sábado, 16 de junho de 2012

Lição 12 – O Juízo Final - 3

X. O REINO CONSUMADO Ap 20.1-22.5

Agora que os juízos de Deus, descritos sob a figura de selos, taças e trombetas, têm sido completados (#Ap 15.1) e a cidade anticristã, o imperador e o falso profeta, têm sido destruídos (17-19), e Deus tem começado o seu reino (#Ap 19.6), e têm vindo as bodas do Cordeiro (#Ap 19.7), nós esperamos que afinal será manifesto o reino anunciado e esperado há tanto tempo. Não é enganada a nossa expectação: o estabelecimento e a natureza deste reino formam o tema dos últimos capítulos deste livro.


Vemos que é um reino no tempo (#Ap 20.4-6) e na eternidade (#Ap 21.1-5). Tal era d interpretação normal de #Ap 20.1-22.5 pela Igreja primitiva e tal é a opinião geralmente aceita pela erudição moderna. Tem sido desafiado novamente nestes últimos anos, por expositores que preferem a linha de interpretação popularizada por Agostinho, que o milênio é a era atual da Igreja, e a primeira ressurreição o avivamento espiritual dos cristãos pelo Espírito Santo. Hendriksen, no seu livro More Than Conquerors, identifica o amarrar de Satanás (#Ap 20.1-3) com a sua expulsão do céu (#Ap 12.9), os mil anos do poder da Igreja (#Ap 20.4-6) com o tempo do seu testemunho triunfante (#Ap 11.2-6; #Ap 12.14), o ataque de Gogue e Magogue (#Ap 20.7-9) com a perseguição da Igreja pelo anticristo (#Ap 11.7; #Ap 13.7), a destruição que se segue desses exércitos (#Ap 20.9) com Armagedom (#Ap 16.14; #Ap 19.19-21), e o último juízo (#Ap 20.11-15) com o juízo messiânico (#Ap 14.14 e segs.).

Esta é uma reconstrução plausível e interessante das visões de João, mas o presente escritor sente que mal pode ser sustentada ante uma investigação cuidadosa. Em #Ap 12.9 Satanás é lançado do céu, onde não mais pode exercitar a sua função de acusar os santos perante Deus, à terra, que lhe é daí por diante a sua esfera permitida de operações; #Ap 20.1-3 revela um avanço nesta situação, pois aí ele é tirado da terra, que ele não mais pode corromper, para o abismo, a habitação dos espíritos maus e a seção penal do Hades (#Ap 9.1; #Ap 11.7); em nenhum caso, é permissível confundir a terra com o abismo. A expulsão de Satanás do céu é seguida por uma atividade mais intensa da sua parte entre as nações (#Ap 12.12; #Ap 13.1), mas a sua prisão no abismo o torna inútil com respeito a eles (#Ap 20.3); enquanto o período anterior é caracterizado como "pouco tempo" (#Ap 12.12), o posterior dura mil anos. O juízo messiânico de #Ap 14.14, vindo, como vem, no fim do parêntese de capítulos 12-14, pode não ter contraparte específica entre as outras visões do livro, mas pode simplesmente retratar o fato do juízo de Cristo da terra no fim da era. Se fosse buscada uma visão correspondente, nós a identificaríamos provavelmente como Armagedom (cfr. #Ap 14.19-20 com #Ap 19.11-15,21); em qualquer caso, é um juízo no tempo do fim, enquanto #Ap 20.11 descreve o juízo de todas as gerações da história. Outrossim, parece ser esquecido que #Ap 20.1-3 é vitalmente ligado com #Ap 19.20-21; esta última conta o fim do anticristo e do falso profeta, e aquela continua sem uma quebra a narrar o que acontece àquele que os inspira; é uma coincidência, e aliás infeliz, que a divisão do capítulo ocorra em #Ap 19.21. Para a unidade desta má trindade nos eventos descritos em #Ap 19.19-20.3 ver #Ap 16.13-16. Como #Ap 19.11 expande a descrição anterior de Armagedom. assim completa o retrato por esboçar o fim de cada instigador da batalha. Nós concluímos, portanto, que uma tradução imparcial destas visões compele o reconhecimento duma doutrina do milênio no capítulo 20.

