.10)

O fenômeno pentecostal do falar em línguas estranhas (gr. glosso- lalia) tem dois aspectos. O primeiro é o falar línguas estranhas como evidência do batismo com o Espírito Santo. O segundo é o dom de variedade de línguas.

1. EVIDÊNCIA DO BATISMO COM ESPÍRITO SANTO

Os discípulos só entenderam que “o outro Consolador” (Jo 14.6) ou revestimento de poder (Lc 24.49) houvera sido enviado, no Dia de Pentecostes, quando foram envolvidos no mover do Espírito Santo, com evidências exteriores e perceptíveis, que marcavam a nova fase na História da Igreja do Senhor Jesus. Os “cessassionistas”, que ensinam que os dons espirituais foram apenas para o período dos apóstolos afirmam que o batismo com o Espírito Santo é a própria salvação. Respeitamos os irmãos de outras denominações que creem assim, mas discordamos dessa teologia “cessassionista” por não se harmonizar com o que o Novo Testamento ensina sobre o batismo com o Espírito Santo. A Igreja de Jesus, hoje, mais do que nunca, precisa do revestimento de poder do Espírito Santo e da manifestação dos dons espirituais.

Em suas últimas instruções, antes da Ascensão, Jesus disse aos discípulos (que já eram salvos), que eles receberiam um novo batismo: “Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias” (At 1.5). Note-se que o verbo “ser” está no futuro: “sereis”. Eles sentiram que foram “cheios do Espírito Santo”, quando falaram línguas estranhas a si próprios: “E todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem” (At 2.4). Nesse aspecto, as línguas náo precisam de interpretação. O crente pode falar só com Deus (cf. 1 Co 14.2-28). E pode ser dado a todos quantos buscarem o batismo com o Espírito Santo.

O movimento pentecostal não é propriamente moderno. Ao longo da História da Igreja, Deus levantou crentes fiéis, que desejavam ver a igreja local movida pelo poder de Deus. Em 1834, um ministro presbiteriano, Edward Irving encorajava o falar em línguas em sua denominação. Numa colônia de mórmons, de Nauvoo, Illinois, em 1855, os crentes criam “no dom de línguas, profecia, revelação, visões, cura, interpretação de línguas. Em 1873, nas campanhas de Deight L. Moody, ele encontrou grande avivamento, na Associação Cristã de Moços. Robert Boyd declarou: “encontrei a reunião em fogo. Os jovens estavam falando em línguas e profetizando. Que significaria isso? Somente que Moody pregara para eles naquela tarde. Em 1875, houve batismos com o Espírito Santo, em Providence, Rhode Island. O pastor R. B. Swan declarou: “No ano de 1875, nosso Senhor começou a derramar sobre nós de seu Espírito; minha esposa, eu e alguns poucos outros começamos a proferir algumas poucas palavras na língua desconhecida”.5

Os que resolveram examinar a Bíblia sem preconceito teológico descobriram que o batismo com o Espírito Santo, com evidência de línguas estranhas, não foi só para o período apostólico. No ano de 1900, o jovem obreiro metodista, Charles E Parham entendeu que seu ministério precisava de algo novo. E, reunindo algumas pessoas, começou a pesquisar o livro de Atos dos Apóstolos. E descobriu que o batismo com o Espírito Santo era o que faltava para experimentar o avivamento. Alugou um casarão náo concluído, em Topeka, Estados de Arkansas, EUA, e transformou num lugar de oração e busca pelo poder de Deus.6

Foram tantas as pessoas batizadas com o Espírito Santo, com línguas estranhas, que o movimento inusitado começou a espalhar-se. Em alguns lugares, teve ferrenha oposição. Em outros, foi bem aceito como algo que faltava ao evangelismo americano. Pessoas foram curadas milagrosamente, outras receberam dons do Espírito Santo. Num culto, um índio Pawnee entendeu a mensagem que uma irmã entregava em sua língua.

Depois, Parham levou a mensagem pentecostal para Houston, Texas. Ali, entrou em cena W. J. Seymour, que, recebendo a mensagem, levou-a para Los Angeles, Califórnia. Ali, sofreu o mesmo que Parham. Aceitação e rejeição ferrenha. Mas em 9 de abril de 1906, as pessoas começaram a ser batizadas com o Espírito Santo. O local de reunião ficou pequeno, e ele se mudou com o grupo de crentes para a Rua Azuza, 312, que se tornou lugar histórico para o movimento pentecostal moderno. Espalhou-se pelo mundo e chegou ao Brasil em 1911, com os missionários Daniel Berg e Gunnar Vingren, que se fixaram em Belém do Pará, onde as mesmas características do Pentecostes tiveram lugar. As pessoas falavam em línguas estranhas, e recebiam dons espirituais, sob a unção do Espírito Santo.

