segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Considerações sobre o Liberalismo Teológico

Quando li pela primeira vez sobre o liberalismo teológico, em alguns livros do Rev. Augustus Nicodemus, não dei muita importância. A ideia de cristãos que consideram a Bíblia como um livro cheio de mitos e contradições parecia algo distante e irreal, até que tive contato com ideias desse tipo em palestras e conversas com um pastor na minha cidade. Para compreender melhor essa linha de pensamento, é necessário olhar para suas origens. Após o Iluminismo, a igreja cristã sofreu forte influência do racionalismo e cientificismo, levando ao surgimento do método histórico-crítico, que buscava submeter a Bíblia a uma análise crítica e científica. A Escritura passa a ser vista não como revelação inspirada por Deus, mas como um registro de fé de seus autores, limitado aos seus aspectos históricos.

Talvez o principal nome do liberalismo clássico seja o teólogo alemão Rudolph Bultmann, já no século XX. Bultmann afirmava que a narrativa bíblica era repleta de mitos e contradições, baseando-se na separação da História em dois aspectos: de um lado a “Historie”, relacionada aos fatos concretos, do outro, a “Geschichte”, relacionada ao significado desses eventos. Influenciado pelo Humanismo e Existencialismo, Bultmann propôs a “Desmitologização” do Novo Testamento, afirmando que os milagres ali descritos não seriam parte da história concreta, mas seriam mitos, relacionados apenas ao significado daqueles eventos na mente dos autores bíblicos. A própria ressurreição de Jesus não teria acontecido fisicamente, mas seria um relato referente à “ressurreição” da fé dos discípulos, que mantiveram vivos os seus ensinos através da sua pregação ao mundo. 

Apesar da sua grande influência em igrejas tradicionais na Europa, o Liberalismo foi fortemente contestado por Karl Barth e outros teólogos, no movimento chamado de Neo-ortodoxia, que buscava um retorno à teologia bíblica e aos temas fundamentais da fé cristã. Os neo-ortodoxos prestaram uma grande contribuição histórica ao cristianismo, ao conter o avanço da teologia liberal, de modo que o liberalismo como movimento do século XIX não existe mais hoje. Porém, ainda com a necessidade de ser relevante ao homem moderno, a neo-ortodoxia manteve alguns pressupostos do liberalismo, como a validade do método histórico-crítico (porém de forma mais moderada) e a ideia de que a Bíblia não é a Palavra de Deus revelada, mas que se torna a Palavra no momento em que Deus nos fala através dela. Por isso, muitos afirmam que a neo-ortodoxia foi na verdade uma síntese entre o liberalismo e a antiga ortodoxia.

Apesar de o movimento liberal do século XIX ter terminado, hoje ainda existem teólogos liberais, que compartilham dessas posições teológicas. Porém, ao contrário dos antigos liberais, eles não costumam assumir abertamente seus posicionamentos e seus discursos são marcados pelo relativismo. Muitos deles estão em igrejas tradicionais, seminários teológicos e outras instituições, onde encontram espaço para ensinar suas ideias, sob o pretexto de buscar uma teologia relevante e socialmente engajada, ao contrário do “fundamentalismo intolerante”, nome que usam para se referir à ortodoxia cristã. Sua cosmovisão tem o homem, e não Deus, como ponto de partida, e busca o progresso abandonando as bases sobre as quais a fé cristã está fundamentada. O liberalismo é um grande desafio para a igreja hoje, e cabe a nós ter um posicionamento firme, afirmando a verdade e confrontando o erro, não por mera discussão, mas para a edificação da Igreja.

Para mais informações sobre o tema, recomendamos o livro "O que estão fazendo com a Igreja", do Rev. Augustus Nicodemus (editora Mundo Cristão), e o blog "O Tempora, O Mores", onde o mesmo escreve: http://tempora-mores.blogspot.com.br/search?q=liberalismo
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