sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

PRA QUEM DESEJA SERVIR A DEUS

As Escrituras se utiliza de múltiplas figuras e imagens para descrever o cristão. Entre as principais metáforas, a de servo é, sem dúvida, a que mais nos desafia, nos confronta, nos põe contra a parede. Em diferentes passagens do texto bíblico os filhos de Deus são chamados de “servos”. Eis alguns exemplos:



Jó 1:8: “Disse então o Senhor a Satanás: “Reparou em meu servo Jó? Não há ninguém na terra como ele, irrepreensível, íntegro, homem que teme a Deus e evita o mal”.
Números 14:23-24: Não verão a terra de que jureis a seus pais, e nenhum daqueles que provocaram a verá. Porém o meu servo Calebe... Eu o levarei à terra em que entrou, e a sua descendência a possuirá em herança”.
Malaquias 4:4: “Lembrem-se da lei do meu servo Moisés, dos decretos e das ordenanças que lhe dei em Horebe para todo o povo de Israel”
Romanos 1:1: “Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo, escolhido para o evangelho”.(Grifo meu)

Jó, Calebe, Moisés, Paulo e tantos outros se apresentaram como “servos de Deus”. Quando retrocedemos a história podemos nos emocionar com o testemunho eloqüente de homens e mulheres cujas vidas se identificaram como autênticos e legítimos servos de Deus. Homens do tipo de Francisco de Assis, Adoniran Judson, Jonh Wesley, Charles Finney, Martin Luther King Junior; Mulheres com a fibra de Madre Tereza de Calcutá, Tereza D’Ávila, Suzana Wesley, para citar alguns.

No entanto, essa idéia de servos não soa muito bem aos nossos ouvidos. Nosso orgulho, vaidade, sentimento de grandeza, nosso egoísmo não se agrada com a idéia de sermos servos. No entanto, é preciso lembrar que a Igreja de Cristo não é um clube de “senhores” e “senhoras”, mas uma comunidade de servos e servas. Somos, ou pelo menos deveríamos ser, a comunidade do lava pés.

Assumimos desde já, portanto, que nem todos os que se dizem e alardeiam serem servos, de fato, o são. Não estou com isso fazendo um pré-julgamento e nem um pré-conceito de indivíduos em particular. Essa é uma verdade evangélica anunciada por Jesus: “nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrarás no Reino dos céus”. Em outras palavras, a identidade do servo não é percebida pelo seu discurso, pela sua confissão teológica, pelo seu credo religioso, mas no seu modus vivend, que deve estar intrinsecamente relacionado com a oração de Maria: “Sou serva do Senhor; que aconteça comigo conforme a tua palavra” (Lc. 1:38).

Minha reflexão parte do pressuposto de que o que define o servo não é o fato de ele se dizer cristão ou evangélico, nem tampouco pelo fato de ser membro freqüente de uma igreja evangélica, usar um linguajar ou jargão evangélico,nem mesmo o fato de ler a Bíblia regularmente e realizar seu devocional diário. Não creio que isso seja elementos autenticadores do verdadeiro servo de Deus e de uma experiência sincera de Deus. Em face disso, tenho procurado uma nova compreensão e uma nova linguagem para a fé para que possa, responder a mim mesmo o que de fato significa servir a Deus hoje.

Elenquei algumas pistas, algumas balizas que, com reflexão e devoção, pincei das Escrituras para minha jornada cristã. Anseio e espero, sinceramente, que lhe sejam úteis para sua peregrinação espiritual também.

1. Que o serviço não pode substituir ou tomar o lugar do devocional, do relacional. Voltemo-nos com atenção para o texto de Lucas 10:38-42. Ele pinta com cores vivas essa questão. O texto supra narra a cena de duas irmãs - Marta e Maria, ambas eram amigas de Jesus; ambas eram hospedeiras simpáticas, ambas eram amadas por Jesus; ambas eram comprometidas com o Reino de Deus. Contudo, o relacionamento delas com Jesus eram diferentes porque os seus direcionamentos e motivações eram opostos. Ambas tomaram escolhas distintas e opostas:

>Marta escolheu apresentar um bom trabalho, casa limpa e arrumada, comida gostosa, tudo impecável (v.40).

