terça-feira, 17 de junho de 2014

Lição 1 – Tiago — Fé que se Mostra pelas Obras

Alexandre Coelho - Introdução - A Carta de Tiago é a primeira do grupo de epistolas consideradas como escritos gerais. Tais epístolas recebem essa designação por não serem endereçadas especificamente a qualquer grupo que possa ser identificado de imediato. Outra denominação dada a este grupo de escritos é “escritos católicos”, por serem cartas gerais. Essa designação nada tem a ver com o nome da Igreja Católica Apostólica Romana.

Autor

Comecemos nosso breve estudo pela questão da autoria desta Carta. O nome Tiago não era incomum nos dias de Jesus, e no Novo Testamento ocorrem ao menos quatro citações a pessoas que tinham esse nome:

• Tiago, pai de Judas (Lc 6.16);
• Tiago, filho de Zebedeu e irmão de João;
• Tiago, filho de Alfeu. Há estudiosos que o identificam como Tiago, o pequeno, filho de Maria (Mc 15.40).

Tiago, irmão do Senhor. Esta tem sido a teoria mais corrente em relação à autoria desta Carta. Paulo o destaca como apóstolo (G1 1.19), um homem que era considerado um dos pilares da igreja.

D. A. Carson aborda dessa forma a pluralidade de candidatos à autoria:

Destes quatro [Carson cita Tiago, filho de Zebedeu e irmão de João, Tiago filho de Alfeu, Tiago o menor e Tiago, irmão do Senhor], o último é de longe o mais óbvio candidato à autoria desta carta. Tiago, o pai de Judas é por demais obscuro para ser seriamente considerado; o mesmo vale, num grau menor, para Tiago, o filho de Alfeu. Por outro lado, Tiago, o filho de Zebedeu, tem um papel de destaque entre os Doze, mas a data de seu martírio — 44 d.C. (Veja At 12.2) — é provavelmente muito cedo para que o liguemos à carta. Resta, então, Tiago, o irmão do Senhor, que certamente é o Tiago mais proeminente na Igreja Primitiva.1

Há ainda estudiosos que entendem que essa carta é de autoria anônima. Sobre esse assunto, Carson comenta:

Poucos estudiosos têm atribuído a carta a um Tiago desconhecido. Mas embora isso seja possível e não conflite em nenhum aspecto com nada existente na própria carta, a simplicidade da identificação do autor indica um indivíduo bem conhecido — e uma pessoa tão bem conhecida seria provavelmente mencionada no Novo Testamento.

Depois de brevemente apresentadas as teorias, a Igreja Cristã tem tido em Tiago, o irmão de Jesus e bispo em Jerusalém, o autor dessa carta que atravessou os séculos e até hoje fala com toda a igreja.

Data
A carta de Tiago já recebeu diversas propostas de datação. Esta tem sido determinada por alguns especialistas como tendo sido escrita em 45 ou 62 d.C. Os argumentos orbitam da seguinte forma para se deduzir que foi escrita em um desses períodos.

Conforme Josefo, o martírio de Tiago ocorreu em 62 d.C, portanto, ele teve de escrever antes desse período sua carta. A epístola não faz menção sobre a controvérsia de judeus e cristãos entre os anos 50 e 60. Como relata o livro de Atos, Tiago foi o chamado “moderador” do Concílio de Jerusalém, evento que
provavelmente teria sido realizado o ano 50 d.C. e que discutiu a chegada de gentios no seio da igreja cristã. E há estudiosos que entendem que como a Carta de Tiago não cita o apóstolo Paulo, é provável que Tiago escreveu sua Carta antes de Paulo ter sido considerado um obreiro de destaque.

Destinatários

O autor da carta indica que seus destinatários são as “12 tribos que estão dispersas”. Como os judeus foram os primeiros convertidos à fé cristã, principalmente porque o evangelho de Jesus foi primeiramente pregado a eles, e a Igreja Primitiva teve sua origem em Jerusalém, não é difícil entender que esse escrito teria sido inicialmente para eles, mas isso não exclui a possibilidade de os gentios estarem sendo posteriormente incluídos nos sermões dessa epístola.