Decidir quais os limites da descrição do milênio é uma tarefa muito mais difícil. Com Kelly, Zahn e Charles (escritores de modos de pensamento muito diferente), o presente escritor inclina-se a acrescentar #Ap 21.9-22.5,14-15 a #Ap 20.1-10 como relacionado ao reino milenário, e isso pelas seguintes razões. Primeiro, #Ap 21.24-27 descreve a Jerusalém celestial em termos que pressupõem a continuação da existência terrestre; nações recebem bênçãos da cidade, reis trazem para ela a sua glória, aos imundos é negado acesso a ela. Isto pode ser um emprego de figuras terrestres para descrever realidades celestiais, mas parece mais natural interpretá-lo como retratando o reino terrestre de Deus, particularmente se se concede que esse reino é explicado no cap. 20. Em segundo lugar, as folhas da árvore da vida curam as nações (#Ap 22.2). Isto é compreensível quando aplicado ao milênio, mas estranhadamente dito da humanidade levantada existindo em condições celestiais. Em terceiro lugar, em conexão com a iminência do retorno de Cristo em glória (#Ap 22.10-13), uma bênção se pronuncia sobre aqueles que têm o direito de vir à árvore da vida e entrar na cidade (#Ap 22.14) e uma advertência dada que os praticantes do mal serão guardados fora da cidade (#Ap 22.15). Reconhecidamente isto podia descrever o bem e o mal no estado eterno, mas parece mais provável que os maus não têm parte no novo céu e na nova terra, mas são confinados ao "lago de fogo"; a afirmação torna-se muito mais viável se ela representa condições no milênio, e, portanto, se evita a confusão de símbolos criada pelo ponto de vista anterior.

De modo geral, portanto, parece melhor reconhecer #Ap 21.1-5 como descritivo da cidade de Deus no novo céu e na nova terra, mas #Ap 21.9-22.5 como retratando a cidade depois da sua descida à terra na era milenária. Nesse caso, #Ap 20.1-22.5 forma uma narrativa condensada e ininterrupta dos eventos desde a vinda do Senhor até a alvorada da era sempiterna, enquanto 21.9 é um retrospecto do reino de Deus na terra. Não é livre de dificuldades este ponto de vista, mas parece fazer justiça ao texto melhor do que a interpretação comum que reconhece #Ap 21.1-22.5 como se referindo inteiramente ao estado eterno.

Ap-20.1

a) O amarrar de Satanás (Ap 20.1-3)

Para o abismo cfr. #Ap 9.1; #Ap 11.7. Adumbra-se em #Is 24.21-23 o conceito de amarrar espíritos e aprisioná-los. A idéia desempenhou uma grande parte na literatura judaica posterior: ver especialmente Tobit 8.3; 1Enoque 10.4,11,12; 88.1-3; Jubileus 23.29; Test Levi 18.12. Nestes livros não há nenhuma dúvida destas figuras serem usadas para denotar a restrição de alguém de certas atividades no mundo enquanto se deixa livre em outros respeitos; significa uma remoção completa em relação a uma prisão, geralmente nas profundezas do submundo. Vers. 7, por conseguinte, fala da soltura de Satanás no fim dos mil anos como uma libertação da sua prisão. A duração do reino terrestre de Deus por mil anos aparece em outro lugar só em 2 Enoque 33, um livro de data muito incerta. Lá, dá-se a história do mundo como compondo sete mil anos, os primeiros seis mil correspondendo aos seis dias da criação, o último mil formando um fac-símile do sábado. É possível que João tenha adotado a figura de mil anos para o reino de Deus na terra, antes para mostrar o seu caráter como o "repouso" de Deus para a humanidade do que como determinando a sua duração de tempo (cfr. #2Ts 1.7; #Hb 4.1; #At 3.19-21). É um dos muitos casos, nesta porção do livro, das "últimas" coisas sendo feitas como as "primeiras" (Ep. Barnabé 6.13).