>Maria, por sua vez, escolheu estar diante de Jesus, aprendendo, ouvindo, adorando, festejando, aconselhando-se, expondo seus sentimentos, derramando o seu coração e alma (v.39).

>Marta escolheu o trabalho, o labor, o ativismo, o fazer.

>Maria por sua vez, escolheu, a devoção, o aquietar-se, o apertar o botão da pausa, a intimidade com o Senhor.

>Marta escolheu arregaçar as mangas e pôr a mão na massa.

>Maria não, Maria escolheu curvar os joelhos e desfrutar de momentos salutares com Jesus.

>Marta escolheu estar na cozinha preparando o jantar pra alimentar Jesus.

>Maria escolheu está na sala sendo alimentada por Jesus.

Jesus reconhece a escolha de Maria como sendo a escolha acertada, e diz: “Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada” (v.42).

A atitude de Marta não era errada, desprezível, pecaminosa. Era bem intencionada, mas, no intuito de apresentar serviço, ela perdia a oportunidade preciosa do relacionamento com Jesus. Creio que Marta amava Jesus tanto quanto Maria amava. Apenas inverteu a ordem das prioridades – ela escolheu o serviço em vez da devoção, o bom em vez do excelente, o necessário em vez do imprescindível.

Pergunto: Com quem nos parecemos mais? Com Marta ou com Maria? Respondo: Com as duas. Há momentos em que somos uma verdadeira caricatura de Marta. Outras vezes, uma miniatura de Maria. Existem momentos em que queremos arregaçar as mangas, sungar as calças, e ir á luta, ao trabalho. Queremos apresentar resultados, relatórios bombásticos, agenda cheia, desempenho. Às vezes nos tornamos prisioneiros de um carrasco chamado tempo. Temos que correr, nos apressar. Tornamos-nos escravos do relógio e acabamos por não perceber o essencial.

Às vezes, fico pensando que existem por ai pessoas boas, piedosas, comprometidas com o reino, engajadas com a obra, mas espiritualmente mirradas porque estão concentradas no serviço e não na comunhão. Deus está mais interessado no que somos do que naquilo que fazemos. Quando Jesus constituiu os doze apóstolos, determinou-lhes, prioritariamente, que estivessem com ele; só depois os enviou a pregar (Mc. 3:14,15). Precisamos entender Deus é mais importante do que sua obra e não a sua obra mais importante do que Deus. Precisamos entender que o ativismo não pode tomar lugar do devocional. Do relacionamento. Da comunhão com Deus.

Mas, por favor! Não podemos censurar Marta em detrimento de Maria. O trabalho também é importante e necessário. A casa também precisa está limpa. A comida precisa está pronta e quente. Os móveis precisam está desempoeirados. Venhamos e convenhamos, o trabalho de Marta é importante. A disposição de Marta para o trabalho é louvável e digno de atenção, porque, afinal de contas, alguém precisa pôr em ordem a desordem. E Maria não pode ficar pra sempre aos pés de Jesus.

2. Servir a Deus não é uma prática legalista, mas uma escolha voluntária e livre. Servir a Deus ao contrário do que muitos pensam, não é um mandamento, uma ordem, um imperativo, uma prática compulsória. Deus não coage, obriga, constrange, força ninguém a serví-lo. Ninguém exprime seu carinho e afeto por coação e obrigatoriedade, mas por liberalidade. Uma das grandes facetas do amor de Deus é que Ele nos permite ser livres para amá-lo ou não, serví-lo ou não. Só Deus cria liberdades sem oprimi-las, uma vez que não precisa competir com elas. Deus criou homens e mulheres livres, do contrário, seriamos marionetes nas mãos de um deus manhoso e exigente. Não, Deus não é assim! Ele respeita a nossa liberdade, porque nessa liberdade existe a possibilidade do amor gratuito e voluntário. O poder de Deus é muito diferente dos poderes que conhecemos, pois é o poder do amor. Não nos impõe, não nos macera, não nos apequena, não nos anula, tiraniza, mas respeita a nossa liberdade de escolha, sem interferir em nossa iniciativa.