Timothy B. Cargal diz que

Essa referência é claramente simbólica, se considerarmos que a estrutura tribal de Israel havia cessado de ser um conjunto literal de doze tribos desde pelo menos a conquista da Assíria do Reino do Norte em 722 a. C. A questão que se apresenta, então, é: até que ponto Tiago estende aos seus leitores os elementos metafóricos de sua designação?

A interpretação mais “literal” da saudação é que cópias dessa carta foram enviadas aos judeus (às “doze tribos”) que estavam vivendo fora da Palestina (“dispersos entre os gregos”; cf Jo 7.35). No entanto, levando em conta que a carta obviamente não representa um tratado evangelístico destinado a converter os judeus ao cristianismo, esse entendimento pode ser rapidamente excluído.

Os destinatários são apresentados como já possuindo a fé em Jesus Cristo (2.1) e, sendo assim, a linguagem a respeito das “doze tribos” é geralmente aceita como simbolizando a crença de que cristãos são agora o povo de Deus, e formam o novo Israel ou Israel espiritual.2

Partindo dessa orientação, podemos entender que os destinatários não eram apenas judeus, mas igualmente gentios que se tinham chegado à fé em Jesus Cristo e agora fariam parte da igreja cristã.

Local

Jerusalém tem sido considerada o local da confecção desta carta, apesar de ela mesma não trazer qualquer indicação de que tenha sido escrita lá. A base para essa teoria está mais vinculada à tradição da igreja. Pelo fato de essa carta ter circulado primeiramente na Palestina, como registram alguns pais da igreja como Orígenes, acredita-se que Jerusalém foi de fato a localidade de origem dessa epístola.

Acerca da Canonicidade da Carta de Tiago

Robert H. Gundry comenta que

A epístola de Tiago encontrou algumas dificuldades para adquirir lugar no cânon do Novo Testamento. Diversos fatores ajudam-nos a explicar a hesitação da Igreja Primitiva quanto a isso: (1) a brevidade da epístola, sua natureza proeminentemente prática e não doutrinária, e a limitação do seu endereço a cristãos judeus — tudo o que, sem dúvida, retardou uma mais ampla circulação da mesma; (2) o fato que Tiago não fora um dos doze apóstolos originais; e (3) a incerteza a respeito da identidade de Tiago...”3

Erich Mauerhofer diz que “Eusébio cita Tiago entre as cartas ainda não aceitas universalmente, mas que não deixaram de ser lidas pubicamente e são consideradas canônicas em grande número de igrejas”.4 Esse mesmo escritor diz que Cirilo de Jerusalém considera Tiago entre os escritores cujas cartas católicas pertencem ao cânon do Novo Testamento, e Jerônimo disse que “Tiago, chamado irmão do Senhor, com o cognome Justo [...] escreveu somente uma carta que se encontra entre as sete cartas católicas. Foi publicada e acrescentada sob o nome dele, ainda que tenha alcançado (sua) autoridade (somente) aos poucos com o passar do tempo”.5

Lutero se posicionou contrário a essa carta, especialmente quando escreveu o prefácio de sua tradução do Novo Testamento em 1522:

O evangelho de João e sua primeira epístola, as epístolas de Paulo, especialmente Romanos, Gálatas e Efésios, e a primeira epístola de Pedro são livros que te mostram Cristo e te ensinam tudo o que é necessário e salvífico conhecer, ainda que jamais vejas ou escutes outro livro ou doutrina. Por isso, a epístola de Tiago, comparada com eles, é realmente uma epístola de palha, já que não há nenhuma característica evangélica nela.