>Ap-20.4

b) O milênio (Ap 20.4-6)

Será observado que nenhuma descrição dá-se aqui das condições de vida no milênio, somente uma mera afirmação quanto à espécie de pessoas que nele exercem domínio. Provê-se em #Ap 21.9-22.5 uma caracterização da vida desta era. Os tronos (4) vistos por João recordam #Dn 7.9. Mas de quem se diz que assentaram-se sobre eles? A maioria dos exegetas os interpreta como a companhia que se nomeia imediatamente, a saber, as almas daqueles que foram degolados, assume-se então que as demais frases seguintes também denominam este corpo, de maneira que a alusão aos "que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos" denota os mártires somente. Esta exposição está correta só em parte, pois já vimos que participação no reino é prometida a todo cristão que vence (ver #Ap 2.26-28; #Ap 3.12,21), enquanto os vers. 9-10 declaram que a Igreja toda há de reinar na terra, e #Ap 19.7 se regozija que "vindas são as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa sua aprontou". É exegese curiosa que em #Ap 19.5-9 faz da esposa do Cordeiro os mártires somente, mas em #Ap 21.2 toda a Igreja. De maneira que parece melhor interpretar a cláusula Eu vi tronos, e assentaram-se sobre eles de "Cristo e seus assessores, os apóstolos" (#Mt 19.28) "e os santos" (#1Cr 6.3). A menção especial dos mártires, em vista do seu lugar neste livro, espera-se naturalmente (cfr. a sua posição em #Ap 6.9-11; #Ap 8.3-5; cfr. #Ap 9.13; #Ap 16.7) e é um pouquinho de encorajamento merecido. Desde que a afirmação e viveram (4) evidentemente significa "eles tornaram a viver", um termo figurativo para a ressurreição dos mortos, é provável que a expressão os que não adoraram a besta... também denota os mártires. Não é impossível, contudo, que esta última metade do versículo tenha em mente os vendedores que haviam escapado do martírio. assim como a frase "e viveram" inclua tanto a ressurreição dos mortos como a transformação dos santos vivos (cfr. #1Co 15.51-52). A primeira afirmação do vers. 5 mostra com toda a clareza desejada que a primeira ressurreição é uma ressurreição literal dos mortos, não um sinônimo para o novo nascimento, Um apocaliptista tem a liberdade para mudar as suas figuras livremente contanto que faça claro o seu sentido e nisto João tem bom êxito em grau notável. É um erro identificar o pensar apocalíptico com o caótico, como alguns escritores implicam; cada linha neste livro refuta tal noção. Reluta-se, portanto, em crer que o profeta poderia falar tão confusamente de dois conceitos da ressurreição tão diferentes sem qualquer indicação da sua mudança de referência. Desde que não tem poder a segunda morte (6) sobre os participantes. da primeira ressurreição, podemos inferir que finalmente eles têm sido perdoados e não aparecem no último juízo; cfr. #Jo 5.24. Admite-se, contudo, que a inferência mencionada por último não seja de maneira nenhuma necessária. Que os cristãos serão sacerdotes, tão bem como reis no milênio, sugere que há, um mistério para, eles cumprirem naquela era entre os habitantes da terra, talvez com especial referência ao evangelismo.

>Ap-20.7

c) A última insurreição do mal (Ap 20.7-10)