2. O DOM DE VARIEDADES DE LÍNGUAS

Difere das línguas como evidência do batismo com o Espírito Santo. Não é um dom dado a todos os que quiserem. Assim como os outros dons, é dado “a cada um” como o Espírito quer (cf. 1 Co 12.11,30). Também não é uma capacidade aprendida humanamente. Diz Carlson: “Falar em línguas é expressar-se com palavras que nunca aprendemos, mas que nos são comunicadas diretamente pelo Espírito Santo. Não se manifesta através de palavras pensadas de antemão ou vocalizadas pela pessoa que fala”... “As línguas constituem um milagre vocal e não um milagre mental. A mente se faz espectadora, e os ouvidos a atendem...”.7

2.1. A FINALIDADE DO DOM DE VARIEDADE DE LÍNGUAS

Com base na Palavra de Deus, podemos dizer que o dom de variedade de línguas tem finalidades múltiplas:

1) Edificação da igreja

Como vimos, os dons não são dados para promoção pessoal de quem os possui. Todas as manifestações espirituais, concedidas pelo Espírito Santo, são para a edificação no seio da igreja cristã. Paulo diz que todos os dons devem contribuir para a edificação da igreja: “Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação” (1 Co 14.26). Essa exortação tem caráter atualizadíssimo para os dias presentes.

Desse modo, uma finalidade fundamental do dom de variedade de línguas é “transmitir à Igreja uma mensagem em línguas, e, por isso, precisa de interpretação para que aquela seja edificada. Essa interpretação é feita pelo dom de interpretação de línguas”.8 Trata-se de um milagre, pois quem fala as línguas bem como quem as interpreta não as conhece. “Trata-se de uma língua verdadeira, seja de homens ou de anjos (cf. 1 Co 13.1), conforme o Espírito Santo concede que se fale (cf. At 2.4)”.9

2) Edificação pessoal

A variedade de línguas pode ser útil para a edificação pessoal. Paulo ensina sobre isso de maneira bem clara: “O que fala língua estranha edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja” (1 Co 14.4). No caso de o crente falar línguas, para sua edificação pessoal, não há necessidade de interpretação. “Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja e fale consigo mesmo e com Deus” (1 Co 14.28). Ê um dom valioso para a edificação pessoal. O crente, cheio do Espírito Santo e edificado por Deus, pode ser usado nas reuniões para a edificação da igreja, através do dom de interpretação de línguas.

Daí, a necessidade da busca pelo dom de interpretação: “Assim, também vós, como desejais dons espirituais, procurai sobejar neles, para a edificação da igreja. Pelo que, o que fala língua estranha, ore para que a possa interpretar” (1 Co 14.12,13). Dessa forma, fica bem claro que o dom de variedade de línguas pode servir para a edificação da igreja, desde que haja interpretação sobrenatural, concedida pelo Espírito Santo.

3) Glorificação a Deus

O livro de Atos dos Apóstolos registra o episódio da ida de Paulo à casa do centurião Cornélio, por revelação do Espírito Santo (cf. At 10.3-8; 18-20). Os judeus tradicionais que se encontravam ali ficaram maravilhados, pois ouviam as pessoas falando línguas estranhas em adoração a Deus.

Na descida do Espírito Santo, no Dia de Pentecostes, as pessoas de diversas nações, ali presentes, ouviam os apóstolos, após o batismo com o Espírito Santo, “falar das grandezas de Deus” (At 2.11). Nada mais natural, essa finalidade, pois Jesus disse que enviaria o Espírito Santo com a missão de anunciar a Cristo, e glorificar ao Senhor: “Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar” (Jo 16.14). Se um dom não glorifica a Cristo, em sua manifestação, não deve ser considerado proveniente do Espírito Santo.