De acordo com Werner Fuchs, “Na segunda edição, Lutero retirou a expressão epístola de palha (refugo). Sua conceituação de Tiago transparece melhor no prefácio à própria carta, também em 1522:

Mesmo que tenha sido rejeitada pelos antigos, eu louvo esta epístola e a considero boa, pelo fato dela não propor doutrina humana, e por promover duramente a lei de Deus. Para dar minha opinião, porém, sem prejuízo de ninguém, considero-a não escrita por apóstolo. Primeiro porque, contrariamente a Paulo e toda a Escritura, ela dá justiça às obras [...] Segundo, porque ao querer ensinar a cristãos, não lembra em sua longa doutrina o sofrimento, a ressurreição, o Espírito de Cristo [...] Tiago não faz outra coisa do que instar para a lei e suas obras, misturando tão confusamente uma coisa na outra que imagino que tenha sido algum homem bom e piedoso que captou alguns ditos de discípulos dos apóstolos e assim os lançou sobre o papel [...] Designa a lei como lei da liberdade (1.25), sendo que Paulo a chama de lei da servidão, da ira, da morte e do pecado (G1 3.23s e Rm 7.11,23) [...] Em suma, ele quis combater os que confiavam na fé sem obras, e foi fraco demais. Quer alcançá-lo pela promoção da lei, quando os apóstolos o conseguem atraindo para o amor. Por isso eu não posso colocá-lo entre os livros principais, mas com isso não quero impedir ninguém a fazê-lo, e a destacá-lo como lhe apetece, pois no mais contém muitas boas afirmações.6

Por esses escritos, percebemos que Lutero reconsiderou seu pensamento sobre a Carta de Tiago, e corroborou seus ensinos, ainda que com certa reserva por causa dos temas abordados.

Propósitos

Já foi dito que a “...epístola de Tiago é a menos doutrinária e mais prática de todos os livros do Novo Testamento”.7 É um verdadeiro manual de conduta cristã, o que não diminui em nada o seu valor diante dos textos considerados mais teológicos. Isso deve deter nossa atenção de forma peculiar. Não raro, somos frontados não por nosso pensamento teológico, mas pela nossa prática cotidiana. É triste ouvir um comentário acerca de uma pessoa que detém um conhecimento teológico apurado mas cujas práticas não condizem com a teologia que ela ensina ou pesquisa. Pensamento teológico correto é desejável, mas a prática correta dos preceitos bíblicos é mais importante. Um pensamento teológico estéril será manifesto em uma vida estéril de boas obras.

A atualidade da Carta de Tiago

A Carta de Tiago é uma obra para os nossos dias. Se observarmos as ênfases que o escritor dá em seus breves sermões, perceberemos que a Igreja do século XXI se encaixa devidamente como leitora e destinatária, da mesma forma que a igreja do século I.

Obras e salvação. Esse assunto dividiu em diversos momentos o pensamento teológico cristão. Lutero chamou a Carta de Tiago de Carta de Palha, e questionou sua validade no Cânon por entender que Tiago dá mais ênfase às obras do que à salvação pela fé. O reformador — que viveu em uma cultura em que as obras eram tidas pela igreja romana como uma forma de se chegar ao céu, sem a necessidade da fé em Jesus Cristo — tinha em mente o apreço ao que o apóstolo Paulo falava sobre a salvação pela fé. Entretanto, precisamos saber que Paulo e Tiago tratam desses dois temas para públicos diferentes e situações diferentes. Em Paulo, as obras não justificam as pessoas, pois elas são insuficientes para a salvação. Parada, pois os sinais dela estão cada dia mais visíveis. Entretanto, há pessoas que mesmo na congregação estão como adormecidas em relação ao retorno do Senhor, esquecendo-se desse evento prometido nas Escrituras. Vivem como se Jesus demorasse a voltar, e há aqueles que duvidam que um dia o Senhor Jesus retorne. Entre a indiferença e a incredulidade, devemos ter esperança. Tiago usa o exemplo de um agricultor, que semeia e espera a chuva a seu tempo, e com paciência vê o fruto do seu trabalho. O retorno do Senhor é certo, e devemos estar prontos para que subamos com Ele.

