sábado, 26 de abril de 2014

Os dons espirituais à luz das Escrituras (2)

Como afirmei no artigo anterior, há diferença entre os dons do Espírito como manifestações esporádicas e os dons ministeriais. Estes não dependem, necessariamente, do batismo com o Espírito. As ministrações momentâneas e sobrenaturais do Espírito para a edificação da igreja só vêm sobre quem já recebeu o revestimento de poder, o batismo com o Espírito (At 2.1-4; 10.44-47; 19.1-6, etc.). 

Apolo era um pregador — ele tinha o ministério, o dom ministerial, de pregador da Palavra, assim como Paulo (1 Tm 2.7) —, porém não era batizado com o Espírito, ao contrário do mencionado apóstolo (cf. At 18.24-19.6). Há vários ministros, pertencentes a denominações evangélicas não-pentecostais, que, à semelhança de Apolo, foram chamados por Deus, desempenham um ministério, a despeito de não conhecerem o batismo com o Espírito Santo.

Os dons espirituais como manifestações momentâneas, esporádicas, objeto deste artigo, estão à disposição de todos os salvos batizados com o Espírito. Entretanto, tais manifestações ou ministrações do Espírito não devem ser confundidas com o fruto do Espírito. Na verdade, os dons e o fruto se completam. 

Neste segundo artigo da série sobre os dons espirituais, conheceremos as principais diferenças entre as aludidas ministrações espirituais momentâneas e o fruto do Espírito Santo no que tange a: quantidade, forma de recebimento, origem, forma de manifestação, duração, momento do recebimento, qualidade, finalidade e importância. 

1. Quanto à quantidade. Os dons são muitos, e não apenas nove, como muitos pensam. Segundo a Bíblia, há diversidade de dons, ministérios e operações (1 Co 12.6-11,28; etc.). O fruto do Espírito também não deve ser quantificado. Quem afirma que são apenas nove os elementos formadores do fruto toma como base apenas Gálatas 5.22. Mas há várias outras passagens que tratam dessa doutrina paracletológica (Ef 5.9; Cl 3; 1 Pe 5.5; 2 Pe 1.5-9, etc.). 

2. Quanto à forma de recebimento. Os dons são repartidos para a igreja, coletivamente, para edificação dela. O fruto do Espírito — que não deve ser reduzido a uma lista de virtudes, haja vista tratar-se do Espírito Santo agindo na vida do crente, a fim de mudar o seu interior, o seu caráter — é produzido na vida de cada servo do Senhor que dá lugar ao Consolador. 

3. Quanto à origem. Os dons espirituais vêm do alto sobre a igreja. O fruto tem origem no interior de cada crente espiritual. 

4. Quanto à forma de manifestação. Os dons vêm sobre os crentes, conferindo-lhes unção poderosa (capacitação) para pensar, interpretar, discernir, pregar, orar, ajudar, etc. O fruto manifesta-se em cada crente de dentro para fora, através de virtudes como amor, alegria, paz, humildade, etc. 

5. Quanto à duração. Os dons como manifestações — e não como ministérios, repito — são momentâneos. O fruto permanece na vida do crente. Mas precisa amadurecer a cada dia. 

6. Quanto ao momento do recebimento. Os dons espirituais manifestam-se na vida dos servos do Senhor a partir do batismo com o Espírito Santo, como vemos em Atos caps. 2, 10 e 19, especialmente. “O batismo é também um meio para a outorga por Deus dos dons espirituais — 'falavam línguas e profetizavam'” (GILBERTO, Antonio. Verdades Pentecostais, CPAD, p.64). Já o fruto manifesta-se no crente a partir da sua conversão (Ef 1.13,14). O fruto, portanto, como já disse, é o Espírito Santo agindo na vida do crente, a partir do primeiro momento de sua salvação, para moldar o seu caráter (Gl 5.22; 2 Pe 1.5-9, etc.). 

7. Quanto à qualidade. Os dons espirituais são perfeitos, embora muitas pessoas façam mau uso deles. Já o fruto precisa amadurecer. Este amadurecimento do fruto produzido no crente pelo Espírito ocorre gradativamente, de acordo com a disposição do coração do salvo. Trata-se do aperfeiçoamento espiritual (2 Tm 3.16,17; Ef 4.11-15). 

8. Quanto à finalidade. Os dons são manifestações para edificação da igreja. O fruto do Espírito tem como finalidade o desenvolvimento do caráter de cada crente. A igreja de Corinto era pentecostal (1 Co 1.7; caps. 12-14). Todos os dons, ministérios e operações divinos tinham lugar ali (1 Co 12.4-6). Contudo, ela estava envolvida em diversos problemas (1 Co 1.10; 6.1-11; 11.18), pecados morais graves (1 Co 5), além da desordem no culto (1 Co 11.17-19). 

Os coríntios eram imaturos e carnais (1 Co 3.1-4).Se dermos ênfase apenas aos dons como manifestações esporádicas, em detrimento do fruto do Espírito, males ocorrerão na igreja, como: dissensão, carnalidade, egoísmo, desordem e indecência. O partidarismo na igreja de Corinto decorria da falta de amadurecimento do fruto do Espírito (1 Co 11.18; 1.10-13; 3.4-6). O termo “dissensões” (1 Co 1.10; 11.17) descreve a destruição da unidade cristã por meio da carnalidade. Em vez de gratidão a Deus, para promover a comunhão e “guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Ef 4.3), os coríntios se reuniam para o culto com espírito faccioso.

9. Quanto à importância. Em Corinto, havia muita carnalidade porque os crentes daquela igreja não priorizavam o fruto do Espírito (1 Co 3.1-3). Havia membros daquela igreja controlados pelo Espírito Santo (1 Co 1.4-9; Rm 8.14), mas muitos eram carnais (1 Co 13.1). Carnal é o crente cuja vida não é regida pelo Espírito (Rm 8.5-8); que tem muita dificuldade de entender os assuntos espirituais (1 Co 2.14); que vive em contendas, etc. Por não cultivarem o fruto do Espírito, os coríntios eram egoístas (1 Co 11.21). 

Na liturgia da igreja primitiva era comum a Ceia do Senhor ser precedida por um evento festivo denominado agápe (e não ágape) ou “festa do amor” (2 Pe 2.13; Jd v.12). No entanto, alguns crentes, em vez de fortalecerem o amor e a unidade cristã antes da Ceia do Senhor, embriagavam-se. Segundo a Bíblia, todos os crentes (batizados com o Espírito, é evidente) podem, no culto, falar em línguas ou profetizar (1 Co 14.5ss). Mas ela também nos ensina a exercer esses dons com sabedoria, ordem e decência (1 Co 14.26-33,37-40), a fim de que: o nome do Senhor seja glorificado (1 Co 14.25); o incrédulo convencido de seus pecados (1 Co 14.22-25); e a igreja edificada (1 Co 14.26). 

É imprescindível o casamento entre o fruto do Espírito e os dons espirituais. Afinal, o espírito do profeta deve estar sujeito ao profeta. Em outras palavras, o crente controlado pelo Espírito é usado por Deus, mas tem equilíbrio, domínio próprio e discernimento. O fruto do Espírito amadurecido na vida do crente impede-o de abraçar aberrações pseudopentecostais como “cai-cai”, “unção do riso”, etc. 

Ciro Sanches Zibordi
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