Portanto, Servir a Deus é uma atitude voluntária e espontânea. Servir a Deus não é uma observância às normas estabelecidas. Não é obediência às clausulas da Lei. É uma escolha. Estes foram os termos legados por Josué, o sucessor de Moisés: “Escolhei, hoje, a quem sirvais” (Js. 24:15).

Quando falamos destas realidades espirituais, somos inclinados a pensar que o que está em questão é, apenas, nossa vida religiosa. As nossas atividades eclesiásticas. No entanto, o senhorio de Cristo cobre toda a extensão de nossa vida. Cristo não deseja ser Senhor somente em algumas dimensões de nossa vida. Cristo deseja ser Senhor não apenas de nossos domingos e dias festivos, mas de todos os dias. Precisamos repensar o conceito de “serviço”. Porque servi a Deus não tem nada a ver com obrigação, dever, encargo, compromisso. Mas, com um coração voluntário, alegre e livre.

3. Só existe uma maneira de servir a Deus verdadeiramente – de todo o coração. É o que lemos em Josué 22:5:“..que o sirvais de todo o vosso coração, e com toda a vossa alma”. Deus não aceita encenação. Ele não se impressiona com nossos gestos, com o encanto e beleza de nossas palavras, com nossas emoções. Deus não se deixar ganhar pela conversa, pelo rito, pelas coreografias estereotipadas. Deus não se engana com a performance e desempenho que exibimos diante da platéia, da massa. Ele sonda o coração e as intenções que lá estão ( 1Sm. 16:7). Diante dele, adesivos com dizeres piegas, tipo: “propriedade exclusiva de Jesus”, “não sou dono do mundo mais sou filho do dono”, “aqui quem manda é Jesus” não significam absolutamente nada para Ele. O que Ele realmente busca é a verdade do íntimo. A inteireza de coração. A sinceridade da alma.

Para Deus, o que vale não é o quanto você serve ou, com quem, mas “COMO”. Ed René Kivitz em seu livro “Vivendo com propósitos”, diz que “a grande charada não é o que você faz, mas sim como você faz o que faz”.[1] A única maneira de servir verdadeiramente a Deus é serví-lo com inteireza de coração.

4. A base e a motivação do nosso serviço para Deus deve ser o nosso amor que devotamos a Ele. Porque servimos a Deus? Qual é a intenção que está por detrás desse serviço? Existe algum interesse como pano de fundo em servir a Deus?

Temos que ser honestos e admitir que nós vivemos num mundo de eficácia e resultados. Geralmente só nos ocupamos com aquilo que vai render-nos algum fruto imediato. Portanto se abraço determinado modelo de espiritualidade, a primeira pergunta que me faço é: que proveito isso terá para minha vida?[2] Isso lamentavelmente acontece também com o discipulado, com a vida cristã. Há uma compensação, uma relação de negócio, uma permuta. Você se torna discípulo e, em compensação, terá um efeito imediato: a cura, a prosperidade, o êxtase ou o consolo.

Essa é uma espiritualidade de resultados. Sirvo a Deus, não por causa de Deus, mas por causa de suas benesses. Jesus repreendeu duramente aqueles que o seguia por causa do pão e não por causa de suas palavras:“Respondeu-lhes Jesus: “Em verdade, em verdade, vos digo: vós me procurais, não porque viste sinais, mas porque comestes dos pães e saciastes” (Jo.6:20).

Atualmente grande interesse das massas que se dirigem diariamente aos templos evangélicos, fundamenta-se na gana em receber alguma graça, alguma benção milagrosa de Deus. Basta vermos as muitas campanhas e encontros que se fazem com as supostas promessas de curas, exorcismos e prosperidade financeira. Transformaram Deus em um objeto de consumo. Foi isso que levou Fiódor Dostoiésvisk a dizer: “O que os homens desejam não é Deus, mas o milagre”.

Servir a Deus com interesse em suas benesses e dádivas reflete, no mínimo, uma espiritualidade doentia e ingênua.Qual deve ser a mola propulsora, a força motriz que nos leva a servir a Deus? Carlos Drummond de Andrade nos responde em seu poema “As sem-razões do amor”. Ele diz assim:

“Eu te amo porque te amo... - sem razões...

