sábado, 26 de maio de 2012

Lição 10 – O Governo do Anticristo - 3


4. Surge do mar a besta autorizada pelo dragão, 12.17b–13.4

17b E (o dragão) se pôs em pé sobre a areia do mar. 1 Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças e, sobre os chifres, dez diademas e, sobre as cabeças, nomes de blasfêmia. 2 A besta que vi era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão. E deu-lhe o dragão o seu poder, o seu trono e grande autoridade. 3 Então, vi uma de suas cabeças como golpeada de morte, mas essa ferida mortal foi curada; e toda a terra se maravilhou, seguindo a besta; 4 e adoraram o dragão porque deu a sua autoridade à besta; também adoraram a besta, dizendo:
Quem é semelhante à besta? Quem pode pelejar contra ela? 17b A informação de que o dragão se pôs em pé sobre a areia do mar não deve nos levar a imaginar que, derrotado, ele se retira da terra (contra Lohmeyer). Pelo contrário, ele se excede e toma impulso para o golpe destruidor contra a igreja testemunha e obediente. Ao se postar junto ao mar, ele assume o seu elemento, tornando-se integralmente um dragão terrível. Já Ap 12.12 falou sobre seu vínculo com esse mar, vínculo este que agora adquire importância central. 1 Como que por ordem de seu amo, e como criatura do dragão, surge o órgão executor, que se encarrega da guerra anticristã anunciada em Ap 12.17 (cf. Ap 13.4,7). Vi emergir do mar uma besta. Estamos diante de uma das grandes passagens do NT acerca do anticristo.

O anticristo e Ap 13

a. A designação ―anticristo‖ ocorre somente em escritos tardios do NT, a saber, cinco vezes nas cartas de João (1Jo 2.18,22; 4.3 e 2Jo 7). Também no judaísmo o nome aparece tardiamente. O texto de 1Jo 2.18 – marquemos esse versículo como texto central – começa com uma constatação: encontramo-nos no tempo escatológico. Foi assim que todas as igrejas do cristianismo primitivo do século I o entendiam, e a pregação na igreja lhes havia ensinado que nesse tempo final atua o anticristo. Ele pertence fundamentalmente ao fim dos tempos, que é também a época da igreja. O texto de 1Jo 4.3 confirma isso para aquela época: ele já veio! É o que também diz o versículo seguinte: o anticristo preenche e domina o mundo atual. No entanto, como é que ele atua? Ele dispõe de funcionários na terra: em decorrência ―muitos anticristos têm surgido‖ (1Jo 2.18). Neles podemos reconhecer a ele e ao início do fim dos tempos. Sua aparição visa despertar a igreja. Estes funcionários do anticristo são pessoas que no passado estiveram expostos à influência cristã, sem no entanto jamais terem sido verdadeiros cristãos. Foram ―cristãos de nome‖, decaíram e depois se manifestaram abertamente contra a igreja cristã (1Jo 2.19). Isso sucedia na forma da heresia, como ―mentirosos‖ (1Jo 2.22), ―profetas de mentira‖ (1Jo 4.1-3) e ―sedutores‖, por trás dos quais está precisamente o sedutor (2Jo 7). Essas expressões marcam-nos como criaturas de Satanás. João, portanto, designa de anticristo aquele determinado grande mentiroso e sedutor, que rege todo o tempo escatológico e que em seu transcurso envia suas concretizações repetidamente para atuar na história. Isso naturalmente não exclui uma concretização final, especialmente perigosa.

b. Essa perspectiva coincide com o ―cavaleiro branco‖ de Ap 6.2. Tão logo o fim dos tempos comece, pela exaltação do Cordeiro, este cavalga para dentro da arena da história e completa selo após selo (cf. EXCURSO 4). Também a passagem bastante obscura de Jo 5.43 foi entendida pela igreja antiga como falando do anticristo. O ―outro‖ vem como concorrente de Cristo, aparecendo imediatamente após a vinda de Cristo. Ele vem com autoridade própria (―em seu próprio nome‖) – isso faz parte exatamente da atitude jactanciosa do anticristo, que se contrapõe ao Cristo manso e humilde de coração. Não há certeza absoluta se Paulo, em 2Co 6.14-16, tinha o anticristo em vista ao citar Belial (RC, TEB) [RA: ―o Maligno‖]. Para esse uso terminológico existem somente comprovantes de época posterior. Em contrapartida, um escrito dos tempos iniciais de Paulo contém um paralelo evidente: 2Ts 2.1-12. O apóstolo lembra à jovem igreja o ensino sobre um personagem de ateísmo consciente (―homem da iniqüidade‖, v. 3,8, cf. v. 4), um ―filho da perdição‖ [―destruidor‖] (v. 3; cf. também o exposto sobre Ap 9.11!) e ―insurreto‖ [―contra tudo‖] (v. 4). Essa última designação tem parentesco lingüístico com ―contra-cristo‖. Também esse personagem encontrou-se uma vez em uma espécie de discipulado, o que é apontado pela posterior ―apostasia‖ no v. 3. Assim como os anticristos em 1Jo, ele se caracteriza por ―mentira‖ e ―sedução‖ (v. 9-11). O fato de Paulo esperar o anticristo somente para o futuro (v. 3) poderia ser um empecilho. Contudo, segundo o v. 7 esse agente futuro já está atuando de maneira perceptível nos tempos de Paulo, embora ainda não de forma totalmente desembaraçada e manifesta. Sua ―parusia‖ (cf. a expressão do v. 9 com o v. 1!), portanto, ainda pode estar em aberto, mas há precursores que já a anunciam. Conseqüentemente, esse texto se encaixa bem no quadro que obtivemos das cartas de João. Na presente questão consideramos importante a constatação de que Paulo havia apresentado essa visão da história à igreja em Tessalônica logo quando a fundou (v. 5). Em vista da breve visita naquela ocasião, realizada sob condições desfavoráveis, o ensino tinha de se restringir ao mais necessário. De forma significativa, este ensino incluía a expectativa do anticristo.

c. O v. 4 do texto central em 2Ts 2 está embebido com formulações do livro de Daniel, do AT. Daniel vê surgindo do mar dos povos, um após o outro, quatro reinos mundiais na figura de bestas horríveis. Do quarto e último reino, ao qual o reino de Deus põe fim, forma-se o personagem do anticristo: ele é quem provoca a apostasia (Dn 11.32), blasfema contra Deus (Dn 7.25; 11.36), quebra a lei de Deus (Dn 7.25; 6.12), diviniza-se a si mesmo (Dn 9.27; 11.31,36; 12.11) e vence os santos (Dn 7.25; 11.33-35). É neste texto que encontramos o nascedouro de 2Ts 2 e Ap 13, mas também de passagens como Mc 13.14 (pressupõe uma pessoa!) e Mt 24.15. Em decorrência, os materiais analisados mostram-se entrelaçados entre si e homogêneos nos traços básicos, ainda que o conceito do ―anticristo‖ somente tenha surgido mais tarde.

d. Cabe analisar o material. ―Desde o princípio‖ (Jo 8.44) Satanás é um mentiroso que seduz as pessoas a ocuparem o lugar de Deus (Gn 3.5). Por isso, a inimizade contra Deus viveu uma história movimentada muito antes do surgimento do anticristo. Contudo, pela instalação de Cristo no senhorio aconteceu, nesse aspecto, uma guinada decisiva. Depois de Cristo, o pecado não é mais o mesmo. ―Se eu não viera, nem lhes houvera falado, pecado não teriam… Se eu não tivesse feito entre eles tais obras… pecado não teriam; mas, agora, não somente têm eles visto, mas também odiado, tanto a mim como a meu Pai‖ (Jo 15.22-24). É por isso que o pecado agora se torna inteiramente pecaminoso (cf. o comentário a Ap 6.8, no final) e Satanás se torna bem satânico. Esta forma satânica final é o anticristo, que se concretiza em pessoas e sistemas.