A oração. Tiago completa sua obra falando sobre oração. Ele argumenta que a oração de um justo pode muito em seus efeitos, e nos insta que estejamos no altar do Senhor, buscando-o. Ele fala sobre a oração da fé, pela cura de um enfermo e pelo perdão dos pecados. O maior exemplo que Tiago oferece é o do profeta Elias, um homem que pouco difere de nós, mas que orou e viu o resultado de sua oração na ausência de chuvas em Israel. Tido por herói, Elias foi um exemplo de homem dedicado á oração e à comunhão com Deus, e esse mesmo exemplo pode ser seguido pelos crentes em nossos dias. Claro que não vamos orar pedindo que não chova em nosso país, mas precisamos ter em mente que nossas orações são ouvidas por Deus, e que apesar de nossa pequenez, temos um Deus que tem prazer em nos ouvir.

A Teologia na Carta de Tiago

Já foi dito que a Carta de Tiago não é teológica. Na verdade, a teologia de Tiago é muito mais voltada à pática do que à contemplação. A preocupação dele é demonstrada nas muitas recomendações a que a fé cristã seja manifesta por meio de atitudes.

Sobre esse tema, Buist M. Fanning comenta que

A epístola de Tiago é conhecida e amada por suas exortações penetrantes a respeito da vida prática cristã. Geralmente não é lembrada por sua teologia. Na verdade, um comentarista proeminente afirma que a epístola de Tiago “não tem teologia”. De fato, Tiago não enfatiza temas teológicos como fazem outros escritores bíblicos. Por exemplo, a epístola não faz menção explícita à encarnação, à cruz nem à ressurreição de Jesus. Talvez não haja menção ao Espírito Santo (debate-se Tg 4.5), muito pouca menção à nova vida em Cristo e à doutrina clara da igreja e muito pouca ao plano da salvação de Deus operado na história.

O que Tiago fornece é exortação evidente, e deve-se esperar isso à luz do propósito indicado por ele em sua epístola para escrevê-la. Ele não escreve com a finalidade de corrigir problemas doutrinários, mas para incentivar os cristãos a agir de acordo com

o que acreditam, a serem “cumpridores da palavra e não somente ouvintes” (1.22). Embora Tiago enfatize a vida prática cristã, ele revela seus fundamentos teológicos e contribui com percepções distintas para a teologia cristã.

Este é o panorama da Epístola de Tiago. Nos próximos capítulos abordaremos outros assuntos dessa carta tão atual e necessária para a igreja cristã

Bibliografia utilizada neste capítulo:

Manual da Bíblia de Aplicação Pessoal. CPAD Vincent — Estudo no Vocabulário Grego do Novo Testamento. CPAD
Mathew Henry — Comentário Bíblico do Novo Testamento. Atos a Apocalipse. CPAD
Comentário Bíblico Beacon — Volume 10. CPAD Comentário Bíblico pentecostal do Novo Testamento — Volume 2. CPAD
Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. CPAD Teologia do Novo Testamento. Roy B Zuck. CPAD
Dicionário Vine. CPAD Dicionário Bíblico Wyclijfe. CPAD.
O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Russel Norman Champlin. Milenium.
Uma Introdução aos Escritos do Novo Testamento. Erick Mauerhofer, Editora Vida.
Estudos no Cristianismo não Paulino. F F Bruce. Shedd Publicações.
Homens com uma Mensagem. John Stott. Cultura Cristã Introdução ao Novo Testamento. D. A. Carson, Douglas J. Moo e Leon Morris. Vida Nova.
O Novo Testamento, sua Origem e Análise. Merril C. Tenney. Vida Nova. Panorama do Novo Testamento. Robert H. Gundry. Vida Nova.
http://www.luteranos.com.br/conteudo/tiago-l-12-18, acessado no dia 27/04/2014.
7 GUNDRY, Robert H., Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, p. 384.
3 GUNDRY, Robeit H., Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, p. 385.
4 MAUERHOFER, Erick., Uma Introdução aos Escritos do Novo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2010, p. 508.
5 MAUERHOFER, Ibidem p. 509.
2 CARGAL, Timothy B., Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, p. 854.
1 CARSON, D. A., Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2002, p.455
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