4) Comunicação sobrenatural da parte de Deus

Gordon Chown relata o caso, ocorrido em 1906, de uma jovem suíça, da área de fala alemã, chamada Maria Gerber, que foi para os Estados Unidos, para estudar num Instituto Bíblico. Seu irmão foi esperá-la, no porto, e, de imediato convidou-a para ir orar por um amigo doente. Ela se recusou de pronto, dizendo que não faria nada no país, antes de aprender a falar inglês. O irmão deixou-a em casa, e foi fazer a visita sozinho. Mas o Espírito de Deus inquietou a jovem Maria, fazen- do-a sentir que não consultara a vontade de Deus.10

Ela de imediato, saiu pelas ruas, com o endereço que fora dado pelo irmão, e, sem saber uma palavra em inglês, perguntava aos guardas como chegar lá. Foi muito difícil, mas conseguiu chegar à casa do do ente, onde seu irmão já estava. E começou a orar em alemão pelo enfermo para que Jesus o curasse. Porém, o sobrenatural aconteceu. Ela foi tomada pelo Espírito Santo, e começou a orar em inglês perfeito, e o doente foi curado de imediato. Não só isso, mas Maria recebeu o dom de variedade de línguas, e passou a falar inglês fluentemente, realizando seus estudos sem dificuldades, e orando pelos que precisavam de sua ajuda.

Dizer que esse dom foi apenas para a época dos apóstolos é sem dúvida um preconceito contra o próprio poder ilimitado do Espírito Santo.

5) Sinal para os descrentes

Praticamente, todo o capítulo 14 da primeira carta de Paulo aos coríntios se refere ao uso dos dons, nas reuniões da igreja local. Ali, ele orienta quanto à ordem e aos cuidados no uso dos dons. Com relação ao dom de línguas, ou variedade de línguas, ele diz que o falar línguas, na congregação, deve ser acompanhado da interpretação de línguas para que a igreja possa ser edificada (1 Co 14.13-17). As línguas servem para edificação da igreja, desde que sejam interpretadas para toda a congregação. E também servem de “sinal” para os não crentes, da mesma forma, se houver interpretação profética.

2.2. EQUÍVOCO QUANTO AO BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO E O DOM DE LÍNGUAS

Intérpretes da linha “cessacionista” entendem que, assim como o batismo com o Espírito Santo, com sinais de línguas estranhas, foi apenas para o período apostólico, os dons espirituais também perderam sua necessidade e valor para os dias presentes. Jean Jacques Dubois" afirma que a crença no batismo com o Espírito Santo, como “uma segunda bênção”, distinta da salvação, é “confusão doutrinária” e “obra do Diabo”. Para ele, a confusão se dá pelo desconhecimento das expressões “batizados no Espírito Santo” e “cheios do Espírito Santo”.

Esse autor diz que “nenhum versículo da Escritura exorta o cristão a ser ‘batizado com o Espírito’, o que seria um contrassenso!”. Ele incorre no erro de muitos intérpretes da Bíblia que fazem eisegese, ao invés de exegese. No primeiro caso, procura-se adaptar o texto bíblico ao que se quer a partir de ideias preconcebidas e cristalizadas como doutrina. No segundo, o que é correto, procura-se extrair do texto bíblico o que de fato o escritor queria dizer ao escrevê-lo. Isso se faz através da Hermenêutica cristã, que nos ajuda a interpretar a Bíblia de modo correto. O autor cessassionista diz que nenhuma exortação existe para que se busque o batismo com o Espírito Santo.

Mas o que Jesus disse aos discípulos? Que eles seriam batizados com o Espírito Santo (At 1.4,5). E acrescentou, respondendo a uma pergunta dos discípulos sobre a restauração de Israel: “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1.8).

O referido autor não dá o menor valor aos escritos do livro de Atos dos Apóstolos. Ele critica os pentecostais dizendo: “E impressionante ver que a argumentação dos escritores pentecostais se apoia em grande parte no livro de Atos e em modalidades de experiências de indivíduos ou de grupos de indivíduos'. Para ele, o fundamento dos escritores pentecostais “é tirado de um livro que contém mais história que um ensino” (grifo nosso).12 Esquece o autor crítico que esses “indivíduos” e “grupos de indivíduos”, que são exemplos claros de batismo com o Espírito Santo, com línguas estranhas, não são “indivíduos” quaisquer. Seus exemplos, da experiência pentecostal, são fundamento para a doutrina do batismo com o Espírito Santo.

A partir dessa visão limitada e distorcida sobre o batismo com o Espírito Santo, Dubois rechaça a atualidade dos dons espirituais. Para ele, a igreja do século XX e do século atual não precisam mais das manifestações do Espírito Santo, através dos nove dons de 1 Coríntios 12. Ele passa de largo na questão dos dons espirituais. Em todas as páginas de seu livro, apenas se refere aos dons, e assim mesmo, enfatizando os aspectos negativos, ocorridos na igreja dos coríntios, onde havia “desordem e divisão”. Ele considera os dons como “experiências especiais” apenas para os apóstolos, visto que esses não tiveram sucessores, pois viveram num “tempo de transição”. Mas não fundamenta sua interpretação crítica em qualquer dos versículos do Novo Testamento. Segue os ensinos dos teólogos cessacionistas, que ignoram o valor e a atualidade dos espirituais.