e. Com boas razões o nome ―anticristo― impôs-se como figura definitiva do maligno. O prefixo antí significa inicialmente a oposição dura e hostil contra Cristo, que pode levar até ao uso de métodos violentos. Além disso possui o sentido de ―em lugar de Cristo‖. Cristo deve ser vencido não pelo combate aberto, mas excedendo-o. Importa suplantá-lo em seu campo mais próprio. Por isso, em quase todas as referências ao anticristo o motivo da imitação exerce uma importância extraordinária: o anticristo como caricatura de Cristo, como simulacro de Cristo, concorrendo por meio de doutrinas de salvação, sinais miraculosos e cultos. O motivo da imitação contém um elogio a Cristo. Seu inimigo não consegue impor-se sem tomar algo emprestado dele, tão convincente e irresistível é aquilo que Cristo trouxe. Em decorrência, o anticristianismo faz parte dos sinais que testemunham a soberania atual de Cristo e dos sinais preliminares de sua glória vindoura. Ele pode trocar de método (cf. vol. I, qi 15, e o comentário a Ap 2.3), transformando-se de contra-cristo em pseudo-cristo.
―Com fúria pertinaz
Persegue Satanás
Com artimanhas tais
E astúcias tão cruéis‖
[do hino ―Castelo Forte‖, de Lutero, tradução de J. Eduardo von Hafe, Cantor Cristão, 323, Juerp, Rio de Janeiro, 1971]. Nessa luta, a forma do pseudo-cristianismo é extremamente mais perigosa. Almas fiéis já não sabem mais no que acreditar, pois as diferenças são dissimuladas, criam-se semelhanças chocantes, e inquestionáveis fatos de superioridade deixam-nos perplexos. Em toda parte grita-se agora ―Cristo!‖ (Mt 24.23). Torna-se cada vez mais difícil discernir. Bombas de neblina são lançadas ao alto uma após a outra, e a igreja tem de lutar na nebulosidade. Isso lhe inflige pesadas perdas.

f. Em ambos os casos, no contra-cristo e no pseudo-cristo, pressupõe-se o encontro com Cristo. Por isso o anticristianismo jamais se erige a partir do mundo gentílico intacto, mas do mundo que foi atingido por Cristo, porém apostatou. Ali ele se condensa em pessoas e sistemas. Muitas vezes na história a igreja sentiu o hálito do anticristo, designando de forma correspondente numerosos personagens e manifestações (hereges gnósticos, imperador romano, o Papa, ideologias modernas e ditadores). Sempre é preciso contar com interpretações falhas, porém é preciso manter a vigilância. Talvez o equívoco mais perigoso resida em esperar que o anticristo apareça somente na última extremidade de nossa era, ao invés de ter consciência de que ele está atuando no meio dela (cf. também o comentário a Ap 13.5).

g. A correspondência de Ap 13 com o anticristo é totalmente certa, já pela sua estreita ligação com Dn 7 e 11. Além disso a besta surgida da terra (v. 11-17) é chamada explicitamente de ―profeta de mentira‖ (Ap 16.13; 19.20; 20.10), termo que João usa para designar o anticristo em suas cartas. Acima de tudo, a visão é dominada consistentemente pelo motivo da imitação (item e). Como o Cordeiro, no v. 1 a besta ostenta uma coroa de chifres (Ap 5.6), diademas (Ap 19.12) e um nome majestático (Ap 19.12,13,16). Como o Cordeiro, de acordo com os v. 2,7,12 ela obtém autoridade, segundo o v. 3 ela exibe a cicatriz de uma ferida sarada (Ap 5.6). Como o Cordeiro, de acordo com o v. 4 ela é alvo de um encômio de sua singularidade (Ap 5.2,5,9), no v. 7 ela é vitoriosa (Ap 5.5); conforme o v. 13, seu profeta realiza milagres, como os profetas do Cordeiro (Ap 11.5,6), e, de acordo com o v. 16, seus adeptos são lacrados, como os do Cordeiro (Ap 7.3; 14.1). Esse monótono sincronismo ―como o Cordeiro― visa convencer de que no presente capítulo se apresenta a figura oposta do Cristo, ou seja, o anticristo. Entretanto, esse surpreendente realizador de tudo também tem uma limitação: ele não é capaz de amar! Nesse ponto a igreja rejubila: ―Àquele que nos ama… a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos‖ (Ap 1.5,6)! É por isso que o anticristo tampouco é capaz de despertar amor. Daí, portanto, a fúria impotente dele e do dragão. Ele sabe que está vencido pelo sangue do Cordeiro e pelo testemunho dos que amaram Jesus até a morte (Ap 12.11).

* * * *
João viu, portanto, emergir do mar uma besta. Ele relata o que viu, apoiando-se intensamente em Dn 7.3. Contudo, nem por isto teve a mesma visão que Daniel. O vidente do AT viu quatro bestas surgirem uma após a outra, a saber, quatro reinos mundiais que se sucediam. No Ap não percebemos nada referente a uma intenção de fornecer um esboço da história mundial. Essa única besta apresenta ao mesmo tempo características de todas os quatro animais em Daniel, revelando-se como condensação de grandeza supra-histórica, a saber, como anticristo, como poder intelectual do fim dos tempos, à semelhança de 1Jo 2.15. Ademais, em Daniel são os quatro ventos que erguem as quatro bestas. Em Ap há uma nítida correlação com Satanás, que se posicionou, repleto de desgraça, na beira do mar, fazendo subir a besta como executora de suas guerras. Acima de tudo, parece que em Daniel o mar representa a história das nações. A partir dele erguem-se os reinos. Na presente passagem, porém, o mar é sinônimo para ―abismo‖ (Ap 11.7; 17.8,11). Para o ser humano da Antigüidade, a interpretação do mar como abismo de destruição era confirmada pela observação de que o mar não produz nenhum animal amigável e manso. Em relação a uma pessoa que parecia possuída por poderes demoníacos dizia-se: ―Foi o mar que te deu à luz!‖ Também o movimento de emergir de baixo caracteriza a besta como satânica, pois ―toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto‖ (Tg 1.17). Finalmente, a besta feroz e indomada, com a concentração de todos os traços de animal predador, constitui um indício do anticristo, nesse caso do anti-cordeiro. Nas frases subseqüentes João descreve partes do corpo da besta na ordem em que surgem do mar. Deixa, porém, à parte a característica mais marcante, a saber, a boca, a fim de abordá-la exaustivamente no final. Primeiro saem das ondas dez chifres. Portanto, a besta era bastante similar a seu senhor (Ap 12.3), um segundo dragão. O número dez simboliza nitidamente não um determinado poder político, mas o número completo dos poderes do mundo, a perfeição da plenitude da força política. Também as sete cabeças e os dez diademas devem ser comparados com Ap 12.3. Aqui ainda não interfere a explicação adicional de Ap 17.9. O nome sobre as cabeças corresponde ao que se passa dentro dessas cabeças. Trata-se de nomes de blasfêmia. A blasfêmia ocorre em Ap sempre nos lábios de Satanás e seus auxiliares (cf. o comentário a Ap 2.9) e significa a repulsa consciente do senhorio do Cordeiro, bem como a tentativa de roubar-lhe sua dignidade, isto é, seu ―nome‖, e atribuí-lo a si mesmo. Pouco tempo antes do banimento de João e da redação do Ap, o imperador romano Domiciano havia se concedido o nome ―nosso deus e senhor‖. Em 27 a.C. o imperador Gaio Júlio César Otaviano determinou que ele fosse alçado à categoria de ―Augusto‖, como se tornou conhecido da posteridade. ―Augusto‖ é adjetivação de divindades: ―majestoso‖, ―santo‖, ―digno de adoração‖. Também aceitava o título ―Divo‖, o semelhante aos deuses. Exemplos em pequena escala são trazidos em At 4.12; 12.22. O anticristo envia muitos anticristos. Os primeiros leitores talvez tenham sido lembrados do caso de Domiciano, que era atual para eles.

2 De resto a besta era um ser misto (cf. a exposição sobre Ap 9.17), seu corpo era semelhante a uma pantera, como no terceiro animal em Daniel (Dn 7.6), e seus pés como de urso, como no segundo animal em Daniel (Dn 7.5), e finalmente sua boca como de leão, igual à do primeiro animal em Dn 7.4. Nos v. 5,6 João demonstra que esta boca não evocava voracidade, mas produzia uma voz intimidadora, com a impostação da autoconfiança. É uma boca blasfema, como em Dn 7.8,25; 11.36, no quarto animal. Essa bocarra profere o que se podia ler sobre os chifres.
Essa visão traz uma confusão tamanha na seqüência dos animais de Daniel que não sobra mais nada do seu esboço a respeito da história mundial. Aqui trata-se do retrato falado do poder anticristão único, que atua no tempo escatológico. É dado destaque peculiar à sua natureza blasfema.
E deu-lhe o dragão o seu poder, o seu trono e grande autoridade. A besta aceitou o que o Cristo rejeitou, conforme Lc 4.6-8. Permitiu que fosse feito representante plenipotenciário do príncipe desse mundo. O número de três dádivas é um simulacro das dádivas divinas, e a mesma equipagem também se encontra em Cristo. Assim como o Pai divino envia seu Filho, assim, pois, o dragão envia a besta, o anti-filho. Por intermédio dessa besta ele construirá o seu domínio. Sua ―grande cólera‖ (Ap 12.12) concretiza-se na ―grande autoridade‖. E não obstante, visto no contexto todo, trata-se, nessa fúria e nesse desdobramento de poder, do poder impotente de alguém que foi três vezes deposto (Ap 12.9).