Não precisas ser amante, e nem sempre saber sê-lo.

Amor é estado de graça e com amor não se paga.

O amor não é regido pela lógica das trocas comercias.

Nada te devo. Nada me deves.

Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo”. [3]

Inácio de Loyola orava: “Senhor, te servir por nada – e isso para mim é tudo!”. Essa deve ser também a nossa prece.Precisamos compreender que o amor é a máxima de nosso serviço para com Deus. Sem trocas, sem permutas, barganhas, sem interesses. Por amor. Jesus estabeleceu a razão para serviço de Pedro – o amor. “Tu me amas? Apascenta as minhas ovelhas”.

5. Servir a Deus não nos torna imunes às circunstãncias desfavoráveis. Para muitos ser crente e servir a Deus é ter uma apólice de seguro com cobertura total. Para esses, servir a Deus significa, necessariamente, está protegido dentro de uma redoma à prova de dor, lágrimas, vicissitudes e percalços que a vida nos impõe. Às vezes, pensamos que se formos fiés, Deus tem a obrigação de ser o nosso “cão de guarda espiritual”, não permitir que sejamos roubados ou assaltados. Pensamos que se formos crentes fervorosos, Deus não pode de jeito nenhum permitir que alguma virose entre em nosso corpo.

Às vezes, pensamos que por sermos “santos” o mundo vai nos sorrir sempre e que os ventos sempre vão estar ao nosso favor. Nada mais distante da verdade. “Não existem privilégios que nos isentem das lutas e vicissitudes”.[4] O texto de Atos 27 lança luz sobre essa questão. Paulo estava preso em Jerusalém e lá Deus lhe aparece de noite e lhe diz: “...coragem! Pois de modo porque destes testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que o faças em Roma” (At.23:11). Paulo estava servindo a Deus. Era da vontade de Deus que Paulo fosse a Roma. Mas quando Paulo viajava para Roma, ele enfrenta um terrível naufrágio. A viagem sofre toda sorte de danos: ventos contrários (v.4), ventos parados (v.7), tufão (v.14,15), escuridão (v.20), a esperança de livramento morre no coração deles (v.20), toda a carga do navio foi jogada fora (v.18), O próprio navio ficou despedaçado (v.21,41).

Curioso: Paulo não estava servindo a Deus exatamente como Deus havia mandado no lugar que Deus mandou que o servisse? Paulo não estava no campo missionário sob jurisdição de nenhuma junta missionária, mas sob a ordem e jurisdição divina. Paulo Não estava em colônia de férias em um cruzeiro. Paulo estava no labor missionário obedecendo à ordem expressa de Deus. Contudo e a despeito de tudo isso, ele é açoitado por uma tempestade avassaladora. Ser apóstolo; estar próximo de Deus, estar fazendo a vontade de Deus no tempo de Deus, não imunizou Paulo da impetuosidade que do vento e da fúria do mar.

Onde estava Deus então? Esta é a questão das questões. É quando o crente fiel, piedoso e obediente se vê diante do fato de que seu Deus parece inoperante, omisso, indiferente diante da crueldade dos fatos. Essa é uma grande tensão na peregrinação cristã – Deus permitir que a vida se encha de ironia, de choques, de pressões e circunstancias desfavoráveis. Paulo estava vivendo essa tensão.

A cena de Atos 27 tem um correspondente contextual bastante vivido em alguns problemas e situações difíceis que possamos enfrentar. É possível que você esteja à semelhança de Paulo vivendo a mesma tensão: você é fiel a Deus; anda com Deus; obedece a Deus; esta fazendo a vontade de Deus, no lugar que Deus mandou, mas está sendo açoitado por uma infinidade de circunstancias agônicas e de realidades sufocantes que lhe tiram toda a possibilidade de respirar. Talvez essa seja a grande tensão da sua vida. Mas podemos também à semelhança de Paulo, diante das ondas implacáveis que ameaçam a existência, podemos continuar, apesar de tudo, confiar no caráter de Deus. Aí reside que a grandiosidade do Cristianismo – a capacidade de lidar com a dor sem azedar alma.
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