III - INTERPRETAÇÃO DE LÍNGUAS (1 CO 12.10)

Já vimos que o dom de línguas propicia mensagens de edificação para quem o possui e que, para a edificação da igreja, necessita de interpretação. E isso é possível, através do dom de interpretação de línguas. Essa concomitância, entre os dois dons não havia no Antigo Testamento.

1. O QUE É O DOM DE INTERPRETAÇÃO DE LÍNGUAS

O pastor Antônio Gilberto ensina que “É um dom de manifestação de mensagem verbal, sobrenatural, pelo Espírito Santo. Não se trata de “tradução de línguas”, mas de “interpretação de línguas”.13 O dom de línguas prescinde do dom de interpretação de línguas, para que seja útil para a edificação da igreja. Paulo deu precioso ensino à igreja de Corinto sobre o uso dos dons. Ao que parece, o dom de línguas era muito usado, mas sem o necessário equilíbrio espiritual e emocional.

Esse dom deve andar lado a lado com o dom de línguas, no seio da igreja cristã. São “dons geminados”. Gordon Chown diz que “A interpretação é tão milagrosa quanto a própria Língua — e isto quer dizer que quem possui o Dom de Línguas não vai procurar decifrá-la com a mente, mas sim, pede e recebe a Interpretação da mesma fonte divina de onde surgiu a Língua”.14 Isso não quer dizer que o dom de interpretação de línguas é outro tipo de dom de profecia.

A profecia é autossuficiente em sua ação para quem a ouve. O dom de interpretação de línguas depende da mensagem em línguas, para que tenha eficácia. 

2. FINALIDADE DO DOM DE INTERPRETAÇÃO DE LÍNGUAS

Como é óbvio o que o nome diz, a finalidade principal é a interpretação da mensagem, transmitida à igreja, através do dom de línguas. No culto pentecostal, deve haver sabedoria e humildade no uso dos dons. Não é comum haver quem tenha os nove tipos de dons. Normalmente, o Espírito distribui “a cada um como quer”. Quanto mais dons houver numa igreja local, maior será sua edificação espiritual. A Palavra de Deus é a fonte primária e mais importante para a edificação do crente. Mas, como vimos, os demais dons também contribuem para a edificação da igreja.

Conclusão

Os dons de elocução têm grande efeito na transmissão da mensagem da parte de Deus para os crentes nas igrejas locais. Paulo diz que os dons devem ser procurados, pois ele sabia o valor das manifestações espirituais para a vida dos crentes de sua época. Ainda que haja pessoas, em diversas igrejas, que não aceitam a atualidade do batismo com o Espírito Santo e dos dons espirituais, graças a Deus, a realidade dos dons, nas igrejas cristãs que aceitam o Pentecostes hoje, têm sido beneficiadas pela presença do poder do Espírito Santo em seu meio. Historicamente, são as que mais crescem, numericamente, em graça e unção de Deus. Oremos para que o avivamento não se apague, no meio das igrejas cristãs, até a Volta de Jesus.

1 VINE, W. E. et al. Dicionário Vine, p. 248.
2 Ibid., p. 902.
3 CARLSON, G. Raymond. Dinâmica espiritual, p. 133.
4 CHOWN, Gordon. Os dons do Espírito Santo, p. 90.
5 SHERRIL, John L. Eles falam em outras línguas, p. 117-118.
6 A mansão inacabada, deTopeka, foi apelidada de “A Tolice de Stone”, pelo fato de seu dono não ter conseguido concluí-la. Depois, a construção foi vendida, e Seymour teve que alugar outro local, à Rua Azuza, 312, Los Angeles. 
7 CARSON, G. Raymond. Dinâmica espiritual, p. 131.
8 BERGSTÉN, Eurico. Teologia sistemática, p. 114.
10 CHOWN, Gordon. Os dons do Espírito Santo, p. 79.
11 DUBOIS, Jean-Jacques. Espírito Santo: batismo e plenitude, p. 01.
12 Ibid., p.12.
13 GILBERTO, Antônio. Pneumatologia - A doutrina do Espírito Santo, Teologia Sistemática Pentecostal, p. 198,199.
14 CHOWN, Gordon. Os dons do Espírito Santo, p. 81.

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