3 No entanto, o dragão deu à besta ainda algo bem especial, que de agora em diante se torna o centro do capítulo: e ele lhe deu uma de suas cabeças como golpeada de morte, mas essa ferida mortal foi curada. Por causa do v. 14 deve-se descartar a interpretação da ferida como sendo uma enfermidade grave. Segundo aquele texto, ela foi causada por um golpe de espada. A expressão pressupõe que de fato tenha ocorrido a morte. É certo também que se pressupõe a cura já acontecida. A besta apareceu imediatamente com a cicatriz da ferida mortal sarada. A maioria dos comentaristas aderem a uma interpretação antiga desse texto, a saber, recorrendo à lenda da volta de Nero. Em 9 de junho do ano 68 este famigerado imperador, estando politicamente acabado, ordenou que um escravo o matasse. No entanto, a morte deste homem terrível não obteve crédito em toda parte. Primeiramente dizia-se que na verdade ele teria apenas fugido à terra dos partos (cf. o comentário a Ap 6.2) e de lá retornaria à frente de hordas de partos para vingar-se, trazendo horrores ainda maiores. Depois que transcorreram décadas sem que Nero voltasse, sua morte forçosamente tinha de obter crédito. Mas, por volta da virada do século, a lenda havia adquirido um novo formato: Nero torna a viver e vem vindo! Essa expectativa está comprovada precisamente para a Ásia Menor. Será que João alude a ela? Seria Nero o anticristo? Talvez os cristãos sentissem alívio logo depois da morte de Nero: o anticristo está morto! Contudo, é impossível imaginar que, gerações mais tarde, cristãos ainda fossem dessa opinião. Afinal, depois de Nero surgiram outros imperadores cruéis e blasfemos. Que motivos havia para que Nero retornasse? De qualquer modo o anticristianismo já estava florescendo. O golpe de espada do escravo de Nero não significava um golpe mortal para a causa do dragão. Introduzir a lenda de Nero na interpretação, na verdade, não deixa de dar a impressão de ser uma recurso precário. Mais atrativa vem a ser a referência de Berkhof à relação profunda do cap. 13 com o cap. 12 (pág. 132). Lá constatávamos que o dragão foi derrotado por Miguel. Em termos figurados ele está morto. Mas ele revive nessa besta surgida do abismo. Seu poder mostra-se novamente e conquista uma vitória aparente, apesar de sua cicatriz. Esta leitura, porém, possui uma desvantagem em comum com todas as demais. Ao interpretar o v. 3a, ela insere um determinado acontecimento, agora não mais meramente histórico, mas ainda assim um evento celestial. Será que o texto realmente nos convida a isso? Cabe-nos perguntar e identificar: quem foi que desferiu o golpe de espada? Quando fez isso? etc. A besta desde já surge aos olhos de João como sacrificada, nitidamente marcada por uma ferida mortal cicatrizada. Segundo o v. 5 ela atua dessa maneira durante quarenta e dois meses, ou seja, ininterruptamente, durante todo o tempo escatológico (EXCURSO 7). Nada indica a circunstância de que ela teria recebido essa ferida mortal durante o atual tempo final, desaparecendo por um certo período, de maneira que começasse uma época sem anticristo, até que ela voltasse a aparecer. Ela se apresenta para o mundo todo sob as características dos v. 1-3, inclusive a ferida mortal sarada. Rissi faz justiça a todos esses aspectos, ao interpretar o sinal nos parâmetros do motivo da imitação (EXCURSO 11e). Essa besta é a simuladora perfeita do Cordeiro, até no que é decisivo. Assim como um trecho decisivo descreve o Cordeiro ―como tendo sido morto‖ (Ap 5.6), assim lemos agora sobre a besta: ―como golpeada de morte‖ (v. 3 [no grego, o mesmo verbo]). Comporta-se de modo diabólico como o Cristo perfeito, imitando até mesmo a mensagem da Sexta-Feira da Paixão. A besta tem capacidade para fazer soar os sons mais imponentes de morte, ressurreição, renovação e renascimento, prometendo responder às perguntas fundamentais da humanidade. Essa mensagem da ferida mortal evidencia-se como central para o cap. 13 (mencionada três vezes). Precisamente a ela refere-se também a adoração em dimensões universais. E toda a terra se maravilhou, seguindo a besta. ―Maravilhar-se‖ significa repetidamente no AT o espanto diante do sobre-humano. Também João jamais utiliza o vocábulo para a admiração aberta e alegre por parte de um discípulo, mas para o susto que confunde e paralisa. As pessoas se ajoelham por causa do pavor indefeso, não de coração e por amor (v. 4). Aplauso tempestuoso sem entusiasmo! Em submissão total elas ficam olhando a besta, perplexas. Não ousam fazer nenhuma objeção enquanto ela desfila pelas suas fileiras em atitude senhoril, sem sequer voltar-se para elas. Tanto mais atentamente sua auxiliar (v. 16) controla a todos: faz com que ―todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos‖ adorem a besta. Ninguém consegue eximir-se. A besta tem todos sob controle – a terra toda (cf. v. 7).

4 E adoraram o dragão porque deu a sua autoridade à besta; também adoraram a besta. Dificilmente deve-se imaginar aqui duas genuflexões. Pelo contrário, a adoração visível da besta significa, de forma encoberta, servidão a Satanás. Afinal, foi o dragão que deu plenos poderes à besta. Somente quem discerne esse envio da besta e seu direcionamento por parte do dragão sabe: a terra está de joelhos diante de Satanás! As ovações tempestuosas constituem endeusamento direto da besta. Quem é semelhante à besta? Ou seja, igual a ela em poder, como esclarece a segunda pergunta retórica: Quem pode pelejar contra ela? A besta é proclamada como Deus, porque só Deus é incomparavelmente poderoso. A blasfêmia que pode ser lida nos chifres e ouvida da boca da besta obtém eco no mundo inteiro. Uma aclamação de teor idêntico também era bem conhecida no culto ao imperador daqueles dias (nota 10). O próprio nome no v. 1 sugeria essa correlação. A besta no cap. 13 representa um sistema estatal que a si mesmo se sobreleva. De acordo com a convicção da primeira igreja, de fato concedeu-se poder ao Estado (Rm 13), mas não onipotência. Ele possui meios, porém não para tudo. Ele também sabe disso e o experimenta repetidamente. Justamente o Estado romano chegou a uma situação em que a decadência moral, as crises econômicas, os apertos financeiros, a ruína social e política simplesmente não se deixavam mais governar. Foi nesse momento que Domiciano começou a fuga para frente (qi 4). Ordenou que com violência se celebrasse e jubilasse por sobre os problemas não solucionados. Mandou simplesmente que os fatos fossem narrados de forma diferente, que fosse aclamado salvador, invencível, e que se anunciassem evangelho e paz. Assim ele se sobrelevou, suspendendo-se nisso a si próprio. No entanto, como esse processo curioso se explica com maior profundidade? A partir do medo! O cap. 12 falava da queda do dragão no medo e no constrangimento de quem já está derrotado. A partir daí ele se eleva à potência infinita e presunçosa (Ap 12.12). Por causa desse medo ele também gera uma besta do mar, e a sua ―grande autoridade‖ no fundo é grande medo. Desta forma ela dissemina o medo, até que todos aclamem medrosamente ao medroso: quem é como tu! 

5. A atuação da besta, 13.5-8 

5 Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias e autoridade para agir quarenta e dois meses; 6 e abriu a boca em blasfêmias contra Deus, para lhe difamar o nome e difamar o tabernáculo, a saber, os que habitam no céu. 7 Foi-lhe dado, também, que pelejasse contra os santos e os vencesse. Deu-se-lhe ainda autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação; 8 e adorá-la-ão (―adorá-lo-ão‖) todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo (―Todos os que vivem na terra o adorarão, menos aqueles que, desde antes da criação do mundo, têm o nome escrito no Livro da Vida, o qual pertence ao Cordeiro, que foi morto‖ [BLH] cf. nota 611).

Como o trecho anterior, esse bloco culmina na adoração da besta. Contudo, diferentemente do v. 4, o v. 8 fala de voz erguida, com reivindicação profética: hão de adorá-lo, a saber, numa forma ainda não conhecida na época da redação do Ap. Desde os seus primórdios a igreja precisou conviver com o culto a pessoas e a difamação de Deus, assim como, vez por outra, também com conflitos com Roma. Entretanto, ainda estava para suceder uma investida planejada e unânime de aniquilamento contra os santos. Esta é exatamente a situação de Ap 11.7-10, denominada ali de ―três dias e meio‖. O tempo escatológico de ―três anos e meio‖ tem consciência destas condensações em ―três dias e meio‖. É disto que trata a nova seção.

