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sábado, 19 de julho de 2014

O cristão, a política e a corrida eleitoral

Após tratar da questão igreja e política do ponto de vista teológico, ainda que de forma superficial, repito mais uma vez, minha intenção nesta última postagem é apresentar alguns critérios a serem levados em conta pelos cristãos que se sentem vocacionados para a vida pública. Embora os princípios bíblicos valham para todas as funções, quero ater-me apenas às de cunho eletivo, isto é, àquelas que dependem do voto, pois este tem sido o ponto de tensão a cada período eleitoral.

Creio que a primeira premissa é a de que se trata de um direito legítimo, como já vimos. Mas a finalidade primeira e última de quem se candidata, por mais óbvia que seja, éservir ao povo e não a si mesmo e nem ao grupo a que pertença. Quem entra para a política pensando noutra coisa já começa errado. Essa é a razão pela qual ela émalvista. São esses que trazem descrédito ao exercício político. No entanto, o caminho para aprimorar a representação política é a qualidade dos candidatos e a qualidade dos votos.

A partir disso, o candidato evangélico deve abandonar o discurso surrado de que pretende ser eleito para defender a igreja, como se ela, como instituição divina, tivesse necessidade desse tipo de defesa. Não importa o regime em que viva, a igreja nunca perderá a batalha, pois é atemporal e cumpre propósitos distintos dos objetivos do poder político. Essa não é a finalidade de sua existência. É óbvio que, no âmbito da igreja local, em sua organização jurídica, ela pode necessitar de alguma assistência, mas não é com essa finalidade que o candidato é eleito, como veremos mais abaixo.

Outra coisa que precisa ser evitada a todo o custo é a transformação do púlpito ou do culto em palanque eleitoral. Aliás, a lei proíbe campanha em espaços de uso comum, como os templos, sujeitando os infratores à penalização. O culto comunitário não se presta a esse fim e nem a qualquer outro tipo de negócio. Quem insiste nesse “modus operandi” não compreende o real sentido da adoração comunitária. Entre outras coisas,é ridículo, por exemplo, insinuar o número da candidatura, citando capítulo e versículo da Bíblia com as dezenas correspondentes, quando se vai ler uma passagem. Évergonhoso e depõe contra a igreja.

Cada candidato deve levar a sério a recomendação do profeta Jeremias aos judeus exilados na Babilônia. Ele foi muito incisivo: "Busquem a paz da cidade. Se ela tiver paz, vocês também terão", Jeremias 29.7. Em outras palavras, quem exerce mandato eletivo deve pensar no interesse comum e não de seu grupo em particular. Quando preconizamos a valorização da família, menores impostos, diminuição das desigualdades sociais, educação de excelência, acesso à saúde de qualidade e segurança para garantir o direito de ir e vir, todos são beneficiados, inclusive o nosso grupo.

Creio também firmemente que pastores titulares não devem candidatar-se, a não ser que se licenciem do pastorado. Aliás, há uma resolução da CGADB em vigor que faz essa recomendação aos pastores assembleianos. Pena que não é levada a sério. Volto a Abraham Kuyper, que, ao sentir o chamado para ser instrumento de Deus numa Holanda com graves desajustes sociais, sua primeira iniciativa foi licenciar-se do pastorado. Só que não podemos ser reducionistas. Usa-se muito 2 Timóteo 2.4 para conceituar este ponto. Mas ali fala dos “negócios desta vida”. É muito mais amplo. Ou seja, vai muito além da política. Pastores de tempo integral, que se dedicam ao pastoreio, comem do altar e vivem integralmente para o altar, embora nem sempre seja assim.

No caso de quem é pastor, mas, já não se encontra à frente do rebanho, com responsabilidades pastorais, por diferentes motivos, a licença não é necessária, pois ela já “existe” de fato. Como não tem compromisso direto com as ovelhas, terá tempo para atender as grandes demandas da vida pública e dedicar-se ao bem comum. Além disso, vale ressaltar que pastor não é título, outro erro que cometemos. Os dons mencionados em Efésios 4.11-16 têm natureza funcional.

Ao ser eleito, não faça com muitos políticos que só aparecem de novo às vésperas das eleições. A prestação de contas periódica é uma obrigação de quem está no exercício do mandato. Nisso, os eleitores têm a sua parcela de culpa. Muitos votam e depois nemse lembram em quem votaram. Hoje, o mundo virtual oferece múltiplas ferramentas para que acompanhem e cobrem daqueles que foram eleitos com os seus votos. Mas o detentor de mandato não pode omitir-se de estar presente, acompanhar o que acontece nas bases e mostrar a que veio. É sua obrigação.

Convém, ainda, que, como detentor do mandato, o cristão se lembre de uma séria advertência dada por Cristo aos discípulos, no âmbito do Reino de Deus, para realçar que a missão recebida não era mero passatempo, mas exigiria embates até de natureza cruenta. "Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos", disse o Senhor, Mateus 10.16. Creio que, por analogia, a metáfora se aplica muito bem ao mundo político. O cristão não voará em céu de brigadeiro e nem navegará a favor da corrente. Isso jamais pode ser esquecido.

Para concluir, à luz do que escrevi nestas quatro postagens, como pastor emérito ou presidente de honra, sem responsabilidade de pastoreio, anuncio que sou pré-candidato a Deputado Federal pelo Estado do Rio de Janeiro. Após a aprovação do nome em convenção partidária a ser realizada no dia 29 de junho e a partir do início da campanha no dia cinco de julho estarei postulando uma cadeira na Câmara dos Deputados. Quero ser apenas um braço do Reino de Deus na esfera pública. Conto com as orações de todos.

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