Já foi indicado (na nota sobre #Ap 19.17,19) que João não é inovador em colocar o assalto final do mal depois do estabelecimento do reino de Deus na terra. Em fazer isto, ele apenas segue fielmente a profecia, em Ezequiel, da invasão da Terra Santa por Gogue e Magogue, depois do começo do reino messiânico Ez 38,39. (Uma seqüência semelhante de eventos dá-se nos oráculos Sibilinos (Livro III, 663-674), 2 Baruque 70.7 e o Apocalipse de Elias, do terceiro século; 2 Esdras 13.30-36 deve ser também comparado). A soltura de Satanás (7) está, de acordo com o comando de Deus; o abismo "se destranca" pelo anjo (cfr. vers. 1). Por este meio o profeta torna paralelo o divino oráculo a Gogue. "Hei de trazer-te contra a minha terra, para que as nações me conheçam a mim, quando eu me houver santificado em ti aos seus olhos, ó Gogue" #Ez 38.16. Na profecia de Ezequiel, Magogue parece ser tanto a terra de que Gogue veio (#Ez 38.2) como a nação (#Ez 39.6); é, portanto, possível que Gogue seja visto como o líder e Magogue, o seu povo, com quem se associam os povos de Meseque e Tubal (#Ez 38.2). Estas nações estavam provavelmente situadas em torno das partes a sueste do Mar Negro, uma área vaga e desconhecida no que diz respeito ao conhecimento dos hebreus. Outros aliados ao norte do Mar Negro são enumerados em #Ez 38.6, mas Persas. Etíopes e Africanos do leste são mencionados em #Ez 38.5, de maneira que João se sente justificado em usar os termos Gogue e Magogue (8) para denotar todos os membros da aliança hostil, descendo dos quatro cantos da terra. Diz-se que o seu número é como a areia do mar, mas podemos imaginar que João tinha em mente a passagem já citada de #Ez 38.16, que torna claro que uma proporção estritamente limitada da população da terra se envolve nesta última insurreição. O arraial dos santos (9) é presumivelmente a Jerusalém celestial. Um paralelo extraordinário a este retrato da destruição por fogo de Gogue e Magogue ocorre em 2 Esdras 13.1-11, João, contudo, ainda está seguindo Ezequiel (#Ez 38.22), O diabo compartilha a sorte da besta e do falso profeta. Sugere que o falso profeta é realmente reconhecido como um indivíduo, e talvez tão demoníaco quanto os seus dois companheiros; ver #Ap 13.11-12; #Ap 16.13-14; #Ap 19.20. Porém há uma possibilidade em contrário; ver #Ap 20.14.

>Ap-20.11

d) O último juízo (Ap 20.11-15)

Se o fugir da terra e do céu da face de Deus é tomado em qualquer sentido literal como o precursor da nova terra, e do novo céu (cfr. #2Pe 3.10-13), então o espetáculo solitário do grande trono branco como a única realidade para a qual os homens podem olhar é verdadeiramente uma coisa pavorosa; cfr. 2 Esdras, 7.30-43. Mas a descrição pode ser puramente poética, para aumentar a grandeza terrível da cena. O juiz é o próprio Deus, mas cfr. #Ap 22.12. Dá-se por admitida a segunda ressurreição no vers. 12 e somente descrita indiretamente no vers. 13. Pode-se distinguir para menção o mar como receptáculo dos mortos, em vista do horror sentido pelo povo da antigüidade ao enterrarem os seus mortos no mar. Realça-se que todos serão ressurretos para o juízo, seja qual for a maneira da sua morte e seja onde for o seu sepultamento. O julgamento dos homens pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras (12) salienta a justiça, completa do procedimento. O retrato é tirado de #Dn 7.10, que pode refletir tanto o corrente procedimento no tribunal, como o hábito dos reis persas de registrar cada pormenor das suas províncias através de um sistema elaborado de espionagem. Deve-se notar que o livro da vida (12,15) tem um testemunho a dar independente do de outros livros. A respeito disto, Alford escreve: "Aqueles livros e o livro da vida davam testemunho independente do fato de os homens estarem ou não entre os salvos: aquele por inferência das obras registradas: e este em inscrição ou não inscrição do nome na relação. De maneira que os livros podiam ser abonadores para o livro da vida".

A morte e o inferno ("Hades") (14) representam o fato de morrer e a condição em que se entra depois da morte, isto é, a vida não ressurreta. Ambos os fenômenos são simbolicamente representados como tendo cessado ao serem aqueles lançados no lago de fogo. Para Lago de fogo (15) como o equivalente de Geena, ver nota sobre #Ap 19.20. O pensamento é o mesmo que "o fogo eterno" de #Mt 25.41, o reverso completo de "vida eterna" (#Mt 25.46). Pode, por conseguinte, ser descrito como a segunda morte (14). Para um paralelo excelente cfr. 2 Baruque 86.4: "Vai agora... e instrui ao povo no que te for possível, para que eles aprendam a fim de não morrerem no último tempo, porém possam aprender a fim de viverem nos últimos tempos".

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