5 O v. 5 repete mais uma vez a característica mais importante da besta: Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias (―grandes coisas‖ [RC]) e blasfêmias. Assim também Dn 7.8 descreve o anticristo. Não se trata de falar de grandes planos econômicos ou políticos. A palavrinha ―grande‖ repetidamente faz parte das aclamações a deuses e pessoas endeusadas no culto. Ou seja, a besta se auto-apresenta como um deus, faz promessas como um deus e se excede em insolentes elogios de si mesmo. Neste sentido ela ofende a Deus. Agora cabe detectar outra diferença, mais sutil e mais profunda, em relação ao trecho de Ap 13.1-4. Lá se dizia que o dragão dera tudo à besta. Aqui se diz quatro vezes (v. 5,7, e ainda nos v. 14,15), de forma velada, que à besta foi dada por Deus uma boca (como em Ap 6.2-8; 9.5; etc.). Que estranho: o próprio Deus concede caminho livre para essas blasfêmias e, conforme o próximo versículo, também para os assassinatos dos santos? Contudo, a origem dessas coisas reside no dragão. Não é possível dizê-lo com clareza maior que foi dito no cap. 12. Em Deus não há raiz de mal algum. Mas Deus concede a possibilidade espacial e temporal (v. 5b,7b). Tais fatos, portanto, não acontecem a partir de Deus, porém certamente sob Deus (cf. EXCURSO 4d). A onipotência de Deus governa sobre a potência satânica e anticristã. Eles não grassam fora de sua soberania. Justamente esse bloco de terror está perpassado dessa certeza. Ainda que as vítimas não a entendam, elas podem confiar nela. Por isso o dado numérico ressoa novamente nesse contexto. Foi-lhe dada… autoridade para agir assim (repercussão de Dn 11.36) durante quarenta e dois meses. A atuação do anticristo perpassa todo o fim dos tempos (EXCURSO 7). Logo após a Ascensão e a expulsão de Satanás no cap. 12 a besta se arrasta para a terra, sendo lançada ao lago de fogo somente em Ap 19.20. Por isso, é bem possível que personagens históricos isolados tenham as suas características (há ―muitos anticristos‖, 1Jo 2.18), mas não conseguem ser o anticristo. Ele é um poder intelectual. Personagens isolados podem adicionar elementos, parte por parte, ao quadro da ―besta‖, até que uma última figura a complete. Com certeza, para João o imperador Domiciano foi uma dessas pessoas que adicionam elementos. Também é possível que instituições históricas, p. ex., o Império Romano, o culto ao imperador ou o papado sejam fatores que adicionam, da mesma forma como um certo tipo de pastores, pregadores ou leigos numa comunidade local. Nesse ponto cabe-nos ser verdadeiramente vigilantes. As explicações que causam maior confusão incluem aquela de que o anticristo ainda não estaria atuando e apareceria apenas num ―tempo final‖ distante, bem longe, e em outro lugar que o nosso. O fato de que Ap 13.1-8 deve evidentemente ser interpretado no sentido de exercício do poder político não deve ser entendida no sentido de que Ap 13 trata do Estado como tal e que por isso forma um contraste direto com Rm 13. Entender o Estado por princípio como besta talvez seja originário de Nietzsche. O NT não é hostil ao Estado, do contrário não poderia convocar para a intercessão em favor dos governantes. Esta intercessão, porém, exclui que eles sejam adorados. Em decorrência, Ap 13 decididamente complementa, de forma orgânica, textos como Rm 13. Sem dúvida alguma, porém, o NT é crítico em relação ao Estado. Como em todas as pessoas, o anticristo também está à espreita nos governantes. Se ele consegue agir, o governante não quer mais nem de longe ser ―servo de Deus‖ de acordo com Rm 13, porém, nos termos de Dn 7 e Ap 13, faz de si mesmo um deus, em última instância também sobre fé e consciência e todas as coisas.

6 A blasfêmia inerente à natureza da besta agora se transforma em acontecimento. E abriu a boca em blasfêmias contra Deus. A longo prazo ela não consegue silenciar diante de Deus. Um dia a ofensa explodirá, enchendo com voz terrível a atmosfera do tempo. Pois o ser igual a Deus é constantemente barrado pelo fato de que Deus é Deus. Foi novamente Nietzsche que deu vazão a esta irritação (tradução de Eduardo Nunes Fonseca): ―Se houvesse deuses como poderia eu admitir não ser um deles?! Por conseguinte, não há deuses‖ (Assim favava Zaratustra, pág. 64, cf. nota 607). A blasfêmia contra Deus se desdobra em três partes. Ela ofende seu nome, como em Ap 16.9, mas também seu tabernáculo, o qual, de acordo com a terceira parte, os que habitam (―acampam‖) no céu, aparentemente deve ser entendido como termo-chave para um grupo de pessoas, a saber, como aquela comunhão unida com Deus, como Moisés na ―tenda do encontro‖. Ela representa uma ―cidadania celestial‖ (Fp 3.20) já hoje, sobre essa terra. Ela contém uma parcela de antecipação do futuro, o Espírito Santo. É esse cerne espiritual que o anticristo ataca. É esta presença de Deus manifesta na comunhão que o irrita.

7,8 À blasfêmia segue-se a ação de violência contra a igreja. Foi-lhe dado, também, que pelejasse contra os santos e os vencesse. Com essa ação o dragão (de acordo com Ap 12.17) alcança seu alvo. O aniquilamento da descendência (―semente‖) da mulher constitui a peça central de seus planos. Ele se inebria com o ―sangue dos santos‖ (Ap 17.6). A honrosa designação dos cristãos como ―santos‖ é profundamente significativa especialmente na presente passagem, bem como em Dn 7.21 (cf. o exposto sobre Ap 8.3). Sua vitória não estabelece uma contradição com a vitória deles conforme Ap 12.11. Ainda que os destrua fisicamente, eles continuam perseverantes na fé, cumprindo a promessa de Ap 3.10 (cf. o exposto sobre Ap 11.7). Ele pode fazer tudo com eles, exceto separá-los de Jesus. Eles são ―mais que vencedores‖ (Rm 8.37) também sobre o seu próprio aniquilamento. Paulo não baseia isto em sua posição heróica, mas no amor de Cristo. João o faz com o ―sangue do Cordeiro‖ (Ap 12.11). Esse cálice de sofrimento é inevitável. Nessa questão a besta não tolera negociação. Afinal, ela é uma besta e não conhece misericórdia, ainda que temporariamente se vista de peles de ovelha. Tampouco faz sentido suplicar a Deus para ser dispensado dessa experiência, porque Deus mesmo foi quem ―deu‖ tudo isso (cf. o comentário a Ap 13.5). Também esse tempo sombrio traz Sua marca de verificação. No passado o Pai concedeu uma autorização semelhante por ocasião da entrega de seu Filho, de modo que esse atestou a seus algozes: ―Esta, porém, é a vossa hora e o poder das trevas‖ (Lc 22.53). Agora ele repete a autorização em relação aos seus santos. É por isso que essa hora, quando chegar, terá de ser suportada. Depois de liquidados os santos, a subjugação do resto é bem-sucedida. Deu-se-lhe ainda autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação. Toda confusão e cisão é dissimulada na adoração unitária da besta por meio da população mundial: E adorá-lo-ão ([masculino] agora se pensa nitidamente como pessoa!) todos os que habitam sobre a terra. Diante do cenário dos martírios todos se apressarão em dobrar os joelhos. Correm até ele como água a ser bebida ―a largos sorvos‖ (Sl 73.10). Como no v. 3, ninguém foi realmente conquistado. É uma reverência prestada com corações rígidos e amortecidos, o oposto da adoração a Jesus em Ap 5.9. A adoração constitui o tema central do Ap (cf. qi 1). Adoração diante da besta ou diante do Cordeiro. Também no presente texto o Cordeiro aparece de imediato como o personagem de confrontação (cf. v. 11). O bloco das trombetas silencia sobre o Cordeiro desde Ap 8.2 (cf. a observação preliminar a Ap 8.2-6). Tanto mais marcante é a reintrodução desse conceito a partir do presente ponto, desconsiderando-se a antecipação em Ap 12.11. Indiretamente o v. 8 aponta para os outros adoradores, os adoradores do Cordeiro. Unicamente eles podem permanecer perseverantes na provação de alcance mundial, pois o nome de cada um deles está anotado no Livro da Vida. O conceito foi explicado quando comentamos Ap 3.5. De acordo com aquela referência e conforme Ap 21.27, poder-se-ia imaginar que alguém pudesse ser riscado desse livro. Como data da anotação do nome informa-se: desde a (―antes da‖ [BLH]) fundação do mundo. Portanto, uma eleição anterior à existência do mundo? É preciso que numa sentença doutrinária assim (cf. Mt 25.34; Ef 1.4) detectemos onde vibra o coração e que demos ouvidos a esta linguagem do pulso do coração, mas não depreender com rigor extremado toda espécie de ensinamentos destas palavras. O versículo nos anuncia: o amor de Deus a seu povo tem uma vantagem absoluta diante de todos os poderes e forças que possam acercar-se de nós durante a nossa existência. Ele é o fundamento mais profundo que não pode ser abalado por nada. O interesse deste dogma reside, portanto, em preservar puro o nosso falar sobre o amor de Deus. Não pode ser turbado por nosso orgulho, que presume que conquistamos de Deus o seu amor por meio de nosso comportamento. Não – antes que pudéssemos ter um comportamento, ele já existia em estado perfeito. Quem se aprofunda nessa mensagem, considera absurdo que, a partir da doutrina da eleição, se conclua o eterno desamor de Deus para com uma parte da humanidade. Isso é viável dentro de uma mera lógica, mas também é possível deixar de chegar a essa conclusão. Parte alguma da Bíblia registra esta conclusão. Do mesmo modo, seria incompreensível uma despreocupada segurança de salvação mediante apelação ao eterno amor de Deus. Sobre os que agem assim, Paulo declara: ―A condenação destes é justa‖ (Rm 3.8). Dos malabarismos destes com o ―amor de Deus‖ Paulo depreende uma linguagem da mais profunda perdição. Em conseqüência, de nada adianta equipar-se com uma boa teologia para enfrentar a besta, formar uma irmandade fechada ou treinar ferrenhamente a capacidade de sofrer. Tudo isso poderá ter um aspecto bom, porém evidencia-se como ineficaz diante da autoridade da besta. Então valerá unicamente o amor de Deus, estar anotado ou não no livro da vida. Este livro, no entanto, não representa um conceito geral do amor de Deus, mas, enfaticamente, aquele amor que se revela em Jesus. O livro é o livro do Cordeiro sacrificado. Na situação decisiva, portanto, somos remetidos ao evangelho. Fixemos os pensamentos firmemente na cruz e em nada mais. Então também estará tudo em ordem com o livro. Não há um livro que esteja acima ou depois da morte expiatória de Jesus. Pelo contrário, acima de tudo encontra-se o Cordeiro sacrificado. A afirmação do presente versículo coincide com a declaração de Ap 12.11: ―Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro‖.

6. Palavra de exortação à igreja, 13.9,10 

9 Se alguém tem ouvidos, (então) ouça. 10 Se alguém leva (é levado) para cativeiro, para cativeiro vai. Se alguém matar (for morto) à espada, necessário é que seja morto à espada. Aqui está (é necessária) a perseverança e a fidelidade dos santos.

Nos cap. 2,3 havia ditos de gravação que impeliam os leitores para a atualidade imediata, dos próprios ouvintes, daquilo que ouviram: ―Atenção! Sim, vocês são atingidos!‖ Consideremos a situação que se aguça na província da Ásia daquele tempo. O novo decreto de Domiciano, de que todos o tinham de tratar como ―senhor e deus‖, com certeza assustou os círculos cristãos. Contudo, a natureza humana tende a repetir frases feitas: ―Vai dar tudo certo novamente. Não se come nada tão quente como foi cozido.‖ Muitas vezes, mas nem sempre, as palavras de apaziguamento têm razão. Na verdade, até poderiam ser ópio para o povo cristão. Nesse caso, os fiéis trotam ingenuamente em direção ao futuro e acordam tarde demais. Por isso ressoa aqui o chamado profético para acordarmos: ―Não vai dar tudo certo novamente!‖

10 O v. 10 contém um problema genuíno, até paradigmático, de crítica textual. Os próprios manuscritos mais antigos divergem entre si e se equilibram em importância, de modo que não se pode decidir facilmente qual é a formulação que merece a preferência. Podemos expor a situação aqui apenas de forma simplificada. A alternativa A é utilizada em traduções como, p. ex., a de Lutero e RA: ―Se alguém leva outros à prisão, irá ele próprio para a prisão. Se alguém matar à espada, terá de ser morto à espada‖. Essa forma textual poderia ser uma repercussão de Mt 26.52 e Gn 9.6, e seu sentido seria inequívoco: os cristãos são alertados contra uma resistência armada. No curso da história da igreja não foram poucas as vezes em que os fiéis foram tentados a revidar com recursos do mundo e conduzir uma assim chamada guerra ―santa‖. Por mais justificados e compreensíveis que possam ser tais intentos, eles não são abençoados. Sem dúvida uma exortação assim mereceria nossa consideração. No entanto, será de fato que João a emitiu aqui? Será que combina com a situação daqueles destinatários? Acaso os cristãos tinham a possibilidade de levar seus adversários à prisão? Principalmente numa época de acirramento, como é pressuposta por Ap 13.1-8? Isso é inimaginável! Por isso essa versão, de resto tão clara e compreensível, não deve ser a original. Dificuldades aplanadas são sempre evidência de um trabalho posterior, mas ninguém corrige com o intuito de dificultar a compreensão. Por isso, com boas razões, acompanhamos a alternativa B, conforme está impressa entre parênteses no início do presente trecho. Esta alternativa contém asperezas idiomáticas. Ela é proferida, martelada com brevidade inaudita, como um lema militar. Contudo, essa é também a forma pela qual se descobre um fundo convincente do AT: ―O que é para a morte, para a morte (irá); o que é para a espada, para a espada; o que é para a fome, para a fome; e o que é para o cativeiro, para o cativeiro‖ (Jr 15.2). É flagrante a semelhança na forma e no conteúdo. João profetiza uma trajetória incontornável em direção do martírio para seus leitores daquele tempo. Teria sido falsa consideração deixá-los sem clareza a esse respeito. Quando a noite da perseguição chegou mais tarde, muitos cristãos, auxiliados por esse escrito, estavam em condições de trilhar o caminho do Cordeiro sem gesto de defesa, sem perturbação. A intenção pastoral de João estava em plena consonância com Jo 16.1-4. Entretanto, suportar calado o que ―deve‖ (Ap 1.1) vir, ainda não compreende toda a sabedoria desse conselheiro pastoral. Os cristãos não devem suportar para dentro do vazio, mas para dentro do futuro de Jesus. O que João recomenda a uma igreja que quer persistir é a perseverança penetrante e implacável (cf. o comentário a Ap 1.9 e 2.1). Ademais, João nunca esquece de incutir a fidelidade de testemunha (cf. o exposto sobre Ap 12.11). Para ele, suportar calado não significa simplesmente ficar quieto. Aqui está (―é necessária‖) a perseverança e a fidelidade dos santos.

7. Surge da terra a besta que apoiará a primeira besta, 13.11,12

11 Vi ainda outra besta emergir da terra; possuía dois chifres, parecendo cordeiro, mas falava como dragão. 12 Exerce toda a autoridade da primeira besta na sua presença. Faz com que a terra e os seus habitantes adorem a primeira besta, cuja ferida mortal fora curada.

11 Em termos de importância, essa segunda besta não se situa ao lado da primeira, mas é serva dela. De que consiste esse serviço? Quem é ela? Seguramente sua origem será mais uma vez esclarecedora: Vi ainda outra besta emergir da terra. Na maioria das vezes, a ―terra‖ é identificada, no presente caso, com a Ásia Menor, a ―terra clássica do culto ao imperador‖ (Deissmann), enquanto o ―mar‖, do qual havia emergido, conforme o v. 1, a primeira besta, é interpretado como sendo Roma na Itália, a origem do poder imperial. De acordo com essa leitura, João primeiramente volta a cabeça na direção Oeste, vendo a efígie da potência política imperial, para agora vislumbrar a imagem do culto ao imperador, vinda do Leste. Contudo, não encontramos no texto essa guinada na perspectiva de João, e inferir os pontos cardeais para os quais João dirigia o olhar dos dados fornecidos é tão problemático aqui quanto o foi na apreciação de Ap 10.1.
Talvez se esteja procurando demais por um contraste mar – terra, ao invés de contar com uma dupla de conceitos, que ilumina a mesma realidade de duas maneiras. A favor deste paralelismo depõe o emergir, tanto aqui como no v. 1. A segunda besta não vivia antes na superfície da terra, mas nas profundezas dela, subindo agora de baixo, do submundo, do ―poço (‗garganta‘) do abismo‖, de Ap 9.1. Desse modo, ambas as bestas estão, por princípio, coordenadas com a mesma origem demoníaca. A expressão dupla talvez expresse: no fim dos tempos abrem-se todos os abismos da história, e a força anticristã se aperfeiçoa em ambas as direções. À ênfase política dos v. 1-8 agrega-se agora a religiosa e social. Agora a humanidade está em sua mão como a argila na mão do oleiro. Disso decorre a mais sombria época de sofrimento para a igreja. A besta surgida da terra tinha dois chifres, parecendo cordeiro. Os chifres não significam força de choque agressiva, não retratando poderes políticos, mas servem para caracterizar expressamente a imagem de um cordeiro. Não se deveria ler a palavra ―cordeiro‖ sem ponderar que no Ap ela ocorre 28 vezes como título de Cristo. É por isso que ela não serve como imagem genérica de mansidão. É uma figura de Cristo, e a segunda besta vem imbuída, como a primeira, do motivo da imitação.
Sua apresentação enfaticamente imitadora de Cristo é a mais puída imaginável, porque falava como dragão. Por detrás da máscara de cordeiro ressoa a voz de dragão, de maneira que também no presente caso: ―Tua fala te trai!‖ Ao invés da voz do Bom Pastor, à qual a porta se deveria abrir de imediato (Ap 3.20), são emitidas as inspirações de Satanás. Um lobo em pele de ovelha (Mt 7.15)! Este personagem, portanto, é uma criação direta de Satanás, assim como foi a primeira besta. Dessa forma essas três figuras se reúnem numa trindade satânica, para um simulacro da Trindade divina. O dragão é o antideus, a besta vinda do mar é o anticristo e a besta vinda da terra é o anti-espírito. Essa interpretação do terceiro personagem é largamente corroborada pelo que se segue. Assim como o Espírito Santo conduz à adoração de Cristo, assim essa besta conduz adoradores ao anticristo. No v. 15 encontra-se também uma referência singular a ―espírito― [RC, BJ].

12 O v. 12 sintetiza a incumbência da segunda besta. Exerce toda a autoridade (―todo o poder‖ [RC]) da primeira besta na sua presença. Nos v. 12-16 encontra-se oito vezes o vocábulo ―fazer‖, ―praticar‖, que costuma ocorrer com tanta freqüência no AT para a ação criadora de Deus. Aqui se pratica a contra-criação, projetando magicamente um mundo anticristão. Uma admirável eficácia, que ninguém pode impedir! A primeira besta não se torna ativa em seu próprio favor, mas leva a outra besta a fazer propaganda dela. Isso é sistema! A atividade da outra besta acontece na sua presença (―perante ela‖), para a glorificação do anticristo. Ela dirige os holofotes sobre o anticristo, que permanece imóvel sob essa luz. Elucidando, o texto prossegue assim: Faz com que a terra e os seus habitantes adorem a primeira besta, cuja ferida mortal fora curada. É nisso que culmina a intenção do ―profeta de mentira‖, como essa segunda besta é chamada em outro local: celebração de proporções universais diante da besta, de modo que o dragão, depois de ter perdido o céu, conquiste pelo menos a terra. O fato de que no texto a besta vinda da terra aparece depois da besta do mar não nos deve levar a depreender que a primeira besta atua sozinha durante uma parte do tempo escatológico. P. ex., não devemos presumir que as venerações à besta nos v. 4,8 se concretizaram sem a ação do batedor e instigador dos v. 11-17. É mais plausível supor que o anticristo jamais aparece desacompanhado de seu ajudante. Eles atuam em conjunto, sendo que nesse capítulo apenas foram apresentados um após o outro, primeiro o anticristo como personagem principal, e depois o profeta de mentira como seu servo. Visto que a segunda besta está conjugada dessa maneira com a primeira, ela representa igualmente uma grandeza supra-histórica e satânica, que obviamente se concretiza passo a passo dentro da história. É com extrema facilidade que o abuso do poder político se alia ao abuso do poder religioso. O Estado degenerado tem sua pseudo-igreja, que lhe é submissa. Naquele tempo o poderio imperial fazia uso do culto ao imperador. O seu centro e, conseqüentemente, um forte contingente de sacerdotes imperiais estavam situados na província da Ásia. Está provado que essa província se destacou singularmente nas perseguições aos cristãos. À sua frente estava um sumo sacerdote. Ele organizava a devida veneração do imperador na província inteira. O comentário dos versículos seguintes não deixará de ponderar onde determinados traços desse personagem poderiam estar espelhados no texto. Nesta abordagem, porém, está longe de nós identificar a besta vinda da terra com esse sumo sacerdote (qi 60).

8. A atuação da segunda besta, 13.13-17

13 Também opera grandes sinais, de maneira que até fogo do céu faz descer à terra, diante dos homens. 14 Seduz os que habitam sobre a terra por causa dos sinais que lhe foi dado executar diante da besta, dizendo aos que habitam sobre a terra que façam uma imagem à besta, àquela que, ferida à espada, sobreviveu; 15 e lhe foi dado comunicar fôlego à imagem da besta, para que não só a imagem falasse, como ainda fizesse morrer quantos não adorassem a imagem da besta. 16 A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz que lhes seja dada certa marca sobre a mão direita ou sobre a fronte, 17 para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta ou o número do seu nome. 

13 Aos sinais milagrosos dos verdadeiros profetas e testemunhas de Jesus, em Ap 11.5,6, esse pseudoprofeta contrapõe, como imitação, sinais dele próprio. Também opera grandes sinais, de maneira que até fogo do céu faz descer à terra, diante dos homens. Foi assim que os magos de Faraó imitaram os sinais de legitimação de Moisés e Arão (nota 622). ―Fogo do céu― constantemente se reveste de importância quando é preciso decidir infalivelmente entre mentira e verdade e demonstrar verdadeira autoridade. Aqui parece que a besta da terra está produzindo essa prova, e de agora em diante uma oposição a essa reivindicação perde o fundamento na opinião dos assistentes. A Antigüidade estava repleta de relatos de milagres. Um milagreiro gentio, Simão, o mágico, aparece em At 8.9ss, e outro, de nome Elimas, em At 13.8. Reporta-se também que, em relação com o culto à serpente salvadora (Asklepios), aconteceram fatos admiráveis (cf. o exposto sobre Ap 2.13; 9.21), e se apelou para a magia e truques justamente para a implantação do culto ao imperador. Nesse contexto talvez possamos recordar a história de uma máquina de tempestades do imperador Calígula, que imitava o deus que arremessa relâmpagos. Até mesmo aquele que é capaz de explicar sua fabricação pode ficar impressionado com um fogo de artifício.

14 Seduz os que habitam sobre a terra por causa dos sinais que lhe foi dado executar diante da besta. No AT e também já em Ap 2.14,20 a sedução possui o significado especial: desencaminhar para a idolatria. A idolatria, por sua vez, é adoração de imagens, com o que transgride um mandamento fundamental do AT: ―Não farás para ti imagem de escultura para adorá-la!‖ [Êx 20.4,5]. Como em Dt 13.2-4 emite-se, com a autoridade dos sinais, a ordem de fazer uma imagem à besta, àquela que, ferida à espada, sobreviveu (―revivera‖ [NVI]). Essa imagem é citada ainda oito vezes com tremor no Ap como o ápice da blasfêmia, de maneira muito similar ao livro de Daniel (Dn 11.31; 12.11; cf. Mt 24.15; 2Ts 2.3,4). Dessa forma o Ap transmite como ele imagina o cumprimento dessas palavras de Daniel, a saber, dissociado do templo e de uma reconstrução de Jerusalém. Assim como os antigos profetas costumavam denunciar que as próprias pessoas criavam a imagem à qual depois adoravam de modo tão submisso, assim também acontece agora. À pergunta sobre o modelo usando pelas pessoas para repetidamente formar seus ídolos podemos responder tranqüilamente com L. Feuerbach: ―O ser humano criou deus à sua própria imagem‖. O ser humano que sofre e se sente magoado com o quadro da sua realidade revela através de seu ídolo a imagem ideal que ele constrói para si mesmo e ao qual ele serve plenamente com saudade e disposição de sacrifício. O ser humano adora o ser humano. Com certeza a afirmação de Feuerbach atinge um elemento essencial de todas as religiões. Mas efetivamente não atinge a Bíblia. Pois ela ensina a adoração daquele que permanece santamente soberano perante todas as nossas imagens e concepções. É por isso que a adoração a Deus e adoração a imagens se opõem diametralmente. Quanto à descrição da primeira besta aqui, cf. o comentário a Ap 13.1-3.

15 Entretanto, a idolatria possui um calcanhar de Aquiles, reconhecido de forma certeira pelos profetas do AT. Os ídolos consistem de material inanimado. É por isso que não ouvem, nem vêem, nem falam. Contudo, o profeta de mentira parece conseguir dissimular esse ponto fraco. E lhe foi dado comunicar fôlego (―espírito‖ [RC]) à imagem da besta. A ação relembra diretamente Gn 2.7: primeiro Deus molda o ser humano, depois lhe sopra o fôlego da vida. Em decorrência, a imagem está viva, como parece ser comprovado por intermédio de duas habilidades. Primeiramente a imagem da besta falou (―para que… a imagem falasse‖). Havia muitas lendas naquele tempo que relatavam acerca de imagens de deus que falam. Sacerdotes egípcios gozavam da fama de serem capazes de conferir fôlego às estátuas. Igualmente recordamos as imagens de Maria, nos locais de peregrinação da Idade Média, que choravam, falavam e realizavam milagres. Stauffer reproduz, à pág. 185, a cerimônia cultual em torno da imagem do imperador, durante a qual os adoradores lançavam seus grãos de incenso nas chamas do candelabro, de modo que se formava forte fumaça. ―A trepidante música de flautas e harpas inebriava os sentidos. A imagem do imperador desaparecia na fumaça que enchia o pavilhão do templo. Esta era a hora propícia para todo tipo de truques em torno da figura da graça imperial. Podiam-se ouvir vozes, perceber movimentos…‖ No entanto, esta imagem também dispunha de uma visão aguçada. Imediatamente ela notava aquele que não caía de joelhos com reverência por saber conservar sentidos lúcidos e talvez também porque ousasse levantar perguntas críticas. De imediato ele tombava mortalmente. A besta fez morrer quantos não adorassem a imagem da besta. Caíam mortos, vitimados pelo golpe das adagas da polícia do templo, distribuída entre os visitantes. Contudo os executores davam o golpe com base num gesto da efígie que acreditavam ter visto claramente. Pela experiência, um exemplo desse tipo bastava. Imediatamente o fato se espalhava, e o medo e o pavor cobria a multidão. Era dessa maneira que o terror servia como reforço, quando o simulacro dos milagres não surtia efeito. Existem antigos exemplos dessa prática (Dn 3.5-7,15). Do mesmo modo, quem se negava a prestar culto ao imperador romano era réu de morte. Será que a presente passagem (e também Ap 11.7; 13.7) pressupõe uma situação em que os cristãos, sem exceção, se tornam mártires, restando tão somente não-cristãos e cristãos apóstatas? O teor do texto é implacável: quem não adora, é morto. Portanto, quem está vivo, adorou a besta. Não obstante, essa leitura está equivocada, pois os versículos seguintes somente fazem sentido se ainda houver cristãos. A profecia jamais é uma fotografia que registra todos os detalhes. Ao contrário, ela capta as linhas essenciais e opera com simplificações. Nesse momento enfoca-se, pelo olhar profético, uma época em que toda pessoa que é cristã se situa sob o prefixo do martírio, e ninguém é cristão sem a prontidão fundamental para o ato extremo. Mas nem por isso todos os cristãos se tornam de fato mártires, porque Deus não requer de todos a comprovação dessa disposição (cf. o comentário a Ap 2.10). Até a vinda do Senhor haverá comunidades cristãs, ainda que se utilizasse um sistema perfeito para o extermínio dos fiéis. O sistema mais perfeito ainda seria furado por causa dos milagres de preservação de Deus e de Cristo. Elias estava deitado sob o zimbro, pensando que Jezabel dominava a situação e que todos os fiéis estavam exterminados ou tinham apostatado: ―Eu fiquei só!‖ (1Rs 19.14). Então Deus lhe revela que ainda vivem outros sete mil que não dobraram os joelhos diante de Baal. Além disso, quando Sadraque, Mesaque e Abede-Nego são lançados na fornalha ardente por causa de sua fé (Dn 3), não ouvimos nada sobre Daniel. Ileso, ele se encontra num lugar qualquer. Quando, por sua vez, Daniel foi lançado entre os leões (Dn 6), parece que a provação, aleatoriamente, deixou de lado seus amigos. Assim Deus sempre tem redutos nos quais sua gente canta: ―Apesar do velho dragão, apesar do fosso da morte, e do medo que traz! Esperneia, mundo, empinando; eu fico aqui cantando em segurança e paz. A força de Deus guia os passos meus. Terra e abismo hão de temer, por mais que me queiram premer.‖

16 O v. 16 relata a formação da ―igreja‖ do anticristo, trazendo inicialmente sua composição. E fez com que se dobrassem unanimemente a todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos. Essa agora é a ―grande apostasia‖ de 2Ts 2.3. Ela abrange a todos. A homogeneização de toda a sociedade foi bem-sucedida. O medo faz com que as resistências se dissipem como água. As persistentes diferenças sociais deixam de ser diferenças diante dessa efígie. Os grandes, ricos e livres renunciam da forma mais indigna possível à sua magnitude, seu orgulho e sua liberdade, tornando-se submissos como os pequenos, pobres e escravos. Todos eles se acotovelam para ingressar nessa ―igreja‖ pela obtenção de uma marca de identificação. A besta faz que lhes seja dada (―que eles próprios se dessem‖) certa marca sobre a mão direita ou sobre a fronte. A marca de identificação (ocorre também em Ap 14.9; 20.4) está contraposta ao lacre de Ap 7.2,3. Num ato de consagração ela é afixada num local visível. Dessa maneira o profeta de mentira impele para a confissão pública. Cada um precisa expressar-se positivamente, de forma que silenciar já torna alguém perfeito. Não se tolera mais uma massa indiferente, em que ainda podem se ocultar nichos de resistência.

17 Depois que a besta surgida da terra providencia que se destaquem os que confessam a Cristo, ela os submete à discriminação social. E fez que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca. Os cristãos não compravam nada, nem por dinheiro, nem por trabalho, nem por negociação, a não ser pela aceitação da marca da besta. Os adoradores da besta contrapõem-se aos adoradores do Cordeiro num acirramento extremo. Agora não há mais como se desviar do tema: ―Cai de joelhos e adora a besta!‖ Para os santos, porém, isso seria mais terrível que morrer. Para eles, a oração seguinte não é uma empolgação poética: ―Não há outro em quem eu me compraza na terra. Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre‖ (Sl 73.25,26).
A frase final esclarece que a marca consiste num nome tatuado na testa ou na mão, numa total correspondência com o selo em Ap 7.3, do qual é dito em Ap 14.1: ―Tendo na fronte escrito o seu nome e o nome de seu Pai‖. No presente texto repete-se, pois, em concordância com Ap 14.11: a saber, o nome da besta. Esta informação é acrescentada em seguida: ou o número do seu nome. Portanto, o nome aparece não em forma de letras, mas na forma de um número. Naquele tempo era freqüente reproduzir nomes por meio de um número. A equação que se estabeleceu agora é: marca = nome = número. No v. 18 ela é prolongada mais uma última vez.

9. Palavra de exortação à igreja, 13.18
18 Aqui está (―é necessária‖) a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis.

18 Aqui está a sabedoria (―É o momento de ter discernimento!‖ [TEB]). Assim João começa em vista do dado numérico que vem de imediato. Nem todos saberão o que fazer com ele. O próprio número constitui apenas uma revelação condicional do mistério. Para certas pessoas ele deve permanecer oculto. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Esse é o quarto elemento daquela equação. Tanto a marca quanto o nome quanto o número apontam todos para uma pessoa, para um determinado indivíduo humano. É assim que devemos entender a explicação, como o faz a maioria dos comentaristas. Em meio à tensão cada vez maior pronuncia-se agora o número: e seu número é seiscentos e sessenta e seis. Já no século II os intérpretes encontravam-se sem solução diante desse dado. Essa aporia prosseguiu e produziu um número tão grande de interpretações que hoje poderia ser evidência de sabedoria confessar simplesmente a própria ignorância e suspender humildemente todas as tentativas restantes. Ireneo conformou-se após algumas tentativas, afirmando não haver solução. Essa sabedoria, no entanto, certamente terá de vigorar apenas depois que tomarmos conhecimento das tentativas de solução.

Quanto à interpretação dos seiscentos e sessenta e seis
a. Quando se interpreta um livro como o Ap é mais do que compreensível que se tente explicar o número 666 de forma simbólica. Contudo, fica evidente que dentro da própria Bíblia ele não tem nenhuma importância e que nela não há nenhum ponto de referência: trata-se do seis triplicado, ou seja, intensificado, de modo que nos resta interpretar o número seis. Contudo, também esse número não possui destaque especial nem na Bíblia nem na história geral das religiões, pelo menos nem de longe de forma tão nítida como, p. ex., os números três, sete ou doze. No entanto, parece possuir uma certa correlação com o desdobramento do poder humano, dirigido contra Deus. Não faltaram tentativas inteligentes de se aprofundar no significado desse número: como o seis seria a semana sem o domingo, ele simbolizaria uma vida sem Deus. Ou se distinguia os 666 do número do Cordeiro, a saber, dos 777. Nesse caso ele é o último esforço tempestivo, mas vão, de alcançar os 777, assim como a presunçosa construção da torre de Babel não atingiu o céu. Ele é essencialmente o número interrompido, símbolo do fracasso. Ireneo já se dedicava a essas construções no século II. Sem dúvida essas ponderações se encaixam bem no contexto de Ap 13, contudo não consideram o texto com exatidão.

b. Por mais difícil que torne a interpretação, fato é que há no texto uma solicitação, no contexto deste número, para se calcular: calcule o número. E esse ―calcular‖ (psephízein) era termo técnico para o cálculo de um nome ou conceito em seu valor numérico, ou inversamente, de um valor numérico num nome ou conceito. Nas línguas antigas, na verdade, as letras serviam ao mesmo tempo como sinais numéricos. P. ex., um nome escrito com dez letras também podia ser entendido como uma série de dez números. A soma transversal desses dez números seria o valor numérico do nome. Por causa do grande interesse por enigmas na Antigüidade, florescia, de forma inconcebível para nós hoje, essa espécie de tratamento dado às letras, chamado de gematria, que permaneceu em voga por séculos. Quem, no entanto, recebia tão-somente um valor de soma transversal, sem a informação da quantia de letras ou do alfabeto que deveria tomar como base, se o grego, latino ou hebraico, via-se desafiado a uma experimentação interminável. De maneira consistente, um ponto de referência adicional fazia parte de um enigma gemátrico sensato. Somente aquele círculo de pessoas a quem esse ponto de referência era conhecido e também presente era capaz de, após poucas tentativas, ―calcular‖ o número, ou seja, descobrir a palavra oculta dentro dele. Era por isso que os ouvintes do enigma tinham de exercitar a memória. Ficar adivinhando com o número em si, sem um conhecimento à parte, era inútil. Longe de qualquer brincadeira, João podia ter motivos muito sérios e práticos para lançar o desafio de um cálculo gemátrico. Sentia-se impelido a fornecer uma alusão contemporânea pública, mas mesmo assim encoberta. Deveria ser pública, pois toda a igreja tinha de ser prevenida. Ele não desejava ser contado entre os ―cães mudos‖ de Is 56.10, que não latem quando o perigo se aproxima. Por outro lado, essa alusão tinha de encontrar uma forma que fosse a mais vazia possível, não fornecendo elementos para provocar uma denúncia! Para isso um enigma gemátrico prestava-se de modo excelente. Com o número 666 em si era possível fazer tudo e nada. Isto é comprovado por um apanhado dos cálculos efetuados.

c. Inicialmente comunicaremos interpretações que partem da convicção de que no caso da besta deve tratar-se de uma grandeza supra-pessoal, ou seja, de uma instituição ou um coletivo. As primeiras tentativas de interpretação que nos foram transmitidas, as de Ireneo, entre os anos 180-189, enveredam nessa direção. Ireneo considera nada menos de três possibilidades: EUANTHAS (―aquele que floresce belamente‖, cognome de Dionísio, a divindade predileta daquela época), LATEINOS (―latino‖, equivalente a ―Império Romano‖?) e TEITAN (de ―Titã‖, personagem lendário de um rebelde, ou segundo o imperador ―Tito‖?). Com auxílio do alfabeto hebraico, estudiosos posteriores decifraram o significado de ―césar romano‖ ou ―caos do tempo original‖ (= dragão). Adesão especial obteve a sugestão de pensar em KAISAR THEOS (em grego, o césar é deus). De maneira complicada também se descobriu o suposto título do Papa no número: VICARIUS FILII DEI (―representante do Filho de Deus‖). Contudo, não há comprovação de um titulo oficial assim.

d. Por outro lado, também merece consideração a busca de um personagem histórico cujo nome se oculta atrás desse número. Pelo que parece, João tinha em vista ambas as coisas, uma força impessoal anticristã, que perpassa o fim dos tempos, e, ao mesmo tempo, sua concretização manifesta naquela época (cf. o pronome feminino ―la‖ em Ap 13.8!). Não há como levar a sério demais o interesse pastoral pelos cristãos daquele século. Precisamente no v. 18 João visa algo que era presente para seus leitores, e para o qual havia um ponto de referência no contexto deles. Toda a interpretação que constate apenas generalidades nesse versículo permanecerá insatisfatória. Entretanto, qual pode ter sido a pessoa em mente? Nas tentativas de solução praticamente nenhum imperador do primeiro século ficou intacto (cf. acima a eventual interpretação de que fosse Tito). No ano de 1865 T. Zahn calculou, como brincadeira, GAIOS KAISAR (o imperador Gaio nos é mais conhecido pelo apelido Calígula). Não levou muito tempo para que essa brincadeira encontrasse um sério defensor na pessoa de O. Holtzmann. Calígula era um demônio de crueldade e um blasfemo jactancioso, que também erigiu uma estátua no Templo de Jerusalém (cf. Ap 13.14) e que mesmo após enfermidade mortal convalesceu milagrosamente (cf. o comentário a Ap 13.3). No entanto, com toda a certeza deve ser descartado, uma vez que falecera já no ano 41. Sobretudo, seu nome combina apenas com o número 616, de base textual mais fraca (cf. nota 639). Por ser imperador muito tardio, também é preciso deixar de lado Trajano, cujo número foi calculado já na Idade Média por Hugo Grotius sob o nome de família ULPIOS (com alguns aspectos questionáveis no cálculo). Até o presente, a maior adesão é em relação à identificação com Nero. Obviamente pensa-se em Nero porque, segundo a lenda, ressuscitará (cf. o exposto sobre Ap 13.3). Mesmo sem recorrer a essa lenda a idéia faz sentido: Nero poderia fazer a função de tipo. O anticristo, como um segundo ―Nero‖, terá as feições dele. Contudo, por que essa comunicação teria de ser apresentada de forma tão codificada como acontece no v. 18? Além do mais, o cálculo referente a Nero trabalha com o alfabeto hebraico ao invés do grego, que com certeza seria muito mais plausível. Da abundância de cálculos sejam mencionados: Maomé, o príncipe dos vândalos Geiserico, diversos papas, Martinho Lutero, João Calvino, Napoleão, Guilherme II, Hitler e Mussolini.

e. Em contrapartida, a nosso ver, merecem consideração os dois cálculos abaixo referentes a Domiciano. Por meio de um caminho complicado e, não obstante, impressionante, R. Schütz chegou a DOMITIANUS CAESER. De modo mais convincente ainda, Stauffer chega a Domiciano, porque descobre um texto que combinaria com Ap 13.1: um verdadeiro nome de blasfêmia. Segundo esse autor, o nome oficial de imperador de Domiciano, como de fato se comprova de achados antigos, era: Autokrátor Kaísar Dometianos Sebástos Germanikós. Por meio desse título ele é emoldurado como o único soberano divino e imperador Domiciano. O vaidoso cognome Germanikós evoca expedições vitoriosas contra os germanos. Agora Stauffer aduz que em documentos, moedas etc., nomes tão complicados eram abreviados. De acordo com um método de abreviação daquela época, ―muito documentado‖, contam apenas as seguintes letras: A(utokrátor) KAI(sar) DOMET(ianos) SEB(ástos) GE(rmanikós), que trazem como resultado, na escrita de letras gregas, a soma transversal de 666. Se levarmos em conta as condições do surgimento do livro, esse cálculo com o título oficial imperial de Domiciano merece credibilidade genuína. Ele acabara de ordenar em lei aquela ―blasfêmia‖, o seu próprio endeusamento, e começava a implantá-la por meio de seus obsequiosos sacerdotes. Esse título ofensivo do imperador que governava naquela época sem sombra de dúvida pode ter sido, nesse caso, o ponto de referência necessário para solucionar um enigma gemátrico (cf. acima). Conseqüentemente, João acusa o imperador Domiciano de ser uma concretização da besta anticristã, e o sumo sacerdote que começa a se movimentar na província da Ásia de ser o profeta de mentira. E cada membro da igreja que se deixava enquadrar nesse esquema devido a quaisquer circunstâncias devia saber que estava carimbado pela ―besta‖. Uma paixão extrema ferve nesse v. 18, uma fúria como a de profetas do AT. Seu voto é que ―sabedoria‖ desça sobre as igrejas, a saber, a força do Espírito Santo, que concede perspicácia e leva a reconhecer o número humano como o número da besta.

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